LITERATURA

“Emma Woodhouse, bonita, inteligente, e rica (…)”

Enquanto, em pleno século XXI, uma de nossas revistas intitula uma matéria sobre a esposa do presidente em exercício enaltecendo sua figura pelas qualidades de ser “bela, recatada e do lar”, no início do século XIX, Jane Austen iniciava seu quarto romance publicado, Emma, descrevendo sua heroína como “bonita, inteligente, e rica”. Isso porque Jane Austen e Emma Woodhouse estavam inseridas em uma sociedade estritamente patriarcal cujo padrão para a mulher era ser – veja só – bela, recatada e do lar. Talvez por isso Austen fizesse questão de ironizar determinados comportamentos e atribuir a suas personagens falas e pensamentos não tradicionais à sua época. Diante dessa tragicômica contradição, considerando as épocas e os contextos, ainda tem gente que falha em ver o brilhantismo dos escritos de uma autora do século retrasado.

É uma verdade universalmente conhecida que Orgulho e Preconceito é possivelmente o mais consagrado romance de Jane Austen. Seja pelo livro e o impacto do romance de Lizzy e Darcy em narrativa por si, seja pelas adaptações cinematográficas e televisivas (estou me referindo ao filme de Joe Wright de 2005 e da minissérie da BBC de 1995, sim) que atraíram as pessoas para o universo de Austen pelo caminho inverso.  Seja como for, o primeiro contato costuma ser o mais marcante, o que é justificável. Embora meu primeiro romance de Jane Austen tivesse sido Mansfield Park, foi Emma que se tornou meu favorito por todas as características que o distinguia de seus livros-irmãos: uma protagonista empoderada, tanto quanto era possível, em uma sociedade onde as mulheres em geral dependiam da ascensão social por meio do casamento e para isso não podiam expressar pensamentos independentes.

De certa forma, as heroínas dos seis romances o fizeram – expressaram-se da forma que bem entendiam. Afinal, em se tratando de Jane Austen, o diferencial delas é o pensamento que não condiz com aqueles comuns aos da época. Todavia, com a maioria delas, esses pensamentos precisavam ser expressos de forma sutil, por meio de ironia e com certa repressão, uma vez que estavam limitadas à uma certa condição social. Emma, por outro lado, é uma moça da alta sociedade cuja propriedade do pai está sob sua administração, já que sua mãe falecera quando ela era criança e sua irmã mais velha havia se casado. Seu pai, Mr. Woodhouse, é um senhor de idade e sua saúde frágil acaba tornando-o indulgente em relação às vontades de Emma. Ele deposita, então, todo o seu poder de decisão nas mãos da filha, e a liberdade de sua posição social faz com que ela se sinta autossuficiente e contrária a ideia do casamento, pois já tem tudo o que precisa.

Não tenho nenhum dos motivos que as mulheres normalmente têm para se casar. Se eu me apaixonasse, é claro, seria outra coisa! Mas eu nunca me apaixonei, não é o meu jeito, não está na minha natureza, e acho que isso nunca acontecerá. E sem amor eu seria uma tola em mudar minha situação atual. Não preciso de fortuna, nem ocupação, nem importância; acho que poucas mulheres casadas são tão donas de suas casas como eu sou de Hartfield.

Embora seja admirável ver uma mulher proferindo tais palavras estando ela situada no século XIX, em seu contexto Emma é ainda uma mulher cheia de defeitos assim como é cheia de qualidades. A história é desenvolvida em meio a uma série de mal entendidos que conferem à trama certa comicidade e, na qual, em seu decorrer, Emma precisa percorrer uma trajetória de autoconhecimento e ajuste em seu lugar na sociedade. Lugar este que equilibra sua personalidade distinta com sua função naquele contexto.

Emma é uma moça de 21 anos, (bonita, inteligente, e rica), que, após o casamento de sua governanta e melhor amiga, Miss Taylor, sente-se solitária em sua propriedade, onde mora apenas com o pai. Emma é uma moça imaginativa que se tem em alta conta, e considera a união de Miss Taylor com Mr. Weston um feito seu. Ela se determina, então, a formar mais um casal – muito a contragosto de seu pai e seu vizinho e amigo, Mr. Knightley – mas promete ser o último. Quando conhece a jovem Harriet Smith, ela passa a investir seu tempo em arranjar-lhe um bom pretendente. Seu escolhido para Harriet é Mr. Elton, vigário de Highbury, e Emma passa a arranjar encontros e momentos entre os dois para que possam se aproximar. Não demora muito e Harriet fica encantada com a ideia, enquanto Mr. Elton parece estar respondendo bem ao plano de Emma. No entanto, na volta de um jantar, sozinhos na carruagem, Mr. Elton acaba se declarando para Emma, o que ela toma como um absurdo, pois: 1) ela não está interessada em se casar; 2) era para Mr. Elton estar apaixonado por Harriet! Tendo cometido seu primeiro equívoco, o mundo de Emma, que até então sofrera poucas infelicidades, começa a ficar abalado. E ao longo da história, ela comete ainda outros equívocos que desequilibram sua certeza a respeito de todos, e principalmente, de si mesma.

O clímax da história ocorre quando uma revelação faz Emma perceber que não conseguiu ser tão resistente ao amor quanto gostaria. Havia uma pessoa de quem gostava e não podia abrir mão, e quando o possível relacionamento entre os dois mostrou-se ameaçado, ela se imiscui em uma reflexão profunda sobre seus próprios sentimentos e sua posição em relação às mudanças que tal revelação poderia trazer a sua vida. Ela decide aceitar a felicidade do outro, independente do quanto seus sentimentos possam ficar feridos, mas acaba se surpreendendo com a reciprocidade do sentimento – o que leva ao final “feliz” típicos dos romances de Jane Austen. Emma acaba se casando, e se adequando à sua posição comum na sociedade. Ao desfecho da história, ela não mais é tão impetuosa quanto antes da série de experiências, mas isso não significa que era perdera sua personalidade.

Mr. Knightley se apaixonou por Emma pela convicção que ela tinha de seus próprios ideais, sua inteligência, e boa vontade para com os outros. Ao pedi-la em casamento, ele sabia que o maior empecilho para ela seria deixar seu pai em Hartfield, com todos os receios e a vulnerável condição de Mr. Woodhouse. Ele então aceita se mudar para a casa dela ao invés de levá-la para sua propriedade. É paradoxal perceber o quanto Emma está presa aos desejos do pai (não por imposição, mas por amor e dever como filha), ao mesmo tempo em que detém pleno controle sobre suas decisões e suas posses. E ainda, como ela se encaixou nos padrões da sociedade ao se casar com Mr. Knightley, que por sua vez se apaixonou por Emma justamente por ser distinta em suas opiniões.

Acho que, no fim das contas, o que estou tentando mostrar é o quanto existe bem mais em uma mulher do que sonha a nossa vã filosofia. O fato de algumas mulheres levarem uma vida doméstica pode ser fruto da própria decisão, e isso não as limita a uma determinada posição da sociedade. A personalidade feminina é complexa; produto de um conjunto de fatores que contribuem com a formação de qualquer pessoa. A diferença está na maneira como as adjetivamos.

De acordo com os registros do seu sobrinho, Jane Austen era muito apegada a Emma, mas não acreditava que ela se tornaria uma favorita em geral, pois, ao iniciar aquele trabalho, Austen disse que criaria uma heroína que ninguém além dela gostaria muito. Bem, considerando o romance que saiu como resultado e o símbolo que Emma Woodhouse representa como heroína, podemos dizer que Jane Austen não poderia estar mais errada.

Ilustrações em aquarela por C. E. Brock (1909).

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1 Comentário

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    Andressa
    17 de Fevereiro de 2017 at 16:39

    Simplesmente amo Emma, o livro é meu preferido entre muitos romances de época que coleciono, gosto de Emma porque ela é uma personagem ainda atual em suas expectativas, ela é praticamente dona de uma propriedade, mas poderia facilmente ser dona de um negócio (como em Emma Aproveed) ou até mesmo um império, ela é uma personagem mais real, ao mesmo tempo intrometida e que gosta de ajudar, orgulhosa e até um pouco controladora, mas amiga e sincera. Gosto mais ainda do amor que surge entra ela e o Sr. Knightley, porque me parece o mais e real e verdadeiro (amo a Lizzie e o Darcy, mas não acho que eles não teriam se apaixonado no mundo real), é um relacionamento que se constrói a longo prazo, passa por uma amizade e admiração pelo que eles realmente são, e mesmo com todos os problemas e desaprovação, Emma é capaz de deixar a pessoa que ama sr feliz com outra, e em retorno sr. Knightley respeita a vida da Emma ao se mudar para Hartfield.

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