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Quem precisa de Esquadrão da Moda?

Contradições tendem a me irritar, apesar de haver quem as defenda como componente importante da complexidade humana.  Contradições são tão irritantes que me fazem achar muito interessante a contradição de termos interesse por coisas que carregam muitos motivos para nos manter afastados delas. Por exemplo, filmes de terror: é engraçado como muita gente morre de medo e mesmo assim insiste em vê-los. Outro exemplo: Esquadrão da Moda e programas afins, em que se busca repaginar o visual dos participantes. É engraçado que uma pessoa como eu um dia tenha assistido bastante a esse programa em sua versão original, What Not To Wear, exibido nos canais Discovery Home & Health e BBC.

Acontece que eu sou uma potencial vítima desse tipo de programa, já tendo sido inclusive ameaçada a ganhar um “dia de princesa” de pessoas próximas. É que eu não me visto como se costuma esperar que uma mulher se vista. Gosto de roupas de estilo esporte, largas, e só uso tênis. Não sou homossexual, como muita gente parece deduzir a partir do meu guarda-roupa, simplesmente não me sinto confortável me vestindo de outra forma. Não é como se eu pudesse escolher. Talvez até pudesse, na verdade, depois de um longo processo de apagamento ou superação das construções sociais e identitárias que me levaram a ser quem sou. Assim, sempre tenho de escolher entre lidar com a dor de ter um estilo não compreendido pela sociedade ou lidar com a dor de me adequar a contragosto às expectativas dessa mesma sociedade.

Mesmo assim, eu via Esquadrão da Moda. Gostava de acompanhar a esculhambação e transformação daquelas pessoas julgadas como malvestidas em pessoas dentro dos padrões. E não quaisquer pessoas, mas sempre mulheres. Era um bom entretenimento, afinal – só que bom no sentido de cumprir sua função de passatempo alienante, um tipo de entretenimento que não resiste a um olhar mais crítico, como a música ruim que faz muito sucesso, mas não dá pra defender.

Não dá pra defender porque, em primeiro lugar, o que o Esquadrão da Moda procura é encobrir no corpo de uma pessoa o que os olhos de outras pessoas consideram desagradável. O mais importante é satisfazer o gosto geral ou o “bom-gosto”, anulando a vontade do sujeito objeto da transformação estética. Não importa que eu me sinta mais à vontade vestindo uma camisa vendida na seção masculina, e não importa o significado que essa roupa tem para mim. O que importa é o significado que essa roupa tem para a maioria das pessoas, a quem devo agradar se não quiser me sentir excluída ou discriminada.

Em segundo lugar, o Esquadrão da Moda é indefensável por mirar sempre as mulheres. Não vi todos os episódios, então não sei se alguma vez tentaram mudar o estilo de um homem, mas é fato que as mulheres são o alvo preferencial desse tipo de programa. Será que é por que os homens não se vestem mal? Ou é por que as regras de vestimenta para as mulheres são mais difíceis do que as estabelecidas para os homens?

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Consigo identificar duas regras gerais, aparentemente simples, formuladas em contextos que vão de entrevistas de celebridades até tentativas de justificar abuso sexual:

  1. A mulher deve ser “feminina”;
  2. A mulher não deve ser vulgar.

Mas o que é ser feminina? Do ponto de vista comercial, quais itens da moda são vendidos como predominantemente femininos? Salto alto, saia, vestido, blusa e camiseta mais justas e curtas, muitas vezes com decotes maiores e mangas menores do que os masculinos, de modo que se ressaltem as curvas da cintura, do busto e das nádegas. Mas aí é preciso cuidado para não ser vulgar, a segunda regra. E por que a mulher não deve ser vulgar? Por que um homem sem camisa, gordo ou magro, é visto com naturalidade, enquanto uma mulher com a barriga exposta em um lugar que não seja a praia é no mínimo julgada inadequada? Será que a origem disso é o que as mulheres desejam para si mesmas, independentemente de sua relação com os homens? Difícil pensar que sim em um mundo em que a vontade feminina passou mais tempo sendo subordinada à masculina do que sendo respeitada.

As roupas íntimas femininas, por exemplo, resumem bem essa segunda regra: a sensualidade é permitida e às vezes quase obrigatória, mas desde que velada — senão se torna vulgaridade –, para estimular o destinatário na medida certa, a qual tem a ver com a capacidade dele de controlar seus impulsos sexuais.

Uma mulher pode escolher ser sensual porque se sente melhor assim, porém é mais provável que as pessoas ao seu redor interpretem essa escolha como uma tentativa de atrair homens. Mesmo quem é contra essa visão pode se ver desaprovando sua roupa, justamente por temer as consequências de tal visão. Uma pessoa pode escolher só usar preto simplesmente porque se sente mais bonita assim, porém é provável que alguém a classifique de gótica, sem saber que ela só escuta pagode. Uma pessoa pode escolher usar uma blusa do Bob Esponja porque é o desenho que adora ver toda noite, porém é provável que a considerem infantil, sem saber que em suas relações pessoais e profissionais ela demonstra profunda maturidade. Uma pessoa pode escolher uma roupa que para você pode significar apenas mau gosto, porém são grandes as chances de que ela tenha outros motivos para fazê-lo e não queira ou não consiga se desfazer deles.

Sei que roupas têm significado, e as vítimas do Esquadrão da Moda também sabiam. Por isso a transformação por que passavam geralmente era dolorosa. Afinal, ninguém escolhe se desviar do padrão para sofrer preconceito ou ser alvo de piadas. E é esse o problema: você pode achar uma roupa feia, mas de maneira nenhuma isso equivale a poder sugerir para a pessoa que a veste que, pelo fato de vesti-la, ela não tem o direito de se sentir bem e ser respeitada.

Como uma pessoa contraditória, eu via Esquadrão da Moda admirando aquelas mulheres que aceitavam mudar seu estilo e também admirando minha certeza de que não mudarei o meu, porque as duas escolhas exigem coragem.

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Texto por Mariana.
Uma mistura de Neville Longbottom e Rony Weasley, com pitadas de Luna Lovegood e Hermione Granger. Acredita que os cães são a obra-prima do mundo animal; a batata, do vegetal; e a Netflix, do entretenimento (apesar do grave defeito de não ter E.R. no catálogo).

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1 Comentário

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    Gabriela
    26 de setembro de 2016 at 13:06

    Já vi esse programa algumas vezes, mas depois comecei a ver os problemas dessas transformações e não assisti mais. É bom que esse tipo de programa não esteja mais sendo feito, respeitar as escolhas das mulheres sobre suas próprias roupas é muito importante e Esquadrão da Moda não ajudava em nada.

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