LITERATURA

Guerrilla Girls: Bitches, Bimbos and Ballbreakers

Eu conheci o trabalho das Guerrilla Girls por acidente. Pesquisando para uma matéria, encontrei o pôster de uma campanha delas sobre a falta de mulheres nas exposições do Met. Em tradução livre, o campanha pergunta: “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Met?” e denuncia  disparidade de gênero dos artistas, comparando com o números de figuras nuas na arte: a maior partes destas era de mulheres.

As Guerrilla Girls são um coletivo feminista anônimo (as mulheres usam máscaras de gorilas para proteger suas identidades, em trocadilho da palavra gorila com guerrilla) que faz projetos artísticos e intervenções urbanas desde 1985 para denunciar a desigualdade racial e de gênero no mundo da arte. Além disso, elas publicaram livros sobre história da arte e história do seu movimento. Hoje vou falar de um desses livros, o Bitches, Bimbos and Ballbreakers. Apesar do movimento das Guerrila Girls ser focado no mundo da arte, esse livro, em especial, sai um pouco desse aspecto. Publicado em 2003, ele se compromete a traçar uma história dos estereótipos colocados sobre as mulheres ao longo do tempo e os prejuízos que eles nos trazem.

O livro é dividido em 7 capítulos e cada um deles explora uma faceta desses estereótipos: o que significa ser estereotipada, os estereótipos que vêm durante a vida, estereótipos sexuais, de trabalho, de religião, de maternidade, entre outros.

Logo na abertura o livro demonstra sua importância: ao diferenciar estereótipo de arquétipo, ele explica que ambos são prejudiciais para as mulheres. Os estereótipos são, de acordo com as Guerrilla Girls, “pequenas caixas limitantes”, já os arquétipos são “pedestais inalcançáveis”. Isto é, as mulheres estão sempre sendo julgadas, seja por saírem do padrão esperado delas ou por não atingirem um padrão inatingível.

A leitura é bem informativa: além de apresentar cada rótulo que é dado às mulheres, a pesquisa também analisa o surgimento destes e como eles acabam sendo ruins para as mulheres que os recebem. Um exemplo? A típica Girl Next Door, estereótipo bem comum na ficção, que é aquela garota boazinha da vizinhança que atrai todos os olhares, mas nunca desvia de sua função. Isso porque, diz o livro, as garotas nem podiam sair de casa até pouco tempo atrás. Elas deviam se manter virgens e levar uma vida suburbana até o casamento. A partir dos anos 60, quando a luta das mulheres no mercado de trabalho se identificou, a girl next door saiu de casa e começou a viver suas próprias aventuras.

Outro estereótipo que o livro aborda de forma interessante é o da mãe: a mãe é uma figura importante em nossas vidas, mas isso não significa que ela esteja isenta de rótulos superficiais. Há as mães carinhosas e dóceis da ficção, que ficam em casa e cozinham tortas, mas também há a sexualização (vide: revistas que parabenizam mulheres por perder peso após a gravidez) e existem figuras maternas negativas, como a sogra controladora e a madrasta má.

Um último estereótipo que a mulher pode receber com a idade é o de “bruxa”. Isto é, mulheres que não constituem uma família e envelhecem sem se importar tanto com imposições sociais ou padrões de beleza. Relacionado ao estereótipo de “solteirona”, eles se misturam na rejeição que a sociedade reserva às mulheres mais velhas. O livro mostra que essa rejeição é histórica. Na época da caça às bruxas, as mulheres queimadas na fogueira eram, em geral, solteiras e mais velhas.

O livro também entra na questão sexual, tratando alguns estereótipos bastante recorrentes. No caso de prostitutas, por exemplo, a percepção pública as divide em categorias: há as “prostitutas de bom coração”, que só buscam uma vida melhor e oferecem afeto aos homens, há as garotas de programa de luxo que se aproveitam de ingenuidade deles e há a figura da dominatrix.

O sexo é sempre um tabu para mulheres e as Guerrilla Girls abordam isso com bastante cuidado. Uma mulher que demonstre sexualidade provavelmente será julgada como promíscua, enquanto uma mulher que não siga essa linha será taxada de frígida. Assim como as mulheres lésbicas sofrem pressões externas para se adequarem a expectativas que os outros impõem sobre elas e mulheres bissexuais sofrem apagamento na sociedade.

Por último, mas não menos importante, quero abordar a questão de figuras reais ou fictícias que se tornaram estereótipos. Exemplos? Carmem Miranda, Madre Teresa, Lolita, Rosie the Riveter, as feministas que queimam sutiãs. Essas figuras, com o tempo, entraram para a história como outros rótulos que as mulheres devem atingir, mas não extrapolar. Seja sexual, mas não muito. Lute, mas não muito. Seja bondosa, seja forte, seja isso ou aquilo. Sempre a expectativa de ser algo que a sociedade te impõe.

E você acha que está livre? Não é bem assim. Se a mulher que se casa pode ser taxada de alguém que está querendo se aproveitar do dinheiro do marido, a mulher que entra o mercado de trabalho e vira CEO vai ser acusada de ter dormido com alguém para conseguir o cargo. Se as mães brancas e cristãs recebem o rótulo de dóceis que ficam em casa cozinhando para seus filhos, as mães negras são acusadas de receber auxílio do governo e serem preguiçosas (parece familiar?). Se as mulheres bondosas são ingênuas, as mulheres sexy são subversivas e estão tentando enganar a sociedade ao seu favor.

É o que o próprio título do livro sugere: as (mulheres jovens, lindas, loiras e burras) fazem sexo com homens mais velhos para ganharem notoriedade. É aquele cenário do cara divorciado que arranja uma namorada bem mais nova e causa inveja nos amigos. Ou seja, a ideia aqui é propagar que ou existe inteligência ou existe beleza em uma mulher. Quando se posiciona, a mulher é a agressiva que não aceita qualquer comentário. Em geral associado a mulheres de poder (o livro fala da Hillary Clinton em 2003, mas acho que em 2016 ela também é um ótimo exemplo) que exprimem opiniões e não ficam caladas lá no canto designado a elas. Aquela coisa típica de ser chamada de louca/histérica por questionar machismo de alguém, sabe? Exemplos da cultura pop? Marylin Monroe é a bimbo e Madonna é a bitch.

O livro é uma coletânea de estereótipos, portanto, que as mulheres enfrentam durante a vida. Sobre sua aparência, sua sexualidade, raça, escolha profissional, maternidade ou falta dela. É fascinante aprender mais sobre como esses rótulos surgiram e a influência que eles tiveram (e continuam tendo) na sociedade e na vida das mulheres.

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