MÚSICA

Mariah, J. Lo, Christina e Britney: em defesa das divas pop “preguiçosas”

Divas pop

“Não leia os comentários” é uma das regras mais conhecidas na internet. Já faz algum tempo que a maioria dos sites optou por desabilitar os comentários ou seus usuários decidiram parar de lê-los. Os poucos sites voltados à cultura pop que têm seus comentários liberados veem suas caixas tomadas por discussões, principalmente em relação às divas pop. Esse termo é usado na internet para falar de cantoras, geralmente novas, muito famosas que cantam, basicamente, pop, e que têm um grande número de fãs – que costumam ser bastante protetores com suas preferidas. Tão protetores que sentem necessidade de proteger a artista que tanto amam de diversas formas, inclusive rebaixando suas possíveis concorrentes. Entre os possíveis xingamentos usados para inferiorizar as outras, estão: flopada, sem talento e preguiçosa.

O último exemplo sempre me pegou. Entre todas as possíveis palavras que podemos usar para falar sobre uma artista, “preguiçosa” não é uma delas. Ao meu ver, uma pessoa que passa anos da sua carreira trabalhando duro, ouvindo diversos nãos, e se arriscando para receber críticas, evoluir e divulgar seu trabalho para a maior quantidade de pessoas possível não pode ser considerada preguiçosa. Para cada tipo de artista existe um tipo de divulgação correta; entretanto, nem todos conseguem achar a sua fórmula particular ou se adaptam à forma mais conhecida de sucesso no mainstream – single, single, resposta do público e quem sabe um álbum e contrato com alguma gravadora – para chegar a chance de investimento e divulgação em grande escala. Algumas artistas acabam se cansando, por diversos motivos, e optam por uma forma diferente de lidar com a sua carreira. A realidade é que cada caso é um caso e se a vida pessoal reflete na forma como lidamos com a nossa vida profissional diariamente, para uma artista de grande porte sua vida pessoal reflete também na forma com que os fãs vão lidar com a sua carreira e seu sucesso.

Quando falamos sobre divas, a primeira pessoa que consigo lembrar é Mariah Carey. Conhecida por ser uma pessoa difícil de lidar, Mariah só conseguiu atingir um certo sucesso com o público no seu terceiro álbum, Musicbox, mas chegou ao auge quando lançou  o hit “Heartbreaker”, no sétimo álbum de sua carreira, Rainbow, que coincidiu com o fim do seu casamento abusivo com Tommy Motolla, dono de sua então gravadora, e o surgimento de uma nova Mariah mais livre, confiante e dona de si. Rainbow fez sucesso porque era diferente de tudo lançado (inclusive, Mariah foi uma das primeiras cantoras a misturar pop com hip hop, convidando rappers conhecidos como Puff Daddy e Jay Z para participar de suas músicas). O mundo estava aos seus pés e graças a esse sucesso mundial Mariah Carey ganhou diversos prêmios e lançou também um filme.

Na mesma época, os problemas com sua gravadora começaram: ela se sentiu deixada de lado pela equipe, por ordens do seu ex-marido, e sofreu um colapso nervoso. Tudo começou a ir abaixo. Seu álbum seguinte falhou em fazer sucesso, seu filme foi recebido com críticas negativas e praticamente não gerou nenhum lucro, e sua vida pessoal não estava nas melhores. Alguns anos depois, Mariah conseguiu atingir o sucesso de novo, mas nada que se comparasse aos anos anteriores. Até hoje usando da mesma fórmula em seus clipes e músicas, não podemos deixar de reconhecer que ela se mantém relevante não só como uma das maiores vozes da música, mas como alguém que opta por meios diferentes de voltar aos holofotes – sendo jurada em reality show, tendo o seu próprio reality, fazendo participação em séries de televisão ou simplesmente atuando. Por mais de uma década tudo que Mariah tocava virava ouro e, além disso, ela foi uma das responsáveis por trazer um novo ângulo para a música pop. Hoje ela descobriu sua fórmula, que funciona para ela ao mesmo tempo em que entrega o que os fãs querem, e preferiu não mudar.

Para ambos, parece ser suficiente.

Diferente de Mariah, que não a conhece, nós conhecemos muito bem Jennifer Lopez. Seu primeiro single “If You Had My Love” fez bastante sucesso, porém, foi na época de “Love Don’t Cost a Thing” que a artista obteve sucesso mundial. Dona de uma voz suave sem muitas notas altas, J.Lo usou seu talento de uma forma inteligente, fazendo uma música diferente do que estava tocando nas paradas pop, mesclando seu som com muito R&B, enquanto aproveitava sua fama para atuar em grandes filmes e comédias românticas.

Foi durante esta época que o jornalismo de celebridades e a cultura dos tabloides sensacionalistas estava em seu auge e assim seus relacionamentos amorosos – com Ben Affleck e Puff Daddy – eram um dos focos principais ao se falar a respeito de sua vida. Esgotada emocionalmente, Jennifer Lopez acabou prejudicando sua carreira e chegando no “ponto mais baixo da sua vida”. Como acontece na maioria das carreiras em decadência, seu sucesso musical e cinematográfico começou a sofrer vários fracassos e críticas negativas, e ela acabou sendo deixada de lado. Foi preciso de alguns álbuns em espanhol, singles em primeiro lugar com participação de rappers famosos, e ser jurada de um reality show de sucesso para ela chamar atenção do público novamente, mas seu sucesso nunca mais foi o mesmo.

Devemos deixar claro que seus singles mais recentes são muito parecidos, assim como seus álbuns, mas essa é a música que J.Lo faz e a que combina com sua voz. Mesmo não tendo atingido um sucesso parecido ao que ela teve em seu auge, não podemos falar que ela não continua relevante de uma forma ou de outra, lançando músicas e produzindo séries e filmes, lançando linhas de sapatos e roupas, entre outras atividades. A forma de trabalho de J.Lo nunca foi uma só e por isso pode parecer que ela não faz sucesso quando, na verdade, ela estava e está associando seu nome a diversos tipos de mercado e lucrando com todos ele. Foi preciso anos para que ela descobrisse seu nicho, seus talentos e a melhor forma de obter seu sucesso atual – que é mais discreto, mas que sempre funcionou para ela.

Christina Aguilera, por outro lado, nunca foi uma artista de uma fórmula só. Tendo feito sucesso assim que atingiu a maioridade, mas trabalhando desde nova – como no Clube do Mickey – foi preciso anos de dedicação até atingir reconhecimento mundial e explodir como uma das queridinhas da música pop. O sucesso obtido pelo seu primeiro álbum foi satisfatório, mas foi em seu segundo trabalho, Stripped, que Christina fez um sucesso estrondoso que marca sua carreira e influencia a música pop até hoje. Foi graças a uma transformação completa e seu amadurecimento como pessoa e artista, que refletiu todo o conceito do álbum, e mais autonomia na sua carreira, para alcançar reconhecimento mundial. Independente de trazer novos sons, escrever suas próprias letras, e ter um estilo próprio, Christina nunca obteve o sucesso de algumas das suas amigas contemporâneas.

Christina Aguilera sempre foi uma artista à frente do seu tempo, uma das primeiras, junto com Madonna, a usar o conceito de era em cada um dos seus álbuns, recurso que é tão usado hoje em dia. Christina mudava bruscamente de estilo e sonoridade a cada álbum e cada um deles refletia um período em sua vida e sua mudança como pessoa. Sua música sempre foi muito pessoal e por isso ela lidava de uma forma diferente com o sucesso, indo na direção contrária da fórmula que todas as artistas da época usavam. Isso a tornou única, e fez a industria não saber lidar com ela, porém foi por esse mesmo motivo que conquistou fãs tão fiéis. Podemos ver em quase todos os seus álbuns uma musicalidade a frente do seu tempo ou resgatadas de antigamente, e essa necessidade de inovar sua sonoridade, muitas vezes anos antes de fazerem sucesso com o público, mas sempre influenciando diversas artistas, mantém suas músicas lançadas décadas atrás relevantes até hoje.

Mesmo sendo o “pacote completo” para uma artista pop, Christina nunca foi pelo caminho que se esperava pois não dançava, escolhia visuais propositadamente desafiadores, ao mesmo tempo que preferia levar uma vida o máximo possível fora dos holofotes. Ela nunca foi uma artista de turnês mundiais, filmes ou fofocas, sendo extremamente discreta na sua vida pessoal e profissional. A sua forma de trabalhar é diferente, é calma e muitas vezes lenta, porém é sua. Não a faz menos artista ou menos relevante que ninguém, até por ter uma das melhores vozes do mundo, simplesmente o que a faz ser quem ela é e sempre foi.

Por último, mas não menos importante, temos Britney Spears: até hoje uma das cantoras mais relevantes do mundo e a dona da piada do “pagamento em Doritos e Starbucks”. O seu colapso nervoso, em 2007, ficou registrado como um marco na cultura pop. Queridinha da América desde sempre, Britney Jean Spears cresceu sob os holofotes, mas foi na adolescência que sua fama explodiu. Nos anos precedentes à internet, onde todas as divulgações eram a base de turnês, clipes, álbuns e MTV, não existiu símbolo maior na sua geração. Em suas músicas, mesmo que não escritas por ela, existiam várias pontuações sobre a pressão, a solidão, a superexposição e o cansaço que carregava por ser a maior estrela do mundo. Ícone de uma época e sendo a maior vítima das revistas de fofoca e paparazzis desde então, é compreensível que uma hora ela tenha entrado em colapso nervoso. Não somente um problema sério de estafa, além de drogas, mas também uma doença mental e um problema no joelho que a obrigaram a parar de fazer uma das coisas que mais amava e atribuía sucesso a sua fama: dançar. Toda a sua batalha desde então, nós já conhecemos, mas o que as pessoas esquecem foi o quanto de trabalho ela teve para ser quem é.

Não, ela não trabalha mais como antigamente, não lança nada que inove sua carreira, mas seu sucesso e sua carreira de duas décadas são discutidos e analisados até hoje como reflexo e influência na cultura pop. A Britney de hoje pode não trabalhar como antes – poucas cantoras um dia trabalharam tanto quanto ela – mas com certeza se mantém relevante e acima de tudo: voltou a ser feliz.

Não importa o que essas mulheres tenham feito no seu passado e continuam fazendo no seu presente porque quando uma mulher erra, principalmente em um mercado que lida com o público, todos esquecem as suas conquistas para lembrar dos seus defeitos. Diversos homens na indústria musical passam anos sem lançar nada e quando voltam não são recebidos com críticas sobre o tempo que passaram longe do holofote – para continuarmos na esfera do pop, podemos citar o exemplo de Justin Timberlake. Não são chamados de preguiçosos, simplesmente são considerados artistas “discretos”, mas em nenhum momento recebem o mesmo tratamento que uma artista mulher. A realidade é que as pessoas não são gentis com mulheres no geral, principalmente em exposição e/ou que não mais no auge da sua carreira, fadadas ao esquecimento se não performam do jeito que a sociedade e a indústria esperam. Não recebemos o mesmo tratamento que homens. Não temos o mesmo reconhecimento independente de qual seja nosso trabalho, mas precisa-se respeitar mulheres que trabalharam mais do que um dia podemos trabalhar, que mudaram a direção de um ou mais gêneros musicais, que se transformaram, evoluíram e acima de tudo, tiveram a coragem de fazer isso aos olhos do mundo.

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