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Girls e a tarefa fácil que é odiar garotas

Recebida com clamor e descrença, Girls, seriado de comédia da HBO, estreou em 2012, contando a história de quatro amigas em seus vinte e tantos anos que tentam fazer a vida na cidade de Nova York. Criada por Lena Dunham, na época também em seus vinte e tantos anos, Girls quis trazer um novo tom para a TV americana. E conseguiu.

Diferente de séries irmãs que também se passam em Nova York, Girls trata de forma crua o limbo entre a adolescência – presente em Gossip Girl, por exemplo – e a vida adulta bem sucedida – presente em Sex and the City.

Somos apresentadas a quatro garotas: Hannah Horvath (Lena Dunham), uma aspirante a escritora que é obrigada a se sustentar depois que seus pais decidem cortar seu apoio financeiro; Marnie Michaels (Allison Williams), uma assistente de galeria de arte que no fundo quer ser cantora; Jessa Johansson (Jemima Kirke), meio boêmia, meio viajante, estudante de filosofia; e Shoshanna Shapiro (Zosia Mamet), aparentemente inocente, alegre e viciada em séries.

Em suas cinco temporadas (a sexta, que estreia em 2017, será a última), o seriado teve seus altos e baixos e sofreu críticas de todos os lados. A primeira delas foi rápida e certa: a falta de personagens negros em um elenco lavado a Vanish – uma crítica real e extremamente válida, que, a mim, também lavada a Vanish não cabe arguir muito menos discursar. Junto à crítica, levantou-se uma outra questão: Girls é um seriado racista ou a TV americana, no geral, é racista e sexista?

Aceitar que um seriado ambientado em Nova York seja retratado de uma forma tão branca é impossível, mas estendo a análise um pouco mais além: seus colegas de comédia, criados por homens, How I Met Your Mother ou Two and Half Men, sofreram as mesmas rápidas críticas? Não sei, e, de novo, não me cabe arguir. Ainda assim, é um fato que Girls foi criado por uma garota de vinte e cinco anos e é um fato que é muito mais fácil cobrar de uma garota. Difícil parece ser cobrar essa mesma posição dos gigantes – homens, brancos e ricos – de Hollywood.

Hannah Horvath (Lena Dunham)

“Qualquer coisa maldosa que alguém pensar em dizer sobre mim eu já disse a mim mesma, sobre mim, provavelmente na última meia hora” – Hannah Horvath (Lena Dunham)

Uma outra problematização foi dirigida para a própria criadora do seriado: Lena Dunham já se enfiou em um punhado, e até um pouco mais, de polêmicas, a mais recente envolvendo denúncias de que teria molestado sua irmã mais nova. As controvérsias, aqui, começaram depois que a autora e diretora lançou seu livro de memórias e a imprensa estadunidense rebelou-se contra ela.

Algumas dessas críticas também envolvem apropriação cultural e declarações esquisitas, mas a principal delas ainda é direcionada às constantes cenas de nudez proporcionadas por Lena no seriado – nudez essa que deve incomodar, já que Dunham está um tanto quanto fora dos padrões e não pede desculpas.

Como telespectadora e longe de ser uma fã da pessoa Lena Dunham, não posso e jamais poria minha mão no fogo por todas essas acusações, que recebo com um toque de indiferença que aprendi a cultivar perante críticas direcionadas a mulheres na mídia. Às vezes dá um pouco de preguiça de ler de novo (e de novo) sobre como mulheres e meninas são as culpadas por tudo o que há de errado no mundo. Vadias, vagabundas, fúteis, velhas e bruxas, vocês sabem. Ainda assim, fã de Lena não posso dizer que sou.

Jessa Johansson (Jemima Kirke)

“Não gosto quando mulheres dizem a outras mulheres o que fazer, como fazer ou quando fazer” Jessa Johansson (Jemima Kirke)

No entanto, nenhuma de suas críticas foi tão gritante quando a dirigida para as próprias personagens da trama. Classificadas como irritantes, egoístas, sem noção, dramáticas, estúpidas e mais uma infinita lista quase sempre só usada na hora de caracterizar personagens mulheres, a série sofre com feedbacks ácidos como um reflexo do que as pessoas (não) esperam das moças.

Hannah, Jessa, Shoshanna e Marnie erram, falam bobagem, fazem bobagem, têm atitudes impulsivas, e vez e outra agem como specials snowflakes (floquinhos de neve especiais) ou donas da razão do mundo. Às vezes, de fato, elas irritam, mas não mais do que uma penca de gente real daqui de fora ou de personagens homens de dentro das telinhas. Odiar as quatro amigas por serem humanas não parece a solução pra um conflito muito mais enraizado. Admitir que é muito fácil odiá-las, sim.

É muito fácil odiar Hannah por ela se achar especial, injustiçada ou desajustada – uma cabeça muito preciosa que as pessoas simplesmente não conseguem entender. As atitudes egoístas de Hannah são condenadas com afinco. Difícil é odiar Sheldon Cooper (Jim Parsons) pelos mesmos motivos: ele é especial por ser nerd, estudado e saber como usar uma vírgula, é engraçado porque é egoísta (that’s my spot). Sheldon ganha camisetas no mundo real, Hannah não.

Também é simples odiar Jessa por ela transar com quem quer, falar o que quer, fazer umas escolhas erradas e cair, eventualmente, de volta à tentação da dependência química. Jessa é péssima porque se coloca em primeiro lugar e acha que as pessoas a odeiam por ela ter um “bom cabelo e uma bunda bonita”. Complicado, porém, parece ser odiar Tony Stark que é convicto em se achar o dono do mundo, ou odiar Joey Tribbiani (Matt LeBlanc) por ser, muitas vezes, otário com as mulheres e mais ainda ser um muleque transante.

Shoshanna Shapiro (Zosia Mamet)

“Todo mundo é uma vadia burra” – Shoshanna Shapiro (Zosia Mamet)

Odiar Shoshanna por ser ingênua, acreditar no amor, não saber direito o que está fazendo, e ser intoxicada por filmes e séries que a disseram que o mundo era assim, é, novamente, algo fácil. Shoshanna bem que poderia ser Ted Mosby (Josh Radnor), mas sem as lamúrias e a autopiedade do colega de comédia.

Ainda assim, não há garota da série que tenha sofrido mais críticas do que Marnie Michaels. Marnie é, pro mundo, egoísta e irritante. Acredita piamente que é a melhor amiga que alguém pode ter e passa tempo demais pensando sobre como as coisas simplesmente não dão certo pra ela. Marnie é impulsiva no sentido vergonha alheia da coisa. Paga mico atrás de mico, e parece fumar ingenuidade quando casa-se com um baita de um bosta – e é claro que a coisa não dá certo. Está longe de ser perfeita, além de agir com egocentrismo em 80% do tempo.

Contudo, ela coloca sobre si uma pressão imensurável, que a tira do prumo e faz com que no fim do dia tudo o que sinta seja insegurança. As críticas dirigidas à Marnie – uma retratação muito mais humana do que é ser uma garota nos seus vinte e tantos anos do que jamais foi Blair Waldorf (Leighton Meester) ou Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), talvez seja a condensação das críticas do que é ser garota nos dias de hoje. É muito mais fácil tirar alguém pra bode expiatório do que admitir que tá todo mundo mal, e que pra nós, mulheres, a coisa é bem pior.

Marnie Michaels (Allison Williams)

“Às vezes estar dentro da minha cabeça é tão exaustivo que tenho vontade de chorar” – Marnie Michaels (Allison Williams)

Por mais que Marnie ou as outras garotas ajam com their head far up their ass chatice e imaturidade, não faço muito esforço para ignorar as críticas dirigidas às personagens. Especialmente quando, em comparação, elas possuem traços de personalidades idênticos ao de colegas (homens) muito adorados e idolatrados no mundão da cultura pop. Traçar um paralelo entre as garotas de Girls e Outros Personagens é perceber que, enquanto as garotas são rechaçadas por suas características e traços de personalidade, eles são adorados, fofos e apaixonados (seja por algo ou alguém).

Ironicamente e talvez pra calar a boca dos haters, os melhores episódios de Girls partiram da perspectiva das duas mais criticadas garotas da série. “The Panic in the Central Park”, o sexto episódio da quinta temporada, é quase em todo pela visão de Marnie, que reencontra um ex-namorado e mais tarde descobre que agora ele é dependente químico. Nesse episódio algum tipo de epifania parece ocorrer e a redoma em que a Marnie vive se quebra e ela cai na realidade. Já a season finale da quinta temporada, “I Love You Baby”, também entrega um trabalho espetacular, quando Hannah engole o orgulho, talvez pela primeira vez em toda a série, e aceita o relacionamento da amiga e do ex-namorado.

A quinta temporada foi, de longe, a melhor temporada de Girls. Muito disso tem a ver com o fato de que aqui, realmente, há uma transição palpável entre “as garotas que não sabem muito bem o que estão fazendo” e “talvez elas saibam o que estão fazendo, no final das contas”. O nome disso, quem sabe, seja crescer. E, talvez, essa transição ser retratada da forma que deve ocorrer – detestável e adorável em medidas quase proporcionais –, dê um pouco de crédito à personagens muito mais reais do que os que estamos acostumados a assistir.

Não nos cabe, então, criticar as garotas de Girls. Afinal, de verdade, quem nunca?

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5 Comentários

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    Lore
    15 de agosto de 2016 at 16:13

    Nossa, amei esse texto <3 Nunca curti muito Girls porque não faz meu tipo de série, mas é inegável que a crítica é meio pesada demais. Tipo "ah, não é realista, elas são chatas" wtf? Personagens femininas têm direito de serem chatas, mimadas ou algo do tipo. Se fosse uma série de homens de humanas tentanod pagar as contas ninguém ia achar nada demais. Às vezes me parece que a nossa mania de problematização atinge muito mais as mulheres que estão tentando, aidna que não 100%, mudar os paradigmas culturais. Enquanto isso, uma série "de homem" pode fazer a bosta que for e todo mundo vai achar normal. Aquela coisa de nunca ser feminista o suficiente, sabe?

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      Ana Vieira
      26 de agosto de 2016 at 18:49

      Lore, tu tens toda a razão. Eu detesto essa mania de odiar personagem só porque elas não são perfeitas. Eu detesto personagens preto no branco, branco no preto, e é por isso que defendo com afinco uma lista de mulheres geralmente odiadas pelo povo.
      E eu não tenho duvida quanto a isso. Enquanto um cara branco falando que apoia o feminismo é endeusado o tempo inteiro, mulheres que sofrem um processo de desconstrução mas fazem isso de forma verbal são tiradas pra… Exageradas? Ou hipócritas, porque deuzolivre alguém mudar um discurso, né? Especialmente se essa pessoa for mulher. Enfim, concordo contigo, haha.
      Beijo! <3

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    kamii
    19 de agosto de 2016 at 16:10

    Eu só assisti a primeira temporada, e de fato fiquei meio de nariz torcido com a Hannah e seu complexo de special snowflake mas isso é algo que sempre me irrita nas pessoas na vida real também. E fiquei com vontade de ir adiante e assisitir as outras temporadas.
    Adorei a comparação com os personagens masculinos, achei muito real, é muito mais “fácil” não gostar de uma mulher, mas o gênero da série também influencia, a comédia faz com que os defeitos dos personagens sejam suavizados, por exemplo a Penny dormir com vários caras não fazia dela uma personagem criticável (mas que com certeza foi criticada, porque afinal, é mulher, enquanto duvido que já tenham criticado o Joe)

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      Ana Vieira
      26 de agosto de 2016 at 18:53

      Realmente, Kamii, e é por isso que nem toda comédia passa de bom grado na minha TV. Esse suavizar nem sempre dá certo e tem personagem que eu odeio até não poder mais, hahaha. No fim do dia eu não acho que Girls seja TÃO comédia assim, acho que é um tipo de dramédia (?), meio satirizada também. Tem cenas que não dá pra crer na vergonha alheia, mas ao mesmo tempo não consigo descartar a possibilidade de alguém, ao redor desse mundão, ter feito algo tão ridículo quanto.
      Eu diria que no geral é um saldo positivo, mas logo aviso que a segunda temporada é a que eu acho pior, mas creio que nessa reta finala Lena consiga elevar muito o nível da série, visto que a S5 foi ótima.
      Beijo!

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    Luisa Winter Pereira
    14 de Maio de 2017 at 23:49

    Achei sua crítica muito interessante e completa!

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