LITERATURA

O Grande Gatsby e a tragédia pessoal de Daisy Buchanan

Ao longo de sua curta vida, F. Scott Fitzgerald escreveu mais de uma centena de contos para sobreviver e alguns poucos romances para responder às suas aspirações artísticas mais profundas. Sempre que lançava um romance, também publicava, mais ou menos à mesma época, um livro de contos cujos temas se assemelhavam àqueles desenvolvidos na narrativa mais longa. À época de O Grande Gatsby, Fitzgerald lançou All the Sad Young Men [Todos os jovens homens tristes] e, não por acaso, ele é muito próximo de Gatsby. Nick Carraway, o narrador do romance, é claramente um desses homens tristes: melancólico e reflexivo, assistindo das beiradas, profundamente ciente da vida que passa e de seu próprio distanciamento dela. O Gatsby, que dá nome ao livro, não é realmente um homem triste, mas é trágico: obsessivamente atrás de um passado que não pode recuperar, ele tenta tudo, mas, no fim das contas, é destruído pelo seu sonho. Sonho esse que parece incluir construir uma vida ao lado de Daisy Buchanan, considerada por muitos como a grande antagonista de sua história. Só que Daisy também tem a própria cota de tragédia, que costumamos ignorar.

A narrativa de O Grande Gatsby torna fácil a tarefa de odiar Daisy e considerá-la vazia, amoral, inumana, uma destruidora e até mesmo uma “vadia”, como estudos acadêmicos já apontaram. Principalmente porque Nick, por meio de quem nós ficamos sabendo de toda a história, é muito parcial a seu vizinho e amigo. Ele mesmo deixa isso claro quando diz, logo na página dois, que Gatsby, no fim das contas, era bom, ou quando afirma que ele valia muito mais do que todo o resto junto. Nick é alguém dividido, encantado e repelido pelo mundo de riquezas e superficialidade de seus vizinhos, dentro e fora simultaneamente, como ele mesmo se descreve. Como afirma Tony Tanner em sua introdução ao livro, Nick é um espectador em busca de um astro, e é isso que Gatsby representa para ele. É por isso que Nick descreve Gatsby como o tipo de pessoa com quem você talvez tope quatro ou cinco vezes ao longo da vida. Além disso, ele ignora, ao longo de todo o livro, o fato de Gatsby ser um criminoso cujos negócios possivelmente se constroem com o uso da violência – porque Nick, como Tanner aponta muita bem, prefere nem saber; Gatsby tenta contar, Nick evita o assunto.

Ainda assim, o próprio Nick reconhece que o Gatsby queria – não só Daisy, mas a Daisy de cinco anos antes, uma Daisy que garantisse a ele que nunca amou Tom Buchanan e que a vida que viveu longe de Gatsby nunca existiu – era pedir demais. Nick entende que Daisy nunca poderia realmente corresponder aos sonhos de Gatsby, mas não por qualquer falha dela, e sim por causa da intensidade das ilusões dele. O problema de Gatsby é que ele é incapaz de reconhecer em Daisy uma pessoa, tão real quanto ele. Aliás, o livro deixa bem claro que o aspecto monetário da coisa o encanta tanto quanto a garota em si. Ver a casa em que Daisy morava o deixou maravilhado, assim como perceber que aquela era a realidade dela. Nick percebe e menciona um estranho encantamento na voz de Daisy, que ele não sabe interpretar muito bem. É Gatsby quem oferece uma explicação, dizendo que a voz dela é cheia de dinheiro. E Gatsby, ao saber que outros homens a desejavam, viu aumentar o valor dela diante de seus olhos, o que soa muito comercial. Gosto muita da afirmação de Leland Person Jr. de que Gatsby passa a ter “uma visão cada vez mais despersonalizada” de Daisy, e essa é só mais uma prova.

“Poderíamos ser felizes para sempre se sua vida tivesse parado quando nos separamos”.

 

Só que é muito mais fácil simpatizar com Gatsby do que com Daisy. Para começar, Gatsby é o self-made man, que sai da pobreza para a riqueza por si só, e não porque não nasceu naquele mundo – como a própria Daisy e seu marido Tom Buchanan –, e não é à toa que esse tipo de história é um arquétipo famoso, porque nos cativa mesmo. E a narrativa nos ajuda nisso. Acho particularmente horrível que Gatsby seja assassinado na sua piscina cara de mármore depois de convidar Nick mais de uma vez (sem sucesso) para um mergulho, sempre lembrando que ainda não a havia utilizado. Enquanto isso, Daisy é volúvel e parece não ter a mínima ideia do que quer, além de ser profundamente egoísta, considerando somente os próprios sentimentos. Mas o romance abre espaço para que a gente olhe um pouquinho mais a fundo.

Se os anos 1920 viram o surgimento e estabelecimento da “flapper” – designação dada e tomada pelas mulheres que desafiavam as convenções sociais da época, como era o caso da própria Zelda Fitzgerald –, seu comportamento ainda era considerado chocante pela sociedade de modo geral, e não era a norma. As expectativas em relação às mulheres ainda eram as mesmas: casamento e maternidade. Zelda discutiu o assunto em seu ensaio Eulogy on the Flapper, afirmando que as desilusões eram inevitáveis, e estavam por vir. A flapper vivia como vivia, diz ela, porque sabia muito bem disso e era por fazer o que fazia que conseguia viver “feliz para sempre” depois ao preencher seu papel.

Em determinado momento do livro, Nick busca recontar a história de Daisy. Apesar de ouvi-la do próprio Gatsby, parece vir direto das cartas que ela escrevera, e é o mais próximo que temos de uma versão dela dos fatos. É nesse momento que ficamos sabendo que Daisy pedia que Gatsby voltasse logo porque estava sentindo “as pressões do mundo externo” e que queria que sua vida tomasse forma naquele momento, não depois, que “a decisão precisava ser tomada devido a alguma força – do amor, do dinheiro, da inquestionável praticidade – que estivesse à mão”. É quando entra Tom Buchanan, seu marido, pai de sua filha, o homem com quem ela escolhe ficar ao final.

Só que é um pouco mais complicado. Como aponta muito bem John Callahan, existe uma cena essencial no romance, em que os Buchanan, Nick e Gatsby se reúnem em um quarto do Plaza, e é quando toda a verdade sobre o caso de Gatsby e Daisy vem a tona. Nessa cena, os dois homens discutem Daisy como se fosse uma posse valiosa. É interessante perceber o silêncio dela enquanto os dois debatem se ela os ama ou não. Só o que ela faz é pedir para que parem de discutir, que saiam todos daquele quarto, por favor, por favor, por favor. É justamente nessa cena que Nick percebe que o sonho de Gatsby acabou, porque é provavelmente nesse momento que Daisy percebe que todas as suas próprias aspirações românticas estavam acabadas. Entre Gatsby e seu próprio marido não parecia mais existir tanta diferença assim, e não é surpreendente que ela escolha Tom, que pelo menos oferecia a ela a segurança que ela tanto queria.

A morte de Myrtle Wilson num acidente envolvendo o carro em que estavam Daisy e Gatsby – ela no volante – também é essencial. Gatsby assume a culpa e acaba sendo morto por isso – mais um momento que prova seu martírio. A reação de Daisy diante desse episódio incomoda porque é, sim, egoísta. Ela parece não ligar a mínima para a mulher morta (não teríamos como saber, de qualquer modo), escapa de qualquer consequência e, no fim, volta para a casa e para o marido (é uma escolha compreensível se considerarmos os traumas do dia, mas Nick discorda). Só que Gatsby também não liga a mínima para Myrtle, e o próprio Nick faz questão de mencionar que parecia que a única coisa que tinha alguma importância era a reação de Daisy, azar de quem estivesse no caminho.

Nada disso quer dizer que Daisy Buchanan não era uma personagem incrivelmente falha, muito menos que precisamos aprovar as ações dela ao longo do romance de maneira alguma. Mas por que transformamos Jay Gatsby num herói trágico e romântico e temos mais facilidade de ignorar suas falhas enormes do que as de Daisy? Estendemos uma simpatia muito maior a ele, buscamos entender suas motivações e sentimos o peso de seu processo de sonho e desilusão com muito mais força.

É verdade que Gatsby é assassinado ao final, enquanto Daisy sobrevive e ele, de certa forma, dá a vida por ela, embora não soubesse que estava fazendo isso. Mas Daisy sobrevive para ser uma “bela tolinha”, como resume seu papel a Nick em sua primeira aparição: é a melhor coisa que uma garota pode ser nesse mundo, ela afirma. Sobrevive para viver ao lado de um homem que a trai sistematicamente e que é desagradável com absolutamente todo mundo, inclusive ela. Daisy não escolhe Tom, escolhe a autopreservação depois de perceber que os sonhos românticos acabam, e o futuro dela parece horrível.

Ao final do romance, Nick nos lembra do quão trágico Gatsby era desde o início – porque, enquanto ele admirava a luz verde na doca da casa dos Buchanan, seu sonho há muito já havia ficado para trás (afinal, como Nick sempre insistiu e Gatsby se recusou a acreditar, não dá para repetir o passado). Mas, nos famosos parágrafos finais do livro (“então prosseguimos, barcos contra a corrente, impelidos incessantemente ao passado”), Nick para de falar “eu” e passa a falar “nós”. A história de Gatsby é universalizada e é por isso que não consigo deixar de me perguntar por que Daisy não poderia ser incluída nesse barco. Se ela prossegue contra a corrente, é para viver com a própria desilusão.

Fitzgerald nos contou as histórias de todos os jovens homens tristes, mas as jovens mulheres tristes também estavam lá.

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3 Comentários

  • Responda
    Amanda Aragão
    29 de Janeiro de 2017 at 11:08

    que texto ótimo!

  • Responda
    Kamilla
    31 de Janeiro de 2017 at 18:51

    Ótimo texto. Me fez entender um pouco melhor a personagem Daisy.

  • Responda
    Nicole
    6 de junho de 2017 at 10:16

    Amei o texto. De fato, consigo ver melhor a tragédia da Daisy. Com a narração do Nick é um tanto complicado de entender, mas ficou muito claro como ela não somente fez uma escolha por egoísmo, mas também porque era sua única opção – e mesmo assim não sai ilesa. A tragédia do Gatsby é realmente mais fácil de compreender, mas não tão menos triste que a dela.

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