INTERNET LITERATURA

“É por isso que eu amo a internet” – Jenny Lawson e seu movimento alucinadamente feliz

Quando compartilhamos nossas batalhas, outras pessoas reconhecem que podem compartilhar as suas. E, de repente, percebemos que as coisas que nos envergonhavam são as mesmas que todo mundo enfrenta uma hora ou outra. Estamos muito menos sós do que pensamos.

É isso o que Jenny Lawson, autora do livro Alucinadamente Feliz e blogueira no The Bloggess, fala a respeito de limites na escrita. Jenny tem transtorno de ansiedade, depressão e síndrome do pânico, e uma incrível habilidade para a escrita que a faz sobreviver num mundo que alerta todos seus gatilhos dia após dia.

Nós, pessoas que escrevem na internet, descobrimos há muito tempo algo que algumas pessoas podem estar descobrindo apenas agora: quando você escreve sobre os problemas que passou, sobre não conseguir sair de casa por puro pânico, sobre tristeza e ansiedade, ou qualquer outro transtorno de origem psicológica, existem duas situações que podem acontecer quando você decide escrever sobre esse tipo de coisa na internet: a) as pessoas vão rir e te chamar de louca; ou b) você vai encontrar pessoas que se sentem exatamente da mesma forma, e são essas pessoas, a partir dessa profunda identificação, que vão não apenas oferecer conforto e compreensão, mas iniciar uma troca mútua de experiências e abraços virtuais – elas entendem, afinal. Em minha experiência – que já dura dez anos – escrevendo na internet, percebi que a segunda opção ainda é muito mais frequente do que a primeira: as pessoas realmente se solidarizam com o sofrimento de quem está do outro lado e, na maior parte das vezes, se sentem aliviados não apenas por saber que alguém também vive algo muito parecido, que também se sente deslocado, desajustado, mas principalmente por falar sobre esses assuntos de maneira aberta. Esse tipo de ação causa uma reação em cadeia, que gera uma rede de proteção, cuidado, carinho e diálogo que, infelizmente, não encontramos em qualquer lugar.

Em 2010, após receber de seu marido a notícia de que um amigo havia morrido, Jenny decidiu que não iria se permitir ter mais uma crise fortíssima de depressão. Ela, que já havia experienciado muitos baixos ao longo da vida, decidiu que, se podia sentir com tanta intensidade a tristeza e tudo que havia de ruim no mundo, iria passar a direcionar essa intensidade para as coisas boas e ser alucinadamente feliz, só de raiva. Foi então que Lawson passou a falar abertamente sobre o que se passava em sua vida e sobre seus transtornos na internet, no seu blog; uma decisão que tornou-se a melhor que ela poderia ter feito. Poucas horas após a postagem em seu blog, a #FURIOUSLUHAPPY [#ALUCINADAMENTEFELIZ, em tradução livre] se tornou um dos assuntos mais comentados do mundo no Twitter; o que, mais tarde, também rendeu-lhe o livro com o mesmo título do movimento que havia criado: Alucinadamente Feliz.

“Isso não significa que eu tenha deixado de ser deprimida, ansiosa ou de sofrer transtorno mental. Ainda tenho minha cota de semanas na cama quando simplesmente não consigo me levantar. Ainda me escondo debaixo da minha escrivaninha sempre que a ansiedade fica intensa demais para que eu me mantenha de pé. A diferença é que trago nos fundos da minha mente um depósito cheio de momentos em que me equilibrei na corda bamba. E posso lembrar que, assim que tiver força para me levantar da cama, voltarei a ser alucinadamente feliz. Não só para salvar a minha vida, mas para viver a minha vida.”

Nos últimos anos, muito tem sido dito sobre depressão. Sobre ansiedade. Sobre querer escapar, fugir e não ter para onde ir, porque, no fundo, se quer fugir de si mesmo. Após alguns anos convivendo com a depressão, muitas pessoas já têm a noção de que a fuga não é do lugar, das pessoas ao redor, do trabalho ou da faculdade, mas da própria vida. Isso porque o raciocínio de uma pessoa com depressão, ansiedade, ou quaisquer outros transtornos mentais, é alterado de tal forma que tudo toma novas proporções, e a realidade torna-se um prato cheio de perigos e coisas que doem, machucam de forma profunda. A exaustão e o sentimento de inutilidade são bastante comuns, o que, consequentemente, gera um pensamento perigoso: o de que a vida não vale à pena, de que sempre será assim, e que a própria existência não passa de um peso na vida de outras pessoas.

Obviamente, nada disso é verdade, mas quando se está no meio de uma crise, é muito fácil esquecer-se completamente da realidade e viver como se essa fosse a única verdade do universo. A sensação de cansaço é maior do que tudo, levando muitas pessoas a cometerem suicídio. É por isso que Jenny Lawson, após travar sua luta particular com esse sentimentos, decidiu que iria escrever sobre eles. Para todo mundo. Na internet. Mesmo que rissem, mesmo que ignorassem. O ato de escrever é um tipo de catarse, uma forma de tirar de dentro de si aquilo que faz mal, e é isso o que Jenny – e tantas outras pessoas – vem fazendo desde então. Com isso, ela pretendia não apenas encontrar uma luz para si mesma, mas fornecer um espaço de compreensão para outras pessoas. Numa das postagens mais acessadas de seu blog, a autora escreve sobre como raramente tomamos conhecimento sobre a luta que as pessoas travam contra transtornos mentais, sobretudo a depressão, porque muitas dessas pessoas ainda têm vergonha de admitir sofrer de uma doença que muitos enxergam como fraqueza, preguiça ou algo menor do que realmente é, porque, no fundo, familiares, colegas e amigos nem sempre entendem de verdade. Para celebrar a vitória de quem sobreviveu à doença, Jenny recorre à ideia de fitas, utilizadas para simbolizar tantas outras lutas e que, nesse caso específico, é representada pela cor prata.

“Espero um dia ver um mar de pessoas usando fitas prateadas como sinal de que compreendem a batalha secreta, como uma celebração das vitórias alcançadas a cada dia à medida que, individualmente, conseguimos sair das nossas trincheiras para ver nossas cicatrizes sararem e para nos lembrarmos de como é o sol. Espero um dia melhorar, e tenho certeza que vou conseguir. Espero um dia viver num mundo em que a luta particular pela estabilidade mental seja vista com orgulho e torcida pública em vez de vergonha. (…) Eu sobrevivi e faço questão de lembrar que, a cada vez que passamos por isso, ficamos um pouco mais fortes. Aprendemos novos truques no campo de batalha. Eles são aprendidos de formas terríveis, mas são úteis. Não lutamos em vão. Nós vencemos. Estamos vivos.”

A OMS já alertou que, somente na última década, os índices de pessoas com depressão aumentaram em 20%. Em 2015, os depressivos eram 322 milhões de pessoas no mundo todo – isso os catalogados, excluindo-se, portanto, aqueles que sofrem com a doença, mas nunca receberam um diagnóstico formal. Além disso, a depressão já é considerada a doença que mais incapacita no mundo, por que ainda insistimos em não levá-la a sério?

Se estivéssemos na década de 1970 e disséssemos que estávamos deprimidos, provavelmente colocariam um vinil dos Beatles e logo começaria a tocar uma versão cheia de ruídos, mas muito bonita, de “All You Need Is Love”. É verdade que o mundo precisa de amor (e muito!), mas nem sempre ele é suficiente. Como qualquer outra doença, a depressão e a ansiedade são tratadas com acompanhamento profissional de médicos e psicólogos; terapia, ansiolítico e, sobretudo, compreensão. Não adianta dizer para alguém se animar quando ela está no meio de uma crise. Dizê-lo é quase como uma ofensa, como ter seus sentimentos invalidados. Sobre isso, Lawson escreve em seu livro o seguinte: 

Eu posso dizer que ‘anime-se’ é quase universalmente visto como o tratamento mais inútil para a depressão. É quase o equivalente a dizer a alguém que acabou de ter as pernas amputadas: ‘Dá no pé!’. Algumas pessoas não entendem que, para muitos de nós, o transtorno mental é um sério desequilíbrio químico, e não só uma ‘melancolia de segunda-feira’.

O que não significa que compartilhar angústias anula a necessidade de um tratamento adequado, pelo contrário. Ainda que expor os próprios problemas possa ser uma ajuda, é importante que se vá ao psicólogo, a um psiquiatra, que se tome as medicações prescritas com cuidado e faça um tratamento apropriado para o controle da depressão, ansiedade e transtornos afins. Cada um é um indivíduo em especial, com necessidades muito distintas, e que precisa de tratamentos diferentes. Contudo, ainda podemos usar os meios digitais para algo além de postar selfies ou assistir vídeos de gatinhos. Quando foi feita uma matéria sobre grupos de Facebook estarem se tornando os melhores amigos de uma pessoa, é disso que se estava falando; não de um melhor amigo virtual feito a partir de uma inteligência artificial – nada muito Steven Spielberg –, mas sim de como pessoas com problemas em comum têm utilizado as redes sociais para se unirem e se ajudarem.

Tenho a internet. Isso parece estranho, mas o Twitter é como uma imensa turma de pessoas igualmente perturbadas que se escondem com você em banheiros e a fazem rir dentro do forte de travesseiros que você construiu num quarto solitário de hotel. Muitas delas sofrem dos mesmos medos, o que as mantêm igualmente isoladas, mas encontramos uma forma de estarmos sozinhas juntas.

E estar sozinho, mas acompanhado, é basicamente a definição das nossas vidas na internet e como nós, millenials, lidamos com o mundo. Jenny Lawson não é propriamente dessa geração, mas seus problemas não estão tão distantes assim dessa realidade – ansiedade, depressão e síndrome do pânico, afinal, desconhecem restrições etárias.

Entretanto, a internet não é apenas um local seguro, mas pode, também, ser o desencadeador de crises de depressão e ansiedade. Já falamos muito sobre isso, com a estreia de Os 13 Porquês, o que nos leva a questionar até que ponto confiar nossa intimidade à internet é uma boa ideia e quais os riscos e consequências que isso pode ocasionar. Contudo, grupos de apoio que nos auxiliam a ter uma sensação de catarse, que nos mostram que não estamos sozinhos, por mais isolados que nos sintamos também estão aqui – e isso ajuda muito.

Muitos estudos tentam entender por que as pessoas parecem estar cada vez mais ansiosas e deprimidas e se isso tem relação com a internet e a velocidade do mundo em que vivemos, que exige cada vez mais e transmite informações em tempo recorde. Ainda que a forma como utilizamos as redes sociais possam interferir, e muito, nas nossas emoções: somos seres emocionais, incapazes de passar incólumes por trocentas publicações que inevitavelmente nos levam ao sentimento de frustração por não termos como mudar uma realidade incômoda – seja ela social, política ou de qualquer outra natureza. Para quem possui algum transtorno, esse tipo de situação ativa gatilhos que disparam milhares de sinais ao cérebro que, por sua vez, reage com os já conhecidos sintomas, que podem envolver desde tontura, mal estar e falta de ar, até mesmo sensações de querer morrer e de completa inutilidade.     

Talvez por isso seja tão importante nos conscientizarmos de que se cercar de uma rede de apoio é essencial. Não dá para simplesmente fugir do mundo, se isolar de tudo e todos e viver numa caverna. A vida gira, e gira rápido, e tudo o nosso redor envolve links e notificações no celular, o que nos deixam aflitas. Mas encontrar um lugar seguro, um lugar onde possamos realmente falar sobre coisas que acontecem com a gente – seja a nível físico ou psicológico – e ter uma resposta de pessoas que passam pelas mesmas coisas é necessário. O que Jenny Lawson faz pode não ser revolucionário como salvar as crianças na África ou as baleias da extinção, mas ao seu próprio modo, ela também está construindo algo precioso, único e extremamente importante. Ler seu livro, acompanhar seu perfil no Twitter e perceber que ali há uma pessoa real, com problemas reais, que decidiu ser alucinadamente feliz só de raiva, só porque não aguentava mais tanta tristeza, tanta frustração, tantas crises que a isolavam do mundo… isso é genuinamente corajoso. E é dessa coragem e desse apoio que nós, mais do que nunca, precisamos.

E, como disse a nossa Jenny:

É por isso que eu amo a internet – porque eles transformaram um momento absolutamente horrível numa lembrança que me faria rir mais tarde, porque eu o vivi com pessoas que se solidarizavam, ou pelo menos reconheciam como uma tremenda tragédia. E foi bom. E assustador. E eu sobrevivi”.


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