LITERATURA

Fazendo castelos: cadernos de uma menina provinciana

Guimarães Rosa acreditava na importância de se ouvir conversas: “Ouvir a vida para poder transmiti-la. Se a gente lê muito, em demasia, acaba contando coisas que todo mundo já sabe. É preciso dar coisas novas, há milhares de coisas novas para dar. É descobri-las”. Talvez seja por isso que o escritor mineiro tenha ficado encantado ao ler Minha Vida de Menina, de sua conterrânea Helena Morley.

Helena cresceu esticando o ouvido: sempre que tinha visita em casa, fingia estar fazendo lição para depois contar tudo ao seu diário, ou “caderno amigo”, como o chamava. Graças a essa escuta perspicaz, hoje temos Minha Vida de Menina, publicado atualmente pela Companhia das Letras. O subtítulo do livro é Cadernos de Uma Menina Provinciana nos Fins do Século XIX. Se não tivesse entrado para a lista de leituras do vestibular da FUVEST deste ano, Morley permaneceria à sombra, como um tesouro para poucos. O livro, que ocupou o lugar do romance Capitães da Areia, de Jorge Amado, é o único da lista que foi escrito por uma mulher, e também por isso merece destaque. Mas não apenas.

Helena Morley é, na verdade, o pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant, nascida em Diamantina no ano de 1880, e esse é seu único livro publicado. Filha de pai inglês e mãe mineira, Morley teria mantido um diário durante a adolescência. Em 1942, quando vivia no Rio de Janeiro, publicou um apanhado com trechos selecionados, acrescentando uma introdução. A edição havia sido pensada apenas para a família e amigos, mas encantou diferentes leitores. Na introdução, a autora diz às netas, que, ao contrário dela, já nasceram na “abastança”, que não tenham pena das meninas pobres apenas porque são pobres.

O livro é dividido em três partes relacionadas aos anos de 1893, 1894 e 1895, quando Morley tinha entre treze e quinze anos e estudava na Escola Normal, curso de segundo grau para a formação de professores. Cada entrada do diário pode ser lida como um pequeno conto no qual a autora se revela uma exímia contadora de causos. Com inteligência e senso de humor, faz um rico panorama da vida no interior do Brasil através de seus relatos, passando por temas difíceis como a questão racial no momento em que o país vivia o início da República e a recente abolição da escravatura. Enquanto o pai trabalhava na mineração à procura de diamantes, que a essa altura já estava em decadência, Morley fazia seus próprios castelos, expressão que usa de maneira recorrente como belo sinônimo para “fantasiar”. Sugiro resgatá-la, é uma expressão bonita demais para ser esquecida.

A escrita de Morley é singela e sagaz, com uma vivacidade que captura. Enquanto acompanhamos sua vida de menina e o entorno que a cercava, somos atravessados por uma diversidade de afetos. Ela faz rir, chateia, incomoda e emociona. Mas, acima de tudo, nos transporta para outra época e, mais, para outra sensibilidade. Uma menina questionadora, expansiva e falante, que abre uma porta e permite que tenhamos um vislumbre de como era o dia a dia em uma cidade pequenina no Brasil do final do século 19. Não há apenas o idílio, com árvores carregadas de frutas, recantos escondidos, famílias numerosas que dividem a mesa no jantar, uma vida tranquila em que o relógio só tinha sentido de hora em hora (sujeito à livre interpretação dos galos), sem a pressa dos minutos; mas também o retrato do racismo, cujo eco se estende aos dias de hoje, entre outros temas espinhosos que atravessam os relatos, como a opressão social sofrida pelas mulheres.

O livro é composto por ambivalências — o riso e a tristeza, a fantasia e a realidade, a vida e a morte — que cruzam o caminho de Helena muitas vezes ao mesmo tempo. A adolescência representa, simultaneamente, o fim da infância e o começo da vida adulta; um território arenoso onde somos confrontados pelos sentimentos mais díspares.

Minha Vida de Menina não se restringe, no entanto, ao universo infantojuvenil, nem ao seu valor histórico. É tentador recorrer ao trocadilho para dizer que Morley é um diamante bruto, porque a metáfora parece mesmo justa. A poeta americana Elizabeth Bishop, que viveu muitos anos no Brasil, também se encantou de tal forma ao ler os diários que decidiu traduzi-los para o inglês. O livro merece ocupar o espaço que lhe é de direito entre os principais nomes da literatura brasileira não apenas do século 19, mas de todos os tempos. Em 2003, a cineasta Helena Solberg levou os diários de Morley para as telas com a adaptação cinematográfica Vida de Menina, protagonizada por Ludmila Dayer. O filme, como o livro, tem um ar amador que lhe cai como uma luva. É uma adaptação bastante feliz.

Ao ler Minha Vida de Menina, me lembrei de uma frase bonita de Céline em De castelo em castelo: “O que estraga a agonia dos seres humanos é a pompa”. A agonia, e também a alegria, são retratadas por Morley sem pompa, com uma honestidade singela que raramente encontramos nos livros. Seus escritos me fizeram pensar no que existe de mais autêntico e essencial em nós, me convidaram a viajar por minha própria história.

Algo parecido talvez tenha ocorrido a Bishop, que passou três anos traduzindo o livro, conheceu pessoalmente Alice Brant, viajou para Diamantina e, bastante absorta em suas linhas, teria começado a escrever, nessa época, sobre sua infância. Assim como Morley, Bishop teve uma avó muito amorosa que foi fundamental em sua história: órfã de pai desde bebê, sua mãe teve um colapso poucos anos depois e foi internada, separada da filha, que foi criada pelos avós. Uma primeira versão de um de seus poemas mais conhecidos, Sestina, dedicado a uma das avós, teria sido composto nessa ocasião.

Morley me fez pensar em minha própria infância em Minas Gerais, cem anos depois, e em minhas queridas avós, que, ao me contar histórias e ler as minhas, foram a gênese desse texto, assim como de qualquer texto que eu vier a escrever um dia.


** A arte do topo do texto é de autoria de Thiago Thomé

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