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Degrassi: Next Class e as meninas que vão mudar o mundo

Desde Carrie, a Estranha (1976), sem esquecer de Nunca Fui Beijada (1999) e chegando finalmente em Meninas Malvadas (2004), o cinema nos ensinou que os tempos de escola podem ser muito ingratos com os adolescentes, mas especialmente mais cruéis com as meninas.

Além de temas como bullying e inaptidão social, aqui mesmo, em solo brasileiro, temos Malhação (1995 — presente), novela voltada para o público jovem e jovem adulto que ficou conhecido pela mesmice das narrativas que sempre enxergam mulheres como interesses românticos e dividem as mesmas entre vilãs e mocinhas. É justamente diante desse contexto que obras que se proponham a observar o universo adolescente com mais realismo e delicadeza ganham destaque de crítica e da audiência, carente de representações mais acuradas. O que vem acontecendo, inclusive, com a temporada atual da novelinha teen.

Após o sucesso de suas quatro antecessoras, Degrassi: Next Class (2016–presente), nova aposta da Netflix, funciona como reboot e uma espécie de sequência isolada da franquia canadense Degrassi, acompanhando os alunos do high school homônimo em quatro temporadas que discutiram temas como doenças mentais, homofobia, lesbofobia, racismo, uso de drogas, masturbação, religião, suicídio, sexualidade, cyberbullying, sem grandes rodeios, mas com a cautela necessária.

Além dos compromissos de diversidade e representatividade assumidos pelo conteúdo, o grande brilho da série têm sido as jovens mulheres de seu elenco. Zoe (Ana Golja), Rasha (Dalia Yegavian), Goldi (Soma Chhaya), Maya (Olivia Scriven), Esme (Chelsea Clark), Yael (Jamie Bloch), Lola (Amanda Arcuri), Grace (Nikki Gould), Frankie (Sara Waisglass) e Shay (Reiya Downscarregam a responsabilidade de representar uma nova geração de meninas na tela que possam gerar identificação naquelas que as assistem do lado de cá, no mundo real. Meninas que já nasceram num mundo digital e pulsante de informação, onde as discussões sobre temas sociais já estão tão avançadas que tornam o preconceituoso o verdadeiro alvo de críticas e onde o marginalizado é celebrado. Nunca foi tão cool ser diferente, e as fronteiras do ódio nunca pareceram tão maleáveis ou motivaram tanta vergonha.

Como ainda estamos falando de um show adolescente, é claro, os momentos de “coming of age” – ou seja, a transição entre a adolescência e a idade adulta – ainda estão lá. Ainda teremos jovens tentando lidar com seus corpos e seu lugar no mundo, seus amores e suas eventuais saídas do armário, mas até esse viés soa mais sagaz do que as cenas repetitivas com as quais estamos acostumados nesse tipo de produção, mostrando que o material respeita a inteligência e sensibilidade do seu público-alvo. Após o estranhamento inicial, como uma boa série pós-feminista e pós-progressista, Degrassi: Next Class não precisa necessariamente panfletar que menstruação não deveria ser um tabu ou que pessoas brancas estão cercadas de privilégios. Quando toca nesses assuntos, a série geralmente o faz questionando o outro lado: como assim você ainda pensa dessa maneira?

Outro pontos mais sutis, mas ainda assim capazes de aquecer o coração do fã, são relacionados ao modo como a rivalidade feminina e a própria construção das personagens femininas, mais complexas, diversas (felizmente esta não é uma série só de mulheres brancas, ainda que possa melhorar) e repletas de nuances, são abordadas. As garotas de Degrassi não são necessariamente amigas ou rivais automáticas, porque não precisam ser. As brigas por interesses românticos ocorrem, mas os laços e a personalidade das meninas são mais importantes para os desfechos das tramas, já que elas não estão encerradas em pequenas gavetas de acordo com seus gêneros. Além de se apaixonar e namorar os outros garotos ou garotas da escola, Maya sonha em ser uma artista, Grace é ranzinza, Esme é problemática e Lola gosta de transitar entre todos os grupos e trabalhar no restaurante da família, fazendo assim com que seus diálogos fossem aprovados com louvor em qualquer Teste de Bechdel.

Acima de tudo, e principalmente devido à forma como a série utiliza essas personagens como evoluídas e à frente do seu tempo, ainda que reconheça suas fragilidades típicas da idade, essas meninas estão sempre prontas para ensinarem e apoiarem umas às outras, deixando claro que não precisam ser sempre amigas, mas é ainda mais bonito quando o são. Por fim, muito antes dos carros voadores, robôs e teletransporte que os seriados e filmes da virada do milênio nos prometeram, é reconfortante saber que o futuro repousa nas ágeis mãos das novas gerações de meninas dentro e fora das telas, que estão ajudando a construir um mundo novo, mais brilhante e mais justo. Finalmente.

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1 Comentário

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    Ana Beatriz
    2 de agosto de 2017 at 15:23

    Eu amo Degrassi! Se tornou uma das minhas séries teens favoritas. Quando eu assisti os primeiros episódios do next class, achei meio clichê demais, mas depois vi o quanto a série conseguia abordar TODOS os temas de uma maneira tão importante; eu fiquei de boca aberta em como, nas quatro temporadas, eles conseguem discutir diversos assuntos. E o mais importante também é a diversidade do cast!

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