TV

Arrow: Em defesa de Laurel Lance

Arrow é uma das séries mais problemáticas da minha grade no momento. Depois de uma primeira temporada bem acima da média e uma segunda que conseguiu manter as expectativas elevadas, a terceira e a quarta vieram para provar que nem só de tramas bem amarradas e vilões poderosos se faz a história do Arqueiro Verde. Entre problemas de roteiro, personagens que sumiram de forma abrupta e plots que não fazem o menor sentido, a série sofre ainda com um problema recorrente na ficção, de um modo geral, mas que aqui surge com uma força assustadora: a péssima representação feminina.

Atenção: o texto contém spoilers de todas as temporadas de Arrow.

Thea Queen, Felicity Smoak, Sara e Laurel Lance, Lyla Michaels, Nyssa Al Ghul. Essas são algumas das personagens que conhecemos ao longo da série, mulheres fortes e determinadas que, para além de suas características e trajetórias individuais, possuem um histórico comum bastante problemático como apoio para o desenvolvimento do personagem principal, Oliver Queen (Stephen Amell), ou qualquer outro personagem masculino que esteja em foco no momento.

A série segue uma tendência comum em narrativas do universo dos super-heróis que coloca força e inteligência, em especial femininas, como sinônimo de força física, e vasto conhecimento tecnológico, julgando que isso, por si só, é suficiente para uma representação válida de suas mulheres. A realidade, no entanto, não poderia ser mais diferente: ainda que essa seja uma parte essencial da narrativa e que esse tipo de representação seja importante – afinal estamos falando de mulheres que chutam bundas e salvam o dia, seja com sua força física e/ou intelectual, e nós sabemos que essa, infelizmente, ainda não é a regra, mas sim a exceção – ela é apenas uma parte da trajetória dessas personagens, uma parte que não é a única, muito menos a mais importante, e que, quando tratadas dessa forma, acabam simplificando a figura dessas mulheres.

Sabe-se que a televisão é também um universo predominantemente masculino e que isso, obviamente, reflete diretamente no produto final que consumimos. Mesmo com um elenco fixo composto majoritariamente por mulheres, Arrow falha ao apostar numa representação simplista e pouco inspirada de suas personagens, ignorando que, por trás das lutas e planos para acabar com o vilão, existem pessoas – com conflitos, vontades, perdas, escolhas, questões e muitos sentimentos aí no meio – e que todas as suas nuances devem ser exploradas de forma contínua e crescente, e não só quando é conveniente para justificar a trajetória e/ou conflitos internos do personagem principal.

Ao longo das quatro temporadas, vimos diversas personagens assumirem o papel de gancho na história, sendo sacrificadas em função de um “bem maior”. O que assistimos, então, foi uma sequência assustadora de personagens que perderam suas identidades, mulheres que se tornaram empecilhos, que passaram a ser resumidas como par amoroso de Oliver Queen (ou qualquer outro personagem masculino), que se transformaram em vilãs vazias ou vítimas desnecessárias, que sumiram do mapa sem muitas explicações ou foram mortas de formas cruéis – eventos que nos deram, senão um motivo razoável para desistir da série, pelo menos algo sobre o que refletir.

Curioso, aliás, pensar que boa parte das mortes que movimentaram a trama até agora foram, justamente, de mulheres. Duas temporadas bastante significativas nesse sentido são a terceira e a quarta que, numa tentativa desesperada de recobrar os números de audiência de temporadas passadas, apostaram num modelo de mistério pouco convincente e foram construídas primordialmente em torno de mortes cruciais. Ainda que algumas dessas personagens tenham voltado à vida, suas mortes passam a mensagem equivocada de que mulheres, independente de treinamento, continuam sendo o sexo frágil e que, não por acaso, são elas que estão sujeitas à mortes tão estúpidas quanto sem noção. Por outro lado, se o retorno poderia ter sido uma boa oportunidade para a série se redimir pelos erros cometidos até então e passar a fazer escolhas mais inteligentes, ele foi apenas um artifício para satisfazer os anseios do protagonista – que, mesmo a essa altura do campeonato, ainda não aprendeu a lidar com a perda de pessoas próximas, muito menos com as consequências de suas escolhas. Ao tratar a morte como algo não-definitivo, a série nos apresenta um novo problema, talvez ainda mais grave, e um reforço para aquilo que já é tão problemático: a morte não é algo realmente relevante e suas mulheres são, de fato, meros objetos, que morrem e ressuscitam numa velocidade absurda, de acordo com sua relevância para a trajetória do protagonista.

laurel lance 1

É nesse contexto tão problemático que surge a vítima mais recente dos showrunners da série, Laurel Lance (Katie Cassidy) – de todas, talvez a perda mais dramática até agora. Sua história começa ainda na primeira temporada, onde conhecemos a jovem advogada que viu sua vida sair completamente dos trilhos quando perdeu a irmã, Sara (Caity Lotz), e o namorado, Oliver, num acidente de barco cinco anos antes. Muito além da sua própria dor e luto, Laurel ainda precisou aprender a lidar com o alcoolismo do pai, a ausência da mãe e, ao mesmo tempo, precisou encarar a traição cometida pelo seu então namorado com sua irmã mais nova – o que gera uma dualidade de sentimentos interessante de acompanhar.

Aos poucos, conseguimos entender como ela foi capaz de superar tanto de uma só vez, construindo para si não um mundo livre de sofrimento, mas um lugar onde ela pudesse se sentir mais segura, feliz e valorizada. Uma vez longe da sombra de seu relacionamento com Oliver, Laurel tem a oportunidade de crescer à luz do próprio potencial e seguir seu caminho de forma independente. Ela se torna uma advogada respeitada, conquista a própria autonomia e encontra o equilíbrio na sua vida amorosa num relacionamento maduro e bastante positivo, muito diferente do que viveu ao lado do protagonista. O retorno de Oliver para a ainda Starling City, no entanto, traz consigo vários fantasmas do passado, muitos dos quais envolvem Laurel, que se vê obrigada a encarar novamente as coisas horríveis que viveu. É um momento delicado na sua trajetória, que traz mudanças significativas para a sua vida, mas que não é tratado de forma leviana como acontece com uma frequência absurda nesse tipo de produção. Seus conflitos não são resolvidos com facilidade e Laurel não corre para os braços de Oliver, ignorando todos os erros que ele cometeu no passado, muito pelo contrário. Ela é firme ao defender aquilo que construiu sozinha e, mesmo que ainda tenha sentimentos por Oliver (muitos, o tempo inteiro), não ignora o quanto ele a machucou no passado, muito menos que sua vida, agora, se encontra em um lugar muito melhor.

Ela deixa claro que seguiu em frente e que já não está mais disponível para suprir as necessidades afetivas dele. Laurel se mostra uma mulher complexa, dona de si, com sentimentos contraditórios e, por isso mesmo, muito reais – e exatamente por ser tão humana, acabou alimentando a ira de muitos fãs que nunca conseguiram aceitar que, muito mais do que o interesse amoroso do protagonista, Laurel era um ser-humano único e complexo, cheio de nuances, vontades, sentimentos e conflitos, com uma trajetória independente e total autonomia para fazer suas próprias escolhas sem dar satisfações pra ninguém. E aí é inevitável pensar que essa reação tão problemática diante de uma personagem tão complexa e cheia de potencial possa sim ter sido o gatilho para o desfecho dramático que assistimos em “Eleven-Fifty-Nine“, episódio da quarta temporada. Ainda que a escolha por conduzir sua história de forma tão cruel e, por vezes, preguiçosa, seja responsabilidade exclusiva dos roteiristas, num universo que constantemente apela para o fanservice, não é difícil imaginar que muito do que aconteceu pode ter vindo justamente daí. E sendo esse universo, também, tão machista, não dá pra negar que esse é um reflexo da sociedade em que vivemos, que trata suas mulheres de forma pouco gentil e que frequentemente as coloca como seres sem vontades ou ideias próprias, que estão ali apenas para cumprir seu papel na vida do homem.

Em busca de tornar a personagem mais agradável aos olhos do público predominantemente masculino e encontrar uma forma de justificar seus conflitos – que, pra começo de conversa, não deveriam sequer estar sendo questionados –, a série transformou Laurel em alcoólatra: uma opção que poderia abrir espaço para várias questões importantes, não fosse o roteiro preguiçoso e mal-trabalhado. Ao mesmo tempo, várias personagens começaram a pipocar dentro da trama, o que transformou Laurel, antes a mulher mais importante dentro da história, numa mera coadjuvante. Não digo que a presença de mais mulheres tenha sido ruim, muito pelo contrário, afinal de contas, quanto mais personagens femininas, melhor. No entanto não deixa de ser problemático pensar que essas mulheres só surgiram porque, pra começo de conversa, Laurel precisava perder tempo de tela, e que essa foi a alternativa encontrada para alcançar tal objetivo.

laurel lance 3

Se por um lado tínhamos Felicity (Emily Bett Rickards) sendo a personagem favorita do fandom, divertida e muito inteligente, e Sara Lance como a parte forte e bem treinada da equação, para Laurel sobrou apenas a trajetória solitária de uma alcoólatra mal construída, vez ou outra interrompida pelos discursos ridiculamente condescendentes de quem, no fundo, no fundo, não estava nem aí. De novo, ninguém estava ao seu lado quando ela mais precisou – nem o seu pai, que tinha passado exatamente pelo mesmo problema e poderia dar algum tipo de ajuda prática nesse sentido; nem sua irmã, por quem ela tanto sofreu a perda anos antes; muito menos Oliver, que se dizia muito apaixonado e arrependido, mas que nunca foi capaz de olhar para além do próprio umbigo. Ainda assim, Laurel foi, mais uma vez, pintada como uma pessoa horrível; a mulher que foi traída, exaustivamente manipulada, que sofreu perdas terríveis e viu seu mundo virar de cabeça pra baixo, tratada, de novo, como a culpada pelos traumas que sofreu.

A terceira temporada talvez seja o grande ponto de virada na trajetória da personagem – não que isso tenha significado muito, no final das contas. Depois de perder a irmã pela segunda vez (pois é), Laurel se vê impulsionada a seguir seu caminho como Canário Negro – uma das heroínas mais antigas e importantes do universo da DC nos quadrinhos. O que poderia ser uma jornada de empoderamento e superação, no entanto, se transforma numa trajetória bastante problemática, que esbarra mais uma vez na má vontade dos showrunners em dar para a personagem um desenvolvimento apropriado, abrindo espaço para que ela possa mostrar e, principalmente, explorar, todo o seu potencial. Isso, de certa forma, reflete na forma como ela é tratada por outros personagens dentro da trama, que usam de condescendência disfarçada de preocupação para desmotivá-la a seguir seu caminho. Laurel não se deixa abater, é claro, mas ainda que ela consiga provar, de certa forma, o seu valor, ela jamais é apresentada como uma personagem verdadeiramente forte, mas como alguém que precisa de constante cuidado, que comete erros básicos, não tem muito equilíbrio e faz escolhas estúpidas vez ou outra – e aí foi frustrante perceber como sua jornada, de fato, não a levou a lugar nenhum. Laurel nunca foi boa o suficiente e precisava provar constantemente que era capaz. Mesmo depois de tanto tempo, ela continuava a ser tratada como um empecilho e não como a mulher completa e complexa que sempre foi.

Mesmo assim, ela continuou lutando e tentando de verdade se tornar a heroína que queria e, acima de tudo, precisava ser. Aos trancos e barrancos, Laurel foi ganhando seu espaço, garantindo para si a história que deveria ter contado desde o início e construindo um mundo onde ela poderia ser a pessoa incrível que sempre foi. Ela já não estava mais tão sozinha, não só porque finalmente entrou para o time do Arqueiro Verde, mas porque construiu amizades bacanas e, aqui, destaco sua amizade com Nyssa Al Ghul (Katrina Law), de todas as pessoas possíveis, logo ela. Seu arco, antes tão cheio de altos e baixos (mais baixos do que altos, sejamos sinceras), parecia finalmente estar sendo construído com mais cuidado e carinho, e ela encontrou, pela primeira vez, a chance de mostrar quem era de verdade.

Coincidentemente ou não, com as férias momentâneas de Oliver e Felicity, no final da terceira temporada, Laurel assumiu as rédeas da situação e passou a desempenhar uma função fundamental dentro do time. O retorno dos dois personagens, no entanto, não alterou sua importância na narrativa, transformando-a no ponto de equilíbrio entre todos eles quando as coisas ameaçavam sair do controle. Tudo parecia caminhar de forma bastante positiva, dando a esperança de que, em breve, a personagem poderia finalmente alcançar o seu ápice, até que, não mais do que de repente, ela morreu. Existiam mais ou menos 12736178263 personagens que eles poderiam ter sacrificado, personagens cujas mortes teriam tido o mesmo impacto, que fariam muito mais sentido e movimentariam a trama da mesma forma mas, de novo, eles preferiram matar uma mulher que tinha acabado de ganhar mais destaque.

laurel lance 2

A situação fica ainda pior quando pensamos que, enquanto Laurel recebeu um desfecho tão injusto, por outro lado temos exemplos bem ótimos de quando homens não morreram, mesmo em situações muito piores – sendo o próprio Oliver o melhor exemplo disso quando enfrenta Ra’s Al Ghul (Matthew Nable), ganha ferimentos seríssimos (pensem em espadas sendo enfiadas na barriga e coisas maravilhosas desse tipo), cai de uma montanha (!!!), mas sobrevive graças a umas ervas malucas e uns goles de chá. Por mais que ele seja o protagonista e que não vá morrer tão cedo (pelo menos não enquanto a série continuar sendo renovada), é uma saída fácil e pouco convincente essa, que mostra, com uma clareza absurda que existe sim uma resistência e que existe, sim, um duplo padrão.

É por isso que, embora a intenção dos produtores fosse justamente chocar o público com a morte de um personagem importante e que esse artifício tenha sido anunciado desde o início da temporada, eles viram seu tiro sair pela culatra. Laurel nem sempre foi uma personagem querida pelo público, mas aos trancos e barrancos, conseguiu conquistar seu espaço (ainda que muito inferior ao que ela realmente merecia), e tirá-la de cena não só de uma forma tão abrupta, mas especialmente cruel e sem o menor cabimento, revoltou, sim, muita gente.

Ao tratar seu arco como encerrado e dar à Laurel uma morte tão vazia, Arrow prova, mais uma vez, que nunca soube o que fazer com suas mulheres quando elas deixam de estar à sombra do protagonista para seguirem suas vidas de forma independente. Nem mesmo em seu leito de morte Laurel teve a chance de se tornar a protagonista da sua própria história – o que deixou a despedida já tão dramática, também muito amarga. Por mais que suas últimas palavras tenham doído em todas nós, elas não doeram porque ela e Oliver formavam um casal sensacional ou porque ela estava deixando o caminho dele livre para viver seu amor com Felicity ou, ainda, porque ela tinha sido apenas um capítulo na história do Arqueiro; mas porque sabíamos que ali estavam encerradas as chances de Laurel desempenhar de maneira digna o papel que sempre foi dela, não importa o quanto tenham tentado provar o contrário. Muito mais do que o interesse amoroso de Oliver nas primeiras temporadas, Laurel era uma super-heroína, uma mulher inteligente, forte e determinada, que cometia erros e metia os pés pelas mãos, mas que também acertava e salvava o dia. Ela era uma mulher com sentimentos, que às vezes sentia raiva, muita raiva, mas que também era incrivelmente generosa e que sempre teve um senso enorme de justiça. Laurel era uma mulher completa e complexa como todas nós – e foi sacrificada justamente por ser essa pessoa. Laurel, assim como muitas mulheres na ficção, merecia muito mais do que o fim que teve, e é uma pena que nós jamais tenhamos a oportunidade de vê-la crescer à altura do próprio potencial.

Posts Relacionados

5 Comentários

  • Responda
    Tayná
    4 de julho de 2016 at 09:26

    É por isso que, com exceção da Batwoman e do Aquaman dos Novos 52, eu larguei de mão os projetos da DC em qualquer mídia. Eles ainda precisam aprender muito sobre diversidade, igualdade e o que difere o bem do mal.

    • Responda
      Ana Luiza
      4 de julho de 2016 at 16:43

      Nossa, com certeza! Confesso que continuo acompanhando alguns ainda na esperança de que algum dia eles tomem vergonha na cara e assumam que suas escolhas criativas têm sido muito equivocadas, porque é realmente uma pena que essas histórias tenham se transformado nesse horror, mas às vezes a vontade sincera que tenho é largar de mão mesmo. Arrow foi de longe minha maior decepção nos últimos dois anos ):

  • Responda
    Matheus Dorneles
    4 de julho de 2016 at 14:38

    Sempre fiquei muito empolgado quando disseram que teria uma série sobre o arqueiro verde, justamente por causa do casal Oliver and Dinah.
    Sempre achei ele muito divertido e ela além de ser um balanço para ele, sempre foi muito independente, forte e nunca precisou dele pra nada, tanto que ela fez e faz parte das aves de rapina maravilhosamente. (quem não conhece, precisa procurar, sério).
    E quando vi a adaptação que fizeram dela pra série fiquei triste no início pois ela era o oposto do lado dela nos quadrinhos. Mas perdoei os criadores da série quando assumi que se tratava de uma série de origens, e que um dia ela viraria a incrível e poderosa Canário negro que tanto amamos.
    E como você disse, mataram ela DO NADA e completamente sem justificativa senão causar surpresa nos fãs.
    realmente ainda estou procurando motivos para voltar a assistir a próxima temporada, pois sem Canário a série não faz sentido para mim.

    • Responda
      Ana Luiza
      4 de julho de 2016 at 16:47

      Exato! Quando comecei a assistir a série, também achei que era mais uma introdução no melhor estilo ~origens~ e que logo mais Laurel assumiria o papel que era verdadeiramente dela. Mas aí, quando ela finalmente vira a Canário Negro, os produtores resolvem matá-la? Sério, os caras deram entrevista falando que o arco dela tinha sido finalizado (!), que não tinha mais pra onde ir. Sério, como? Não faz o menor sentido. Tá bem puxado continuar assistindo.

  • Responda
    Aline Guerra
    2 de fevereiro de 2017 at 09:33

    Texto muito incrível, parabéns mesmo. Eu costumo dizer que Arrow não mereceu a Canário Negro, tanto pela maneira “insignificante” que tratou a evolução da personagem como a morte sem fundamento dela. O universo DC ainda tem muito o que aprender sobre igualdade de gênero e girlpower em geral, mais ainda da bons passos como por exemplo a história da Sara que teve muitas idas e vindas e hoje eu considero o melhor arco feminino das séries 🙂

  • Deixe um Comentário