CINEMA TV

Eleven, Bev e X-23 : sobre o direito de ser menina

Em uma das cenas mais criticadas da segunda temporada de Stranger Things, Eleven (Millie Bobby Brown), a garota com poderes telecinéticos e protagonista da trama, observa Mike (Finn Wolfhard), o menino de quem ela gosta, se divertindo com a nova menina da turma, Max (Sadie Sink). Num ato impulsivo de ciúmes, El usa seu dom para fazer a garota cair do skate como uma forma de vingança.

Sua atitude, ainda que natural e compreensível para uma menina da sua idade, foi vista negativamente por uma parcela da crítica, que sinalizou o ato como sintomático em relação à misoginia oitentista cada vez mais presente na série. Se Eleven foi criada em um laboratório durante toda a sua curta vida, longe de outros seres humanos e suas construções sociais de gênero, onde ela teria aprendido então o conceito de rivalidade feminina? Essa pergunta os Duffer Brothers ainda não responderam, adicionando-a junto à pilha que também abrange o Princípio de Smurfette que já se tornou um padrão do show.

Esta, aparentemente, é uma história sobre garotos e suas aventuras, onde ocasionalmente esbarram em garotas extraordinárias, mas só existe espaço para uma delas por vez em sua gangue, e boa parte de sua trama orbitará em torno de um garoto e suas chances de desenvolver um romance adolescente. Afinal, as meninas dessa idade só pensam sobre isso, certo?

Apesar de discordar de muitas das problematizações sobre essa temporada de Stranger Things, que ao meu ver empenhou-se em trazer boas mensagens sobre masculinidade tóxica e como evitá-la, é impossível fechar os olhos para os problemas aqui. Preocupar-se com o desenvolvimento original de personagens mais secundários como o Steve (Joe Keery), por exemplo, e continuar usando as mesmas cartas marcadas para Max, Joyce (Winona Ryder), Nancy (Natalia Dyer), e até mesmo Eleven é, de muitas maneiras, indefensável. Infelizmente, esse não é um fator isolado na lista de grandes lançamentos de 2017. Há mais.

Longe dali, em uma cidadezinha tão pequena quanto Hawkins, em It: A Coisa, há um outro grupo de garotos imersos em grandes aventuras, com vaga para apenas uma menina na sua turma de “losers“. Não tão dotada de poderes sobrenaturais quanto Eleven, mas tão esperta e corajosa quanto, Beverly é um exemplo mais explícito ainda de como garotas parecem pertencer a uma dimensão paralela repleta de perigos que os meninos nem sonham enfrentar. Enquanto Bill (Jaeden Lieberher), Ben (Jeremy Ray Taylore seus amigos compartilham medos infantis como pinturas ganhando vida e zumbis, Bev (Sophia Lillisé a única a ter que fugir de um pai sexualmente abusivo, como a mini-mulher que parece ser, do alto dos seus doze anos. Devido ao seu gênero, não é dada à personagem a oportunidade de um último verão para ser criança, como falado no texto sobre a personagem e a cultura do estupro.

Sabe-se que a imagem das meninas, sejam elas personagens ou pessoas de carne e osso, é explorada sob um viés de adultização precoce, como uma linha de produção de miniaturas de mulheres que nunca para. No Brasil e no mundo todo, ainda há muito a lutar para que garotas tenham direito à uma infância segura, com acesso aos direitos básicos e longe da desigualdade de gênero. Recentemente, a mudança nas roupas e comportamento de Millie Bobby Brown, a atriz que encarna a Eleven, e até sua inclusão numa lista das “Pessoas que Deixaram a TV Mais Sexy” da W Magazine inflamaram o debate sobre o que diabos estamos fazendo com nossas crianças, afinal.

Por outro lado, talvez exista uma pequena faísca de esperança no fim desse túnel e ela atende pelo nome de X-23, a Laura (Dafne Keen). Em Logan, uma história que questiona por si só antigos modelos de violência e masculinidade através do protagonista homônimo, a pequena mutante aparece como um símbolo do quão animador o futuro pode ser daqui a pouco. Em uma das cenas mais emocionantes do longa, o mutante de quem herdou suas garras ensina a menina que ela não precisa ser o que o mundo fez dela. O experimento, a arma de combate, a fera descontrolada e extremamente violenta, tudo isso é o produto do meio, mas não precisa ser o seu destino final, já que‘não existem mais armas no vale”. Não precisam existir.

Laura é forte, agressiva e irritante, mas é, ainda assim, uma criança na tela, ainda que lide com a intensa bagagem emocional própria do longa. Provavelmente por ser mais jovem e permanecer rodeada de adultos na maioria das cenas, a X-23 não é adultizada ou sexualizada como suas colegas de holofote, e nem por isso perde a condição de figura fragilizada que é. Sendo uma mutante, refugiada e experiência de laboratório humana, lida com problemas emocionais de gente grande e comprova que estereótipos de gênero não são a única forma de adicionar complexidade a um personagem, só a mais preguiçosa e comum.

Assim como Laura, Bev e Eleven são heroínas fortes, complexas e promissoras, que merecem roteiros que as enxerguem como crianças e adolescentes que são sem que suas aventuras sejam necessariamente guiadas pelo seu gênero. Para o futuro, restam esperanças. Logan, Stranger Things 2 e It foram fenômenos do ano em seus nichos e têm suas sequências garantidas, então só nos resta torcer para que suas protagonistas possam amadurecer sem pressa nenhuma, tão devagar quanto o tempo passa para os meninos em uma pequena cidade no Maine ou em Hawkins, Indiana.

Posts Relacionados

2 Comentários

  • Responda
    Mari
    25 de Janeiro de 2018 at 11:27

    não tem a ver com o tema do texto, mas com algo q confundiu minha leitura. em nenhum momento até o parágrafo que fala da Bev (e no proprio paragrafo tbm) é mencionado que esses são personagens de It. Como eu não assisti, eu fiquei tipo “ué, mas quem são esses pra serem mencionados junto no texto?”. eu cliquei em um dos link pra entender, pq depois só explica q são de it no fim do texto. qdo fala da Eleven, menciona q é Stranger Things e dps a X-23 menciona q é de Logan (esses coincidentemente eu vi). Mas só fez sentido a comparação com a Bev qdo eu soube de onde ela veio, e eu só soube clicando nos links ou no fim do texto.

    • Responda
      Thay
      25 de Janeiro de 2018 at 11:36

      Obrigada pelo retorno, Mari! Faremos uma edição no texto!

    Deixe um Comentário