CINEMA

Crítica: Guardiões da Galáxia – Vol. 2

Em 2014, quando o primeiro Guardiões da Galáxia chegou aos cinemas, blockbusters de super-heróis já eram um negócio mais do que consolidado: quase seis anos haviam se passado desde que a Marvel, essa imensa e ambiciosa Casa de Ideias, apostara na fórmula que catapultou seus heróis ao estrelato – mais de dez se pensarmos em seu primeiro filme, lançado quando a ideia de um universo expandido ainda era um plano reservado a um futuro muito distante –; uma fórmula ousada e igualmente ambiciosa que, na contramão daquilo que vinha sendo feito até então, se apoiava numa adaptação que não era nem uma versão do realismo sombrio e de cores escuras incorporado à época com louvor pela DC, nem uma fantasia colorida e completamente deslocada da realidade, como os clássicos filmes de super-heróis da década de 1980.

Com o passar dos anos, a receita Marvel de “se fazer cinema” passou a apresentar claros sinais de desgaste, no entanto. Homem de Ferro, filme responsável por dar, oficialmente, início ao Universo Cinematográfico Marvel, foi um verdadeiro fenômeno à época de seu lançamento, no já distante ano de 2008, mas quase dez anos depois, o que causava expectativa no passado tornou-se cada vez menos impressionante. Continuamos a pagar o ingresso a cada novo lançamento, mas sabemos exatamente pelo o quê estamos pagando; o que também constrói uma mudança sutil no consumo e na relação entre público e cinema. Após uma pequena, mas considerável, crise da indústria no início dos anos 2000, quando a quantidade de espectadores nos cinemas do mundo inteiro caiu vertiginosamente, os blockbusters de super-heróis trouxeram o público de volta a esse “ritual das salas de cinema”, e eventualmente se transformaram nos maiores líderes de bilheteria. Capitão América: Guerra Civil, primeiro filme da terceira fase do MCU, tornou-se não apenas a produção mais lucrativa do ano passado, como também o décimo segundo filme mais lucrativo da história do cinema, com 1,1 bilhão de dólares arrecadados. Doutor Estranho, também lançado em 2016, teve uma arrecadação mais modesta, mas ainda surpreendente: 677 milhões de dólares, marca que o transformou no nono filme mais lucrativo da Marvel até o fechamento desta edição.

Os blockbusters nasceram na década de 1970, quando o cinema passou a produzir filmes de alto custo e investir numa publicidade massiva que não se restringia ao ambiente das salas de projeção, buscando a integração de diferentes plataformas destinada a um único fim. Produtos licenciados como brinquedos, jogos de vídeo game, parques temáticos, livros, roupas, etc etc, eram produzidos com o intuito de associar diferentes mercados a um mesmo filme – ou franquias, como ficaram conhecidas mais tarde essas grandes produções que se desmembram em diversos produtos –, criando diferentes negócios que continuavam a gerar lucro mesmo após a exibição dos filmes nos cinemas. De forma inteligente, mas não inédita, o que a Marvel faz até hoje é utilizar esse modelo de negócio megalomaníaco, de orçamento e ambição estratosféricos, enquanto constrói uma nova maneira de contar suas histórias, onde todas as narrativas se conectam de forma absoluta, elevando o jogo do lucro em Hollywood ao seu nível máximo; uma aposta pretensiosa que não pede desculpas por ser exatamente o que é.

O primeiro Guardiões da Galáxia está, ao mesmo tempo, próximo e distante dessa proposta: vendido como um filme despretensioso sobre um grupo nada convencional de protagonistas, o longa possui objetivos bem delineados dentro de algo maior do que eles mesmos, mas parece menos preocupado em estabelecer a si mesmo como referência. O elenco de protagonistas conta com um cara sem escrúpulos, uma mulher verde, um guaxinim geneticamente modificado, uma árvore que fala e um brutamontes de coração mole, personagens distantes demais do ideal heroico que habita nosso imaginário. Há algo de subversivo nessa construção, e se perguntassem, talvez preferíssemos ter nosso dia salvo por um homem bonito, de escudo, músculos e olhos azuis, mas não é isso que acontece. Na contramão dos Grandes Filmes™ de super-heróis, o dia em Guardiões da Galáxia é salvo por criaturas esquisitas e desbocadas, algo inédito até então.

Ao mesmo tempo, sua narrativa parece menos interessada em grandes atos de heroísmo e mais focada em entender quem são aquelas pessoas, como se relacionam uns com os outros, com o meio e consigo mesmos, e como reagem àquilo que acontece em suas vidas. Peter Quill (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldaña), Drax (Dave Batista), Rocket (Bradley Cooper) e Groot (Vin Diesel) são personagens que fogem do padrão: eles são desajustados, discriminados dentro de seu próprio contexto diegético, e possuem uma porção de questões mal resolvidas, que vão desde problemas familiares até um amor perdido ou a necessidade de pertencimento. James Gunn, criador e roteirista de ambos os filmes da franquia, tem plena consciência de quem são seus personagens e também de que história deseja contar – definitivamente não apenas mais uma história de super-heróis. Ele mesmo conta que fora um cara desajustado no passado, com problemas de isolamento e com uma adolescência marcada por pensamentos suicidas, que salvo pelo cinema, pela música e pelos quadrinhos. É compreensível que seus personagens sejam, em alguma medida, um reflexo disso. Assim, mesmo que tentem com afinco apresentar-se ao mundo como pessoas bem resolvidas, que não se importam tanto assim, eles se importam, eles querem se conectar, eles desejam construir laços, serem amados por aquilo que são. James Gunn reconhece e celebra isso – nós também.

“[Eu trabalho] porque gosto de me conectar com as pessoas, e o jeito mais fácil que conheço de fazer isso é através da produção de filmes… [Os guardiões são] um grupo de desajustados com coração quebrado cujas vidas foram desprovidas de ternura e conexões e que praticamente nunca puderam confiar em si mesmos ou nos outros. Mas eles estão aprendendo, um passo de cada vez.” (tradução nossa)

Guardiões da Galáxia Vol. 2, então, vai elevar essas questões à potência máxima, mas não da forma óbvia como estamos esperando. O filme continua a não se levar tão a sério assim, mas é em meio a graça e descomprometimento que tanto lhe são característicos, que a trama e, sobretudo, o drama se desenvolvem. Em perspectiva, parecem questões menores e ordinárias, principalmente se comparadas aos grandes dramas dos super-heróis convencionais, que sempre precisam enfrentar ameaças em escala universal. Gostamos de assistir esses filmes e tememos por esses heróis, mas eles frequentemente se esquecem de um ponto fundamental: a de que são humanos. Ou, pelo menos, seres que pensam, sentem e não são definidos pelos vilões que os perseguem, e não há nada de ordinário nisso. Como uma família, os Guardiões são cheios de problemas, consigo mesmos e uns com os outros, e a maioria deles não possui uma solução óbvia. É preciso mergulhar na convivência, no passado e no presente, para entender o que Liev Tolstói escreve sobre famílias felizes e tristes em Anna Kariênina, e esse é um mergulho que Gunn não hesita em realizar.

Grande parte dos conflitos são estabelecidos a partir das relações conturbadas dos personagens entre si e questões individuais que respingam para todos os lados exatamente como uma… família. Não há papéis bem definidos (embora alguns surjam com mais clareza em determinados momentos), de modo a também subverter construções predeterminadas de quem é ou faz o quê. Mas existe algo a mais. Se relações familiares são um grande clichê da ficção, que se esforça para entregar situações verossímeis o suficiente para serem relacionáveis, mas não o suficiente para serem traumáticas, James Gunn prefere seguir o caminho oposto: ele não se utiliza de saídas fáceis, tampouco recorre a finais necessariamente felizes. O universo diegético de Guardiões da Galáxia sustenta a existência de super-heróis, lesmas gigantes e guaxinins falantes, mas o fato de estar tão distante da realidade não o impede de também contar uma história sobre seres ambíguos, a dificuldade de nos conectarmos uns com os outros, e como tanto o inferno são as pessoas, quanto é a ausência delas.

Precisamos desesperadamente desses vínculos, mas resistimos em aceitar uns aos outros, resistimos em expor nosso lado mais vulnerável e afastamos aqueles que nos são próximos numa tentativa de evitar esse contato mais íntimo, ao mesmo tempo que idealizamos relações perfeitas e imaculadas que jamais vão existir; não somos perfeitos, tampouco imaculados. Peter, Gamora, Rocket, Drax, Groot, e também Yondu (Michael Rooker), desejam pertencer a algo, criar conexões e serem amados, mas são incapazes de admiti-lo com todas as letras – porque pareceriam fracos, porque não precisam realmente disso, porque são melhores do que essa baboseira sentimental. Contudo, o que Guardiões da Galáxia Vol. 2 faz é justamente provar o contrário – para eles e para nós também.

Atenção: o texto contém spoilers!

O mistério sobre o pai de Peter, suspenso no primeiro filme, é resolvido já nos primeiros minutos da sequência, quando parte da equipe é salva por ele: um deus misterioso e inegavelmente charmoso chamado Ego (Kurt Russell) (um nome que, mais tarde, fará muito sentido) que há anos perseguia o rastro do filho perdido. Ego é a personificação do pai herói, ou assim imaginamos, e é o que Peter imagina também. Como muitos personagens da ficção, Peter cresceu em um ambiente hostil e precisou lidar com tragédias desde a infância. Ele é um homem quebrado, muito embora diga o contrário, e se agarra com força à perspectiva de um pai perfeito porque essa é, talvez, a primeira chance real em sua vida de possuir uma família de verdade – o que quer que isso seja. Contudo, ser filho de um deus não é tarefa fácil, e o que ele eventualmente vai descobrir é que o pai não deseja realmente construir uma família, mas aumentar substancialmente seu poder pela galáxia. Ego. Que ele, Peter, era apenas mais uma peça em seu jogo ambicioso é apenas um mero detalhe.

A única chance de Peter continuar a viver ao lado do pai é aceitar a derrota e sua cota de participação em seu plano de dominação universal; um filho perfeito sob medida para um pai igualmente perfeito. Entretanto, como nos lembra Manu Santos, em um excelente texto sobre o assunto, ninguém consegue ser perfeito o tempo inteiro:

“O filho perfeito é aquele que nunca chora, não suja as calças, não faz manha pra comer e vive a vida do jeito que nossos pais e mães sonharam pra gente no útero. Tanto Peter quanto nós todos fomos filhos perfeitos por um momento, até que a verdade aparece – até que nós crescemos, tomamos nossas próprias decisões e infalivelmente decepcionamos aqueles que passaram noites velando pelo nosso sono e lavando nossas fraldas sujas, seja por ser homossexual, desprezar a empresa familiar e preferir entrar pro circo, votar no PSDB ou não querer usar nossos superpoderes para manter qualquer que seja o planeta dos nossos pais. A vantagem de não ser filho de um deus é que ele pode até gritar e te por de castigo, mas nunca vai usar os superpoderes dele para te prender.”

Peter precisa tomar uma decisão: viver a vida de um comercial de margarina ao lado do pai lunático, seu próprio David Hasselhoff, ainda que isso signifique abrir mão de todas as suas experiências e relacionamentos posteriores, ou abrir mão de o sonho que consumiu por anos seu imaginário. Embora pareça uma escolha óbvia para quem assiste de fora, Gunn é esperto o suficiente para não limitar-se a esses conceitos, explorando de forma mais ampla os sentimentos de Peter. Tanto um lado quanto o outro oferecem um bilhão de possibilidades, boas e ruins. No entanto, optar por uma significa, necessariamente, abrir mão de todas as outras. Mesmo que exista um bom motivo por trás da escolha, renunciar a algo inevitavelmente nos causa dor. Sair da casa dos pais pode significar maior autonomia, liberdade de escolha e independência financeira, mas também significa abandonar o aconchego e segurança do lugar – e pessoas! – que chamamos a vida inteira de lar, o sonho de viver em outro país é sinônimo de novas experiências e oportunidades, mas muitas vezes também de solidão e saudade; estar em um lugar significa não estar em outro, como estar com certas pessoas significa não estar com outras, e dizer sim para determinadas experiências significa, inevitavelmente, dizer não a outras, e assim por diante.

Eventualmente, Peter percebe que ser filho de um deus – especialmente um chamado Ego – não é exatamente a melhor opção do mundo, no entanto, uma escolha que diz mais sobre ele do que todas as suas qualidades. Ego não está interessado em construir famílias e seus interesses limitam-se a si próprio. Não é uma surpresa que, em um planeta inteiro, ele e Mantis (Pom Klementieff) sejam os únicos habitantes, e mesmo ela só está ali porque é um meio para um fim – exatamente como Peter. É só depois de descobrir que o pai vinha assassinando seus irmãos que não atenderam às expectativas que Peter muda de postura, mas seu momento catártico só aparece quando, por fim, descobre que Ego fora também responsável pelo destino trágico de sua mãe. Peter toma uma atitude, afinal: sua família é outra e ali, definitivamente, não é o seu lugar.

Em muitos momentos, é a Gamora que ele recorre, que vai dizer a ele o que realmente está acontecendo e jogar luz sobre as verdadeiras intenções de Ego, ainda que ele não acredite. A negativa frequentemente os coloca em lados opostos, mas o distanciamento também abre espaço para que Gamora possa resolver seus problemas com a irmã, Nebula (Karen Gillian), e o fato de nunca terem sido capazes de lidar com a existência uma da outra. Criadas sob o olhar atento do pai, Thanos (Josh Brolin), ambas foram criadas para serem assassinas, colocadas para lutar uma contra a outra ainda na infância e castigadas caso perdessem a disputa. O contexto opressor é o que as afasta – Gamora, por estar mais preocupada em livrar-se da tirania do pai, Nebula por sentir-se fraca e desejar carinho e atenção por parte da irmã, algo que esta jamais lhe dispensou –, mas à medida que exorcizam esses fantasmas (às vezes, literalmente lutando uma contra a outra), elas encontram, finalmente, um lugar seguro, um lar.

É uma mudança imensa, drástica, e talvez seja muito cedo para dizer que será definitivamente. Mas o que ela nos lembra – como todas as outras nos lembram, aliás – é tudo isso é muito significativo, e que viver e criar conexões não são tarefas fáceis porque exigem esforço, paciência e uma carga imensa de vulnerabilidade e sentimentos, mas essa talvez seja a grande lição que Guardião da Galáxia Vol. 2 queira deixar. Ao final do filme, surpreendentemente agridoce, os Guardiões assumem, em voz alta ou para si mesmos, que aquele bando de desajustados ao qual pertencem são parte de sua família, em uma aceitação completa e honesta, de quem assume que não é preciso perfeição para que exista amor. E ele existe, em todos os lugares. Se os sentimentos continuam sendo os únicos fatos, Guardiões da Galáxia vai provar que a máxima continua verdadeira – não importa se em 2017 ou daqui vinte e seis anos.

“[Os Guardiões] sou eu. Eles são vocês. Nós somos Groot. E não importa o quanto os líderes do mundo digam que nós não estamos juntos nessa, nós estamos. Vocês não estão sozinhos.”

Guardiões da Galáxia Vol. 2 recebeu 1 indicação ao Oscar, na categoria de: Melhores Efeitos Visuais.

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