MÚSICA

Meiga, porém perigosa: A evolução de Ariana Grande

Não faz muito tempo desde que Ariana Grande se tornou uma referência na música pop atual. Seu álbum de estreia foi lançado há apenas três anos, mas seu trabalho foi reconhecido o suficiente para que ela se tornasse rapidamente uma das artistas que vendem como água. O resto poderia ser história, mas por que não uma história que não merece ser repassada?

O investimento na carreira de Ariana Grande começou ainda na infância, com o apoio de sua família, mas ela começou a entrar em ascensão de verdade em 2010, quando foi escalada para fazer parte do elenco de Victorious, série do canal Nickelondeon, onde interpretava Cat Valentine, uma menina de cabelos vermelhos com trejeitos infantis que fazia parte do grupo de amigos da personagem de Victoria Justice.

A série girava em torno de Tori (Victoria Justice), uma garota que após substituir a irmã num show de talentos, é convidada para estudar na Hollywood Arts, uma escola focada em desenvolver as habilidades artísticas de seus alunos. Por ser voltada para o público infantil, a série não contava com enredos intricados e um humor inteligente, é claro, mas continha números musicais o suficiente para chamar a atenção. E naquela época tivemos uma amostra do talento que Ariana Grande tinha para a música. Ou seja, ela podia não ter o papel principal, mas o trabalho foi marcante, visto que por meio dele ela conseguiu o princípio da fama que faria deslanchar sua carreira.

Victorious não durou muito – foi cancelada em sua terceira temporada. No entanto, àquela altura, Ariana Grande estava trabalhando no lançamentos de seu primeiro álbum de estúdio e já contava com uma base de fãs ardorosos, (os “arianators“) cativados, senão pela voz ou atuação, por sua simpatia (embora seja difícil pensar que qualquer outra qualidade supere a sua potência vocal). E além de cantar muito bem, Ariana Grande tinha uma ambição que provavelmente foi o que a destacou no meio de tantos artistas: ela não queria que seu álbum fosse voltado para o pop, ela sonhava em fazer um álbum de R&B que remetesse às grandes cantoras que tanto admirava. Foi difícil para os empresários levarem-na a sério considerando sua pouca idade, mas ainda assim, foi o que ela conseguiu.

Yours Truly (2013), álbum de estreia de Ariana Grande, foi um grande sucesso, sendo líder de venda em vários países e tendo alcançado o primeiro lugar na Billboard 200 – feito alcançado pela última vez por uma mulher por Kesha em 2010. O álbum foi altamente elogiado por ter resgatado em suas faixas o R&B dos anos 90, gênero musical marcado pelos hits atemporais de Whitney Houston e Mariah Carey, entre outras artistas, também inspirações para Ariana Grande. Muitos críticos a descreveram como uma versão mirim de Mariah Carey – o que é um tanto lisonjeiro considerando também o registro vocal da cantora. Yours Truly foi a prova de que Ariana Grande não estava na indústria de brincadeira – a seriedade com seu trabalho está refletida nas baladas românticas e no seu vocal poderoso. De fato, de menininha ela só tinha a aparência. Todavia, isso também mudou na ocasião do lançamento do seu segundo álbum de estúdio.

Em My everything (2014) não só as batidas das músicas ficaram mais puxadas para o pop e mais agitadas, Ariana explorou suas alternativas musicais e além do hit “Problem” com Iggy Azalea, ela fez um trabalho com Zedd que resultou na dançante “Break Free”. Sem contar as populares “Bang Bang” com Jessie J e Nicki Minaj e “Love me Harder” com The Weeknd, a primeira faixa sensual do trabalho de Ariana. É um trabalho divisor de águas, definitivamente. Os vestidos coloridos deram lugar a roupas monocromáticas. Ariana alegava que no início da sua carreira ela ainda estava um tanto presa à personalidade de sua personagem em Victorious e que aquela Ariana era mais ela mesma.

De repente, ela não parecia mais tão inocente. Ariana começou a se expressar com mais liberdade, desde os palavrões em seu vocabulário ao salto das botas acima do joelho fazendo conjunto com saias e cropped tops. Ela foi quebrando os paradigmas da sua imagem, chamando a atenção do público e da mídia e, por consequência, sendo vítima de críticas por essas mudanças como toda estrela que cresce diante das câmeras o é.

Não importava que ela estivesse fazendo malabarismo entre uma tour mundial naquele momento, o lançamento da própria fragrância e as gravações de sua participação em Scream Queens, novo seriado da FOX. O que rendia cliques em relação ao nome dela eram críticas às suas roupas de apresentação (que eram muito curtas!) e o estilo de sempre do seu cabelo (o mesmo meio rabo de cavalo com babyliss nas pontas!), especulações sobre um distúrbio alimentar que ela não tem, boatos sobre seu comportamento de diva, a polêmica sobre lamber um donut e, como não podia deixar de ser, seus namoros com outras celebridades, especialmente com o rapper Big Sean devido às tantas especulações da mídia desde o início até o término do namoro.

Inclusive, foi nessa ocasião que Ariana Grande fez um manifesto em crítica à misoginia latente nossa cultura, tendo sido elogiada por artistas como Taylor Swift e Selena Gomez. Tudo começou com uma entrevista na qual a entrevistadora insistia em falar sobre os homens na vida dela, em que Ariana refreou, dizendo: “Eu não sou a ex do Big Sean. Eu não a sou a ‘possível nova garota’ Niall. Eu sou Ariana Grande e isso não é interessante o suficiente, não converse comigo.” Constatação que ela explicou com mais detalhes em seu Twitter.

O que eu quis dizer quando eu disse sobre não ser a ex de Sean é que estou cansada de viver em mundo onde uma mulher é comumente referida como uma POSSE/PROPRIEDADE do passado/presente/futuro de um homem. Eu… não. pertenço. a ninguém. além de mim mesma. E nem você. (…) Eu sei que vocês sabem disso, mas dupla moral e misoginia ainda estão muito presentes nos nossos dias. Mal posso esperar para viver em um mundo onde as pessoas não são valorizadas por quem estão saindo / casadas / se relacionando / transando (ou não) / sendo vistas com… mas pelo seu valor como pessoa.

E ela está certa. Quero dizer, as pessoas resolvem criticá-la pela sua aparência, sem considerar seu profissionalismo e as causas que abraça. Vamos esquecer que ela se tornou vegana por preocupação com os animais, vamos esquecer que seus cinco cachorros foram resgatados de abrigos, e vamos esquecer todas as campanhas filantropistas as quais ela participou. Veja só o tamanho daquele decote!

Dangerous Woman (2016) foi lançado há pouco mais de um mês e, como seus álbuns anteriores, alcançou o primeiro lugar de vendas logo nas primeiras horas. Liderado pelo single carro-chefe de mesmo nome, Dangerous Woman provou-se ser o álbum que fixa mais ainda a maturidade de Ariana como cantora e como mulher. Relacionamentos continuam a ser o principal tema das faixas, mas não é abordado de forma inocente. Cinco faixas explícitas conferem ao álbum o primeiro selo de advertência parental, e Ariana se aprofunda em sua fase como uma artista adulta, e não canta apenas o amor idealizado, como também o amor problemático, e o sexo.

Em “Bad Decisions“, os versos: “Ain’t you ever seen a princess be a bad bitch?“. Ariana, assim, se despe de qualquer resquício da imagem de menina que restava nela para provar que agora está abraçando sua imagem como mulher de vez, e sem pudores de expressão. Ou seja, ela não só produz música de qualidade, como usa seu trabalho para representar o que é, o que acredita, e ajudar a quebrar tabus.

Não precisamos ter os holofotes voltados para nós para saber que deve ser dificílimo viver com todos os olhos sobre você, observando suas atitudes e te julgando o tempo todo. E para o nível de fama que ela alcançou até agora e os tantos comentários que ela deve receber diariamente sobre os detalhes mais supérfluos, precisamos admitir que Ariana Grande parece ter os pés no chão na hora de conduzir as coisas boas e ruins que sua carreira lhe traz. Então, talvez devêssemos reconhecê-la, e quem sabe nos juntar à irmandade dela – e de todas as outras mulheres do mundo.

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1 Comentário

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    Carol
    4 de abril de 2017 at 19:04

    Eu AMO Ariana e realmente quase nenhuma cantora se compara a ela atualmente. Mas me preocupa o fato de no decorrer da carreira a quantidade de plásticas que ela fez e apesar de ela estar mais madura está cada vez mais fisicamente parecida com uma criança, e eu ouvi falar que isso aborreceu até a família como sexualizaram a imagem dela. Essa imagem de garota de 13 anos de lingerie pra mim é muito bizarra

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