CINEMA

Fragmentado e o sofrimento feminino como ferramenta de roteiro

Se você tem um pouco mais de vinte anos e uma inclinação para filmes de suspense com reviravoltas no final, deve lembrar do burburinho que O Sexto Sentido causou na sua estreia, em 1999, e nos anos que viriam a seguir. A grande virada de roteiro viria a se tornar tão marcante, que até hoje é creditada em lista de grandes spoilers do cinema.

Da mesma forma, as ações promocionais do filme A Vila, em 2004, pediam encarecidamente ao espectador que não revelasse o final da história para os amigos, temendo perder o elemento-surpresa que garantiria a reação adequada da audiência antes dos créditos subirem na tela.

O fator comum entre essas narrativas é o seu diretor, M. Night Shyamalan, que ficou conhecido cinematograficamente como o rei do plot twist. Depois de outros trabalhos memoráveis como Corpo Fechado (2000) e Sinais (2002), e outros preferivelmente esquecíveis, como Fim dos Tempos (2008) e O Último Mestre do Ar (2010), Fragmentado (2017) significou para muitos dos seus fãs o seu grande retorno às películas que chocam o público no cinema, saem da sala escura e continuam repercutindo fora dali.

Em uma sinopse enxuta, para obedecer as regras de não estragar a experiência dos amiguinhos, Fragmentado discute principalmente Kevin (James McAvoy) e seu Transtorno Dissociativo de Identidade, que permite que habitem em seu cérebro 23 personalidades distintas. Um dia, uma dessas personas é responsável por sequestrar três garotas num estacionamento de um shopping. A partir daí, o terror psicológico de cativeiro e as mudanças de personalidade do protagonista se encarregam dos twists do roteiro, que sim, prendem o espectador no assento, ávido por querer saber o que vai acontecer a seguir numa trama, até certo ponto, tão imprevisível quanto o distúrbio de Kevin.

É curioso perceber, no entanto, que muito do que causa a tensão constante do filme é a apreensão pelo que pode acontecer entre o sequestrador e as vítimas. Antes de quaisquer elementos externos, que dependem do tipo de história que estamos assistindo, além de seus múltiplos fragmentos, Kevin é um homem e as pessoas que ele mantém reféns são jovens mulheres, e existe aí uma possibilidade de violência inerente ao gênero dos personagens.

Não é uma simples casualidade a escolha dos seus alvos, e ainda que essa não seja a força-motriz do enredo, nossos fôlegos são postos à prova em pelo menos três situações diferentes nas quais as possibilidades de abuso ficam quase palpáveis na tela, sendo uma delas a longa exposição de uma personagem adolescente andando de calcinha no cativeiro. A ideia aqui é mostrar que essas mulheres nunca estão seguras, e esse tipo de risco, nunca completamente suspenso.

Apesar de felizmente deixar essa questão apenas como ameaça velada entre o vilão e as vítimas, mais tarde, Fragmentado acaba dando um passo adiante que não deveria. Os muitos anos de abuso sofrido por Casey (Anya Taylor-Joy), o ponto focal da trama além de Kevin, sofrem uma tentativa de ressignificação por parte do roteiro. A ideia aqui é transformá-la de antiga vítima em heroína, usando seu sofrimento como uma forma de defesa única contra o seu antagonista.

Apesar da beleza sutil da metáfora sobre tirar força do que te machucou, é importante isolar essa subtrama do resto da película para analisá-la com propriedade por um momento. Para isso, vamos usar o Teste Jada, conhecido como “Teste Bechdel do Estupro”, criado pela autora Jada Yuan para o site Vulture, que consiste em perguntar:

  1. O estupro ocorre pelo ponto de vista da vítima? Sim.
  2. A cena de estupro possui o propósito de desenvolvimento da personagem da vítima em vez da trama da narrativa? Não.
  3. O abalo emocional da vítima é desenvolvido depois? Não.

E eu ainda acrescentaria uma quarta pergunta: é essencial para a jornada da personagem que o estupro ocorresse? No caso da Casey, a única maneira de torná-la “forte” ou “habilitada” a enfrentar o vilão era o fato de ter passado por muitos anos de abuso físico e emocional, unicamente pelo fato de ser mulher? Uma vez que isso ocorreu, sim, é bom que a sobrevivência ao trauma seja vista como uma habilidade “especial”, mas era mesmo necessário que a personagem sofresse exatamente essa violência? E justamente por já ter sofrido tanto, merecia ela ser sequestrada e perseguida por um homem novamente?

É fácil observar que existiu, além da tentativa de homenagear a resiliência de vítimas desse tipo de crime, também uma proposta de paralelo entre sobreviventes. Kevin também sofreu abusos físicos, porém de outro tipo, e seria ele, no fim de tudo, enfrentado por um “semelhante’’. Mas por que não então, fornecer à Casey personalidades com força sobrenatural ou habilidades extraordinárias que tivessem se originado de grandes tragédias, à mesma maneira do protagonista? Ou, quem sabe, fornecer ao espectador mais facetas da sua história para que seu trauma não seja determinante em sua narrativa, mas uma parte dela, já que a unidimensionalidade da sua trama fica ainda mais evidente junto a um parceiro de tela com tantas camadas quanto as suas 23 personalidades.

Uma prova de que essa subtrama e sua suposta importância para o impacto do filme não vem sendo notada é que muitos falaram sobre Fragmentado, mas poucos falaram sobre Casey e o problema com o seu “superpoder”, contribuindo para que mais uma vez a dor das personagens femininas seja apenas uma ferramenta de roteiro preguiçosa. Seja pela banalização do tema causada por grandes obras, como o fenômeno Game of Thrones, ou pelo fato de que o gênero do suspense/horror ainda tem lugar cativo entre a audiência masculina, a pergunta que fica arranhando na garganta ao final do filme é: estamos nos tornando insensíveis ao sofrimento feminino? Por que isso não está nos incomodando tanto quanto deveria? E por que homens têm opções na forma como sobrevivem às ameaças, podendo ser picados por aranhas radioativas ou se partir sua personalidade em pedaços, mas a nós cabe apenas o trunfo de sermos vítimas das circunstâncias?

Se você é um fã de Shyamalan, pode respirar aliviado; os twists estão todos aqui e vão certamente tirar seu fôlego. No entanto, é uma pena perceber também que o rei das reviravoltas foi capaz de criar um homem com dezenas de histórias na manga, mas para a heroína do seu filme, guardou apenas uma. A mesma de sempre.

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5 Comentários

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    Érico
    2 de junho de 2017 at 10:17

    O Shyamalan é um diretor incrível e mais uma vez, fez um filme incrível.

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      Gabi Machado
      26 de junho de 2017 at 17:33

      Concordo, tanto é que isso está destacado no começo do texto.

      Porém, isso não invalida discussões sobre os demais temas.

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    Pedro Ribeiro
    2 de junho de 2017 at 16:07

    Concordo completamente com o artigo.

    Melhores trechos: “estamos nos tornando insensíveis ao sofrimento feminino? Por que isso não está nos incomodando tanto quanto deveria?” e “é uma pena perceber também que o rei das reviravoltas foi capaz de criar um homem com dezenas de histórias na manga, mas para a heroína do seu filme, guardou apenas uma. A mesma de sempre”.

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    Ícaro Castello
    4 de junho de 2017 at 19:25

    Façam uma matéria sobre o mistério de Dom Casmurro. Capitu traiu ou não? Ou seria só a perpetuação de mais machismo.

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      Gabi Machado
      26 de junho de 2017 at 17:34

      Obrigada por ler e pelo comentário, Pedro! 🙂

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