LITERATURA

Fronteiras do Universo: o destino de Lyra e outras questões essenciais

Fronteiras do Universo

Quando falamos de consagradas séries fantásticas, é inevitável que alguns nomes tenham algum peso sobre as outras, sobretudo se elas vencem a temporalidade e permanecem atraentes, sempre conquistando uma nova leva de fãs a cada geração. Esse é o caso da trilogia O Senhor dos Anéis, escrita por J. R. R. Tolkien, e da sua contemporânea As Crônicas de Nárnia, escrita por C. S. Lewis, e também da série Harry Potter, de J.K. Rowling, as quais podemos afirmar, sem hesitação, que são alguns dos maiores fenômenos literários que existem. Entretanto, em algum ponto entre Nárnia e o mundo mágico de Harry Potter está a trilogia Fronteiras do Universo (His Dark Materials, no original) escrita por Philip Pullman e publicada entre 1995 e 2000. Embora seja a menos debatida entre as quatro séries citadas, Fronteiras do Universo tem um mérito indiscutível pela ousadia do autor em criar uma trama envolvente sobre uma temática tão controversa que é a questão da moralidade na ciência e na religião, acessível à compreensão e também em vias de ser imortalizada.

Em minha experiência como leitora, várias vezes ouvi Fronteiras do Universo ser vendida como uma trilogia fantástica que trabalha sobre a questão “Ciência vs. Religião”, mas sumarizar a obra de tal forma não faz jus a ela, porque o desenrolar da trama propõe uma reflexão mais complexa que afinal foi o que concedeu a aclamação que hoje ela tem e a tornou um rico material de estudo: a interpretação moral do bem e do mal, a radicalidade dos princípios religiosos e a ciência como área do conhecimento que debate questões profundas sobre seus objetos de estudo, incluindo aqueles que ainda não foram desvendados. Mas, sem dúvidas, o cerne de Fronteiras do Universo é um assunto delicado. Afinal, evidenciar uma história que coloca a Igreja como antagonista pode mexer com a crença de leitores que, incomodados com a abordagem, ficarão na defensiva em nome de algo tão precioso quanto os ditames do Evangelho. Como também pode fazê-los entender que o propósito do livro não é convertê-los a agnósticos, mas propor um olhar sob o outro lado do prisma. Para isso, Pullman desenvolve em três livros – A Bússola de Ouro, A Faca Sutil e A Luneta  Âmbar – uma história fantástica que põe seus personagens no centro de uma guerra com humanos, feiticeiras e criaturas míticas para que suas jornadas não sejam limitadas a salvar o mundo, mas também renovar a sua própria compreensão. E tudo isso começa com uma menina.

A Bússola de Ouro: o papel de Lyra Belacqua

“Lyra tem um papel importante a desempenhar. A ironia é que ela tem que fazer tudo sem saber o que está fazendo”. (p. 35)

Diferentemente da maior parte das histórias fantásticas ou épicas, A Bússola de Ouro coloca uma menina no protagonismo da trama. Lyra Belacqua tem uma natureza destemida e curiosa, e, aos 11 anos, vive sem muitas restrições entre as paredes da Faculdade Jordan, em Oxford, aos cuidados do reitor e dos catedráticos. Ela e Pantalaimon, seu daemon – manifestação externa da alma das pessoas na forma de um animal que pode se transformar livremente na infância e assume uma forma definitiva na puberdade –, passam seus dias brincando com outras crianças na rua ou explorando todos os cantos da Jordan. Desde que se entende por gente, a faculdade é o seu lar e ela não se imaginava em outro lugar até ter sido obrigada a partir. E sua jornada começou com uma transgressão infantil.

Esquivando-se dos olhares de qualquer adulto que poderia repreendê-la, Lyra e Pantalaimon decidiram entrar na sala privativa, reservada para o reitor e outras figuras importantes discutirem assuntos restritos. A importância do cômodo era tanta que nenhuma mulher podia entrar na sala privativa, e homens de baixas posições só podiam fazê-lo com autorização, por isso, a curiosidade venceu o respeito às regras e Lyra foi em frente, “só para dar uma olhadinha”. No entanto, ela não esperava que o reitor se dirigisse à sala antes de ela sair e, tendo que se esconder dentro do armário para não ser pega, ela acabou ouvindo as discussões de uma reunião muito importante. A ocasião era a visita de Lorde Asriel, seu tio, um aristocrata influente, porém não mais abastado, que viera apresentar as descobertas de uma investigação. Asriel era dono de uma personalidade austera, o que refletia na forma de seu daemon, uma pantera. Em busca de financiamento para para sua próxima expedição para o Norte, Lorde Asriel faz uma apresentação com fotogramas que despertaram o interesse da própria Lyra, e ao mesmo tempo a põe no caminho para cumprir o seu destino – são imagens de uma luz misteriosa que chamaram de Pó, uma cidade escondida na Aurora Boreal, uma criança que intrigou bastante os catedráticos.

Lyra ainda não sabia, mas seu mundo de brincadeiras seria abalado em breve. Em Londres, corriam boatos de que crianças estavam desaparecendo, sequestradas por um grupo misterioso que o povo chamava de Papões. Para os grupos de crianças que corriam soltos pelas ruas da cidade, o boato era como uma lenda urbana que virava brincadeira entre elas. Até que um dia, é Roger Paslow, o melhor amigo de Lyra, que desaparece e a menina fica determinada a encontrá-lo. Ao mesmo tempo, o reitor da universidade, sentindo que Jordan não era mais segura para Lyra, e sabendo mais sobre ela do que podia compartilhar, arranja para que a menina saia da Jordan, mas antes de ela partir, ele lhe dá um aletiômetro, relíquia de ouro semelhante a uma bússola contendo vários símbolos e alguns ponteiros, cuja função é responder a qualquer pergunta que o portador fizer, isto é, se o portador conseguir dominar sua leitura.

“Você sempre esteve segura aqui na Jordan, minha cara. Acho que tem sido feliz. Não foi fácil para você nos obedecer, mas gostamos muito de você, Lyra, e você nunca foi uma criança má. Há muita bondade e ternura na sua natureza, e muita determinação. Você vai precisar de tudo isso. No mundo lá fora, estão acontecendo coisas das quais eu gostaria de proteger você, prendendo-a aqui na Jordan, mas isso não é mais possível.” (p. 66)

Assim, Lyra é impulsionada para cumprir seu destino, a partir do desejo de salvar seu melhor amigo, rumo ao Norte, como tudo indica.

A Bússola de Ouro consegue, com brilhantismo, apresentar todos os personagens essenciais à trama e descrever o contexto em que ela se desenvolve. Por ser um universo próprio, fictício e mágico, o trabalho da ambientação é de suma importância, uma vez que é dentro dela que a temática é desenvolvida e um passo em falso poderia passar a mensagem errada. No caso de Fronteiras do Universo, Pullman constrói uma trama baseada no princípio do pecado de acordo com a Bíblia, mas com inspiração direta do poema épico Paraíso Perdido, de John Milton. Não é por acaso que as crianças são tão importantes na trama da trilogia, visto que o Conselho de Oblação, projeto afiliado ao Magisterium (vulgo a Igreja, instituição governante), procura estudar a partir delas uma forma de mantê-las inocentes para sempre, e assim não deixar que seus daemons tomem sua forma permanente e passe a atrair o tal do Pó. O projeto, a propósito, é idealizado por Marisa Coulter, personagem de grande influência na trilogia, dona de um charme irresistível e, principalmente, de uma inteligência aguda, visto que ela é uma das pouquíssimas mulheres que ocupam uma posição tão importante em meio a uma organização formada por homens. Seu caráter é dúbio, é verdade, – seu daemon, um macaco, é tão sagaz quanto traiçoeiro – mas a Sra. Coulter é uma das peças mais importantes no tabuleiro que envolve Lyra.

Mas por causa da inspiração principal de Pullman, o fato de a protagonista ser uma menina não foi uma escolha deliberada pelo autor para provar que o sexo feminino consegue sustentar uma trama fantástica tão bem quanto o masculino, e sim para cumprir a alegoria de sua história. De qualquer forma, no primeiro livro, Lyra acaba representando o potencial do nosso gênero com bastante destaque, pois em momento algum ela hesitou diante dos obstáculos que a jornada lhe trouxe. Talvez por não estar sozinha – Pantalaimon estaria sempre com ela – ou por não ter ampla noção do que estava acontecendo realmente, Lyra nunca dosou sua coragem, tampouco sua iniciativa, para ir atrás daquilo que acreditava, guiada pelos conselhos do aletiômetro ou da sua própria intuição. No meio do caminho, ela descobre sua origem, tem seu momento de orgulho e repulsa, conhece pessoas que aprende a amar com sinceridade, e aprende por si mesma a julgar o bem e o mal com base nas atitudes que enxerga ao seu redor. Em meio à guerra, em que cada grupo precisa visar seus próprios interesses, Lyra conquista o apoio dos gípcios liderados por John Faa e Farder Coram; do clã das feiticeiras (mulheres quase imortais; orgulhosas, ferozes e passionais) liderados por Serafina Pekkala; Lee Scoresby; e Iorek Byrnison, panserbjorne (urso de armadura) exilado – todos que sabem o que Lyra representa, acreditam nela, ou simplesmente foram cativados pelo seu jeito de ser: curioso, astuto, ferino e amável, não necessariamente nessa ordem.

O encerramento do livro se dá com Lorde Asriel efetivando sua posição como desafiador da Igreja ao concluir seu experimento e abrindo uma janela para outra dimensão, no extremo norte do globo, confirmando, além de tudo, a teoria de que existem múltiplos universos paralelos ao nosso e a possibilidade de viajar entre eles. Contudo, o preço disso custou muito caro e deixou Lyra revoltadíssima, disposta a ela mesma esclarecer a origem do Pó, que parecia ser a chave para tamanha disputa. Em pouquíssimo tempo ela havia vivido experiências traumáticas que fortaleceram seu espírito e certamente teriam um grande impacto no seu amadurecimento. Mas o fim ainda não estava próximo.

A Faca Sutil: Lyra, Will, e alguns conceitos

“Ela é aquela que veio antes, e desde então vocês a odiaram e temeram! Bem, agora ela voltou, e vocês não perceberam que era ela…” (p. 39)

Se A Bússola de Ouro foi um livro de grande intensidade graças a este ser o volume que introduz a trama, A Faca Sutil é apenas mediano por se tratar de uma transição, responsável por introduzir mais alguns personagens essenciais à história, apresentar alguns conceitos e um instrumento mágico em particular, e por fim, dar sequência a mais alguns eventos intermediários ao gran finale.

Após atravessarem a fenda criada por Lorde Asriel, Lyra e Pantalaimon vão parar em Cittàgazze, uma cidade paradisíaca à beira-mar, e também estranhamente deserta, de um mundo paralelo que ambos precisam explorar antes de sair em busca de alguém que possa esclarecer a origem e a função do Pó, a fim de que eles possam, de alguma forma, defendê-lo. Enquanto isso, em outro mundo, na Londres moderna, somos introduzidos a William Parry, um menino de 12 anos que naquele ponto da história está levando sua mãe, mentalmente doente, aos cuidados de sua ex-professora de piano, para que a senhora possa olhar pela Sra. Parry enquanto Will parte em busca de seu pai, John Parry, um explorador há muito desaparecido. Will não tem lembranças de John, uma vez que era muito pequeno quando o pai saiu de casa pela última vez, e tem como pista apenas um punhado de cartas antigas. Devido à condição de sua mãe, Will teve que se acostumar a viver discretamente para que eles não fossem descobertos e consequentemente separados, mas antes de embarcar em sua própria jornada ele se mete em uma grande enrascada da qual precisa fugir, e nisso acaba encontrando uma janela no seu próprio mundo e a atravessa também rumo a Cittàgazze.

Parece desnecessário dizer que os caminhos de Lyra e Will se cruzam e as circunstâncias fazem-nos se unir para alcançar o que procuram, mas é isso que acontece. Com a ajuda do menino, Lyra vai até a Oxford moderna procurar uma catedrática e fazer perguntas, ao que ela conhece Mary Malone, cientista (e antiga freira) que, frustrada com a falta de financiamento para sua pesquisa, acaba tendo uma séria conversa com aquela menina sobre as Partículas de Rusakov, sem imaginar que acabaria avançando mais do que acreditava. Em seguida, as crianças deveriam procurar o pai de Will, se algumas coisas não tivessem dado errado.

A partir de A Faca Sutil o protagonismo passa a ser dividido, e em algumas passagens o livro passa a ter uma concentração maior na trama de Will, embora Lyra ainda esteja lá. Talvez isso se dê pelo fato de Will, como personagem, precisar do espaço para se encaixar na trama e se desenvolver, mais do que ter um foco maior só por ser um menino que acontece de ser mais experiente com as tecnologias de Cittàgazze desconhecidas por Lyra e acabar liderando o caminho por conveniência. De qualquer forma, existe uma mudança na iniciativa de Lyra depois que ela adentrou a cidade, que não chega a ser exatamente incômoda, mas é notável e compreensível com algum esforço. Seu mundo era diferente dos outros não só pelo período, como pelos misticismos – nem Will, nem as outras crianças de Cittàgazze, tinham daemons, por exemplo, mas Lyra sabia que eles o possuíam dentro de si por não terem o catatonismo de uma pessoa que teve seu daemon decepado.

Will tem uma responsabilidade de peso no funcionamento da trama e precisa do espaço para que o leitor possa conhecê-lo e encaixar as peças. Apesar de ter muita maturidade para um garoto de 12 anos, Will ainda é uma criança e sua carência é o principal incentivo para buscar o pai. O amadurecimento de Will não foi uma escolha voluntária. Tendo conhecimento de que sua mãe não pode dar aquilo que precisa – carinho, conforto e proteção – ele busca o pai na esperança de que ele possa protegê-los. Will não é um jovem rapaz que sustenta suas responsabilidades acreditando que tem esse dever como figura masculina e deve dissimular até o fim; não, ele percebe sua vulnerabilidade e só não a expressa por falta de confiança. Após a luta pela posse da Faca Sutil na Torre degli Angeli, Will fica desolado não só pelo seu ferimento, mas por estar exausto emocionalmente. Lyra observa e sente pelo novo amigo; sua objetividade infantil abriu espaço para cautela, para o respeito, para saber dar um passo atrás antes de agir. O encontro de Will com Lyra tem benefícios mútuos, porque, da mesma forma que Lyra conquistou todos os amigos do seu mundo, ela conquistaria Will e daria abertura para ele sentir medo, mostrando que ela também não tem força sobre-humana e que todas as ameaças – os aliados do Magisterium, os espectros de Cittàgazze – a assustavam também.

Paralelamente, a importância do papel de Lyra deixava de ser um segredo que poucos sabiam, e, longe dela, grupos dos dois lados tentavam descobrir o que ela seria capaz de fazer e tentavam rastreá-la para 1) acabar com ela ou 2) protegê-la.

A Luneta Âmbar: rumo à República do Céu

Responsável por dar fechamento à trama, os acontecimentos de A Luneta Âmbar são mais dinâmicos e seus capítulos, mais extensos, se dividem de forma que possamos acompanhar os personagens que se separam no caminho, uma vez que cada pedaço da trajetória deles é essencial para chegar ao desfecho esperado, em que, na melhor das hipóteses, Lyra selará seu destino e salvará a humanidade. Contudo, ao início da sequência, ela está de volta ao seu mundo, imersa num sono profundo, sonhando com Roger e o lugar horrível onde ele está, e sentindo que mais uma vez precisa ir ao resgate do amigo e se desculpar pelo que aconteceu com ele. Enquanto isso, Will, em posse da Faca Sutil, é abordado por anjos para ser levado até Lorde Asriel, mas sua prioridade é ir ao encontro de Lyra e ele estabelece essa condição antes de fazer qualquer coisa: primeiro Lyra, depois Lorde Asriel. Se é que ele tem mesmo de ir até Lorde Asriel, que, por sua vez, está refugiado numa torre organizando o exército e traçando planos para acabar com a Autoridade. Do outro lado, enquanto as batalhas se travam, o Magisterium, sabendo da identidade de Lyra, planeja rastreá-la e matá-la.

A “proteção” da Sra. Coulter não dura muito tempo – Will, com a ajuda de Iorek Byrnison, encontra Lyra, desperta a menina e juntos eles atravessam para outro mundo para fugir dos inimigos em seu encalço. Eles precisam consertar a faca, quebrada no processo, e traçar um plano para chegar até o mundo dos mortos, de onde Lyra pretende libertar Roger. Com dois espiões galivespianos (criaturas pequenas com características híbridas de humanos e insetos, e uma forte espora venenosa nos calcanhares como arma) enviados por Lorde Asriel, monitorando seus passos e também oferecendo auxílio, eles partem para mais esse desvio na jornada – o mais arriscado até agora, que traz a carga mais pesada de medo, apreensão e sacrifício. É nesse ponto que notamos que para Lyra selar seu destino, ela não deve estar no meio da guerra, mas trilhando seu próprio caminho, porque essa jornada individual, em maior parte guiada pelo acaso e sua intuição, acabará levando-a até onde precisa ir. No mundo dos mortos, entre outras coisas, Lyra é obrigada a lidar com um coração despedaçado, a desaprender a compulsão pela mentira, e a guiar com gentileza uma multidão de almas aprisionadas. Todas as experiências que contribuem para uma percepção mais madura do mundo e de si. Então, quando eles alcançam o mundo dos Mulefas, onde sua amiga cientista Mary Malone está, Lyra e Will têm muito a pensar a respeito do Pó e uma percepção muito grande a fazer sobre eles.

No entanto, a trama não reserva a conscientização somente às crianças. Longe dali, a Sra. Coulter precisou usar muito jogo de cintura para se redimir de seus erros; e Lorde Asriel, por trás da fachada, estava bastante preocupado com o paradeiro de Lyra, irremediável alvo do Magisterium. Ambos percebiam que a rebelião era necessária, mas não contra a Autoridade em si, porque a situação não era preto-no-branco como até então eles consideravam. Foi preciso que a pessoa mais querida a eles corresse um risco iminente para que eles revissem suas prioridades. O Magisterium havia decretado a ordem e estava crente de que sua intenção era pura e algumas orações os absolveriam da impunidade, uma posição condenável; ponto mais delicado da trama. Mas nós sabemos que a crítica não é direcionada à religião, e sim ao domínio das pessoas sobre ela. Nada é realmente tão incisivo como parece, o que determina algo bom ou ruim é a significação que damos àquilo. Com toda a radicalidade, autoridade e burocracia, o Magisterium não teria chances de vencer, pois o que é inerente ao ser humano não pode ser controlado. Assim, mesmo com as conspirações, Lyra (com Will) haveria de salvar o Pó.

“Ao redor deles não havia nada senão um grande silêncio, era como se o mundo inteiro tivesse prendido a respiração” (p. 448)

A Luneta Âmbar merece uma reverência especial. Embora seja estranho acompanhar Lyra ir gradualmente deixando de se arriscar ao longo da trilogia, é justamente com o seu crescimento que o autor prova o ponto dele. Em A Bússola de Ouro ela era uma menina protegida dentro e ao redor da Jordan, e suas aventuras em Oxford não se comparavam à sua aventura no mundo real, tudo que ela viu e viveu em um período tão curto. À parte do autor ter pesado a mão na reação de Lyra ao viver seu primeiro amor – na forma como ela entendeu o sentimento com tanto esclarecimento que todos os rodeios do amor pré-adolescente acabaram inexistentes –, o último livro foi delineado com maestria. Em meio a tantos desdobramentos, tantos pontos de vista distribuídos em lugares separados, enquanto a trama se desenvolvia de forma tão dinâmica, A Luneta Âmbar poderia ter sido muito difícil de ler, não fosse a fluidez da narrativa e a forma como cada espaço foi preenchido.

Muitos autores criaram seus próprios universos fantásticos no último século, universos estes que moveram o mercado literário e cativaram leitores, no entanto, são poucos aqueles que têm a essência que alcança o cânone da literatura. Ao mesmo tempo que a trama da trilogia é um tanto pretensiosa, ela foi criada para ser acessível ao público mais jovem e cumpre o seu papel, mas também o transcende. Fronteiras do Universo acaba tendo um efeito diferente em cada um, mas tomo a história como uma celebração à nossa natureza e um convite ao entendimento amplo e desprendido. Nas últimas páginas do livro, Lyra está determinada a retomar o domínio da leitura do aletiômetro, que fará à base de muito estudo, e quando está sentada no jardim botânico com Pantalaimon, ela entende o que o xamã quis dizer, e aceita viver a sua vida baseada nessa verdade.

“Temos que ser todas essas coisas difíceis, como ser alegres, e gentis, e curiosos, e corajosos, e pacientes, e temos que estudar e pensar, e trabalhar com dedicação, todos nós, em todos os nossos mundos diferentes […]” (p. 498)

O três exemplares foram cedidos para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


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2 Comentários

  • Responda
    Chaiane
    26 de Janeiro de 2018 at 11:41

    Meus livros favoritos <3
    Acho que o grande mérito de toda a série é exatamente tirar essa dualidade de bem-mal todos podem cometer erros e ainda sim auxiliar, mesmo a própria Lyra. A escrita do Pullman descreve tudo com magia, li aos 15 e reli ano passado, 10 anos depois, continua incrível!
    O primeiro da nova trilogia é fantástico também, acredito que será maravilhoso acompanhar 😀

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    Mariana
    13 de Fevereiro de 2018 at 12:05

    Realmente não dá pra reduzir Fronteiras do Universo a bem x mal, ciência x religião. Acho que nem existe muito “versus” no foco da história. Pra mim, a chave da série é a consciência: o Pó é a consciência e o que o Magisterium quer é controlar o fluxo da consciência. A ideia do livro é que não há um Deus como o cristão, superior a tudo, e sim a conciência que reside em cada partícula dos seres e das coisas, responsável pela vida: pampsiquismo.
    Nisso essa série se distancia das outras citadas no texto, que se alinham à tradição cristã.
    E porque Lyra está em sintonia com o poder da consciência mais do que o normal (daí sua habilidade pra ler o aletiômetro), não vejo como inverossímil o desenvolvimento dela quanto ao amor. Mesmo porque não é um amor adolescente simplesmente, é um amor com bases épicas.

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