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Mesa Redonda: A gente não consegue parar de falar sobre Justiça

Mês passado a Rede Globo lançou a minissérie Justiça. Criada por Manuela Dias, a série aposta num formato inovador para o canal, onde a cada dia da semana é focado na história de um personagem diferente, num microcosmo baseado numa Recife em que todos estão mais ou menos interligados. Numa mesma noite, quatro crimes são cometidos e quatro pessoas são presas. Se a prisão foi justa, se o crime se justifica e como cada protagonista vai correr atrás da própria justiça, isso fica por conta do desenrolar da trama.

Já falamos aqui sobre como o conceito de male gaze pode ser observado na trama de Isabela, personagem de Marina Ruy Barbosa, assassinada no primeiro capítulo. Hoje, nos reunimos para conversar sobre impressões gerais da série até agora: o que ela promete, o que ela já entregou, o que gostamos, o que não gostamos, e o que esperamos do desfecho, agora que a série se encaminha para o final.

Observação: a conversa aconteceu no dia 8 de setembro, de modo que nossos comentários se limitam aos acontecimentos até essa data. E, claro, o texto contém spoilers.

Além de Analu Bussular e Anna Vitória Rocha, colaboradoras habituais do site, também participou do bate-papo a Luisa Pinheiro, nossa convidada. Luisa Pinheiro, 25, jornalista maranhense, atualmente moradora de São Paulo. Gosto de livros em espanhol e de cozinhar quiche. Poderia dizer que minha série preferida é Mad Men, mas todo mundo sabe que é Grey’s Anatomy. E-mailNewsletterSkoob.

ANNA VITÓRIA: Estamos aqui reunidas para debater a minissérie global Justiça, que começou muito bem, mas logo foi corrompida pelo incrível fenômeno Globo-fazendo-globices, como disse Taryne Zottino, aqui conosco em pensamento. Vamos começar com primeiras impressões?

LUISA: Achei os primeiros episódios muito bons, provavelmente porque eram o trailer aumentado… menos o de sexta-feira, nunca gostei da execução do plot da bailarina [Beatriz, interpretada pela Marjorie Estiano].

ANALU: Também não gostei. Já emburrei de cara com o premissa chupinhada de Como Eu Era Antes de Você [eutanásia], que nem esfriou no caixão ainda. Ok que “nada se cria tudo se copia”, mas o filme é desse ano, dava pra esperar.

LUISA: Acho que renderia até… pra uma versão brasileira onde nem se discute eutanásia.

ANNA VITÓRIA: Teve esse primeiro episódio, mas esse nem é o plot, né? No fim é sobre o Maurício (Cauã Reymond) se vingando do cara que atropelou a Beatriz. Esse é o meu problema com a série: eles vendem uma história e entregam outra.

LUISA: Verdade, Anna. Venderam outra coisa. Acho que quiseram que a gente acreditasse no amor entre Maurício e Beatriz, mas pra mim não rolou. Cauã Reymond não tá convencendo.

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ANALU: Eu não fui nada convencida pelo amor dos dois. Eu fiquei de cara com a história de quinta, que a justiça não tem nada a ver com a história da Rose (Jéssica Ellen) ter sido presa. Eu achei que sempre teria a ver.

ANNA VITÓRIA: Pra mim parece que a ideia foi pegar temáticas ~atuais~ [racismo, estupro, violência de gênero, eutanásia, prostituição] pra chamar atenção das pessoas e parecer inovador.

ANALU: Uma coisa que eu achei interessante, mas que talvez tivesse que ter sido mais enfatizada, de forma DIDÁTICA mesmo, é a história de que não é a maconha que é criminalizada, o que é criminalizado é a pobreza. E ser negro, claro, porque os brancos não foram nem revistados e quem liga pra branco andando por aí com maconha?

LUISA: Talvez uma coisa muito didática poderia ser meio chata. Vi Aquarius ontem – e vai ser impossível não comparar, pois Recife – e tinha horas que a Clara (Sonia Braga) era didática demaisssssss nos discursos.

ANALU: Mas uma coisa é ser chato pra gente, outra coisa é pensar que a maioria dos espectadores não tá nessa mesma bolha ideológica e precisa ser ensinada, precisa ouvir umas verdades, nem que elas tenham que ser exageradamente pontuadas.

LUISA: Falo do que eu gostaria de ver na Globo, mas na verdade não custaria escancarar essa verdade, a Globo precisa fazer isso mesmo, concordo.

ANNA VITÓRIA: Mas, no fim das contas, a prisão da Rose foi um nada, né? Isso mal foi explorado, nem dá pra dizer que foi plot device, acho que só colocaram ela ali como um falso protagonismo – o que, simbolicamente, é horrível. Pra mim essa história de quinta é apelação pura. Eles pegaram temas em alta pra chamar atenção, não pesquisaram nada, fizeram uma lambança e até agora não sei o que tá acontecendo.

Foi falar de droga, mas falou pela metade; falou de racismo, mas falou pela metade; falou de estupro e teve um capítulo inteiro concentrado na Débora (Luisa Arraes) querendo que o marido [Marcelo, interpretado por Igor Angelkorte] vingasse a honra dela (socorro) e a representação do estuprador como um tarado maníaco. Só desserviço.

LUISA: Eu nem entendo esse casamento. Rose falou pra amiga “achei que você estaria casada com filhos”. Gente, menos, a Débora tem uns 25-27 anos, né?

ANALU: O plot de quinta realmente é uma lambança. Esse casamento: eles vivem com problemas, claramente não se entendem, e o Marcelo quer resolver tudo adotando um filho. Me deu nos nervos.

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LUISA: Vocês estão gostando de alguma trama?

ANNA VITÓRIA: Eu gosto da Fátima (Adriana Esteves), mas já não sei mais pra onde a história tá indo.

LUISA: Eu também gosto e também não sei pra onde está indo. Mas me incomoda que ela seja 100% perfeita? Eu acho massa que todos sejam ambíguos, queria que Fátima se igualasse aos outros em algum momento. Vocês acham ela ambígua?

ANNA VITÓRIA: Não acho que ela seja moralmente ambígua, mas acredito nela. Existem pessoas assim.

ANALU: Também acredito nela.

LUISA: Não queria que ela fosse a boazinha da série, queria tretas, hahaha.

ANNA VITÓRIA: Não acho que ela seja boazinha ingênua, acho que é ela é uma pessoa que cresceu resignada, acreditando que cada um tem seu espaço no mundo, esse é o dela, e o melhor que ela pode fazer é trabalhar.

LUISA: Faz sentido mesmo ela ser essa pessoa. Aquele discurso dela pra Jesus foi massa, Fátima arrasa como mãe.

ANNA VITÓRIA: Mas odeio o fato do Douglas (Enrique Diaz), o policial, estar se tornando um anti-herói.

ANALU: Eu estou muito puta com o rumo da história da Fátima. Douglas era um filho da puta completo, ele que fodeu com tudo, ele que soltava o cachorro, ELE QUE PLANTOU DROGA NO QUINTAL DELA!!!!!!!!!

ANNA VITÓRIA: E ELA FICA ALIMENTANDO ELE, AQUELE FOLGADO NOJENTO!!!!!!!

ANALU: E se foi ele que fez tudo isso, por que a Mayara/Suzy (Julia Dalavia) diz que quem destruiu a família deles foi a Kellen (Leandra Leal)? Mais uma forma de deixar toda a culpa nas costas de uma mulher? Enquanto Fátima vira miga do nojentão, a culpa de tudo foi da Kellen e é dela que vão decidir se vingar?

ANNA VITÓRIA: Pior que tem muita gente que acredita nisso. Conversando com pessoas sobre a série tive que ouvir que se a Kellen tivesse deixado o cachorro ficar dentro de casa nada disso teria acontecido.

LUISA: Fica a pergunta: o que Kellen fez depois? Será que é algo que eles ainda vão mostrar? A gente só viu os meninos ficando sozinhos em casa, depois eles já grandes.

ANNA VITÓRIA: Achei muito estranho a Mayara ter deixado o Jesus (Tobias Carrieres) na rua. Ela parecia ter muito cuidado com ele. Ficou confuso esse negócio de ela ter ido trabalhar pra Kellen deixando o irmão na rua…

ANALU: Ficou muito mal explicado esse lapso de sete anos na vida das crianças. O QUE de fato aconteceu e COMO aconteceu.

LUISA: Os episódios são muito confusos, escondem muita coisa, não entregam informações novas sobre o passado deles. Não funciona ver assim uma vez por semana. Eu preferiria uma releitura de Capitães da Areia [romance de Jorge Amado], com mais foco pra Jesus do que pra esse policial aí.

ANNA VITÓRIA: Sim, tem muitos gaps. A série tem premissas muito boas, mas é desenvolvida de forma porca, como se feita com pressa, sabe? Sem cuidado pra olhar a história como um todo. Se a ideia é ser realista, então esses detalhes têm que ser levados em consideração.

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ANALU: Outra coisa que me incomodou foi essa história do Heitor (Cássio Gabus Mendes) ficar convencendo a Elisa (Debora Bloch) a conversar com o Vicente (Jesuíta Barbosa) pra perdoá-lo. Por mais que ele esteja arrependido, ELE MATOU A FILHA DELA. Isso me soa mais como apelação de “tadinho do macho branco cis hetero machistinha que matou a namorada e se arrependeu, olha tadinho, ele até tentou se matar, ele é do bem, sabe” e: “VAMOS PERDOAR!!!!!111 ELE MATOU A SUA FILHA, MAS ELE SE ARREPENDEU, TÁ TUDO BEM”.

ANNA VITÓRIA: Igual em YA’s [livros young adults] têm insta-love [personagens que se apaixonam instantaneamente], em Justiça tem insta-compaixão.

LUISA: Heitor desnecessário. Uma coisa é convencer a namorada a não matar alguém, outra coisa é ir lá conversar com o assassino. Insta-compaixão total.

ANNA VITÓRIA: Aliás, como vocês veem essa história? Acham que a Elisa tá tramando uma mega vingança? Quero acreditar que ela vai fazer a Amazing Amy [personagem de Garota Exemplar] e enganar todo mundo, mas me parece pouco provável ela envolver uma criança nisso.

LUISA: Não duvido que eles [Elisa e Vicente] ainda fiquem juntos (desculpa, vi A Primeira Noite de um Homem muitas vezes). Mas talvez seja Regina (Camila Márdila) que vai se vingar deles de alguma forma, porque ela está ~perdendo~ a filha pra Elisa enquanto se mata de trabalhar, né.

ANNA VITÓRIA: Entendo ela sentir raiva da situação, mas a culpa é toda do tonto do Vicente. Ela não tem que ter raiva da mulher que teve a filha assassinada, sabe? Nossa, tá tudo errado, que bagunça.

ANALU: Tudo muito construído pra que mulher tenha raiva de mulher, que surpreendente, hehe.

ANNA VITÓRIA: Que caralhos ela teve que aceitar ser madrinha da menina [Isabela, filha de Vicente]? ONDE ISSO É NORMAL??? Uma projeção doida porque ela quer ser avó, ok, mas quer ser avó da menina que é filha do cara que matou a filha dela? Na frente dela???

LUISA: Poderiam explorar por que Regina quis casar com Vicente sabendo que ele tinha matado a ex… É uma realidade, isso acontece nas prisões, vamos discutir o assunto então?

ANALU: Esse é o problema geral da série: sugerir assuntos interessantes de ser explorados na grande mídia, MAS APENAS SUGERIR. Usa pra dar polêmica, mas não discute.

ANNA VITÓRIA: A premissa da série era discutir os conceitos de justiça e moral, né? E no fim parece que tudo se resume a desejo de vingança.

LUISA: A justiça é mais cega que a paixão? Fazer silêncio é fazer justiça? Falta de justiça tem cura? Existe justiça na vingança? São as perguntas do trailer.

ANALU: Conclusão: Justiça não está fazendo justiça ao que prometeu pra gente #tudumtss

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LUISA: O que vocês acham sobre todo mundo se conhecer mesmo? Eu achei que eles seriam bem mais figurantes nas outras histórias do que estão sendo.

ANNA VITÓRIA: Li uma entrevista com a Manuela Dias [criadora da série] que ela fala que quis explorar essa proposta de histórias interligadas e pessoas mais ou menos linkadas pra discutir como todo mundo é protagonista da própria história, mesmo que em outras apareça como coadjuvante.

LUISA: Isso é massa, mas ela não executou essa ideia. Os personagens estão invadindo outras tramas e às vezes vemos a mesma cena duas vezes desnecessariamente ou uns flashbacks esquisitos.

ANNA VITÓRIA: Isso pra mim é falta de história.

ANALU: Isso pra mim é forçar interligação. Preferia quando eles eram só figurantes nas vidas um do outro, esse negócio de todo mundo se relacionar me soa forçado demais, tipo o Celso (Vladmir Brichta) que tá envolvido em tudo. Forçadaço.

LUISA: Não é falta de história, é preguiça. A gente mencionou várias coisas que poderiam ser exploradas no lugar das cenas repetidas.

O que mais? O que a gente gosta na série? Eu gosto muito do jeito que Recife aparece, sem ficar explicando muito, naturalizando um outro cenário pra Globo. Adriana Esteves e Leandra Leal também. E a trilha sonora.

ANNA VITÓRIA: Sim, acho que é um dos pontos mais acertados. Acho que a esteticamente a série funciona muito bem [a direção artística é de José Villamarin], o que é um baita truque. Eles tentam compensar a bagunça da história com uma direção diferenciada, elenco de peso, mas mesmo assim ela não se sustenta.

LUISA: Engana as trouxas (nós).

ANNA VITÓRIA: Eu também amo a trilha sonora.

LUISA: A trilha é uma mistura de muita coisa, fica massa porque os personagens são de realidades distintas e têm vidas bem diferentes.

ANNA VITÓRIA: Ela é bem orgânica e não é óbvia, mas mesmo quando eles usam uma coisa óbvia, tipo a cena de Maurício e Beatriz com Chão de Giz – que eu ainda não superei (desculpa) – funciona tão bem que ok, vai.

LUISA: O que precisaria acontecer nos próximos episódios pra série voltar aos eixos ideais? Na minha opinião, a Regina tinha que ganhar força na história e fazer alguma coisa. Na terça, queremos informações sobre o que aconteceu com Jesus e Suzy. Na quinta, Rose de volta ao protagonismo. Na sexta algo precisa acontecer, porque essa vingança de Maurício tá muito enrolada.

ANALU: Boa. Precisamos que as causas importantes não fiquem sendo utilizadas só pra causar polêmica, sendo jogadas no ar, mas que sejam debatidas e resolvidas.

ANNA VITÓRIA: Como a Rose recuperaria o protagonismo? Porque ela continua não tendo história.

ANALU: Eu odeio que a Rose não tem o direito nem de ser protagonista da própria história!!!!!

ANNA VITÓRIA: Existe potencial pra uma coisa meio Orange Is The New Black com aquela história da amiga que continua presa, né? Mas isso foi tão de relance…

LUISA: Anna, não posso fazer todo o trabalho, deixa os roteiristas trabalharem! Se Rose continuar fazendo favor pra amiga presa, ela pode ser pega junto com a Débora e dessa vez é Débora que vai pra prisão!!!! Pronto, criei uma fanfic.

ANNA VITÓRIA: Solução pra Justiça: deletar tudo e começar de novo?

LUISA: Não precisa deletar tudo, acho que dá pra recomeçar a partir da primeira semana.

ANNA VITÓRIA:  ¯\_(ツ)_/¯

ANALU:  ¯\_(ツ)_/¯

LUISA:  ¯\_(ツ)_/¯

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2 Comentários

  • Responda
    Aline Tavares
    14 de setembro de 2016 at 09:04

    Não estou assistindo, mas algumas coisas, mesmo acompanhando de longe, me incomodaram tbm. E acabei de ler que a Elisa e o Vicente vão sofrer um acidente e ele vai morrer pq ela resolverá não chamar por socorro. Nem sei o que pensar.

  • Responda
    Deisy
    15 de setembro de 2016 at 07:46

    Nossa vcs falaram tudo!!! Eu achava que a série seria ótima pelo o que as propagandas vendiam e fiquei decepcionada. Já fiquei irritada logo na primeira semana com essa novidade de “culparem” as mulheres, Isabela tava traindo o noivo então “mereceu”, a Kellen foi quem “induziu” o Douglas a fazer o que fez porque ele era só um homem apaixonado ¬¬
    E o que fizeram com a história da Rose é sem comentários… não era uma prisão injusta, por que virou uma história de estupro? Já que era esse o tema fizessem um dia para ele!
    Mas esse é o jeito Globo de fazer as coisas, seria muito bom se eles conseguissem consertar a série antes de terminar mas acho difícil.

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