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Gilmore Girls em linhas gerais

Where they lead, I will follow. Sempre que me pedem recomendações de séries para assistir, Gilmore Girls está entre as minhas sugestões. As pessoas que eu conheço devem, provavelmente, estar fartas da minha insistência em convencê-las a assistir a série, e também de ouvir as tantas referências a ela que eu faço. Em minha defesa, é muito fácil a rotina te lembrar de um episódio, uma cena ou uma fala, porque Gilmore Girls cobre situações cotidianas de uma forma original e isso acaba se tornando aguçado na visão da realidade.

Considerada hoje um clássico dos seriados, Gilmore Girls conquistou uma multidão fiel de fãs nos sete anos em que esteve no ar e nos nove anos que seguiram o seu cancelamento. Mais uma geração de fãs surgiu após a chegada da série ao catálogo americano da Netflix, o que garantiu, pela mesma plataforma, a chance de um revival para a série. Uma notícia que fez a internet inteira comemorar.

A sinopse apresenta a série a partir do relacionamento de mãe e filha de Lorelai e Rory Gilmore. Lorelai engravidou aos dezesseis anos, e um ano depois de ter a Rory, ela se mudou para Stars Hollow contrariando todos os planos que seus pais tinham para ela, para a viver com a independência que sempre quis. Ela começou a trabalhar na pousada local, Independent Inn, onde evoluiu até se tornar gerente e onde teve as primeiras aspirações em abrir sua própria pousada. Rory, com dezesseis anos, é uma menina doce e inteligente cujo sonho é entrar para a Universidade de Harvard e se tornar jornalista. Elas vivem em perfeita sintonia, e compartilham, além dos olhos azuis, o gosto por café, filmes e música.

No entanto, não é apenas da mútua companhia que elas vivem, e o relacionamento com outros personagens da série enriquece o enredo e abre margem para acompanhar a evolução delas em diversos âmbitos. Sookie St. James e Lane Kim são essenciais à Lorelai e Rory, respectivamente, no que diz respeito à formação do vínculo de amizade que transcende qualquer circustância. Enquanto isso, Luke Danes, dono da melhor lanchonete da cidade, fornece café e um apoio imprescindível para as garotas Gilmore desde que elas se instalaram ali. Dean Forester e Max Medina, são os parceiros que cruzam a vida delas; Dean introduzindo Rory às descobertas do primeiro relacionamento e Max tentando dar estabilidade para Lorelai. São temas simples, e universais, mas…

Existe um conceito muito forte e completamente equivocado de que Gilmore Girls é uma série para mulheres, fortalecendo o senso de que qualquer obra direcionada a nós faz parte de um nicho. Portanto, homens em sua maioria não se dignam a assisti-la pela impressão de que o enredo é essencialmente voltado para o público feminino e, por consequência, entediante. É uma triste que constatação que fiz de acordo com a minha experiência. Contudo, tento com todo afinco desmistificar esse senso comum, e repito quantas vezes forem necessárias que Gilmore Girls não é uma série para mulheres, mas sobre mulheres. E mudar a preposição faz toda a diferença.

Quando Amy Sherman-Palladino, a criadora, se reuniu com os responsáveis da Warner Bros. para tentar vender uma de suas ideias, por impulso ela disse que pensava numa série sobre uma mãe e uma filha que eram mais como melhores amigas do que mãe e filha. A emissora comprou essa ideia, e sem fazer a menor ideia do que tinha acabado de vender, Amy dedicou um fim de semana inteiro para construir o enredo de forma mais elaborada e escrever um roteiro completo. A ideia inicial, o relacionamento entre mãe e filha, acabou sendo apenas uma das camadas da série, que aborda também vários aspectos da vida de todos os personagens, não apenas das protagonistas. Isso porque a dinâmica da série é baseada nas vivências pessoais, profissionais e acadêmicas, e no amadurecimento que as pessoas alcançam ao atravessar as fases das suas vidas. Isso não se limita somente a personagem x e y; todos vão evoluindo em ritmos diferentes, com focos diferentes, dentro de contextos diferentes e é incrível acompanhar todas as histórias que são narradas em maior ou menor grau.

São várias questões que acompanhamos em Gilmore Girls: questões familiares, questões pessoais e questões amorosas. Tudo que faz parte da vida de qualquer ser humano comum. Lorelai, apesar de ter um ótimo relacionamento com a Rory, tem um relacionamento bem turbulento com seus pais, Emily e Richard, que tinham grandes expectativas para ela dentro de sua vida tradicional na alta sociedade que não correspondia com as vontades da Lorelai. Em outro lado, Lane Kim, a melhor amiga da Rory, passa boa parte do tempo escondendo da mãe sua verdadeira personalidade e seus gostos por ter crescido em uma família rigidamente religiosa onde não há diálogo. Ou ainda, Jess Mariano, o segundo namorado da Rory, que é tido como o bad boy da série, tem essa personalidade fechada e rebelde, por ser incompreendido e considerado o garoto-problema o tempo todo, sem que as pessoas que o julgam ao menos considere a raiz do problema dele, que muito tem a ver com problemas familiares e pessoais também. Em paralelo, Lorelai, Rory e outros personagens secundários precisam muitas vezes lidar com eles próprios quando se trata da própria vida. Eles são humanas, e às vezes erram e persistem no erro. Mas viver é assim: a gente precisa quebrar a cara para aprender, tomar novos caminhos e continuar seguindo em frente até nos descobrirmos felizes com as nossas escolhas – e, como bem sabemos por experiência, não é fácil fazê-las.

O charme da série, que a torna atemporal do jeito que é, é o alto nível de identificação que o público tem para com a série. Isso, e o fato de ninguém na indústria – nem mesmo a própria Amy – ter sido capaz de reproduzir a ideia de uma série que foca pura e simplesmente na trajetória dos personagens com tanta originalidade e um toque atraente de influência da cultura pop.

À exceção de uma ou outra pessoa que deslancha na carreira, a maioria de nós precisa investir muita dedicação para chegar onde queremos, sofrendo com questionamentos uma vez ou outra, e mudando a direção do caminho conforme vamos descobrindo quem somos e o que queremos. É isso que Gilmore Girls mostra ao longo de suas sete temporadas.

Tudo bem que boa parte do elenco é feminino – quero dizer, ainda bem que a maior parte do elenco é feminino – precisamos mesmo de programas de TV que nos represente como somos, que sirva de exemplo para os outros e não seja visto como parte de um nicho. Gilmore Girls apresenta o oposto do que estamos acostumados a ver: simplicidade no enredo e no cenário, mas grandiosidade nas lições; mulheres na tela e nos bastidores, e um punhado de figuras masculinas que também são ótimas representações para os homens da vida real.

Gilmore Girls pode não ter conflitos em que há um mocinho e um vilão e um lugar que precise ser salvo, também pode não ter plot twists que vão explodir seu cérebro e te deixar embasbacado com o quanto a fantasia é um universo incrível em que seria o máximo viver. Gilmore Girls é a série que vai te mostrar que a sua maior batalha é alcançar os objetivos da sua própria vida, e te ensinar que os problemas causados podem ser resolvidos, e está tudo bem não se superar em tudo que você se propõe a fazer. O essencial é você saber de si e daqueles que fazem parte da sua vida, mesmo que as visões de mundo sejam meio tortas e incompatíveis. O laço que une – família, amizade, amor – é o que deve guiar qualquer decisão.

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8 Comentários

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    Nay
    11 de maio de 2016 at 09:12

    Eu acabei de maratonar as sete temporadas da série e ainda to meio emocionada e mexida com tudo. Assistia durante a adolescência mas não da forma como vi dessa vez, porque era sempre de uma forma bastante aleatória. Não tenho nada a dizer sobre o texto a não ser que ele está maravilhoso e a altura da beleza que é Gilmore Girls! Agora só nos resta esperar pelo revival para reviver todos esses sentimentos mais uma vez!

    PS: Quero morar em Stars Hollow! =)
    PS2: Sou #TeamLogan forever! rsrsrs

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      Yuu
      11 de maio de 2016 at 16:35

      Assistir Gilmore Girls na ordem faz muita diferença, o impacto da evolução delas em cada etapa da série é bem maior. Que bom que gostou do texto! Estou contando os dias para o revival. ♥
      P.S: Somos duas! Que tal montarmos uma caravana e irmos todas pra lá?
      P.S. 2: Sou Team Dean (apesar de enxergar os defeitos dele), mas gosto do Jess e do Logan também. Os três cumpriram um papel importante em cada fase da Rory. 🙂

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    Monique Químbely
    11 de maio de 2016 at 19:12

    Tô terminando primeira temporada de Gilmore Girls (tinha parado (!) mas daí com a notícia da nova temporada voltei logo a assistir) e costumo dizer que cada episódio é uma sessão de terapia. Acho maravilhosa a relação de Lorelai e Rory, os diálogos são também preciosíssimos, e o cotidiano como tema principal chega ser uma atitude ousada da criadora quando o que mais nos deixa desesperadas por ver um próximo episódio nas séries são os seus cliffhangers.
    Abraço!

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      Yuu
      11 de maio de 2016 at 19:48

      E é, Monique! Os episódios de GG sempre fazem eu me sentir melhor, qualquer que seja a situação em que me encontro. E os diálogos inteligentes e dinâmicos também fazem parte dos diferenciais da série. A Amy fez um ótimo trabalho tornando os pequenos detalhes do cotidiano em enredos interessantíssimos.
      Beijinhos!

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    yasnaya
    12 de maio de 2016 at 12:07

    Amo Amo Amo ♥
    Deuss como faz tempo, tô me programando pra assistir de novo.
    Falo que acompanhei essa série e ela me acompanhou também, aprendi muito sobre relacionamentos.
    Toda vez que me estresso eu lembro da Lorelai e sua mania de ir lavar os pratos durante/após uma discussão 🙂 Eu tenho é vontade de quebrarrr

    Sdds Sdds

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      Yuu
      13 de maio de 2016 at 01:36

      Sim, sim e sim! Lembro muito da Lorelai lavando os pratos na casa da Emily logo no episódio piloto, mas acho que o hábito mais forte dela em momentos de crise ainda é fazer uma jarra fresquinha de café!

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    Camila
    15 de maio de 2016 at 00:47

    É a primeira vez que entro no site e já dou de cara com um texto MARAVILHOSO desses. <3
    Voltei a assistir recentemente, e é uma lição a cada episódio. Na minha roda de amigos sempre desdenharam ou desmereceram a carga importante que a série passa por "ser de mulherzinha" ou "para mulherzinhas". Vou recomendar seu texto não para convertê-los a assistirem (porque gosto é gosto no fim das contas) mas para entenderem que "de mulherzinha" não é supérfluo assim. 😉

    AMEI seu post, menina!

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      Yuu
      15 de maio de 2016 at 00:56

      Camila, fico imensamente feliz que você tenha gostado do texto! Nesses seis anos que eu sou fã da série ouvi mais desmerecimentos do que eu gostaria, principalmente vindos do público masculino. Por isso senti necessidade de escrever esse texto, para mostrar que Gilmore Girls é mais complexa do que aparenta e pode sim agradar a um público mais diverso. Gosto é gosto, mas pelo menos deixei minha contribuição aqui. 🙂
      Bem-vinda ao site e, por favor, volte sempre! ♥

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