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Full House, Fuller House, o que é engraçado e porque não deveria ser

Alguém aqui cresceu nos anos 90 e nunca assistiu a nem um episódio perdido de Full House (ou Três é demais)? Se não assistiu, com certeza já ouviu falar – se não na época, pelo menos recentemente, quando a Netflix resolveu lançar o spin-off Fuller House, que, com o elenco original depois de muitos anos, brinca com a continuação da história – mas, antes de seguir tagarelando, melhor situar o leitor com algumas informações básicas.

Na história original, Danny Tanner perde sua esposa e, ao se ver sozinho com três filhas para criar, recruta seu cunhado e seu melhor amigo para morarem em sua casa e então os três passam a criar as meninas juntos. Por tudo o que escuto falar do seriado até hoje, acredito que tenha sido um sucesso na época.

Na história atual, anos se passaram, mas a fórmula se repete: dessa vez, quem ficou viúva precocemente foi DJ (antes Tanner, agora Fuller), a filha mais velha de Danny. No momento em que ela vai começar a encarar a vida sozinha com seus três meninos, sua irmã Stephanie e sua melhor amiga Kimmy resolvem que morarão com ela para ajudar. Os espectadores ficaram empolgados no início com a perspectiva de matar a saudade dos personagens da série original e ainda aproveitar uma nova ótima série de comédia. Pelo que já li e ouvi, acredito que só a primeira expectativa tem sido cumprida.

Logo que comecei a assistir ao spin-off e ler os comentários que pipocavam dizendo que a repetição da fórmula tinha tudo para dar muito certo, mas não estava dando, resolvi pensar no porquê e, não com satisfação, digo que encontrei em menos de 5 minutos: a gente aprendeu com a sociedade que três homens cuidando de crianças só tem como render algo engraçadíssimo porque eles obviamente não sabem fazer isso, enquanto três mulheres cuidando de crianças são… bem… só mais três mulheres cuidando de crianças, ué. Trivialíssimo.

Tem quem diga que o mundo está ficando politicamente correto demais quando a gente começa a questionar “até” o humor. Eu também era uma dessas pessoas, até que uma amiga me abriu os olhos alertando que o problema não é que as coisas são engraçadas, o problema é POR QUE elas são engraçadas e uma vez que a gente começa a VER, não consegue desver nunca mais.

O problema não é a gente se divertir horrores com três homens tomando conta de três crianças e não se divertir tanto com três mulheres tomando conta de três crianças. O problema é o que faz com que isso seja engraçado; o problema é a estrutura social que nos ensinou desde sempre que mulheres eram feitas para cuidar da casa e das crianças, que tinham dom, talento, instinto e genes para isso (?), enquanto homens não sabem trocar fraldas e fazer faxina. O problema é saber com quanta força essas ideias se perpetuam e o esforço que a gente tem que fazer diariamente para crescer enquanto sociedade pensante e quebrar esses paradigmas: não, as mulheres não são especiais e iluminadas e por isso sabem cuidar da casa e das crianças, elas só vêm fazendo isso mais do que os homens porque um dia foi decidido que deveria ser assim.

É indiscutível que já existiram inúmeras conquistas femininas/feministas e que a vida já é sim bem melhor que há anos atrás – o que é discutível é quem acha que somos todas malucas lutando por igualdade e direitos que aparentemente já temos (aham). Agora vou puxar rapidinho o assunto para uma questão que parece que não vai ter a ver, mas vai, tenham paciência.

Meu professor de Teoria e Crítica Literária da pós-graduação mandou que lêssemos Um mestre na periferia do capitalismo, de Roberto Schwarz. O livro é uma análise crítica e minuciosa de Memórias Póstumas de Brás Cubas e outras questões da obra da Machado de Assis. Dentro do livro, em um determinado capítulo, Roberto analisa os personagens pobres retratados na obra de Machado e, em certo momento, comenta que a vida do pobre é muito complicada porque se ele tenta lutar por algo maior na vida e sair de sua condição é visto como ridículo; já se ele nem tenta, é visto como vadio e acomodado. Deu pra fazer o paralelo com a posição da mulher? Para mim deu.

Não é de hoje que escuto e leio barbaridades por aí: ora criticando as mulheres por quererem trabalhar fora (em pleno século XXI) e ganharem o mundo, ora criticando-as por quererem ficar em casa cuidando dos filhos. Tá fácil existir, né? É por isso que a gente segue brigando e tentando quebrar paradigmas, um atrás do outro. Posso estar esperançosa demais, mas acho que se a original de Full House fosse lançada hoje, 29 anos depois do ano em que de fato foi lançada, já seria menos engraçada porque evoluímos um bocado desde então e homens trocando fraldas (felizmente!) é visto com muito mais naturalidade e menos piada. Vamos esperar ansiosas para o dia que não seja piada nenhuma.

Quanto ao humor? Bem, fica aí outro desafio enorme para a galera da criação: renovar o humor com algo que realmente tenha graça e não com algo que aprendemos erroneamente que deveria ter.

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4 Comentários

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    Lore
    16 de maio de 2016 at 11:49

    O que eu gostei de Fuller House (e, enfim, gostei do spin off em geral, no mínimo pra uma maratona de evitar as obrigações, nada mais que isso) foi justamente as mulheres. Tipo óbvio que teve várias problematizações a serem feitas, que nem você disse aí, mas gostei da vibe migas que trouxe, sabe?

    also: Ramona. uma personagem maravilhosa <3

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      Analu
      16 de maio de 2016 at 17:54

      Oi Lore! Eu achei divertidinho também, mas fiquei encucada mesmo quando comecei a ouvir todo mundo falando que a primeira versão era muito engraçada e essa não era. Também gostei da vibe justamente porque as mulheres parecem bem livres e bem resolvidas, sabe? Enfim! Também amo a Ramona!!

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    Ana Claudia
    17 de maio de 2016 at 08:02

    Nossa, nem sabia que as pessoas não tinham amado Fuller House, to chocada!
    Eu gostei muito do seriado, e sei lá, não sei se é só comigo, mas eu não consegui relacionar o humor ao fato das mulheres estarem cuidando das crianças, porque essas crianças já são super desenvolvidas, e achei que mostrava muito mais os dramas pessoais delas, e as escolhas da vida em geral. Ao contrário de Full House, que aí sim, concentra todo o humor nessa história do cuidado.
    Achei o post muito bom, e me fez parar pra pensar sobre o assunto. E é engraçado como essa ideia de quem deve cuidar da casa e dos filhos tá encrustrado na gente! Eu não conseguiria fazer essa análise toda de Full/Fuller House, simplesmente porque nem consigo enxergar essas coisas… (Agora que você falou eu vi tudo, e achei lindo!)

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      Analu
      17 de maio de 2016 at 10:44

      Oi Ana!
      Eu na verdade fiquei meio chateada quando percebi? HAHAHA
      Também acho que a série nova foca menos no cuidado e mais nos dramas pessoais. Eu gostei, mas não achei tão engraçado – mas também não sei o que eu acharia da primeira hoje em dia, já que realmente só vi episódios soltos quando era pequena, então não consigo comparar com base em mim, foi mesmo com base no que eu li por aí e ouvi as pessoas comentando 🙂
      Que bom que curtiu o texto!
      Beijo!

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