LITERATURA

#Girlboss: Uma mulher no mundo dos negócios

A história de Sophia Amoruso não é exatamente o que se pode chamar de novidade, mas surpreende por se parecer com algo que poderia ter saído diretamente das telas do cinema: sem nenhuma perspectiva para o futuro, uma jovem de vinte e poucos anos cria uma loja no eBay para vender roupas vintage e de repente, não mais que de repente, vê seu pequeno empreendimento se transformar num império multimilionário. Em #Girlboss, livro lançado em 2015 pela Editora Seoman, Sophia conta sua história, ao mesmo tempo que, entre dicas e conversas motivacionais, esclarece que entre o conto de fadas vendido pela mídia e a realidade existem muito mais nuances do que acredita nossa vã filosofia.

Sophia nasceu em 1984 e como muitas mulheres ao redor do mundo, nunca se sentiu verdadeiramente contemplada por aquilo que a sociedade pregava como “o caminho certo”. Sophia não se dava bem na escola, não tinha a menor intenção de ir para uma faculdade – embora tenha tentado cursar uma faculdade comunitária – e sequer se pensava em casar e ter filhos ou manter um emprego tradicional. Diagnosticada com déficit de atenção e depressão durante o ensino médio, ela nunca acreditou que essas eram as razões responsáveis por alimentar sua raiva pelo sistema educacional norte-americano, baseado em padrões que ela nunca desejou cumprir. Assim, Sophia foi atrás de suas próprias aspirações quando, aproveitando o divórcio dos pais, decidiu sair de casa para se virar sozinha em 2001.

Sua trajetória, a partir de então, foi marcada por alguns altos e outros baixos até que Sophia se transformasse na pessoa que conheceríamos alguns anos mais tarde: o rosto de sua própria marca, um nome de peso no mundo do varejo de moda, etc etc. Antes de se tornar dona do próprio negócio, no entanto, ela trabalhou em diversos lugares por pouquíssimo tempo – uma consequência por não se encaixar em lugar algum, como ela faz questão de frisar ao longo do livro – e viveu experiências das quais nem sempre são sinônimo de orgulho. Sua primeira venda, por exemplo, foi um livro roubado pela própria Sophia, que costumava cometer pequenos delitos até o dia que foi pega pelo segurança de um supermercado.

“Acabei aceitando o fato de que viver livremente não significava necessariamente viver bem e que havia certas verdades que eu tinha que aceitar. Eu estava começando a perceber que eu queria coisas boas e gostava delas, e se roubar não me permitiria tê-las, eu teria que tentar fazer algo quase convencional demais para mim – arrumar mais um emprego.” (p.100)

Embora seja uma mulher branca da classe média privilegiada do país em que nasceu e vive até hoje, o que automaticamente a exclui do alvo de infinitas opressões vividas por mulheres que compõe grupos minoritários, sua jornada no mundo dos negócios sempre foi cercada por certa condescendência por parte daqueles que não eram capazes de enxergar na figura de Sophia uma mulher capaz de ser dona não apenas do próprio negócio, mas de um negócio estimado em cerca de 100 milhões de dólares a época em que #Girlboss foi publicado. Ao procurar possíveis investidores para sua marca, Sophia esbarrou na incredulidade de muitos homens, que não achavam possível que uma garota sem qualquer preparo ou conhecimento prévio a respeito do universo que, sem qualquer pretensão, acabou se inserindo (no caso, o mundo dos negócios), pudesse crescer daquela forma e ser dona de um empreendimento capaz de mover tanto dinheiro. Isso fez com que, por bastante tempo, Sophia hesitasse em incluir investidores no seu negócio, pessoas que não tinham qualquer comprometimento com a Nasty Gal ou com o que sua marca representava, apenas desejavam uma participação nos lucros gerados por ela sendo que, para Sophia, era fundamental cuidar do negócio com cautela, tratando seus consumidores da melhor forma possível, sempre em primeiro lugar.

“Quando você cuida das coisas pequenas, fica satisfeito em ver que as coisas grandes costumam acontecer com muito mais facilidade.” (p.113)

Desde o início, Sophia tem para si a crença de que, embora não acredite em sorte, ela acredita em mágica, e é a essa mágica que ela atribui o seu sucesso. A mágica, contudo, não diz respeito a algo idealizado, fantástico e com os dois pés fora da realidade. A mágica, segundo Sophia, está na atividade cotidiana de fazer as coisas acontecerem por nós mesmas ao invés de esperar que as coisas que queremos simplesmente caiam na nossa frente vindas do céu ou de qualquer outro lugar. Ainda que, ao conceber a Nasty Gal, a intenção dela não fosse em nada parecido com o lugar onde de fato chegou, Sophia reconhece que cada pequena escolha que ela fez pelo caminho foi determinante para levá-la ao lugar em que está hoje e que, por mais que ela não estivesse inteiramente consciente disso, nada em sua vida foi consequência do acaso.

E não foi mesmo. Ao longo de sua jornada, Sophia passou por várias provações, não apenas para provar o valor da sua marca, mas para se estabelecer como uma referência, antes de mais nada. Ainda sobre sua época de eBay, Sophia conta que a rivalidade entre as vendedoras era enorme e que muitas vezes, outras mulheres, ao ver sua loja se destacar perante as demais, buscavam formas de barrar o crescimento de Sophia e impedir que ela colhesse os frutos daquilo que era uma consequência direta de seus esforços e dedicação. Ainda que tenha feito algumas amigas nessa época, é triste pensar que a maior parte dessas mulheres hoje sequer mantém contato com Sophia e que as relações estabelecidas ali muitas vezes não vingaram pelo sentimento de competição existente entre elas que, embora velado, sempre esteve presente.

Embora muitos de seus discursos se tornem problemáticos por serem pautados por ideais meritocráticos – você é o criador de suas oportunidades, trabalhe duro e chegará onde quiser, tudo depende dos seus esforços, yada yada yada –, no entanto, Sophia não se coloca como a dona da verdade, muito menos como um exemplo a ser seguido, mas usa aquilo que aprendeu para fazer com que outras mulheres possam ir em busca dos próprios sonhos e objetivos, e levantar a bunda do sofá para que as coisas de fato comecem a acontecer. Contudo, é impossível não pensar, durante a leitura, que sendo uma mulher branca, hétero e magra, vinda de uma classe média privilegiada, Sophia mantém uma vantagem social perante outras mulheres – negras, pobres, latinas, lésbicas, etc etc – e sua visão exclui, assim como a própria meritocracia, as nuances existentes aí. O discurso sobre levantar a bunda do sofá e fazer as coisas acontecerem é, de fato, muito inspirador, mas esbarra na realidade ímpar de tantas mulheres que desejam ter o próprio império nas mãos, mas precisam enfrentar muito mais obstáculos pelo simples fato de ser quem são.

“A vida não para pra ninguém, então prossiga. Fique acordada e fique viva. Não existe Corretor Automático na vida – pense antes de enviar mensagens ao universo. Quebrar as regras só por diversão é fácil demais – o verdadeiro desafio está em aperfeiçoar a arte de saber que regras aceitar e quais reescrever. Quanto mais você experimentar, enfrentar riscos e errar, mais poderá se conhecer, mais poderá conhecer o mundo, e mais focada estará.” (p. 243)

Isso não significa, de modo algum, que os feitos de Sophia não devam ser exaltados, muito pelo contrário. O fato de ser mulher, por si só, inserida em um universo – no caso, o varejo de moda – que, embora destinado ao público feminino, se mantém dominado por homens de terno e gravata, transforma sua história em uma narrativa digna de ser contada, e seus feitos dignos de reconhecimento. Não por acaso, a história contada em #Girlboss dará origem a uma nova série da Netflix, que acompanhará a trajetória de Sophia como empreendedora, seus altos, baixos e tudo mais no meio do caminho. Em um mundo ideal, no entanto, Sophia não seria a exceção à regra, mas uma das muitas mulheres complexas e diversas capazes de segurar um império nas próprias mãos. Sua história é um importante lembrete de que lugar de mulher é onde ela quiser, mas é, acima de tudo, um lembrete de que ainda temos um longo caminho a percorrer com o feminismo e que, muito mais do que mulheres conquistando lugares antes dominados pelos homens, precisamos de mulheres com diferentes vivências inseridas e tendo voz dentro desses mesmos ambientes.

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