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Doctor Who: mulheres incríveis no espaço e tempo

Um sonho comum a todo whovian é que o Doctor apareça na porta de sua casa, estenda a mão e o leve para conhecer tudo o que há entre o tempo e espaço a bordo de sua nave espacial/ máquina do tempo, a T.A.R.D.I.S. (Time and Relative Dimension in Space). Enquanto sonhamos acordadas com o dia em que isso acontecerá, um grupo de mulheres já viveu altas aventuras acompanhando o Time Lord entre o passado e o futuro, o início dos tempos e o fim de tudo. Cada uma dessas mulheres trouxe algo de especial para a jornada do Doctor, dizendo o que ele precisa ouvir em momentos cruciais, sendo a parceira no crime de que ele precisava e, why not, se metendo em confusões sem a ajuda dele – e saindo delas belamente também, sem precisar gritar por socorro. O texto de hoje é uma pequena homenagem a essas mulheres que chutam bundas aqui na Terra, na Roma Antiga ou em uma espaçonave cheia de dinossauros.

A problemática da manic pixie dream girl pode ser vista várias vezes nas companions, em graus diferentes. Talvez a única que realmente tenha saído desse formato seja a Martha, e também talvez seja esse o motivo de os fãs não a aceitarem muito bem: ela virou as costas, deu tchauzinho e tomou as rédeas de sua vida, longe do Doctor.  Todas essas companions são mulheres incríveis, e é compreensível que após um bom tempo viajando com o Doctor na T.A.R.D.I.S. suas vidas não seriam mais as mesmas. Porém, o que ocorre geralmente não é uma mudança de perspectiva por terem seus horizontes ampliados e conhecerem as maravilhas do universo, e sim arcos que tornam essas personagens apenas uma extensão do Time Lord, auxiliares num universo a que eles apenas são convidadas passageiras. Hoje, nós mostraremos por que elas são maravilhosas por si só.

Rose Tyler

Presa por Autons no porão de uma loja de departamentos, Rose Tyler (Billie Piper) é salva pelo Nono Doctor (Christopher Eccleston) em um encontro inesperado logo nos primeiros episódio da primeira temporada da “nova série”, cuja estreia foi em 2005. Quando a moça demonstra coragem e bravura ao enfrentar seres de outro planeta, o Doctor a convida para embarcar na T.A.R.D.I.S., levando-a para lugares extraordinários, seja na era vitoriana ou no fim dos tempos. Embora, em um primeiro momento, viajar na companhia do Doctor possa ser perigoso, Rose sabia que ficaria com ele para sempre – se assim fosse possível, é claro. Rose Tyler é, muito provavelmente, a companion que mais divide opiniões: enquanto muitos fãs acham o romance entre ela e o Décimo Doctor (David Tennant) incrível e um dos melhores arcos da série, outros acham um pouco exagerado – apesar de que, é impossível negar, o episódio de despedida entre ela e Doctor seja um dos mais intensos e tristes de toda a série.

O que Rose nos traz é o lado moleca de salvar o mundo. Com seu jeito espevitado, ela conquista o coração de todos – inclusive do Doctor, com quem acaba flertando loucamente em vários momentos, o que, se tratando do Time Lord, só pode culminar em lágrimas. E justamente por isso ela ainda é considerada por muitos whovians como a melhor companion de todo o Novo Who. Se ela é ou não, isso não nos cabe dizer, vai do background de cada um e da experiência individual que cada pessoa teve ao assistir o arco da Bad Wolf. Mas o fato é que sua importância para os fãs de DW é notável, visto que ela acabou afetando o Doctor e suas histórias de formas irremediáveis, sendo uma das companions que mais tiveram participações especiais em toda a história da série.

Martha Jones

Enquanto fazia sua residência em medicina no Royal Hope Hospital, Martha Jones (Freema Agyeman) foi transportada – junto com todos os ocupantes do prédio – para a Lua, e foi aí que sua jornada junto ao Décimo Doutor teve início. Martha é, possivelmente, a companion mais inteligente a viajar com o Doctor na T.A.R.D.I.S. e isso é demonstrado quando ela salva o mundo não apenas uma, mas duas vezes. Talvez Martha não tenha sido tão apreciada em sua curta participação na série por ter precedido justamente a saída emocional de Rose Tyler, mas as qualidades da personagem e seu valoroso trabalho ao lado do Doctor não podem jamais passar sem nota. Sendo cortejada por William Shakespeare em pessoa ou lutando contra Daleks em Nova Iorque, Martha provou seu valor e coragem inúmeras vezes, seja colocando o Doctor nos eixos enquanto ele ainda sofria com a ausência de Rose ou encontrando saídas brilhantes para situações desesperadoras.

Uma das tramas mais interessantes envolvendo Martha acontece quando o Doctor é aprisionado pelo Master (John Simm), seu arquirrival. Enquanto o Doctor estava impossibilitado de tomar alguma atitude, Martha viajou o mundo inteiro contando a história do Time Lord, propagando sua palavra e transformando seus feitos de proteção da Terra em contos heroicos. Foi por meio de Martha que todos puderam conhecer a história de resistência do Doctor, que sempre esteve entre nós, humanos, e as ameaças externas. Embora Martha tenha, assim como boa parte das companions, nutrido sentimentos pelo Doctor em algum momento, a moça nunca permitiu que isso ficasse entre ela e seus sonhos, despedindo-se dele no momento certo, deixando a T.A.R.D.I.S. para trás enquanto traçava seu próprio caminho. Uma mulher de coração nobre e muita coragem, Martha tinha a força necessária para abdicar de um mundo de maravilhas em prol de sua saúde emocional – e isso não pode ser dito de muitas pessoas, por isso Martha estará para sempre em nossos corações.

Donna Noble

A mulher mais importante da criação, Donna (Catherine Tate) começa sua jornada com o Doctor durante sua décima encarnação, em The Runaway Bride (especial de Natal da segunda temporada), o colocando em seu lugar porque ela estava prestes a casar e, do mais absoluto nada, aparece dentro da TARDIS, com vestido de noiva e tudo. Desde sua primeira cena, ela mostra uma personalidade fortíssima, capaz de encarar qualquer situação com a cabeça erguida e muito humor sarcástico, utilizado quase o tempo inteiro para controlar os impulsos infantis do Doctor, que às vezes esquece que não pode fazer tudo o que quer simplesmente porque é um Time Lord.

Donna se destaca na série porque é a melhor amiga do Doctor, mas, mais do que isso, ela é gente como a gente: uma mulher comum, que trabalha como temporária em um escritório de Londres e que está apenas tentando viver uma vida menos ordinária e ser relativamente feliz no processo. Com uma autoestima bem baixa, ela mal acredita nas coisas incríveis que lhe acontecem e que ela, uma mulher como qualquer outra, será a responsável por salvar o universo. Mas, assim como seu arco é um dos mais sensacionais de todo DW, seu final também é um dos mais tristes e injustos, arrancando lágrimas dos whovians até hoje e deixando todos com saudade porque ela foi uma das únicas companions que realmente soube se impor e controlar a vibe megalomaníaca de super-herói do Doctor e que tinha todo um contexto familiar, com avô, mãe e amigas, ou seja, todo um núcleo bem desenvolvido fora de sua vida de viajante do tempo.

Sarah Jane Smith

A companion mais famosa do Clássico Who, Sarah Jane (Elisabeth Sladen) é uma jornalista investigativa que topou com o Doctor em sua terceira encarnação (Jon Pertwee) e passou um bom tempo com o quarto Doctor (Tom Baker). Já na década de 1970, Sarah Jane mostrava ser uma mulher forte, decidida e destemida que muitas vezes resolvia melhor as coisas do que o próprio Doctor, que ficava para trás perante as habilidades de jornalismo investigativo da moça.

Mas Sarah Jane, por mais que fosse badass, era tratada tanto pelo Time Lord quanto pelos outros homens na série como apenas uma menina atrapalhada, sendo valorizada poucas vezes. Com princípios feministas, ela tinha de se impor, chegando a ficar furiosa com o Doctor por ele ter pedido para ela fazer café pra ele, ou pela superproteção que ele e outros personagens tinham para com ela somente por ser mulher. Apenas em suas participações no New-Who, com o décimo Doctor, em 2007, juntamente com Rose Tyler, se pôde perceber uma diferença no tratamento dado a ela. Contudo, ainda assim, foi estimulada uma rivalidade entre ela e Rose, como se ambas competissem pela atenção amorosa dele. A situação foi resolvida quando Sarah Jane quebrou a tensão, fazendo piadas sobre o Doctor, e elas ficaram amigas – mas essa tensão toda, na verdade, nem deveria ter existido pra início de conversa.

Amy Pond

A pequena Amy Pond, então com sete anos de idade, recebeu, em uma noite, a visita de um homem louco viajando em uma caixa azul. Entre seus costumes esquisitos, estava o de comer iscas de peixe com molho custard e examinar com interesse incomum a rachadura que havia na parede do quarto da menina. Aquele homem curioso disse que voltaria mais tarde e Amy esperou por seu retorno. Por doze anos. Amelia “Amy” Pond (Karen Gillan), por conta disso, logo recebeu a alcunha de the girl who waited – a garota que esperou – pois nosso Décimo Primeiro Doctor (Matt Smith) só retornou de fato quando a menina já havia crescido. Na companhia do “homem esfarrapado” que finalmente voltou, Amy embarcou em uma série de aventuras que sua versão criança sequer poderia começar a imaginar. Havia uma garotinha esperando no jardim, e ela esperou por um longo tempo. Aquela garotinha cresceria e viveria dias impossíveis de esquecer. Ela viajaria o espaço e tempo, lutaria contra piratas, se apaixonaria por um homem que a esperaria por milhares de anos apenas para mantê-la segura, e daria nova esperança para um dos maiores pintores que já existiu, Vincent Van Gogh.

Talvez a trama envolvendo Amy Pond – e Rory Williams (Arthur Darvill) – seja uma das mais megalomaníacas de Doctor Who, principalmente se levarmos em consideração o desenrolar de certos acontecimentos para a trama como um todo. Desde a filha do casal, Melody, a incrível River Song (Alex Kingston), tudo parece grandioso demais – mas os fãs não reclamaram, e o casal formado por Amy e Rory é um dos mais amados do fandom mesmo que, por vezes, a moça tenha tratado seu escolhido um tanto descuidadamente, principalmente quando flertava abertamente com o Doctor na presença do noivo. De qualquer forma, a entrada de Amy na série é uma ótima adição, principalmente como a nova companheira de aventuras do Doctor, recém saído de uma regeneração difícil e intensa: Amy tem uma personalidade impetuosa, aventureira e um tanto imprudente, visto que ela não pensa duas vezes antes de se jogar em uma situação perigosa just because; mas, ainda assim, Amy tem um grande coração e luta com todas as suas forças por aqueles que ama, o que a gente vê em muitos episódios das temporadas em que ela participa e, de maneira especial, na despedida dos Ponds.

Clara Oswald

Na forma de um Dalek, como uma preceptora vitoriana lutando contra monstros alienígenas de neve ou como uma babá e professora de Inglês, Clara Oswald (Jenna Coleman) nasceu para salvar o Doctor. The impossible girl – nossa garota impossível – não poderia estar em nenhuma daquelas situações, mas parecia estar em todos os lugares, ser pessoas diferentes no tempo/espaço, eternamente ajudando o Doctor e sendo sua amiga. Ela entra na vida do Time Lord em sua décima-primeira encarnação, logo após ele estar de coração partido pela saída de Amy Pond. Ele se isola, e lá está ela, sendo uma garota impossível e reavivando aquela curiosidade marota que o faz seguir salvando a Terra.

O problema do arco da Clara é que ela foi escrita para ser a salvadora de todas as vidas do Doctor, e isso a resume a uma manic pixie dream girl, uma garota que surge na vida de um cara quando ele precisa de uma sacudida em seu mundo para modificar certas atitudes, mas que não tem vida própria de fato, quando ela é muito, muito mais do que isso. Clara não é apenas um rosto bonito com um visual bacana e pronta para encarnar qualquer papel: ela é uma pessoa que se doa, mas não deveria ser apenas isso. Cada vez que ela tenta sair daquilo e ter uma vida pessoal, o Doctor – especialmente o décimo-segundo (Peter Capaldi) – arranja uma forma de precisar dela novamente e lá vai a Clara não ter vida além daquela que orbita ao redor dele. A coisa é tão grave que, quando ela finalmente consegue um tempinho para si e começa a namorar, o Doctor se disfarça de zelador para investigar um caso de invasão alienígena na escola em que ela trabalha como professora e se mete loucamente no namoro dela, sabotando-o de uma forma bem vergonhosa e demonstrando um ciúme irracional porque o rapaz agora divide as atenções da moça. 

É claro que essa história não poderia acabar bem, mas o arco de Clara teve um final melhor do que o de outras companions: ela finalmente consegue viver aquele um segundo de liberdade e prolongá-lo em uma longa viagem por onde quiser, roubando uma T.A.R.D.I.S. e assumindo sua vida ao lado de Me/Ashildr (Maisie Williams).

E o que vem pela frente?

Sabemos pouco sobre a próxima companheira de aventuras do Doctor, mas o que sabemos já nos enche de expectativas. Bill Potts (Pearl Mackie) será apresentada oficialmente na estréia da décima temporada, mais exatamente dia 15 de abril na BBC, e a personagem tem sido o centro das atenções no material promocional da nova temporada de Doctor Who. Mas, afinal, o que sabemos sobre Bill Potts?

Até agora, o que nos foi passado é que Bill será a primeira companion negra desde Martha Jones, e, uma novidade: abertamente lésbica. A respeito disso, Pearl declarou que “Essa representação é importante, especialmente em um show mainstream. É importante dizer que as pessoas são gays, as pessoas são negras – também existem aliens no mundo, então esteja atento a eles”. Essas características em uma companion nos fazem pensar que, de fato, a forma com que a série lida com suas mulheres está mudando: saindo da heteronormatividade, dando espaço de destaque a uma personagem negra e com cabelo black power, finalmente expressando a representação de que muitas whovians sentiam falta.

Dessa vez não “corremos o risco” de ver mais uma companion caindo de amores pelo Doctor – algo de que somente Donna se livrou – e os relacionamentos amorosos que podem vir a surgir terão uma representatividade ainda maior. Tivemos, sim, personagens que fugiam da heteronormatividade na série – como o Capitão Jack Harkness (John Barrowman), que é bissexual, além de Madame Vastra (Neve McIntosh) e Jane Flint (Catrin Stewart), que formam um casal lésbico e interespécies no New-Who –, mas nunca antes um personagem que fosse recorrente e estivesse tão próximo do protagonista de tudo.

As expectativas estão altas e sabemos que Doctor Who tem potencial para desenvolver uma temporada incrível, principalmente se preencher a caixa da representatividade direito. Bill Potts foi descrita como uma personagem inteligente, fã de sci-fi, algo como uma nerd; ela é uma garçonete de dia, universitária de noite, e não consegue pagar sua mensalidade; ela é muito mais próxima da realidade de um fã de Doctor Who do que algumas das últimas companions foram.

Talvez Doctor Who esteja finalmente ouvindo seus fãs e abrindo os olhos para incorporar à série os assuntos referentes a problemas sociais tão em voga no momento. Com um público mais consciente, a série deve se adequar e sabemos que se há algo em que Doctor Who é bom, é em mudanças. E, quem sabe, a próxima encarnação do Doctor não siga os passos do Master, que renasceu como Missy (Michelle Gomez), e seja mulher? Esta será a última temporada de Peter Capaldi e a primeira com uma companion lésbica e negra. A única coisa de que podemos ter certeza é de que as coisas estão claramente mudando no espaço e tempo – a única constante é a T.A.R.D.I.S. permanecer maior do lado de dentro.

Texto escrito em parceria por Mia e Thay.

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1 Comentário

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    Acacia de Almeida
    14 de abril de 2017 at 12:49

    Você comentou da River Song , mas acho que ela merecia uma parte só dela <3 Mulher mais livre, auto-confiante e ~descomplicada~ dessa série

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