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Emma Approved: uma adaptação mais do que aprovada

Emma Approved

A partir do momento que a escolha do elenco da versão hollywoodiana de Ghost in the Shell – A Vigilante do Amanhã foi anunciada com o nome de Scarlett Johansson no papel principal, criou-se o burburinho pela mídia a respeito do whitewashing da escolha. Afinal, a personagem era proveniente da cultura japonesa e a atriz escalada tinha ascendência bem ocidental. Antes, durante, e após a estreia do filme, muitas críticas negativas foram escritas a respeito do apagamento da cultura japonesa do filme e da falta de representatividade das minorias étnicas que permanece latente na indústria do entretenimento, apesar das cobranças mais ávidas que têm sido feitas pelo público e por muitos profissionais que também compõem essa indústria. Eu poderia acrescentar meus dois centavos no assunto, mas, primeiro, uma crítica sobre o filme já foi publicada aqui; e, segundo, por que insistir em destacar as produções que erraram ao invés de apresentar aquelas que acertaram, e muito? Pensando nisso, hoje vamos falar de Emma Approved, uma webssérie baseada no romance homônimo de Jane Austen, adaptada em um roteiro moderno e disponível a alguns cliques de distância, no YouTube.

É uma verdade universalmente conhecida que Jane Austen é das escritoras mais célebres da literatura inglesa. E é uma verdade universalmente conhecida, também, que os leitores que se propõem a ler um de seus romances com a mente e o coração abertos acabam caindo nos encantos de sua escrita – ou, as pessoas adeptas às telas acabam caindo nos encantos de suas adaptações (eu sei que você pensou da versão de Pride & Prejudice de 2005, do Joe Wright). No entanto, não são todas as pessoas que gostam do ritmo lento de romances de época, seja na literatura ou no cinema, e por isso acabam perdendo, sem saber, uma boa história, cujas morais são atemporais e por isso hoje são consideradas clássicas. Talvez, pensando nisso, Bernie Su e Hank Green trouxeram algumas das obras de Austen para os tempos atuais e adaptaram o roteiro de forma que Elizabeth Bennet se tornasse uma estudante de jornalismo afogada em dívidas estudantis e cuja família tinha prioridades muito diferentes da sua, e Emma Woodhouse se tornasse uma empresária engajada no ramo de estilo de vida e matchmaking. Primeiro veio The Lizzie Bennet Diaries, e depois Emma Approved. A ordem parece ter sido crucial para experimentar esse novo formato de entretenimento – e disseminação de informação – uma vez que Orgulho e Preconceito é a magnus opus da autora e a mais popular entre o público.

Não foi preciso muito esforço para que a webssérie viralizasse entre os aficionados por literatura e TV; tudo em relação à adaptação moderna tem seu mérito. Emma Approved, de certa forma, herdou os fãs de The Lizzie Bennet Diaries, mas trouxe algo mais de representatividade ao colocar a atriz nipo-americana Joanna Sotomura no papel de Emma Woodhouse, a protagonista. Nesse novo universo de Emma, Emma é uma microempresária que comanda a divisão de estilo de vida e matchmaking do parceiro em desenvolvimento do grupo Highbury de Estilo de Vida, uma empresa do seu pai, e passa a documentar seu trabalho em vídeos para o dia em que receber o “Prêmio de Conquista em Excelência de Estilo de Vida”. A autoconfiança descrita no livro está ali naquela personagem, embora tempo, espaço e etnia sejam bastante diferentes do original. Não obstante, a radical mudança torna a série muito mais interessante e dinâmica de acompanhar.

Ao lado de Emma, está Alex Knightley (Brent Bailey), seu sócio de longa data e possuidor da seriedade necessária para conduzir a parte burocrática do negócio. Tal qual no original, Mr. Knightley atua como consciência de Emma ao longo de todo seu processo de pequenos desequilíbrios que a levam a amadurecer como pessoa, e a personificação dele permanece fiel, apenas modernizada. Harriet Smith (Dayeanne Hutton), amizade recém-conquistada de Emma Woodhouse no livro, entra como assistente da Emma Woodhouse empresária da webssérie, com toda sua inocência e insegurança e fica como personagem recorrente ao longo dos 72 episódios da série e extras. Assim como no livro, Emma tem uma forte convicção de seus próprios ideais e acredita enxergar o que é melhor para seus clientes e amigos antes deles mesmos perceberem. Ainda que o desenvolvimento do enredo dependa de algumas situações de desequilíbrio dessa convicção para o bem da maturidade da própria Emma, por sua natureza ela continua a se envolver com as pessoas que lhe são queridas e procurar o melhor para elas, seja numa primeira tentativa certeira ou numa ratificação de seus erros.

De Annie Taylor (Alexis Boozer), a amiga-cliente com dúvidas em relação ao casamento, à Harriet Smith, a assistente que se tornou momentaneamente um projeto pessoal de confiança e matchmaking; de Izzy Knightley (Mapuana Makia), a irmã mais velha que em notável participação conta com a ajuda direta de Emma para perceber que queria retomar um sonho antigo que abandonou em prol do casamento, à Maddy Bates (Nikea Gamby-Turner), a amiga da família com um comportamento inconveniente (ou hilário, dependendo do ponto de vista) cuja reprovação é o maior faux pas da protagonista; Emma precisa de todas essas interações para diminuir sua autoconfiança até um nível saudável de modo a perceber com mais clareza as verdadeiras necessidades das pessoas a quem ela pretende ajudar, e quando é a hora certa de intervir e retroceder. Mas, principalmente, é por meio das reações dessas pessoas, com um toque do senso de Knightey, que Emma percebe suas próprias necessidades, até então ignoradas por ela acreditar que sua vida estava plena. Afinal de contas, ela era dona do próprio império e de qualidades muito salientadas por aqueles que a admiravam. Se no começo da série ela era a moça cuja vida tinha pouco para importuná-la, ao final dela Emma passou por boas situações que engatilharam seus sentimentos negativos e a fizeram perceber que ela nem sempre estava certa a respeito das pessoas, especialmente, de si mesma.

A essência dos romances de Austen está na autodescoberta de suas heroínas, engatilhadas por desequilíbrios nas suas convicções. Elas são marcadas por serem jovens com um pensamento à frente da época, ainda que ocupem seu devido lugar na sociedade. Seus pensamentos são transmitidos por meio de passagens irônicas e artifícios satíricos, alguns mais sutis do que outros. Portanto, trata-se de uma essência abstrata que não requer uma determinada apresentação física das personagens nos dias de hoje, embora saibamos que os romances originais são explícitos quanto à sua ambientação e por isso sabemos como imaginar as personagens com base neles. No entanto, quanto transportada para o século XXI, a trama não apresentou dificuldades em tornar Emma uma protagonista com características orientais, ou Jane Fairfax (Tyra Colar) em uma moça negra. O elenco se encaixa organicamente na pele dos seus personagens. Ao contrário do que é feito em muitas produções hollywoodianas, em que os atores negros, indígenas ou asiáticos são colocados de maneira estratégica nos filmes de grande escala para mostrar ao público que eles estão cumprindo suas cotas e, por favor, que nós os deixemos em paz. Só que não vamos deixar. Estamos observando, e vamos apontar erros e acertos até que algo ao menos próximo do equilíbrio seja alcançado na grande indústria.

Enquanto isso não acontece, é um alívio poder contar com mentes criativas como a de Su e Green, que colocam em prática projetos como a Pemberley Digital, e usufruem de uma plataforma tão democrática quanto o Youtube para transmitir um conteúdo informal, porém criado com bastante seriedade, que supre um pouco as carências que temos na televisão. Além do prazer de ter mais uma releitura dos clássicos de Austen na lista, também é um prazer ter nossa opinião levada em conta como telespectadores. Outra inovação que as websséries trouxeram foi a possibilidade de interação com o público por meio de redes sociais (chamada transmídia) – um universo à parte que torna os personagens mais reais e próximos do público, aumentando exponencialmente o fator da identificação. Deu certo com The Lizzie Bennet Diaries e deu certo com Emma Approved, ainda que as duas séries tenham tido propósitos diferentes com o conteúdo extra.

Embora por questões práticas e orçamentárias Emma Approved não tenha conseguido adaptar para a telinha dos nossos computadores todos os acontecimentos do livro em sequência, tampouco trazido para a adaptação moderna todos seus personagens (Mr. Woodhouse, por exemplo, é apenas mencionado), a série consegue captar os principais momentos para conseguir a transmitir a mensagem original com maestria e dribla todas as limitações com a criatividade que deveria causar inveja em Hollywood com seus incomparáveis recursos. É um projeto ousado, mas que atinge uma parcela da audiência que talvez o original não conseguisse alcançar, além de não tomar muito tempo diário dos interessados, já que os capítulos são divididos em episódios curtos com no máximo 10 minutos. O alerta que fica é que ambas as séries mencionadas são viciantes. O mérito, neste caso, não é todo da escrita de Jane Austen, mas também das pessoas que imaginaram suas lições no cenário contemporâneo e fizeram essa releitura cativante acontecer. O objetivo, acredito, é tornar sua vida melhor um episódio por vez.

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1 Comentário

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    Aline Tavares
    30 de maio de 2017 at 08:05

    Amo Emma Approved!!!

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