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Downton Abbey e a prova de que o amor não tem idade

O que é uma história de amor? Estritamente falando, é aquela que se propõe a contar a trajetória de duas pessoas que cruzam o caminho uma da outra, se apaixonam, e vivem esse romance – ou, pelo menos, a ideia dele. O relacionamento é a força motriz da narrativa que, por sua vez, é pautado primordialmente pelo amor romântico; esse sentimento tão universal e, não por acaso, incansavelmente explorado na ficção. Contudo, quando pensamos nessas narrativas, quase sempre nos atemos a uma faixa etária muito específica. São personagens muito jovens que normalmente protagonizam essas histórias, algo que fica ainda mais evidente quando falamos sobre personagens femininas. Elas são especialmente bonitas e especialmente jovens; uma construção que, eventualmente, também chega para cobrar a sua conta.

Em 1912, quando tem início a primeira temporada de Donwton Abbey, esse cenário não parece tão distante assim: embora mais de cem anos nos separem dos acontecimentos retratados na série, quando falamos sobre as histórias de amor que ganham espaço em meio aos acontecimentos históricos e os dramas da aristocracia inglesa, muito pouco se altera no cenário em que elas se constroem; ainda são as mesmas mulheres jovens em busca do amor e que vivem cercadas pela perspectiva de um casamento que protagonizam as Grandes Cenas de Romance™, enquanto mulheres mais velhas (normalmente, acima dos 50 anos) são relegadas aos papéis secundários ou inseridas em arcos dramáticos em que o romance muitas vezes não é sequer uma possibilidade. Elas já não possuem uma vida tão agitada ou emocionante quanto as jovens que as cercam, e seus relacionamentos, quando existem, há muito já não são motivo de grandes e dramáticas reviravoltas. Não por acaso, a primeira temporada de Downton Abbey gira em torno do futuro de Lady Mary Crawley (Michelle Dockery), a filha mais velha dos Crawley, que precisa se casar com Matthew (Dan Stevens), o então desconhecido e distante herdeiro da fortuna da família.

Numa época em que o casamento tornava a mulher parte da família do marido, era fundamental que Mary, enquanto primogênita, se casasse com o herdeiro de Downton, garantindo a permanência da família e sua linhagem na propriedade. A história de Mary e Matthew, contudo, ganha contornos cada vez mais dramáticos à medida que evolui de um simples acordo pautado por interesses econômicos para um romance sólido e repleto de reviravoltas. Os dois se apaixonam, se encontram e desencontram, até o dia que finalmente sobem ao altar, lindos e felizes como sempre sonharam em estar: ao lado um do outro. É só ao lado de Matthew, Mary acredita, que poderá ser feliz; e ele retribui, certo de que nenhuma outra mulher no mundo será capaz de fazê-lo feliz. Sem medo de ser piegas, Downton Abbey entrega um romance que é exatamente aquilo que esperamos, e é por isso que dá tão certo; mas ainda são os mesmos jovens de rosto bonito e futuro promissor com os quais estamos acostumados, quase como se o amor, esse sentimento tão cheio de nuances e possibilidades, fosse algo exclusivamente… jovem. As primeiras temporadas da série dedicam-se a construir relacionamentos amorosos protagonizados quase sempre por mulheres no início da vida adulta, que podem ou não se relacionar com outros homens na mesma faixa etária. Lady Sybil (Jessica Brown Findlay) e Tom Branson (Allen Leech) vivem um romance proibido; Anna (Joanne Froggatt) e Bates (Brendan Coyle), embora possuam uma diferença considerável de idade, são protagonistas de uma história bastante conturbada de amor; enquanto Edith (Laura Carmichael), a filha do meio dos Crawley, é abandonada no altar pelo seu primeiro pretendente, depois conhece um grande amor, tem uma filha e perde esse grande amor (!) antes mesmo de ter a chance de conhecer uma vida ao seu lado, e só então encontra outro grande amor, com quem finalmente pode se casar.

Nada tão empolgante acontece na vida das mulheres de meia-idade, especialmente as viúvas e solteiras, que vivem com a certeza de que o casamento e o amor romântico e idealizado já não lhes dizem mais respeito. De forma inteligente, no entanto, Downton Abbey reconhece que essas mulheres também merecem suas grandes histórias de amor; do contrário, estariam confinando-as a um estereótipo que as desumaniza e nega suas complexidades enquanto seres humanos, algo que não se esvai com o passar dos anos, mas que também as invisibiliza. Em uma sociedade obcecada pela juventude, às mulheres que não são mais tão jovens destina-se a marginalidade: elas vivem à margem da sociedade e são vistas por uma ótica unidimensional e reducionista. Na contramão, contudo, Downton Abbey nega esse padrão: ao explorar as trajetórias tão distintas dessas mulheres e seus conflitos particulares, a série aborda narrativas de amor romântico por uma nova ótica repleta de possibilidades, que embora não seja completamente nova, diz muito sobre o tipo de história, afinal de contas, que ela pretende contar – uma história que expande horizontes, não o contrário.

Somos apresentadas a uma subversão de tropos comumente reservados à mulheres idosas ou de meia-idade – a matriarca, a avó, a sogra; todos papéis extremamente coadjuvantes nas tão interessantes vidas das jovens – e somos convidadas a apreciar e enxergar suas jornadas como uma experiência tão gratificante e única quanto qualquer outra, enquanto pouco a pouco desconstruímos a noção de amor – que também é cultural – pautada pelo etarismo, que nada mais é do que a discriminação baseada em faixa etária; histórias de amor que nos ensinam desde muito cedo como, quando e quem devemos amar. São expectativas que, de uma forma ou de outra, recaem especialmente sobre as mulheres, que são confrontadas pelo discurso que lhes diz que o amor e o casamento são possibilidades destinadas somente aos mais jovens. Ao longo de suas seis temporadas, Downton Abbey busca justamente provar o contrário: de senhoras que viveram amores proibidos a mulheres que o descobrem novamente quando já não acreditam que essa é uma possibilidade real em suas vidas, sempre há espaço para que novos relacionamentos sejam construídos e desenvolvidos de forma cuidadosa.

É o caso de Lady Violet (Maggie Smith), condessa viúva e matriarca da família Crawley, que revela ter sido protagonista de um romance proibido na juventude. Ela, que àquela altura já era uma mulher casada e com filhos, apaixonou-se por um príncipe russo, com quem planejara fugir mesmo que isso significasse abster-se de sua posição privilegiada como condessa, a estabilidade de um casamento adequado, e a família. Violet não foge – em partes, porque essa lhe parece a decisão mais razoável –, mas não sem antes tentar; e ser literalmente arrancada de uma carruagem pela mulher do príncipe, preferindo, por fim, manter o título e a família. No entanto, quando décadas mais tarde os dois se reencontram, a presença do homem com quem fizera tantos planos no passado naturalmente a abala. Eles já não são mais os jovens de outrora, tampouco vivem as mesmas vidas – Kuragin (Rade Sherbedgia), principalmente, vive um momento bastante delicado como refugiado em um país estrangeiro –, mas quando ele lhe propõe que os dois vivam novamente o romance, num misto de tristeza e satisfação, Violet diz que não pode aceitar a proposta, mas confessa que sente-se lisonjeada por ser cortejada por um homem àquela altura da vida – podemos julgá-la?

Parece improvável que essa seja a mesma mulher irônica e de língua afiada que sempre esteve mais preocupada em manter a tradição, título e propriedade dos Crawley, disposta a manipular qualquer pessoa em favor próprio e dos seus. Julian Fellowes, autor e criador da série, no entanto, reconhece que aquilo que Violet mostra ao mundo corresponde somente a uma parte de sua personalidade, e explora facetas surpreendentes tanto para o público quanto para os personagens da série, que de forma similar, desconstroem a visão que possuem uns dos outros. Muitas vezes, essas diferentes características são recebidas de forma equivocada – como quando lorde Grantham (Hugh Bonneville) caçoa do passado da mãe e do fato de reencontrar um amor do passado, um aspecto que também reflete o modo como desumanizamos pessoas de idade mais avançada e ignoramos a importância de suas vivências –, mas muitas tornam-se exemplos de delicadeza e sensibilidade, como quando a mesma Violet impassível revela à neta Mary que acredita, acima de tudo, no amor; duas facetas muito distintas e, ainda assim, totalmente possíveis para uma mesma mulher.

Paralelamente aos acontecimentos da vida de Violet, Isobel (Penelope Wilton) acompanha o desenrolar da vida amorosa de sua amiga enquanto vive ela mesma sua própria história de amor. Viúva e em luto pela morte de seu único filho, que falece de forma trágica em um acidente de carro, Isobel passa algum tempo reclusa antes de voltar a assumir as rédeas da própria vida e se envolver novamente em atividades voltadas ao bem-estar das pessoas do vilarejo em que vive, como o trabalho no hospital local, e também da família, como o cuidado de seu neto George e a atenção dispensada à sua nora, que assim como ela, tem dificuldades em seguir em frente após a morte do marido. À medida que Isobel recupera em si mesma a mulher determinada de outrora, ela também ganha uma autonomia dentro da série até então inédita, mas não surpreendente, e abre espaços em sua vida que por muito tempo já não lhe pareciam mais possíveis de existir, tampouco serem preenchidos. Isobel se torna parte de um adorável triângulo amoroso com o médico local, que nunca chega a realmente confessar suas intenções para com ela, e o padrinho de Lady Mary, e é o segundo com quem decide se casar – não sem antes ponderar, porque o casamento, àquela altura, já não lhe parece uma opção possível, muito menos adequada.

Ao lado de Lorde Merton (Douglas Reith), Isobel vive um romance delicado, construído a partir de olhares e trocas mútuas de gentileza, e são essas suas grandes demonstrações de amor. Diferente das moças de pouca idade, que temem por não encontrar um marido tão logo se tornem adultas, Isobel experiencia uma liberdade que jamais poderia ter tido no passado, e vive um amor paciente e leve, que surge de forma natural e também gradual, sem as exigências que recaem sobre casais mais jovens. Ao contrário da relação com seu primeiro marido, a quem amava profundamente, o casamento com Lorde Merton não carrega quaisquer expectativas: filhos não são esperados, o sexo não é um ambiente obscuro, tampouco desconhecido, e as experiências vividas anteriormente os tornam muito mais seguros de suas decisões e sobre si mesmos. A honestidade é o que pauta o relacionamento dos dois, que se aceitam mutuamente e amam um ao outro como verdadeiramente são, sem recorrer a joguinhos ou flertes mirabolantes. Mesmo que enfrentem problemas – primeiro, representado pela figura de Larry (Charlie Anson), o filho esnobe de Lorde Merton; depois, na doença erroneamente diagnosticada do lorde, que faz com que todos acreditem, não sem alguma razão, que seus dias estão contados, e em Amelia (Phoebe Sparrow), sua nora ambiciosa e inescrupulosa –, a postura de Isobel e Lorde Merton jamais se altera, assim como o sentimento que nutrem um pelo outro, que continua a existir independente dos obstáculos que surgem pelo caminho.

Narrativas sobre o amor proibido, via de regra, não são uma novidade na ficção: de Romeu e Julieta (e mesmo antes) até a contemporaneidade, muitas histórias já foram contadas sobre casais que, por motivos diversos – dinheiro, família, distância, sexualidade, compromisso com uma terceira pessoa, etc –, são impedidos de viver um grande amor. Em sua forma mais tradicional, essas narrativas são quase sempre protagonizadas por casais muito jovens, às vezes vivendo a primeira experiência romântica, que são transgressores o suficiente para fazer literalmente qualquer coisa em nome do amor. Lady Sybil e Tom Branson são uma representação perfeita disso – ela, a jovem aristocrata; ele, o motorista da família – e são, por algum tempo, os únicos. Contudo, quando Larry intervém nos planos do pai para se casar novamente, Isobel e Lorde Merton passam a viver algo muito parecido, protagonizando eles mesmos sua própria história de amor proibido. Seus encontros não são feitos às escondidas e fugas não são planejadas, mas ainda são eles que precisam lidar com a impossibilidade de um casamento – ao menos, por enquanto. Na contramão das grandes declarações e gestos grandiosos, Isobel, no entanto, decide… esperar, simples assim. Ela jamais seria capaz de ficar entre um pai e um filho, e o que esperar de um casamento que nem sequer começara e já era motivo de discórdia dentro de um núcleo familiar? Isobel não aceita menos do que deseja e merece, e assim ela espera, sem cair em expectativas vazias ou sucumbir à pressão externa.

É Amelia quem, mais tarde, tenta recuperar o romance em vista de seus próprios interesses, mas não demora até que ela mude de ideia, confinando o sogro aos seus cuidados e convivência após ele ser diagnosticado com um tipo específico de anemia que o levaria à morte em pouco tempo. Ao saber do enclausuramento do homem por quem se apaixonara, Isobel, então, o resgata: é a única chance que lhes resta de viver o romance, mesmo que por um curto período de tempo. Eventualmente, descobre-se que a anemia de Lorde Merton é, na realidade, bastante comum, sendo facilmente resolvida com mudanças alimentares e hábitos de vida mais saudáveis. À Isobel, finalmente, é possível viver um relacionamento pleno, longe de expectativas sociais e dos filhos de Lorde Merton, e totalmente independente.

Dentre os romances que se desenvolvem ao longo da série e envolvem personagens mais velhos, é o relacionamento de Mrs. Hughes (Phyllis Logan) e Mr. Carson (Jim Carter) que ganha maior destaque. Que os dois ficassem juntos parecia uma alternativa óbvia, mas que é desenvolvida de forma moderada: temporada após temporada conhecemos um pouco mais sobre o passado dos dois personagens, sua relação com o emprego – ela, como governanta; ele, como mordomo – e como lidam com a solidão, como reagem à perspectiva de uma velhice solitária, sem filhos e sem família. Pouco a pouco, os dois constroem uma amizade sólida, em que cuidado, atenção e pequenos gestos de carinho e gentilezas partem dos dois lados, numa via de mão dupla, e acompanhamos o percurso dessa troca que eventualmente se transforma em… amor. Depois de anos trabalhando no mesmo lugar, tanto Carson quanto Mrs. Hughes encontram no outro não apenas alguém com quem dividir os problemas de Downton, questões sobre o trabalho e sobre a vida, seus medos e angústias, sonhos e frustrações, mas também uma possibilidade real de romance, uma companhia no qual possam se apoiar, crescer e dividir uma vida.

O amor ganha vida antes mesmo de se transformar numa desajeitada, mas sincera declaração de amor, e é percebido nos pequenos gestos e momentos que dividem um com o outro. Como dois jovens que se amam, mas não têm coragem de expor os próprios sentimentos, Carson e Mrs. Hughes se apoiam na ideia daquilo que poderiam ter e construir juntos – que é personificado pela possível compra de uma casa e planos de um pequeno negócio local. Quando a perspectiva ganha contornos mais reais, Mrs. Hughes sente que não pode assumir tamanha responsabilidade ao lado de outra pessoa, e num momento de absoluta vulnerabilidade, confidencia o quanto foi maravilhoso construir sonhos ao lado de Carson, mas que jamais poderia torná-los realidade. Ao invés de colocar um ponto final em seus planos, a confissão abre espaço para que o amor finalmente ganhe forma e coloca em evidência aquilo que já era exposto em gestos de carinho e cuidado. Carson pede Mrs. Hughes em casamento, que aceita; suas vidas, outrora solitárias, são deixadas de lado para que os dois possam construir uma nova juntos.

Como qualquer casal, Carson e Mrs. Hughes precisam ultrapassar barreiras, que surgem antes mesmo de se casarem de fato, mas elas nunca têm a ver com o fato de serem mais velhos e sim com suas diferenças enquanto seres humanos. Boa parte dos conflitos remanescentes nascem da relação diária entre os dois, que discutem, fazem cara feia, discordam e desaprovam o comportamento do outro, reclamam da comida que nunca está boa o suficiente, do local onde desejam se casar ou da louça que precisa ser lavada, mas essas são questões que jamais colocam em xeque o sentimento que nutrem um pelo outro. Mesmo quando a idade e o envelhecimento vêm à tona, elas são abordadas de maneira cuidadosa, sem jamais transformar-se num empecilho para o amor. Em um dos momentos mais marcantes do casal (e, muito provavelmente, de toda a série), Mrs. Hughes se atenta ao fato de que já não é mais uma moça, que seu corpo sofreu mudanças com o tempo, e teme que Carson se decepcione, que espere dela algo que talvez tivesse sido um dia, é verdade, mas que já não é há bastante tempo. Quando sugere que os dois vivam um casamento sem sexo, entretanto, Carson não aceita a proposta, porque deseja viver um casamento pleno com a mulher que ama, uma mulher que é linda exatamente como é. Ainda que esteja disposto a liberá-la do compromisso caso seja da sua vontade, não é preciso fazê-lo; Mrs. Hughes entende, e aceita casar-se, em partes porque deseja viver aquele casamento por inteiro tanto quanto ele, mas principalmente porque se sente segura para vivê-lo ao lado do homem que ama.

Os dois se casam numa pequena e adorável cerimônia, onde dizem “sim” ao outro, com um sorriso no rosto, como dois jovens apaixonados. Eles aceitam viver esse amor e, ao fazerem isso, estão dizendo que todos podem também. Por muito tempo, a ficção dedicou-se a construir histórias de amor que nunca eram suficientes para abranger todas as possibilidades de que o amor é capaz. Mas se histórias são escritas de formas tão distintas e são marcadas por tempos tão individuais, por que o amor, esse sentimento tão primitivo, desejado e complexo deveria respeitar regras? Downton Abbey, que nunca teve medo de ser cafona, aceita que o amor romântico pode existir em qualquer idade, e pode ser tão bonito, belo e prazeroso quanto seria na juventude. Não há qualquer traço de cinismo na série quando permite que seus personagens vivam esse momento, porque o amor não é, e nem deveria ser, um sentimento cínico, que ri na cara de si próprio e debocha daqueles que se rendem; e então eles vivem, porque esse, afinal, é o ato mais importante de todos. E Lady Violet, afinal de contas, acredita em boas histórias de amor, quem somos nós para não acreditar também?

 

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