CINEMA LITERATURA

Estrelas além de Hollywood

De todos os filmes indicados ao Oscar desse ano, nenhum foi tão bem sucedido em seu país de origem quanto Estrelas Além do Tempo, longa de Theodore Melfi que conta, com algumas liberdades, a história real de três cientistas negras que trabalharam na NASA em plena época de segregação racial institucionalizada, dentro do estado que se opôs mais ferozmente ao fim dela, a Virgínia. O filme terminou a corrida sem nenhum Oscar, mas já deixou uma marca maior. Profundamente inspirador para meninas e mulheres, dentro dos Estados Unidos Estrelas Além do Tempo levou uma adolescente de 13 anos a criar um financiamento coletivo para permitir que mais garotas pudessem assistir ao filme e absorver sua mensagem empoderadora e, contam relatos, está inspirando jovens mulheres a buscarem espaço nas áreas de ciência e tecnologia, que — a história é velha — ainda são tradicionalmente masculinas.

Nos Estados Unidos, estudos reportam que o número de mulheres no campo da engenharia é de 12% e, na computação, 26% — número que, inclusive, vem decaindo desde a década de noventa. Nos níveis de graduação e pós-graduação a disparidade também é marcante. Apesar de as mulheres terem recebido mais diplomas de graduação, em áreas como engenharia e matemática elas são sempre minoria: 15 mil contra 63 mil, 15 mil contra 46 mil, respectivamente. No Brasil o quadro é parecido: embora as mulheres tenham obtido cerca de 60% dos diplomas de graduação, a disparidade nas áreas citadas também é grande:

“O percentual de mulheres na área de Ciências Sociais, Negócios e Direito é de 23% contra 17% de homens, enquanto que em Engenharia, Produção e Construção o percentual de mulheres é de 5% contra 13% de homens. A mesma tendência se observa na área de Ciências, Matemática e Computação onde a relação é de 2,5% de mulheres e 5,3% de homens. Ou seja, as mulheres seguem concentradas em algumas áreas e permanecem quase inexpressivas em outras.” (Carolina Brito, Daniela Pavani e Paulo Lima Jr, na Revista Gênero).

Como bons retratos da sociedade em que vivemos, a televisão e o cinema também evidenciam essa disparidade. Dois estudos do Geena Davis Institute on Gender in Media trazem dados que despontam, mas que de modo algum surpreendem. Uma pesquisa de 2014 que analisava 120 filmes produzidos em onze países demonstrou que, dentre os personagens com carreiras em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (ou STEM), nem 12% eram mulheres. O mesmo instituto publicou, em 2013, um estudo que analisava 275 séries exibidas no horário nobre da televisão aberta americana. Ele relata que apenas cerca de 21% dos personagens que trabalhavam em alguma dessas quatro áreas eram mulheres. Ou seja: a poderosa indústria cultural também não está contribuindo o suficiente para mudar essa conversa.

No começo desse ano, um estudo encomendado pela Microsoft revelou que, ao menos na Europa, as meninas começam a se interessar pelas ciências exatas, tecnologia e engenharia aos onze anos, mas perdem o interesse — que não volta — aos quinze. “A conformidade com as expectativas da sociedade, os estereótipos e papéis de gênero e a falta de exemplos continuam a afastar as escolhas profissionais das meninas das áreas STEM”, explica o professor de psicologia Martin Bauer, que ajudou a coordenar o estudo. Meninas precisam de bons exemplos que demonstrem que optar por uma carreira nessas áreas é uma possibilidade real e com verdadeiras chances de sucesso. Nesse contexto, fica evidente o potencial significativo de um filme como Estrelas Além do Tempo, protagonizado por duas matemáticas e uma engenheira, com uma porção de outras mulheres fazendo figuração, produzido por um grande estúdio e chancelado pelo Oscar.

Antes de Estrelas além do tempo, o filme, porém, houve Estrelas além do tempo, o livro, um extenso e detalhado trabalho de pesquisa organizado e recontado por Margot Lee Shetterly, que, conforme ela conta no prólogo, cresceu naquele mundo: o pai dela era cientista da NASA no Centro de Pesquisa Langley, na Virgínia, o mesmo em que trabalharam Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson, foco principal do livro de não-ficção e do filme inspirado por ele. Ao longo das quase 300 páginas do livro, Shetterly baliza as histórias das três mulheres sempre por duas vertentes, a do gênero e a da raça, que foram inextricáveis e agiram sobre suas trajetórias individuais.

Nesse sentido, Katherine, Dorothy e Mary se viam em uma posição de dupla discriminação (que podia partir de outras mulheres também, por sinal), e é difícil olhar para suas histórias ignorando qualquer um desses vieses. Para falar delas, também não podemos ignorar que, se as mulheres representam uma parcela tão pequena da força de trabalho na engenharia e na computação norte-americanas, para mulheres não brancas os números são ainda piores: as mulheres negras, por exemplo, representam entre um e três por cento nessa conta. Quando olhamos para os números a respeito da diversidade racial e de gênero nesses campos, não é difícil entender por que a história real contada em Estrelas Além do Tempo carrega consigo tanta força.

Se o longa da Fox propagou as histórias de Katherine, Mary e Dorothy muito mais longe, e o fez de uma maneira potente, alicerçada em um elenco extremamente bem sucedido e em uma porção de momentos catárticos que sempre se sustentam bem, ele também oferece uma versão bem mais limitada dessa história. Roteirizado pelo próprio Melfi em parceria com Allison Schroeder, o filme restringe o espaço de tempo retratado àquele imediatamente relacionado ao primeiro voo orbital por um norte-americano, em 1962. No livro, Margot Lee Shetterly cobre um período muito maior, do qual o voo de John Glenn é apenas o final. Ela volta até a Segunda Guerra Mundial para contar como foi que, numa época tão complicada da história americana, aquelas mulheres chegaram à NASA em primeiro lugar — que, na época em que elas começaram a trabalhar, ainda nem existia; antes dela, havia apenas o NACA, que se preocupava com a aviação civil, e o espaço ainda não estava no horizonte.

O roteiro do longa também se utiliza de sua cota de licença poética. Enquanto algumas mudanças são compreensíveis para tornar a história mais compacta — as três mulheres que protagonizam o filme na verdade não eram um unido grupo de melhores amigas, por exemplo –, outras são mais problemáticas. Talvez a questão mais controversa e mais discutida seja a de Al Harrison, o chefe de Katherine. No filme, observamos Katherine atravessando prédios todos os dias, algumas vezes ao dia, para poder ir ao banheiro — ela precisava, afinal, usar um banheiro exclusivo para mulheres “de cor”. Depois de um inflamado discurso diante de Al, explicando por que sumia por tanto tempo todos os dias, é ele o responsável por quebrar uma placa de identificação de um dos banheiros e declarar que a NASA não teria mais banheiros segregados. Na vida real, isso nunca aconteceu. Primeiro porque o personagem não existiu realmente, sendo um composto de outros homens. Segundo porque Katherine simplesmente não usava banheiro segregado nenhum. E, descreve Shetterly: “E foi isso. Ninguém nunca mais tocou no assunto com ela.” Não é difícil concluir que o personagem existe para que nós, o público branco, tenhamos um avatar no qual nos projetarmos, para que possamos acreditar que, se estivéssemos lá, não estaríamos calados ou seríamos complacentes com a segregação institucionalizada, o que é uma confortável fantasia — fossem todos Al Harrisons, ela não teria existido ou durado tanto tempo. Hollywood, sendo Hollywood, opta por um fictício momento de impacto embranquecido e abre mão de um fato histórico que, de maneira mais sutil, é muito mais potente no contexto em que aconteceu.

Me ver diante do livro de Margot Lee Shetterly foi uma experiência completamente diferente. Ao oferecer um contexto tão aprofundado, ele também permite que enxerguemos melhor essas histórias não vistas por tanto tempo. Embora fique evidente que Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson foram mulheres extraordinárias tanto em termos de talento quanto de fibra e que chegaram onde chegaram por mérito próprio, talvez elas nunca tivessem entrado para a NASA se o sistema não tivesse aberto uma pequena brecha em seu machismo e racismo — é fácil declarar um país a terra da oportunidade e ignorar as desigualdades estruturais. A entrada dos EUA na Segunda Guerra moveu milhões de homens para os esforços de guerra, e o NACA estava a todo o vapor, já que o poderio aéreo era importante para o conflito. A aviação civil precisava de mão de obra, mas mesmo as mulheres brancas com formação acadêmica, que eram mão de obra ao mesmo tempo disponível, qualificada e barata (Shetterly conta que em geral elas não recebiam o título de matemáticas, e por isso acabavam ganhando menos), já estavam empregadas em outros cantos. Nesse meio tempo, os sindicatos negros exigiam que vagas fossem abertas também para os trabalhadores negros na pulsante indústria de defesa, e sua movimentação, junto com outros interesses econômicos, levou à aprovação de dois decretos federais, um para acabar com a segregação da indústria de defesa, o outro para tomar conta da inclusão econômica. Eles ajudaram na resolução do problema do NACA, mas fizeram mais.

Se pensarmos que para mulheres com formação científica a opção mais provável era o ensino, e que mulheres como Dorothy ganhavam mais dinheiro para trabalhar como lavadeiras do que lecionando, as vagas inicialmente temporárias na aviação civil eram uma oportunidade e tanto. De temporárias elas passaram a duradouras, e o número de mulheres e de negros no escritório de Langley continuou a crescer depois da guerra. Mulheres como Katherine, Mary e Dorothy se destacaram por seu talento e proatividade, chamando atenção dos Homens Importantes™ do escritório e ganhando oportunidades de brilhar por méritos completamente seus — Dorothy teve a visão de não se intimidar diante da chegada do computador, dispondo-se a aprender a operá-lo, por exemplo, e Mary foi atrás da formação e do título de engenheira, lutando para poder estudar em uma escola apenas para brancos.

As três eram mulheres, e muitas mulheres do NACA ficavam em posição de desvantagem ao serem contratadas como subprofissionais mesmo que tivessem formação idêntica à de seus colegas homens e dificilmente conseguiam se formar em engenharia, mas era aos engenheiros que as matemáticas respondiam, e eram eles que recebiam as graças pelo trabalho. Elas também só podiam chegar a posições de chefia onde todas as funcionárias fossem mulheres e durante muito tempo praticamente nunca tiveram seu trabalho, ainda que fosse essencial para o avanço da agência e da ciência de modo geral, creditado nos relatórios publicados por ela. Era como se elas de fato fossem computadoras não só no sentido de computar os números, mas de serem também máquinas anônimas, um meio através do qual os homens chegavam a conclusões e colocavam seus nomes na história da aviação civil norte-americana. Mas suas jornadas também incluíram a segregação dentro do ambiente de trabalho — os banheiros e cafeterias para os “de cor” eram uma lembrança constante de que “alguns eram mais iguais do que outros”, como descreve Shetterly — e o racismo, velado ou escancarado, de seus colegas brancos. Se uma posição de chefia era difícil para qualquer mulher, para uma mulher negra era praticamente uma impossibilidade — a única oportunidade possível era chefiar as computadoras da Ala Oeste, uma ala, para todos os efeitos, segregada.

A equipe do Túnel de Pressão Supersônico de Quatro por Quatro Pés, com as computadoras humanas à frente. À direita, Mary Jackson.

Porque nada existe no vácuo, as mulheres a cujas histórias nos apresenta Margot Lee Shetterly eram todas pessoas que podiam contar com uma forte rede de apoio. Eram mulheres, foram meninas, mas foram todas meninas educadas por pais que as incentivaram a perseguir com muito afinco os estudos, e jamais a apenas conseguir um bom casamento. Casamentos aconteceram na vida de todas elas, e aí também é interessante perceber que seus maridos apoiavam seus sonhos, suas carreiras e aceitavam os sacrifícios que precisaram fazer por elas, ao invés de se sentirem ameaçados por verem em suas esposas mulheres com enormes interesses intelectuais e carreiras em ascensão. Desde o começo de seus estudos, elas também encontraram mentores que compraram suas brigas pelo direito de receber a melhor educação possível e alcançar tudo aquilo que seu potencial lhes permitiria vislumbrar.

Mary Jackson fez de seu objetivo de vida não só produzir um trabalho bem feito e participar ativamente de sua comunidade, mas também advogar pelos negros e pelas mulheres de todas as raças — e, especialmente, levar até as garotas e jovens mulheres negras uma imagem menos limitante do que poderiam ser.

“Mary não tinha como sumir com os limites que a sociedade impunha às suas meninas, mas sentia que era seu dever ajudar a afastar as restrições que elas pudessem colocar para si mesmas. Suas peles escuras, seu gênero, seu status econômico: nada disso eram desculpas aceitáveis para não dar asas máximas à imaginação e às suas ambições. Vocês podem fazer melhor… Nós podemos fazer melhor, dizia ela às meninas com cada palavra e cada ato. Para Mary Jackson, a vida era um longo processo de elevar as próprias expectativas.”

Ao final de sua carreira, Mary aceitou um rebaixamento na hierarquia da Agência, abrindo mão de sua posição de engenheira, para gerenciar o Programa Federal para Mulheres, que se ocupava de lutar pelos direitos e pela igualdade das mulheres que lá trabalhavam, uma função que Mary desempenhara voluntariamente ao longo de toda a vida, mesmo antes do título. Katherine, por sua vez, parece se orgulhar mais do trabalho das colegas do que do próprio, nos conta Shetterly, que teve a oportunidade de conversar diretamente com ela diversas vezes. O mais importante, diz a autora, é que “as Primeiras não foram as Únicas”.

“Reconhecer todas as mulheres comuns e extraordinárias que contribuíram para o sucesso da NASA é mudar nosso entendimento de suas habilidades, da exceção para a regra. O objetivo delas não foi se destacar pela diferença. Foi se encaixar pelo talento. Como os homens para quem trabalhavam e os homens que enviavam para o espaço, todos apenas cumpriam seu papel.”

Shetterly se debruça mais de perto sobre as histórias dessas três mulheres, mas ela também nos fala, com maior ou menor detalhamento, sobre muitas outras. Quando nos esforçamos para enxergar essas mulheres não como uma exceção virtuosa, mas como mulheres fazendo seu trabalho, também podemos ver que realizar aquele trabalho — mesmo com todas as adversidades que o tornava mais difícil para elas — é uma possibilidade real para mulheres. A mensagem mais forte que Estrelas Além do Tempo leva para os milhões de meninas e mulheres que o leram ou assistiram talvez seja a de que elas podem ir mais longe do que a maior parte das histórias que nos são contadas fazem crer. Margot explica que não, a NASA nunca escondeu nenhuma dessas histórias, elas só estavam meio soltas por aí, com muitas peças perdidas em arquivos mofados. Por que nunca ouvimos falar dela antes é a pergunta de um milhão de dólares, mas, se eu tivesse que apostar, colocaria minhas fichas no mais óbvio: nem mesmo em pleno 2016 mulheres (quanto mais mulheres negras ou mulheres não brancas de modo geral) costumam ser protagonistas no mundo de celuloide.

O sucesso comercial de Estrelas Além do Tempo, o filme, é um recado para quem tem os meios de bancar as histórias que estamos contando e, talvez ainda mais importante, é um exemplo a mais para integrar o imaginário coletivo das meninas mundo afora, quando precisamos tanto de bons exemplos para ampliar nossos sonhos. É a continuação do legado para o qual Mary Jackson se dedicou a vida toda:

“[Mary] obteve seu título de engenharia por meio de trabalho árduo, talento e foco. No entanto, a oportunidade de lutar por isso só existiu por causa do trabalho das pessoas que vieram antes dela. Dorothy Vaughan tivera um impacto positivo na carreira dela e da do fenômeno em potencial que era Katherine Johnson. Dorothy Hoover havia demonstrado que uma mulher negra era capaz do mais alto nível de pesquisa aeronáutica teórica. Pearl Young, Virginia Tucker, Kitty Joyner: Mary espelhava-se nessas mulheres também. Cada uma delas tinha aberto um pouco mais o buraco na parede, possibilitando que o próximo talento passasse. Agora que Mary tinha entrado, ela iria abrir a parede tanto quanto possível para as pessoas que viessem atrás dela.”

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