CINEMA

Nobody puts Baby in the corner: o heroísmo por trás da mocinha de Dirty Dancing

Nasci em 1993 e meus filmes favoritos de infância foram Dirty Dancing: Ritmo Quente e Grease: Nos Tempos da Brilhantina. Sim, isso fez de mim uma criança no mínimo estranha e dançante demais, e talvez excessivamente romântica. Grease, meu primeiro musical favorito, chegou a mim por influência do meu pai; já Dirty Dancing apareceu na minha vida de formas um pouco mais misteriosas: por intermédio da Rede Globo de Televisão.

Outra coisa estranha que constitui meu caráter é uma memória excelente (antes que venha me parabenizar: não há nenhuma vantagem nisso) e me lembro bem daquela quarta-feira em que faltei à aula por motivos de saúde e fiquei sob os cuidados da minha avó materna, uma das raras vovós pouco conhecidas por cuidar de netos doentes. Pelo contrário, Dona Luzia era uma mulher do século XXI, tinha hábitos pouco senhoris e se considerava (na verdade eu a considerava) cinéfila. Claramente aquela senhora não perderia o clássico romance meloso que passaria naquele dia da Sessão da Tarde e eu, aos oito anos, a acompanhei nessa atividade.

Meus olhos brilharam da primeira à última cena. Naquele dia eu me vi perdidamente apaixonada por Patrick Swayze e suas habilidades dançantes. Todo o enredo que não deveria passar de uma chatice para mim, pequena criança, foi um prato cheio de emoções. Afinal, as músicas de Sandy e Júnior já tinham me ensinado há muito tempo o que o amor me faz. Por anos, vi e revi esse filme. Aluguei a fita na locadora, vi na Sessão da Tarde, ganhei o DVD-edição-comemorativa-de-colecionador-20-anos-de-Dirty-Dancing e sigo assistindo essa joia do cinema oitentista várias vezes por ano, a diferença é que meu jeito de assistir mudou muito enquanto crescia.

No início, eu sonhava em ser como a Baby Houseman (Jennifer Grey) e ter uma paixão de verão com um bailarino musculoso que me tirasse de uma vida entediante. Hoje, eu sonho em ser como a Baby que se engaja e tenta de alguma forma mudar o ambiente em que está inserida. A Baby que não julga mulheres por suas escolhas e levanta-se por outras em sentimento de irmandade.

“Tem muitas coisas sobre mim que não são como você achava”.

Lançado em 1987, Dirty Dancing se passa em 1963 quando Baby e família vão passar as férias de verão no Kellerman’s Hotel. O roteiro não começa de forma muito elogiável e logo faz uma clara comparação entre Baby, a engajada, e sua irmã Lisa (Jane Brucker), a fútil. Enquanto a mais velha reclama por não ter trazido sapatos suficientes para toda a viagem, Baby e o pai intervêm dizendo que aquilo não é um problema e que um verdadeiro drama são monges se queimando em protesto. A cena é extremamente pedante, mas peço sua paciência e tolerância para entender e amar uma das mocinhas mais demasiadamente humanas do cinema romântico dos anos 1980.

Baby é fascinante por querer mudar o mundo em uma época em que mulheres, muito mais do que ainda persiste hoje, eram associadas ao ambiente doméstico. Seus planos pós-férias eram ingressar o curso de Economia dos Países Subdesenvolvidos, na Mount Holyoke College, e posteriormente tornar-se parte da Peace Corps, agência humanitária estadunidense. Bem-nascida e capaz de desfrutar de oportunidades mil, Baby mostra ao longo do filme que não é só mais uma riquinha com vontade de salvar povos pobres do outro lado do mundo, mas incapaz de olhar para quem está ao seu lado. Seu envolvimento com Johnny Castle (Patrick Swayze) se dá justamente por sua vontade de ajudar o próximo. A personagem descobre que Penny Johnson (Cynthia Rhodes), parceira de dança de Johnny, está grávida de um macho escroto, não tem apoio do pai da criança, decide não dar continuidade à gravidez, mas não tem condições financeiras para realizar o procedimento. Vale lembrar que, na época em que o filme se passa, o aborto ainda era ilegal nos Estados Unidos.

Sem pensar duas vezes, Baby providencia o dinheiro necessário para ajudar Penny, mesmo mal a conhecendo, e se disponibiliza para cobri-la em sua agenda, mesmo sem saber dançar. Sim, tudo é muito irreal e fácil demais (justamente por isso se chama ficção e não vida real), mas não posso deixar de destacar o quanto o exemplo da protagonista obedece ao velho conselho de “fazer o bem sem olhar a quem” e dá uma aula de sororidade.

Apesar de aguentar desaforos de Johnny nos primeiros momentos em que ambos se conhecem, Baby prova também que não está no mundo para aguentar ser diminuída por um homem. A protagonista não tem qualquer interesse no papo chato de Neil (Lonny Price), herdeiro dos hotéis Kellerman’s, e só falta revirar os olhos em todas as vezes que o personagem diminui suas capacidades intelectuais pelo simples fato de ela ser uma mulher. Além disso, o crescimento da personagem ao longo dos 160 minutos de filme é muito grande não só no quesito habilidades na dança. Frente aos nossos olhos, Baby deixa de ser uma menininha que faz de tudo para agradar seu pai e aprende que as vezes fazer o que é certo pode decepcionar, chocar e ferir os sentimentos da Família Tradicional Brasileira Estadunidense™.

“Você me enoja. Fique longe de mim.”

Com 17 aninhos de pura ousadia e coragem, Baby prova que ninguém a coloca no canto e não faz isso só nos palcos, o faz quando se levanta pelos outros e por si mesma.

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1 Comentário

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    Linkagem de Segunda #61 – Sem Formol Não Alisa
    10 de julho de 2017 at 22:50

    […] Nobody puts Baby in the corner: o heroísmo por trás da mocinha de Dirty Dancing, Laura Máximo no Valkírias […]

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