CINEMA MÚSICA

Janis: Little Girl Blue

Antes de assistir Janis: Little Girl Blue, eu pensava que conhecia a trajetória da cantora que maravilhou o mundo com sua voz singular e morreu precocemente, aos 27 anos. Na minha frágil concepção de quem era Janis Joplin, eu a encarava como uma distante estrela da música que morreu quase duas décadas antes de eu nascer e não muito como uma mulher repleta de medos, anseios, alguém que fosse real. Uma mulher que lidava com a pressão de ser bem sucedida, uma mulher que buscava o amor nos palcos, uma mulher que colocava a alma em tudo o que fazia. Foi com o documentário de Amy J. Berg que conheci uma Janis totalmente diferente daquela que morava em meu imaginário e pude me emocionar com sua trajetória de vida.

Nascida na pequena cidade de Port Arthur, Texas, em 19 de janeiro de 1943, Janis sempre foi vista como diferente. Durante sua adolescência nunca foi incluída como parte de sua turma de colegas e, inclusive, sofreu bullying até completar seus estudos na Jefferson High School. Por não ser uma moça dentro dos padrões estabelecidos para época, Janis também sofria com outras questões: ela não tinha o tipo de beleza aclamado pelas revistas, não era quieta ou recatada. Todos os tipos de pressão pesavam sobre a jovem que não conseguia atender às expectativas de uma sociedade extremamente conservadora.

Por isso, quando teve a oportunidade de largar tudo e ir em busca de um lugar que a aceitasse por completo, Janis Joplin fez as malas e partiu para São Francisco, na Califórnia. Foi em São Francisco, um lugar, nas palavras da própria Janis, mais livre e onde as pessoas não se preocupavam com o que os outros faziam, que ela descobriu que, ao contrário do que todos pensavam, ela possuía algo de especial que até então estava soterrado em meio a sua tristeza. Janis descobriu que sua voz era única e que, com ela, poderia alcançar multidões.

Apesar do período em que viveu em São Francisco ter sido libertador na questão de encontrar seu lugar no mundo enquanto cantora, também foi durante sua estadia na cidade que Janis começou a se envolver com drogas. Sua namorada da época, inclusive, rompeu o relacionamento entre elas por não conseguir lidar com as idas e vindas da cantora. Alternando heroína e bebidas alcoólicas, Janis Joplin foi enviada para a casa da família em Port Arthur, por seus amigos, para que pudesse se restabelecer e tentar deixar o vício.

Após o breve período em sua cidade natal, Janis retornou para São Francisco em 1966 e conheceu a banda Big Brother & The Holding Company. A banda, que começava a ser conhecida no cenário musical, trouxe Janis Joplin para o meio e, enquanto vocalista do grupo, ela descobriu o que de fato era estar em contato com sua arte e seus fãs. O ápice da banda e de suas músicas aconteceu no Festival Pop de Monterey quando eles tocaram uma versão do já conhecido sucesso “Ball and Chain”. Quando perguntada a respeito dos motivos pelos quais ela cantava, Janis disse:

Bem, porque… consigo experimentar diversos sentimentos. É realmente divertido sentir todas essas coisas que dificilmente encontraria indo a festas o ano todo, e fazer isso como você sempre quis. Poder sentir coisas que estão em sua imaginação mas sabe que são reais. É por isso que gosto de música, porque é criativo e enquanto acontece, cria sentimentos.

Janis encontrou na música e em seus fãs a aceitação e amor que sempre perseguiu. Cantar e ser aclamada era o que ela precisava para continuar seguindo em frente, era o que lhe dava o combustível que era vital para sua sobrevivência. Vista como pária na adolescência, o sucesso que obteve por meio de sua música foi o responsável por fazê-la encontrar a aceitação social que procurou durante toda sua vida. Enquanto estivesse no palco, Janis Joplin tinha a sensação de que seria sempre uma vencedora. Apenas a aceitação de milhares poderia compensar o que ela passou enquanto crescia na pequena cidade texana.

O documentário de Amy J. Berg é uma colagem da vida de Janis e nos mostra a mulher por trás do ícone, aquela que ficaria conhecida como a rainha do rock and roll, como a maior cantora de rock dos anos 1960 e a maior intérprete de blues e soul de sua geração. A Janis Joplin que vemos retratada em um pouco mais de uma hora e meia de documentário é uma mulher sensível, divertida, inteligente. Uma mulher que, desde muito cedo, foi vítima das expectativas de uma sociedade patriarcal que oprimia quem não aceitava perpetuar os estereótipos em vigor, alguém que desejava, sim, transformar o mundo por meio de sua música, de sua voz.

Janis era intensa, dava gargalhadas, era sexualmente livre. Envolveu-se romanticamente com homens e mulheres, e não o fazia para chocar, o fazia por buscar constantemente o amor e a aceitação. Talvez tudo isso seja, de fato, reflexo do meio em que cresceu no Texas, quando era extremamente julgada por ser diferente, quando não era socialmente aceita por ser quem era. Após alcançar a fama ela pode, finalmente, se conectar. O amor que seus fãs dispensavam a ela era essencial e Janis tornou-se dependente: assim que descia do palco, sentia falta de toda essa conexão. Ficar sozinha, nos períodos entre turnês ou gravações era uma martírio para a cantora.

Em uma das cenas do documentário, Janis diz não entender como seus colegas de banda conseguiam retornar para suas famílias após esses períodos de shows e turnês. Ninguém imagina o quão difícil é ser eu. A cantora não sabia mais com quem poderia relaxar e sentia uma pressão terrível para se fazer provar. A privação que a acompanhava nesses momentos a drenava por completo.

“(…), acabo de fazer 27 anos e nem me dei conta disso. É uma coisa muito engraçada. Dois anos atrás, não queria nem mesmo estar nisto. Não, isso não é verdade. Tenho observado e percebi uma coisa. Depois de atingir um certo nível de talento, e poucos têm esse talento, o fator decisivo é a ambição. Ou, como eu vejo, o quanto você realmente precisa ser amado, estar orgulhoso de si mesmo. Eu acho que é disso que se trata a ambição, não apenas uma busca depravada por posição ou dinheiro. Talvez seja por amor, muito amor.”

Mesmo que a vida de Janis tenha sido breve, é difícil condensar todos os acontecimentos em um documentário, mas Amy J. Berg trabalha da melhor maneira possível para que a gente receba um panorama completo da vida da cantora. O que vemos em Janis: Little Girl Blue é um relato pessoal e emocional da história de uma artista que enfrentou os próprios demônios durante toda a vida e que nunca desistiu de encontrar seu lugar no mundo.

Por meio dos relatos de amigos, familiares e de cartas escritas pela própria Janis – e que no documentário foram lidas pela cantora Chan Marshall, também conhecida por Cat Power – temos o retrato de uma mulher talentosa e cheia de sentimentos que cresceu à margem de uma sociedade conservadora e patriarcal. Janis Joplin lutou para se fazer ouvir e o que cantou segue ecoando mesmo passados quase 46 anos de sua morte. Ela usou sua voz única para alcançar multidões e encontrar a anuência que sempre procurou, usou seus vestidos hippies e seus colares como uma armadura contra um mundo que a teria descartado em outras circunstâncias.

Assistir a esse documentário foi me conectar um pouquinho com Janis: seus romances, suas músicas, suas performances, seus vícios. Em suas músicas ela colocava sua alma, suas experiências, e quando dizia para levarmos um pedacinho de seu coração, ela não estava brincando. Se tem uma coisa que Janis fazia com perfeição além de cantar, era se entregar.

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