CINEMA

It Follows: o sexo como maldição e o futuro como pesadelo

Existe uma cena de Meninas Malvadas (2004) em que vemos como é uma aula de educação sexual na North Shore High School: “Não façam sexo, porque vocês vão ficar grávidas… e morrer.”, diz o treinador Carr. É uma sátira, claro (no final do filme descobrimos que o treinador não apenas fazia sexo, como fazia sexo com suas alunas menores de idade), mas se existe um discurso velado no cinema, principalmente nos filmes de terror dos anos 70 e 80, é esse: garotas que fazem sexo vão morrer. It Follows (2015), dirigido e escrito por David Robert Mitchell, brinca com referências das duas décadas, mas sua homenagem não fica apenas na estética. No centro do filme está a complicada relação da sociedade com a adolescência e com a sexualidade feminina.

A premissa é tão simples quanto confusa: existe uma Coisa (entidade? demônio?) que assume a forma de pessoas aleatórias para perseguir aqueles que foram, de certa forma, amaldiçoados. Não tem luz piscando, porta batendo, psicopatas com serras elétricas ou pés sendo puxados no meio da noite: como o título original do filme (Coisa que Segue, numa tradução livre, contra Corrente do Mal, a sensacionalista e oficial versão em português) explica, essa entidade, coisa ou demônio simplesmente SEGUE a pessoa amaldiçoada. Não é todo mundo que enxerga a criatura misteriosa que se destaca na multidão para perturbar a paz da pobre coitada da Jay (Maika Monroe), nossa protagonista, apenas pessoas que, como ela, foram contaminadas com esse mal. Como isso acontece? Pelo sexo, oras. 

Atenção: o texto contém pequenas revelações sobre a história que não devem atrapalhar a experiência do filme (eu juro!)

No início de It Follows, Jay, que deve ter uns 18 anos, está saindo com um rapaz, Hugh (Jake Weary). Um cinema ali, um jantar acolá, os dois acabam transando no banco de trás do carro de Hugh, um ato consensual e natural, com direito a um beijo na testa carinhoso no fim. A coisa muda de figura quando Hugh sufoca Jay com clorofórmio até a inconsciência, para que ela acorde, algum tempo depois, amarrada numa cadeira num local abandonado e isolado. É então que ele lhe conta aquilo que sabe: depois de uma noite de sexo com uma desconhecida que conheceu num bar, Hugh começou a ser perseguido pela entidade, que pode aparecer em qualquer lugar e se parecer com qualquer pessoa, até com alguém conhecido; a Coisa anda devagar, mas ela irá alcançá-los, e caso Jay seja morta aquilo irá atrás de Hugh e assim por diante, como uma corrente do mal (tumdumtss). O único jeito de se livrar da maldição é passando ela adiante através do sexo, como ele acabara de fazer.  “Vai ser fácil, você é uma garota”, ele diz, como forma consolo.

Traduzindo: você é mulher agora, parabéns e boa sorte.

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Parece confuso e sem sentido, mas a partir do momento que você compra a história que David Robert Mitchell quer vender nesse filme, ele cuida do resto para garantir que It Follows funcione não apenas como um excelente filme de terror, mas como uma reflexão interessante sobre a forma como a nossa sociedade trata e retrata o sexo e também a adolescência em si.

O jeito mais fácil de interpretar o filme seria dizer que em It Follows a tal maldição é uma alegoria para doenças sexualmente transmissíveis ou, ainda, que toda a experiência dos personagens é uma fábula que tem como moral mostrar aos jovens que não se pode sair por aí fazendo sexo com qualquer pessoa porque você pode ficar grávida e morrer. Em entrevista à Rolling Stone, o diretor e roteirista diz que “não é um filme moral. Obviamente, pega-se isso através do sexo – mas também é através do sexo que se sobrevive, já que é assim que se passa a maldição adiante. É um pouco mais complicado que dizer que sexo é igual a morte.”

Essa coisa de sexo = morte é uma marca registrada dos filmes slasher (subgênero do terror com filmes cujo vilão é um assassino psicopata), como a franquia Halloween, de John Carpenter. A ambientação nos subúrbios, os personagens adolescentes e a tétrica trilha sonora são uma referência direta a ele, mas as semelhanças param aí. Da mesma forma como acontece com Stranger Things, os clichês do gênero e da época são usados para a subversão de alguns lugares comuns: Nancy é a garota que faz sexo, mas é Barb quem é morta pelo monstro; Nancy chega a ser julgada por dormir com Steve, mas a série deixa claro desde o início que os babacas são aqueles que chamam ela de vadia; Steve reconhece seu erro, pede desculpas, e Nancy sai para comprar um monte de armas para matar o monstro.

Em It Follows, Jay contrai a maldição ao fazer sexo, mas não o ato em si não é a sua ruína. O filme não mostra a garota como culpada e nem relega a ela o simples papel de vítima – afinal, ela também tem o poder de se livrar do problema, quando e se quiser. Jay conta com uma forte rede de suporte dos seus amigos e de sua irmã, e ainda que por muito tempo eles não acreditem realmente que ela está sendo seguida por alguma coisa, em momento algum eles cogitam não ajudá-la. Da mesma forma, quando a ameaça passa a ser real para todos, ninguém insiste para que Jay dê logo um fim naquilo que pode matar todo mundo. Seu demônio perseguidor, suas regras.

Se existe um grande mal passado adiante aqui, ou algo condenável para o qual devemos apontar o dedo, talvez seja a forma como nos relacionamos, enquanto sociedade, com o sexo, suas consequências e o padrão-duplo que a sexualidade assume para homens e mulheres.

Greg (Daniel Zovatto) e Paul (Keir Gilchrist), seus dois amigos, se oferecem para fazer sexo com Jay e não parecem assustados com as consequências que isso pode acarretar – um deles por ser apaixonado por ela, o outro porque, bem, ele é homem e isso deve ser sinônimo de estar imune à essas coisas. Mesmo Paul, o mais frágil dos dois, sabe que, independente do perigo dessa maldição, ele pode se livrar dela facilmente ao dirigir para baixo da famosa 8 Mile de Detroit, onde se passa o filme, e encontrar uma prostituta pobre que dê conta de sua situação sem maiores consequências. De forma análoga, Jay e sua irmã Kelly (Lili Sepe) são filhas de uma mãe solteira e um pai ausente, outro homem que teve o privilégio de fazer sexo e se livrar de forma fácil das consequências mais complicadas do ato. Tudo isso aparece no filme de forma bastante sutil, mas os recortes de classe e gênero estão lá.

“Vai ser fácil, você é uma garota”, diz Hugh, porque ele reconhece que mulheres estão o tempo todo sujeitas a serem objeto de desejo masculino. A direção de Mitchell abusa do male gaze em diversos momentos para mostrar o modo como os homens olham as mulheres, seja Greg, que despe com os olhos todas as garotas da turma, sem fazer distinção, ou os garotos da vizinhança que aparecem em algumas cenas espionando Jay enquanto ela usa a piscina ou tira a roupa para tomar banho dentro de casa. A câmera muda constantemente de ponto de vista para criar tensão e a sensação paranoica de que alguém está o tempo inteiro olhando Jay de forma velada – no filme algumas vezes esse olhar é da Coisa que se aproxima, assim como na sociedade somos observadas o tempo todo e nunca sabemos exatamente quem vai chegar perto o bastante para nos fazer mal.

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Depois que Jay inevitavelmente faz sexo com alguém, acontece um diálogo que já vimos nesse tipo de cena muitas vezes, em filmes de terror e também em vários outros:

— Está se sentindo diferente?

— Você está?

— Não

O contexto faz com que o diálogo seja carregado de uma tensão ambígua, mas significativa. It Follows é tanto sobre sexo como também é sobre crescimento. Não num sentido clichê e fácil de perda da inocência, mas uma mistura de desilusão e repentina consciência da própria morte. O filme se parece tanto com os filmes de John Carpenter como com os clássicos de Sessão da Tarde de John Hughes, principalmente O Clube do Cinco. Num catártico sábado de detenção na escola, cinco adolescentes falam abertamente sobre suas angústias, seus medos, e o pavor de se tornarem os próprios pais – numa versão cruel e talvez verdadeira daquilo que são os pais. Em It Follows os adultos são ausentes e só aparecem como receptáculos da Coisa, que chega a assumir a forma dos pais dos personagens. “Quando você cresce, seu coração morre”, diz Allison Reynolds (Ally Sheedy) em O Clube dos Cinco,  e talvez seja esse um dos grandes medos sem rosto que assusta os jovens do filme.

A gente sabe tão pouco sobre a tal Coisa no início do filme como no final, e essa falta de lógica ou explicações é intencional. Para o Guardian, o diretor e roteirista disse que queria que o filme fosse como um pesadelo, e pesadelos não seguem a lógica. A entidade que persegue Jay em determinado momento assume a forma de uma senhora com roupa de hospital, uma figura que anda devagar, mas de forma persistente, até ela. É um filme de terror e o monstro está ali para nos assustar, mas fico pensando que talvez o grande pesadelo dos personagens seja a morte inevitável, de forma precoce, pelas mãos de uma Coisa não identificada, ou muitos anos na frente, numa cama de hospital. Não é à toa que uma das personagens passa o filme todo lendo um livro do Dostoiévski e recitando passagens em voz alta. Esses russos falam sobre a morte como ninguém mais.

“Isso vai te pegar, e quando te pegar, você vai morrer”, nisso a história é bem clara, e a paranoia é serventia da casa. Você é adulta agora, parabéns e boa sorte.

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