LITERATURA

Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes

Quando eu era criança, a hora da história antes de dormir era sempre muito aguardada. Na época, formando as primeiras palavras por conta própria ao juntar as letras que aprendia na escola, achava fascinante que livros pudessem conter tantos mundos e aventuras. Lembro que meus pais liam para mim e meus irmãos uma história por dia de uma coleção de quatro volumes com os personagens clássicos da Disney. Mickey, Pateta e Pato Donald sempre estavam se aventurando e se divertindo, mas eu não me lembro de ter ouvido muitas histórias sobre o que Minnie e Margarida faziam enquanto isso.

Cresci e os livros continuaram fazendo parte da minha vida, mas demorou um pouco até que eu pudesse encontrar personagens femininas com quem pudesse me relacionar, em quem pudesse me espelhar. Havia princesas, claro, várias delas, mas não era o suficiente. Onde estavam as mulheres que saíam em aventuras, empunhavam espadas ou mudavam o mundo com as próprias mãos? Na época eu não conseguia perceber o padrão, mas hoje é muito fácil encontrar os estereótipos presentes em cada uma das histórias que li enquanto crescia.

A disparidade na representação de personagens masculinos e femininos em livros infantis não é algo exclusivo de nosso tempo. Uma pesquisa realizada por acadêmicos da Florida State University demonstrou que esse viés de gênero e como é feita sua representação existe há mais de 100 anos. A pesquisa batizada de “Gender in Twentieth-Century Children’s Books: Patterns of Disparity in Titles and Central Characters” e coordenada pela professora de Sociologia Janice McCabe, foi capaz de identificar que em quase 6 mil imagens existentes em livros para crianças publicados entre os anos de 1900 e 2000, apenas 7,5% do total contavam com uma imagem feminina como protagonista. Ainda de acordo com a pesquisa de McCabe, em livros infantis publicados anualmente, personagens masculinos eram protagonistas em 57% das tramas, enquanto apenas 31% possuíam mulheres na história central; personagens masculinos, humanos ou animais, aparecem em 100% dos livros analisados, enquanto personagens femininas aparecem em apenas 33% das vezes.

Para Janice McCabe, a ausência de personagens femininas nas histórias suporta a teoria de que mulheres são menos importantes e interessantes do que homens, o que pode contribuir para a sensação de falta de importância entre as meninas, visto que a representação de personagem femininas é tão estereotipada, e os privilégios entre os meninos, que são sempre os heróis e protagonistas. A desigualdade de gênero encontrada na pesquisa de Janice não está restrita ao universo dos livros infantis visto que tais padrões são continuamente reforçados em outros tipos de mídia, como desenhos animados, filmes, videogames e, nas palavras da professora, até em livros de colorir.

Em outra pesquisa, dessa vez publicada na revista científica Science, descobriu-se que em torno dos seis anos de idade, meninas perdem a fé em seus próprios talentos enquanto meninos continuam acreditando que são brilhantes, muito obrigado. O grupo de pesquisadores das universidades de Princeton, New York e Illinois, crê que a exposição à mídia, professores, pais e outras crianças podem ser os causadores dessa mudança de comportamento em meninas que passam a acreditar, ainda tão novas, que meninos são mais inteligentes e capazes do que elas. Para os pesquisadores, as crianças são expostas à noção cultural de que genialidade e inteligência são características mais fáceis de se encontrar em meninos do que em meninas, o que pode comprometer, inclusive, o momento em que essas crianças, mais tarde adolescentes, precisarão decidir qual profissão seguir. Estereótipos criados pela sociedade e disseminados pela cultura pop podem criar diferenças nas trajetórias das crianças sem que ninguém perceba.

Pensando nessa falta de representatividade e em como as histórias para crianças pouco evoluíram em mais de 100 anos de produção, as escritoras italianas Elena Favilli e Francesca Cavallo decidiram mudar esse cenário ao criar um livro que reunisse exemplos de mulheres formidáveis e que desafiaram as normas sociais das mais diferentes maneiras. Dessa vontade de revolucionar as histórias para meninas nasceu o belíssimo Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes – 100 fábulas sobre mulheres extraordinárias. Publicado no Brasil pela V&R Editoras em formato capa dura e em páginas coloridas, o livro com mais de 200 páginas pode ser o primeiro encontro de meninas de todas as idades com mulheres incríveis, de ativistas a piratas, de advogadas a bailarinas, de arquitetas a inventoras – Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes veio para mostrar que meninas podem ser o que quiserem ser, se assim desejarem e trabalharem duro o bastante para isso.

Elena e Francesca compartilham da crença de que dar ênfase às histórias de mulheres rebeldes da vida real passa uma mensagem importante às crianças que, normalmente, se lembram apenas de personagens do mundo da ficção. “If all children read is about princesses waiting to be saved by a prince, then the message they learn is that women are not as valuable as men – that we are not equals” [Se tudo o que as crianças leem é sobre princesas esperando ser salvas por um príncipe, a mensagem que elas aprendem é que mulheres não são tão valiosas quanto os homens – que não somos iguais]. Sabemos que, historicamente, as conquistas das mulheres tem sido diminuídas, apagadas, esquecidas e que palavra ‘rebelde’ possui uma conotação geralmente considerada ruim, principalmente para uma mulher. A mensagem que Elena e Francesca pretendem passar é que tudo bem ser rebelde e que isso, inclusive, pode ser uma coisa boa, principalmente para uma mulher que quebra as regras e está a frente de seu tempo.

O projeto inicial de Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes tomou forma primeiro em uma plataforma de crowdfunding que conquistou um milhão de dólares em 2016. Elena trabalhava como jornalista enquanto Francesca dividia seu tempo entre a direção e a dramaturgia, mas nas horas livres as duas estavam juntas construindo uma revista para crianças que pudesse ser acessada de um tablet, a Timbuktu. A revista recebeu inúmeros prêmios e suas histórias já estavam sendo publicadas em livros físicos em inglês, francês e italiano, e parecia o momento certo para tirar do papel Histórias de Ninar. Em seu site oficial, Elena e Francesca contam que a jornada empresarial pela qual passaram as fez entender o quanto é importante que meninas possam crescer cercadas por modelos femininos. “It helps them to be more confident and set bigger goals” [Isso as ajuda a ter mais confiança e definir objetivos maiores].

Embora o livro conte histórias para meninas rebeldes, é importante que as 100 fábulas reais escritas por Elena e Francesca também sejam contadas para meninos. De acordo com as autoras, é crucial e de extrema importância que meninos possam aprender a identificar e simpatizar com mulheres em papéis de liderança, com mulheres heroínas e donas dos próprios narizes. Se o machismo está enraizado na nossa sociedade em tantos níveis, é significativo que meninos aprendam desde cedo que a igualdade entre os sexos é a única bandeira possível. Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes contém histórias ótimas, belas ilustrações e inspirações de vida para qualquer pessoa, independente da idade. Nunca é demais descobrir (ou redescobrir) as trajetórias de vidas de mulheres tão singulares.

Logo no prefácio do livro podemos ler as razões pelas quais Elena e Francesca consideram Histórias de Ninar Para Garotas Rebeldes um projeto tão especial. Além do fato óbvio de o crowdfunding da dupla ter sido o que mais arrecadou dinheiro para financiar um livro na história, há também as pequenas memórias e conquistas que as autoras colecionam diretamente de seus leitores: são depoimentos de mães e pais dizendo que Histórias de Ninar foi o primeiro livro que compraram para seus filhos, mulheres contando que o livro as incentivou, de alguma maneira, a ir atrás de antigos sonhos, além da confiança depositada nas autoras algo que, sabemos e elas frisam bem, mulheres não estão acostumadas a ter.

“A maioria das mulheres extraordinárias retratadas neste livro nunca experienciou esse tipo de convicção. Independente da importância de suas descobertas, da audácia das suas aventuras e da extensão de sua genialidade, elas foram constantemente menosprezadas, esquecidas e, em alguns casos, quase excluídas da história.”

É importante que meninas de todas as idades possam entender os obstáculos que terão de enfrentar, mas que possam entender, também, que esses empecilhos não serão intransponíveis. Nós, meninas de todas as idades, sempre podemos encontrar uma maneira de vencer esses empecilhos e de removê-los para as meninas que virão depois. “Era uma vez uma garota chamada Amelia, que economizou dinheiro suficiente para comprar um avião amarelo”. “Era uma vez uma casa em uma ponte. Lá vivia uma garotinha chamada Cora, que sabia que era poetisa”. “Era uma vez uma casa azul brilhante próxima à cidade do México onde vivia uma garotinha chamada Frida”. A história de cada uma dessas 100 fábulas reais promete inspirar e encher de determinação a cada uma de nós para que, juntas, possamos crer que sonhar alto e longe é comum, e que temos o poder de mudar o mundo.

Porque somos meninas.

“Para as garotas rebeldes de todo o mundo:
Sonhe grande
Mire distante
Lute com bravura
E, na dúvida, lembre-se:
Você está certa.” 

O exemplar foi cedido para resenha pela V&R Editoras.


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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5 Comentários

  • Responda
    Carolina S.
    10 de agosto de 2017 at 19:06

    Que texto incrível sobre o livro e o universo de questões que ele carrega!
    Não conhecia mas estou botando desde já na lista de aquisições. Sem chance ter filhas que não possam ter acesso a esse tipo de conteúdo; e enquanto ainda não tiver a maternidade em planejamento, leio eu, menina grande com o maior prazer. 😉

    • Responda
      Thay
      10 de agosto de 2017 at 21:36

      Oi Carolina! Nossa, super obrigada! Fico contente que tenha gostado do texto e se interessado pelo livro. Pode ter certeza de que não vai se arrepender de tê-lo em sua vida – e se (ou quando) suas meninas vieram, elas vão amar também. Um beijo! (:

  • Responda
    Iara
    12 de agosto de 2017 at 23:49

    recomendável a partir de qual idade?

    • Responda
      Thay
      13 de agosto de 2017 at 19:01

      Oi Iara! As histórias seguem bem o estilo ‘era uma vez’ e são bem curtinhas e simples, acredito que seja uma boa pedida para crianças de qualquer idade. (:

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    Vida Que Segue 9 - BEDA #20 - APTO 401APTO 401
    3 de dezembro de 2017 at 15:02

    […] doida por uma resenha completa de Histórias de Ninar para Garotas Rebeldas e o Valkirias foi lá e […]

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