LITERATURA

Quantas obras escritas por mulheres negras você já leu?

A pergunta lançada no título parece simples, mas torna-se preocupante quando percorremos os olhos pelas nossas prateleiras de livros lidos. Indo além: denuncia a extensão da problemática que, infelizmente, transita pelas nossas estantes. A visibilidade da produção literária de mulheres negras é ainda baixa, mesmo hoje, com uma recente mudança de perspectiva do mercado editorial quanto à publicação dessas autoras e também do público leitor quanto a sua recepção. Contudo, muito antes deste movimento de reconhecimento, escritoras negras já faziam história sendo precursoras em seus caminhos pela literatura; elas enfrentaram a opressão da sociedade, foram contra o discurso vigente e, no processo, ganharam prêmios nunca antes dados a elas. Historicamente, as mulheres negras vêm produzindo literatura, apesar das barreiras estruturais. Pensando nisso, preparamos uma lista com exemplos de livros de escritoras negras que, de algum modo, foram pioneiras em suas trajetórias.

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis

A escritora maranhense Maria Firmina dos Reis publicou seu romance Úrsula anonimamente em 1859: ela foi a primeira escritora negra do Brasil e a primeira autora de romance abolicionista em toda a língua portuguesa. De acordo com Eduardo de Assis Duarte, pesquisador de literatura afro-brasileira, a indicação de autoria feminina e o tratamento inovador dado ao tema da escravidão foram dois dos principais elementos que deslocaram a figura de Maria Firmina dos Reis para o esquecimento na literatura brasileira, que, por muito tempo, manteve um crivo machista e racista na nomeação de seu cânone. A escritora foi também a fundadora da primeira escola mista e gratuita do estado, tendo lutado ativamente pela educação e pela igualdade racial e de gênero.

O livro Úrsula conta a trágica história entre a protagonista que dá título à obra e o nobre bacharel Tancredo. Aparentemente é uma clássica história de amor impossível, como muitas escritas no período de nacionalismo exacerbado da literatura brasileira na qual a obra coloca-se. No entanto, Úrsula é um romance que subverte essa ordem pelo tratamento dado aos personagens negros, às mulheres e à escravidão. Na trama, o plano de fundo destaca-se por apresentar uma perspectiva comprometida em recuperar e narrar a condição do ser negro no Brasil escravocrata.

Niketche, de Paulina Chiziane

Paulina Chiziane é uma escritora moçambicana de grande repercussão nos países de literatura africana em língua portuguesa. A autora participou ativamente da Frente de Libertação de Moçambique e, ao usar palavras em chope (uma das várias línguas de seu país), fez da escrita uma ferramenta de resistência. Paulina Chiziane foi a primeira mulher de Moçambique a publicar um romance, em 1990, com Balada de Amor ao Vento; mais tarde, foi vencedora do prêmio José Craveirinha com o romance Niketche, já publicado no Brasil.

O livro Niketche conta a história de Rami, uma mulher moçambicana que, ao descobrir e conhecer as amantes do marido, decide viver a relação poligâmica. O romance retrata a experiência da protagonista em meio às suas tradições culturais, apresentando séculos de costumes e as diferenças abissais entre o norte e o sul da terra moçambicana.

Amada, de Toni Morrison

A escritora norte-americana Toni Morrison foi a primeira mulher negra a ser laureada, em 1993, com o Nobel de Literatura – considerado o prêmio literário de maior importância no mundo e que, em mais de 100 anos de premiação, ainda é majoritariamente branco e masculino. Antes disso, em 1988, a autora recebeu o Prêmio Pulitzer de Ficção por Amada, obra lançada no ano anterior.

A história de Amada se ambienta nos anos posteriores ao fim da Guerra Civil Americana, quando a escravidão havia sido abolida na maior parte dos Estados Unidos, mas o Fugitive Slave Act ainda operava, norma que permitia que os “senhores de escravos” fossem atrás de seus escravos fugitivos mesmo em estados livres (onde a escravidão já era proibida). Na obra acompanhamos a história de sobrevivência da personagem Sethe, uma jovem negra que era mantida cativa como escrava na fazenda Sweet Home, da qual consegue fugir com seus três filhos pequenos rumo à casa de sua sogra Baby Suggs, na região livre de Cincinnati. Durante a fuga, ela dá à luz um bebê, a menina Denver, que a acompanha ao longo da história, aumentado o temor de Sethe em ser recapturada pelo dono da antiga fazenda. A vida antes e após a fuga, porém, retorna em dolorosas lembranças com as quais Sethe e as pessoas a sua volta precisarão conviver.

A Quinta Estação, de N.K. Jemisin

A escritora norte-americana N.K. Jemisin foi a primeira mulher negra a vencer, em 2016, o prêmio Hugo de Melhor Romance – importante prêmio literário que abarca o gênero fantasia e ficção científica e que, até então, também tinha por principais vencedores homens brancos. A autora ganhou o prêmio pelo livro A Quinta Estação, e, em 2017, ganhou pela segunda vez seguida, pela continuação The Obelisk Gate [O Portão do Obelisco, em tradução livre], ainda sem edição em português. As obras de Jemisin são permeadas por universos ricos e complexos que abordam o preconceito, a violência e a multiplicidade do comportamento humano; ela é considerada uma das mais importantes vozes da ficção especulativa atual e seus livros já foram nomeados diversas vezes aos maiores prêmios de ficção científica e fantasia do mundo, incluindo o Nebula, o Locus e o World Fantasy Award.

A Quinta Estação é o primeiro livro da trilogia A Terra Partida. A história é ambientada no continente Quietude, um lugar de iminentes catástrofes naturais cuja salvação repousa nos orogenes, magos capazes de prever negativas alterações e manipular as forças geológicas. No decorrer do livro, acompanhamos o ponto de vista de três personagens que enfrentam terríveis acontecimentos: Damaya é uma menina que vive no interior do continente e se vê surpreendida ao descobrir que possui poderes orogênicos, sendo mandada para um centro de treinamento; Essun é uma mulher que escondeu seus poderes para proteger sua família, até que um dia, ao voltar para casa, descobre que seu marido soube de seu segredo e assassinou brutalmente o próprio filho e sequestrou sua filha; enquanto isso, Syenideo já é uma orogene em ascensão que precisa casar-se com um orogene superior e ter filhos, assumindo uma nova missão. As personagens ocupam posições de importância diferentes nesse mundo fantástico, sem saber que, no coração deste único continente, uma grande fenda vermelha foi aberta e expele cinzas capazes de escurecer o céu e apagar o sol.

Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus

Através de seu diário, que se tornou o livro Quarto de DespejoCarolina Maria de Jesus deu voz à realidade vivida pela mulher negra e pobre, lutando diariamente para garantir sua sobrevivência e de seus filhos em uma sociedade de injustiças que lhe apresentava a fome como maior adversária. Descoberta em meados dos anos 1960 por um jornalista, Carolina Maria de Jesus tornou-se uma das escritoras mais importantes de sua geração; seu livro vendeu mais de 100 mil exemplares, foi traduzido para 13 idiomas e vendido em mais de 40 países. Depois dele, também foram lançados Casa de AlvenariaPedaços de Fome e Provérbios, além do trabalho póstumo Onde Estaes Felicidade?.

Quarto de Despejo retrata a vida da autora na antiga favela do Canindé, zona norte de São Paulo, durante parte da década de 1950. Em meio ao registro de seu cotidiano como “catadora de lixo”, Carolina aborda a realidade brasileira, seu contexto político e social, denunciando a discriminação à mulher negra e pobre, assim como as dificuldades de cuidar dos filhos nesse ambiente hostil.

Heroínas Negras Brasileiras, de Jarid Arraes

Tudo leva a crer que a escritora cearense Jarid Arraes não é a primeira cordelista negra no Brasil, pois conhecemos a força dessas escritoras o suficiente para supor que o trabalho de diversas mulheres antes dela ocorreu ao longo dos anos, mas provavelmente foi silenciado. Não conseguimos apurar ao certo esse dado – pois se fala pouco sobre isso, infelizmente. Porém, o trabalho de resgate histórico de figuras de mulheres negras na nossa história, feito por Jarid Arraes em seus cordéis, é um trabalho pioneiro e, por isso, marca presença nessa lista.

O livro Heroínas Negras Brasileiras reúne 15 cordéis escritos por Jarid Arraes; nele temos contato com a figura de grandes mulheres negras que marcaram a história do Brasil, como Antonieta de Barros, Carolina Maria de Jesus, Tereza de Benguela, Laudelina de Campos, entre outras.

Esta lista é apenas uma porta de entrada para uma vasta biblioteca ainda tão pouco explorada. Que possamos diminuir o abismo que ainda há entre a diversidade de escritoras negras – especialmente as brasileiras e contemporâneas – e os espaços de divulgação e circulação de suas obras. Que estas sugestões de leitura possam despertar a curiosidade para que outros títulos também sejam procurados: leia literatura escrita por mulheres negras, elas existem (e resistem!) nas prateleiras.


** As artes que aparecem em destaque e no corpo do texto são de autoria da nossa colaboradora Luana Pagung.

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5 Comentários

  • Responda
    Luanna Calasans
    20 de novembro de 2017 at 13:25

    Boa tarde. Parabéns pela iniciativa e pelas brilhantes indicações, mas essa imagem da Maria Firmina dos Reis não corresponde a autora, a própria Jarid Arraes tem um texto sobre o ocorrido: http://jaridarraes.com/2017/05/12/o-verdadeiro-rosto-de-maria-firmina-dos-reis/

    É um erro histórico que todas estamos tentando corrigir, um abraço

    • Responda
      Valkirias
      21 de novembro de 2017 at 19:00

      Oi Luanna!
      Obrigada pelo comentário e aviso, as imagens foram alteradas com a verdadeira Maria Firmina dos Reis!

  • Responda
    Caio Borrillo
    20 de novembro de 2017 at 15:17

    Só livro foda!

    Excelentes indicações!

  • Responda
    Silvana
    21 de novembro de 2017 at 09:58

    Bom dia. Adorei as indicações. Este mês li As alegrias da maternidade, romance
    de Buchi Emecheta. Fiquei fascinada com a história.

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    Ana Beatriz
    21 de novembro de 2017 at 21:27

    Gostei muito do post e das indicações! Em 2016 li “Olhos D’Àgua” da Conceição Evaristo, e foi um dos melhores livros nacionais que eu tive a oportunidade de ler. Ele emociona, surpreende, é pesado (porém extremamente necessário) e nos abre os olhos para a vivência das mulheres negras.

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