CINEMA

Crítica: Florence – Quem é essa mulher?

Entre os diversos filmes que são lançados semanalmente contemplando toda sorte de gêneros, alguns passam quase despercebidos nos grandes cinemas por serem considerados objeto de interesse de um público seleto, como é o caso dos filmes biográficos, gênero em que se encaixa Florence – Quem é essa mulher? Lançado no Brasil em meados do ano passado, apesar se mostrar promissor, endossado por algumas críticas na mídia na época da estreia, o filme não alcançou a popularidade que poderia ter alcançado. Talvez o público não estivesse interessado em descobrir quem era aquela mulher, mas deveria.

Estrelado por ninguém menos do que a magnífica Meryl Streep no papel da herdeira Florence Foster Jenkins, Hugh Grant como St. Clair Bayfield, seu devotado segundo marido, e Simon Helberg como o pianista Cosmé McMoon, o filme se trata de um retrato sensível da paixão de uma mulher pela música e da forma como ela tirava o tutano da sua vida das notas musicais que não conseguia alcançar, enquanto aqueles que a circundavam disfarçavam suas verdadeiras opiniões sobre o “talento” dela, devido ao seu alto status na sociedade. Mas a verdade é que muito além de um filme sobre uma mulher rica cantando mal porque podia, Florence – Quem é essa mulher? é um filme sobre se dedicar a uma vocação mesmo sem o talento, sobre manter-se fiel a alguém apesar do julgamento de outras pessoas, e, acima de tudo, sobre ser sensível com o sentimento de outrem antes de priorizar a dura sinceridade.

O filme se passa durante o período da Segunda Guerra Mundial. O ano era, aproximadamente, 1944 e apresenta uma Florence Foster Jenkins dedicada às apresentações e eventos do The Verdi Club, um clube fundado por ela mesma para os verdadeiros amantes da música, antes de assistir à apresentação no Carnegie Hall que a inspiraria a retomar suas próprias aulas de canto, no contexto da adaptação. A partir de então, ela contrata um dos melhores instrutores, e começa a entrevistar alguns pianistas para acompanhá-la, até encontrar afinidade com a musicalidade de McMoon. Para alguém tão imiscuída na comunidade musical e dona de um conhecimento erudito sobre as maiores peças, é uma grande surpresa a revelação de que Florence não conseguia cantar bem. Ainda mais, porque ela parecia não ter a menor noção disso e continuava a entonar suas melodias com entusiasmo e orgulho, já que a afinação lhe faltava. Surpreendente, também, era a dissimulação que os amigos tinham para com ela. Alguns, por interesse financeiro; outros por simpatia. Fazer parte da lista de contatos de Florence era um grande privilégio, qualquer que fosse a intenção. Já em seu marido, St. Clair, é perceptível a prevalência da cumplicidade, uma vez que seus atos denotavam que seus esforços eram feitos em prol de fazer Florence feliz.

Pelo fato de o filme focar nos últimos feitos dela, as informações essenciais sobre seu passado são introduzidas por meio de menções no diálogo, assumindo uma função explicativa cuidadosa no contexto do longa-metragem. Contudo, em pesquisa complementar, percebemos como Florence teve seu nome marcado por dois fatos: primeiro, por ser herdeira de uma grande fortuna, e segundo, por ser uma péssima cantora. Sua história, no entanto, está longe de ser fútil como essas duas definições fazem parecer. Apesar do berço privilegiado, Narcissa Florence Foster sofreu dificuldades que viriam a afetá-la pelo resto de sua vida e de quebra comprometer seu maior sonho. Quando criança, Little Miss Foster, como era conhecida, era uma proeminente pianista que chegou a se apresentar na casa branca durante o governo do presidente Rutherford Birchard Hayes e tinha grandes ambições de uma carreira musical. Seu pai, no entanto, era contra as aspirações de Florence e ameaçou deserdá-la se não desistisse de seu sonho para se casar com alguém que lhe proporcionasse alguma estabilidade como um banqueiro. Ela, então, fugiu para se casar com Frank Thornton Jenkins, de quem contraiu sífilis na noite de núpcias. Ela terminou seu relacionamento com o primeiro marido de imediato e passou a dar aulas de piano para se sustentar. Eventualmente, Florence se restabeleceu. Quando seu pai faleceu, ela teve direito a uma parte da herança e retomou o status antes perdido sem abdicar de sua paixão pela música. Depois, conheceu St. Clair Bayfield, um ator britânico com quem construiu um relacionamento sólido, embora puramente baseado na convivência devido à condição da doença contraída.

Os dois principais pontos abordados na leitura do filme biográfico de Florence Foster Jenkins baseiam-se no amor – de Florence pela música, de St. Clair por Florence. E apenas esses dois pontos são suficientes para dar margem a uma reflexão profunda sobre o quê, afinal das contas, é válido em sua história: a falta de talento dela ou a genuinidade de sua paixão pelo que fazia. E a reação das pessoas, o incentivo que davam ao comparecer nos concertos privados dela? Era motivada pelo entretenimento próprio ou por verdadeiramente admirarem sua dedicação? Muitas questões são levantadas com a retratação desse filme, pois historicamente falando, o fato de Florence ter sido eternizada nas suas músicas ruins revela o nível de complexidade dela como pessoa. Embora ela fizesse parte da alta sociedade nova-iorquina e tivesse encontrado lá o seu caminho de construir um círculo social consistente cuja participação foi crucial em seus empreendimentos musicais, Florence era também uma pessoa muito altruísta, que, segundo registros, promovia, entre tantos eventos, um baile anual de caridade para comprar flores para os membros doentes. A persona incorporada por Meryl Streep mostra uma Florence Foster Jenkins um tanto inocente, alheia à malícia das reações do público, mas não se sabe na vida real se a verdadeira Florence tinha noção ou não do que o público pensava do seu canto.

De qualquer forma, depois de retratar algumas apresentações privadas de Florence junto à dinâmica de sua relação com St. Clair assumindo o papel de marido, empresário e protetor, o filme parte para o clímax da biografia: a apresentação no Carnegie Hall. As ocasiões em que fora ovacionada nos concertos privados levou Florence a gravar um disco particular com suas performances, inteiramente financiado por ela mesma, a qual deu de presente para os membros do clube. E acreditando, também, que a música era o conforto de todas as pessoas que estavam sofrendo as consequências da guerra, ela enviou uma cópia para a rádio local. É desnecessário dizer que sua canção “Like A Bird” se tornou uma das mais populares – talvez pela surpresa das pessoas ao ouvir, na rádio, uma música cantada tão mal, seguida pela própria diversão. O entusiasmo crescente dela com o retorno dessa “viralização” fê-la tomar uma atitude ousada: reservar a célebre casa de espetáculos de Nova Iorque para o seu próprio concerto, acompanhada por Cosmé. Ela disponibilizou mil ingressos para os soldados que estavam lutando na guerra e cantou para a casa lotada, superando a apresentação de Frank Sinatra na noite anterior. Inevitavelmente, Earl Wilson (Christian McKay), crítico do The New York Post também estava presente, apesar dos esforços de St. Clair de impedi-lo de resenhar os concertos de Florence devido à prioridade do jornalista de escrever a verdade nua e crua sobre os eventos. “A música é importante, e não deve ser zombada”, disse o personagem no filme. St. Clair conseguia com muito afinco manipular os críticos para que transmitissem opiniões positivas sobre os concertos de Florence, que costumava lê-las no dia seguinte e ficava extasiada com seu sucesso.

Intitulada “Florence Foster Jenkins – the worst singer in the world?” [“Florence Foster Jenkins – a pior cantora do mundo?”] a crítica de Wilson acabou caindo nas mãos de Florence, apesar de todos os esforços de St. Clair e Cosmé para se livrarem dos exemplares do The Post. Se foi coincidência ou não, o fato é que um mês depois de sua apresentação no Carnegie Hall, Florence Foster Jenkins faleceu. O que nos leva a refletir, ainda, sobre o papel do crítico que cobre trabalhos artísticos. É certo que toda área que se preze tem uma camada profunda de conhecimento envolvido – teorias que definem conceitos e parâmetros, prêmios de reconhecimentos, a palavra de um bom conhecedor do assunto. Tudo isso é válido, é claro. No entanto, no que diz respeito a um filme, uma peça, um concerto musical, é um equívoco descartar a sensibilidade do que fora apresentado. Por mais clichê que isso soe, todo produto final foi um dia uma semente de ideia na cabeça de uma pessoa, que, sozinha ou em conjunto, se atreveu a concretizá-la com um propósito. A prática faz parte desse processo e a técnica é fundamental para proporcionar uma experiência completa, entretanto, o que toca as pessoas é o sentimento investido naquilo. Ao priorizar descrever Florence como a pior cantora do mundo, Wilson não levou em consideração a paixão que a levara até aquele palco, porque ele poderia saber sobre música, mas não sabia nada sobre ela.

Hoje, em pleno século XXI, olhamos para essa história e vemos como a vida pode ser irônica às vezes. Uma mulher nasceu materialmente rica, mas pobre no talento da atividade que mais amava. A doença que contraiu no casamento celebrado para ela tentar se libertar do controle da sua família afetou seus nervos da mão e a impediu de continuar tocando piano para sempre. E ainda em consequência da sífilis, especula-se que a audição tenha sido comprometida graças ao tratamento equivocado disponível na época, com injeções de arsênico e mercúrio, e isso também tenha afetado sua capacidade de cantar no tom. A vida de Florence pode ter sido repleta de contratempos, mas apesar de tudo, a música a manteve viva e sempre gentil. O legado que deixou, além de algumas gravações de músicas mal cantadas, foi a inspiração para jamais desistir, jamais deixar de se fazer aquilo que ama apenas por não acreditar que seja capaz. Ou, em suas próprias palavras:

As pessoas podem dizer que eu não sabia cantar, mas ninguém pode dizer que eu não cantei.

Florence – Quem é essa mulher? recebeu 2 indicações ao Oscar, na categoria de: Melhor Atriz (Meryl Streep) e Melhor Figurino (Consolata Boyle).

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