CINEMA

Em Ritmo de Fuga e o papel das coadjuvantes femininas

“I rarely meet men in real life as extraordinary as ones on film, and rarely see women on film as extraordinary as ones I know in real life.” (Jen Richards, criadora do Her Story Show)

(Tradução livre: “Eu raramente conheço homens na vida real tão extraordinários quanto os dos filmes, e raramente vejo mulheres nos filmes tão extraordinárias quanto as que conheço na vida real.”)

Em uma determinada cena de Em Ritmo de Fuga (originalmente Baby Driver, 2017), Debora (Lily James), a garçonete, conversa com o protagonista e seu par romântico, e admite, tristonha, que não há muitas músicas com o seu nome por aí. Ao perguntar a alcunha do personagem interpretado por Ansel Elgort e receber “Baby” como resposta, a garota afirma que os dois poderiam viajar de carro por bastante tempo sem esgotar as inúmeras canções existentes que citam o seu apelido.

Da mesma maneira, em uma frustante e dolorosa analogia, poderíamos apenas trocar as músicas por filmes e a história continuaria a mesma. Quantos filmes de ação e franquias de sucesso sobre homens em conflito você já assistiu até hoje? E quantos destes preferiram focar nas tímidas garçonetes no fundo da cena?

Basta pensar no cinema como uma ferramenta de linguagem entre o público e seu criador e você esbarrará em diversas pesquisas que demonstram quem lidera essa conversa há décadas e não pretende passar o microfone tão cedo.

Em um estudo do Polygraph.com, em 2016, pesquisadores analisaram mais de 2 mil roteiros de Hollywood e concluíram que em 1.195 filmes, entre 60% e 90% dos diálogos são pronunciados por homens, contra 116 em que o destaque são as mulheres. Além disso, 70 dos longas observados têm 100% dos diálogos ditos por homens unicamente. (Fonte: Globo.com)

Para além do emissor, é preciso também analisar a mensagem. Em Baby Driver, nova empreitada de Edgar Wright, acompanhamos o desenrolar da história do protagonista homônimo, um jovem que dirige carros de fuga em alta velocidade para ajudar grupos de bandidos em assaltos mirabolantes.

As pessoas que cercam e impactam a trajetória de Baby diariamente são todas homens. Joe (CJ Jones), sua figura paterna, Doc (Kevin Spacey), seu chefe e algoz com quem também é desenvolvida uma relação paternal, e ocasionais nêmesis como Bats (Jamie Foxx) e Buddy (Jon Hamm). Todas as mulheres, que aparecem em menor número na tela, com poucas falas e nenhum diálogo entre elas, reprovando intensamente em qualquer Teste de Bechdel que se preze, alternam entre momentos em que aparecem representando estereótipos de gênero ou tratadas como vítimas das circunstâncias, mostrando-se muito mais como ideias gerais de como se comporta uma mulher segundo um homem do que como pessoas de carne e osso.

As principais personagens femininas, Darling (Eiza González), Debora (Lily James) e a mãe de Baby (Sky Ferreira) compartilham entre si a característica de existirem mais como projeções e figuras idílicas dentro da trama do que como personagens reais com múltiplas camadas, desenvolvimento e aspirações. “A Mulher Sensual”, “A Donzela em Apuros” e a “Mãe que Morreu”, respectivamente, servem ao filme apenas como gatilhos que motivarão a ação do protagonista e dos demais personagens masculinos, inspirando cobiça, vingança, coragem e luto. Após os breves momentos de autonomia, as mulheres aqui, em pleno 2017, rapidamente retornam ao seu posto de troféus e sofredoras esperando seus cavaleiros andantes as salvarem do perigo em seus carros velozes e trilhas sonoras matadoras.

A própria personagem feminina com mais tempo de tela e poucas falas, Debora, é a encarnação do Male Gaze em roupas de garçonete ou figurinos de época, seguida por uma câmera que passeia por suas pernas sem pressa e retrata suas trocas de roupa com atenção. Desde sua primeira aparição, transformando-se de moça bonita na rua para uma musa que canta músicas com o nome do seu futuro par romântico como que para atrai-lo, fica claro que não nos será fornecido muito material para que nos encantemos pela personagem. E mesmo não recebendo maiores explicações sobre os motivos que movem seu namorado de caráter duvidoso que conheceu dois minutos atrás, é por ele que Debora largará a vida, o futuro e os sonhos que não conhecemos para acompanhá-lo em uma aventura que poderá matá-la.

A justificativa, além do amor instantâneo explorado em um único encontro, é que a moça gostaria de ir embora da cidade em uma viagem de carro sem rumo, apenas ela, sua música e a estrada. E esta teria sido uma cena bonita, mas é claro que nunca acontecerá, porque Debora não é uma mulher com medos, vontade própria e frustrações, é uma heroína romântica. Ela não existe por si só, mas sim como um detalhe na vida do protagonista e, mais pro final do filme, previsivelmente, essa fala será alterada para “mal posso esperar para que sejamos apenas nós, a música a estrada.”

É claro, as cores, o ritmo, a ação em stereo e as referências pop aliadas ao humor certeiro de Edgar Wright estão lá e podem deixar qualquer fã do cineasta muito satisfeito na sala de cinema, principalmente em IMAX, se você puder ignorar a falta abismal de representatividade feminina que o longa apresenta. Mas por que exatamente você deveria?

“O problema está exatamente no tipo de representação que Edgar Wright sempre traz para a tela: o protagonismo masculino e branco. Com exceção de Spaced, série da qual já falei aqui, todos os seus protagonistas são masculinos, todos brancos. E se pararmos para analisar as personagens femininas, mesmo que secundárias, a situação não foge muito do papel de ‘musa-com-algo-a-mais’. 

(…)

Quando discuto nas minhas aulas ou palestras sobre a narrativa única e a importância de contar outras histórias que não a branca e masculina, o que eu procuro incentivar nas pessoas é exatamente querer mais, esperar mais. Como criadora de conteúdo ficcional eu não vou querer me prender a uma fórmula padrão, eu vou querer ir além, porque se nós temos tantas histórias no mundo, tantas pessoas, tanta diversidade, porque limitar a minha caneta àquela que é branca, masculina, heterossexual e cis? Por que me limitar criativamente?” (Rebeca Puig, no Collant).

Enfim chegamos à última parte da nossa equação: o receptor. O diretor de Spaced e da trilogia do Cornetto é tido por muitos como um gênio do cinema moderno, revolucionário em sua linguagem cinematográfica com estilo próprio e adorado por hordas de fãs. Mas se ele está sempre contando a mesma história, e ela continua fazendo sucesso (95% de aprovação no Rotten Tomatoes), quem tem sido o seu público-alvo, representado na tela grande por Scott Pilgrim, Shaun e Baby? E o que eles pensam sobre Ramona Flowers, Liz, Debora e Darling? E por que isso não tem sido um empecilho no aproveitamento total desses filmes por parte dessa audiência?

Como ocorreu com Fragmentado , existem pessoas comentando sobre o sexismo gritante na obra de Wright, da qual Em Ritmo de Fuga é só mais um fruto que não caiu muito longe da árvore, mas ainda é pouco, ainda mais quando se olha para o atual cenário do cinema mundial, onde as mulheres estão lutando para sobreviver em um meio ainda tão predominantemente machista. Quando aproximamos a lupa da maneira como estamos sendo retratadas, a realidade é ainda mais desanimadora, como na pesquisa realizada pelo Instituto Geena Davis e o Google, onde os dados foram separados por gênero.

“O único [gênero] em que as mulheres aparecem mais do que os homens, com 53%, é o terror, categoria em que personagens femininas costumam ser retratadas como histéricas e desesperadas. O terror é seguido pelo romance e pela comédia, que contam, respectivamente, com 45% e 40% de tempo de tela para as mulheres.” (Fonte: Correio Braziliense)

Com os resultados recentes de empreitadas como Mulher-Maravilha (2017), sabemos que representatividade importa. Histórias importam, sejam elas ficcionais ou não, e por isso precisamos estar atentos a quem está contando, quem está ouvindo e em como estamos sendo retratadas nessas narrativas.

É mesmo uma pena que, junto com seus diálogos rápidos e engraçados ou suas trilhas sonoras arrebatadoras, Em Ritmo de Fuga, assim como os demais filmes do seu diretor, não tenha a devida preocupação em abrir espaço para o protagonismo feminino em sua trama. Talvez, para quem já transformou homens sem poderes especiais em guerreiros de apocalipses zumbis e deixou sem nenhum arranhão motoristas de surreais perseguições de carros, o próximo grande desafio seja apenas descobrir as mulheres extraordinárias que repousam dentro de cada namorada e garçonete escondida no canto da tela.

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