VALKIRIAS

It’s alive – e agora? Um ano escrevendo sobre cultura pop na internet

It’s alive! Foi assim que, um ano atrás, iniciamos os trabalhos do Valkirias, um projeto que começou com sete mulheres que queriam um espaço para falar sobre suas coisas favoritas – cultura pop e feminismo – na internet. A frase inaugural foi uma das tantas ideias que tomamos emprestadas de Frankenstein, clássico de Mary Shelley, estando no monstro da história a nossa maior inspiração: seu tamanho espelha nossa ambição, e seus remendos eram, e ainda são, uma maneira de nos lembrar que somos muitas, que ser mulher é ser muitas coisas, e é essa multiplicidade que sempre buscamos trazer para o nosso trabalho. Além disso, a figura do monstro, o imaginário que ela evoca, é bem ilustrativa para demonstrar um pouco de como esse projeto nos devorou.

Um ano e 309 textos publicados depois, o Valkirias é hoje muito maior do que imaginávamos que ele seria, mesmo nos nossos maiores delírios de grandeza. No QG do site, localizado num chat em grupo na rede social mais próxima das editoras (e que na nossa cabeça assume a forma de um confortável escritório com pufes por todo lugar e open bar de chá, café e champanhe), frequentemente damos risada do que projetamos humildemente no início do site: a ideia era sempre publicar textos três vezes na semana, mas já no primeiro mês trabalhamos com o calendário cheio em todos os dias úteis, graças às colaborações que recebemos de vocês, que tão logo compraram a proposta do site e quiserem embarcar nessa aventura junto com a gente. No segundo mês já abrimos as portas para receber as primeiras colaboradoras fixas, começamos uma newsletter e pouco tempo depois estávamos publicando oito textos por semana. Não paramos mais de agregar mulheres maravilhosas, num time muito amado que hoje já conta com 19 pessoas incríveis construindo o site todos os dias. Além disso, tivemos a chance de publicar aqui participações de muitas outras mulheres, algumas que sempre admiramos de longe e foi uma honra receber em casa, e outras que ainda não conhecíamos e tivemos o privilégio de admirar de perto. Fomos a eventos, conversamos com autoras, conseguimos parcerias e até o Wolverine vimos de pertinho.

Fomos devoradas e fomos felizes, muito felizes, mas uma hora a conta chega e depois de um ano de maratonas de filmes, séries, leituras e textos de três mil palavras escritos e revisados depois das duas da manhã, a conta chegou pra gente também, como um arroto mal educado de Frankenstein. Outro projeto que tínhamos antes de colocar o site no ar é que sempre teríamos um mês de textos agendados, trabalhando sempre “no futuro” para evitar sufoco. Desnecessário dizer que a resolução não passou do primeiro mês, visto que a vida acontece e colocar o ponto final num texto que vai ser publicado dali seis horas se tornou uma realidade e uma rotina maluca. A vida acontece pra caralho e nessa nós fomos devoradas pelos prazos, pela vida, pelas nossas ambições e pelo conteúdo, que nunca para de aparecer. É sobre este último que quero discutir em especial.

Pessoalmente, o que me fez – e a fez a todas nós, em alguma medida – embarcar na ideia do Valkirias era ter a chance de construir o espaço que eu queria ver na internet, um site com textos que eu gostaria de ler, com perspectivas que não encontrava tão fácil por aí. Queria um espaço onde meus textões de três mil palavras não fossem um problema, e sim um perfil editorial; um site com textos críticos que abraçassem a parcialidade e a subjetividade de quem escreve, mandando às favas o mito da imparcialidade jornalística; textos que misturassem filosofia, política e música pop, que tratassem das três coisas com a mesma seriedade, que tivesse uma salada de referências e que pudessem se tornar referência. Não faço questão de parecer modesta e acho sim que conseguimos. Nesses 12 meses, brinquei bastante que sou viciada no site que eu mesma edito e ajudei a criar, e acho que não existe sentimento de realização maior que esse. Que baita privilégio ter um sonho, encontrar pessoas para sonhar junto e poder aprender todos os dias com ele, com elas.

Contudo, fazer tudo isso não é fácil e demanda duas coisas caríssimas nos dias de hoje: tempo e atenção. Tempo é dinheiro, dizem, e no século XXI vivemos a famigerada economia da atenção, onde a concentração que dedicamos é o bem mais precioso que todos desejam capturar a todo custo. Em termos de produção de conteúdo, isso significa lutar todos os dias para se destacar no meio de tantos estímulos, tantos textos e vídeos, o que só gera mais estímulos e mais loucura para correr atrás de todos eles, tanto do lado de quem consome essas informações, como do lado de quem produz. Nós, do Valkirias, nos encaixamos nos dois e é essa perspectiva que sempre quisemos trazer e o que motivou a nossa conversa de agora.

Vamos ilustrar no nosso pequeno universo essa loucurita que temos vivido? Para maio de 2017, por exemplo, temos estreias prometidas de temporadas novas de House of Cards, Sense8, Master of None, Unbreakable Kimmy Schmidt e Arrow – isso só na Netflix. Nosso serviço de streaming favorito também lançará novas produções originais, como Anne With an E e Laerte-se, isso sem contar os lançamentos de abril que ainda estamos tentando processar, como Dear White People, Girlboss e 13 Reasons Why, para citar os títulos de peso (meu Deus, como colocar nessa conta as pérolas escondidas?). Fora dessa bolha, The Handmaid’s Tale já chegou no Hulu e American Gods estreou dia 30 na Amazon Prime. A aguardadíssima terceira temporada de Twin Peaks tem estreia marcada para o fim do mês. É muita coisa e só falamos de séries. Tem os filmes que estreiam toda quinta-feira, os discos cada vez mais legais que são lançados todos os dias, os games imperdíveis, a internet, a moda, os esportes e todos os temas que queremos abraçar porque também fazem parte da nossa cultura. Temos o nosso país vivendo um momento político, econômico e social delicado, difícil e muito importante, que nos afeta como cidadãs, como jovens em início de carreira que não sabem para onde correr, e, de novo, como Produtoras de Conteúdo que sentem bater na bunda a famigerada responsabilidade social de também falar sobre tudo isso.

Sentiu a respiração ficar mais ofegante só de ver todos esses tópicos elencados? Nós também.

Uma das primeiras pessoas a falar em economia da atenção foi o economista Herbert Simon, ainda nos anos 70. Foi ele que disse que “a riqueza de informação cria pobreza de atenção, e com ela a necessidade de alocar a atenção de maneira eficiente em meio à abundância de fontes de informação disponíveis”. Vivemos uma época de muito estímulo, acesso fácil e respostas rápidas, em que aquela série que saiu semana passada hoje já é notícia velha e que temos — ou melhor, nos sentimos na obrigação de ter — uma opinião formada mesmo sem ter visto, de tantos think pieces que pipocam na internet em progressão geométrica tão logo qualquer novidade é liberada. Em dois ou três dias os assuntos se esgotam. Sempre fomos contra essa perspectiva, mas ela faz parte da nossa cultura e acaba nos atingindo de qualquer forma. Vocês ainda tem saco pra ler qualquer coisa sobre Girlboss? Pois é, eu também não, e só tem uma semana que a série estreou, teve todos os seus episódios liberados pela Netflix, virou assunto, foi odiada e amada até ser completamente esgotada — se foi por cansaço ou esgotamento real de suas temáticas, fica a questão. Qual é a próxima?, nos perguntamos como um pug ofegante realmente excitado, cujo espectro de atenção não é muito maior que 30 segundos para cada novo brinquedo barulhento.

Não espero aqui concluir qualquer coisa sobre um tema que renderia ótimas teses de doutorado, mas tenho pensado como a cultura binge, ou seja, uma cultura de consumir tudo muito rápido, em grandes quantidades, tem atrapalhado e de certa forma estragado a forma que lemos, assistimos e pensamos sobre as coisas. Pensar criticamente demanda um tempo que não é o mesmo tempo de emitir uma opinião, menos ainda uma crítica social foda sobre qualquer tema, mas a cultura binge nos força não apenas a consumir rápido, mas, com a ajuda das redes sociais, ela nos leva a querer ter opiniões rápido. O resultado disso é o ciclo bizarro de amor e ódio, com pouco espaço para nuances, que qualquer produto midiático de amplo alcance ganha na internet. A Netflix não inventou essa cultura ao liberar todos os episódios de suas séries de uma vez, mas é um exemplo interessante para analisarmos esse fenômeno que tem tudo a ver com a maneira que nosso mundo vive nessa suposta pós-modernidade do século XXI, onde tudo é rápido, instantâneo, fácil demais e tudo demais.

A riqueza de informação cria pobreza de atenção e para dar conta disso, disse o economista, temos que usar nossa atenção de forma mais eficiente, mas eficiência não é sempre sinônimo de qualidade. Para nós, que estamos tentando dar conta de falar sobre tudo o mais rápido possível para atender às demandas de vocês e não servir pão de ontem na nossa casa tão bonita, esse esforço tem sido sinônimo de esgotamento físico e mental, noites mal dormidas e textos feitos tão na correria, sob tanta pressão, que quando publicados sentimos um alívio apavorado que é menos uma exclamação de It’s alive! feita com orgulho e satisfação e mais um IT’S ALIVE MDDC QUAL O PRÓXIMO INCÊNDIO QUE VAMOS APAGAR??????

Esse não é o site que queremos ter, não é o espírito dos textos que queremos ler e não é a internet onde queremos viver. Ano passado tive a chance de fazer um treinamento intensivo na editoria de ciência e saúde de um grande jornal e frequentemente nos confrontávamos com um impasse: cobrir ciência e saúde é um desafio porque é preciso fazer a ponte entre o público e um tipo de conhecimento que não faz muita questão de ser fácil ou acessível para esse público – embora trate de temas essenciais, dos quais precisamos estar bem informados. Mas fazer isso dá trabalho, trabalho de pesquisa, um esforço para todo dia aprender e ser fluente para escrever de forma clara sobre temas que especialistas passam anos estudando e às vezes têm dificuldades em explicar. Ao mesmo tempo, é preciso publicar um jornal todos dias e atualizar a informação toda a hora na internet, chegar na notícia antes do concorrente. Em jornalismo, um erro sempre custa caro, e errar na área de ciência e saúde é mais complicado ainda. Passei um mês ouvindo que era preciso escrever textos originais, criativos e bem apurados, e passei um mês tentando fazê-lo e sendo sempre traída pelo tempo. É uma conta que não fecha. Perguntei para um grande repórter da área como conciliar essas duas coisas e ele disse: “Não sei”.

Foi Peggy Olson (Elisabeth Moss) que disse que “se você não gosta do que estão dizendo, mude a conversa”. Passamos um ano inteiro escrevendo sobre mulheres, reais ou não, que nos fazem sentir coisas e é hora de colocar um pouco disso na prática. Por isso, algumas coisas vão mudar um pouco por aqui nesse segundo ano que iniciamos hoje. Eis a grande vantagem de ser um site independente e não um grande jornal estabelecido: quando um modelo não funciona, podemos mudar tudo de um dia para o outro. Continuaremos nos esforçando para publicar um texto novo todo dia, mas vai ter dia que não vai rolar e tudo bem. Continuaremos ligadas em tudo que é novidade que nos interessa no âmbito das mulheres na cultura pop, e sempre vamos adorar saber que nossas reflexões são importantes para vocês e que vocês querem ler o que temos a dizer sobre essas coisas, mas não vamos mais virar noites e sacrificar saúde e conteúdo para entregar tudo tão rápido. Não vamos publicar textos sobre determinado assunto sem ter algo relevante a dizer, só para publicar já que está todo mundo falando sobre isso. Vamos respeitar o tempo que certas obras demandam para serem apreciadas, e convidamos vocês a fazer o mesmo. A vantagem de ser um jornal grande e estabelecido é que eles têm equipe e recursos enquanto nós só temos… nós mesmas. Queremos fazer disso uma vantagem.

Lembra daquela metáfora do Dr. Frankenstein no primeiro parágrafo, sobre os remendos do monstro serem as intercessões que fazemos em nossas multiplicidades? Então, aí vai mais uma: os remendos também nos lembram que somos falhas. Escrevemos bastante sobre mulheres imperfeitas, do direito e da importância de nos reconhecermos humanas, mas na prática insistimos em lutar contra isso numa tentativa desesperada de abraçar o mundo. Esse esforço vem de um lugar de amor, mas ele não pode nos engolir no meio do caminho. Então, estamos aqui hoje para dizer que não damos conta de tudo e que não demos conta de várias coisas. Para contar que no início do ano queríamos fazer um baita aniversário do Valkirias com conteúdos novos, presentes, lojinhas, mas tropeçamos, ficamos doentes, viajamos, saímos para dançar, esquecemos, não quisemos, perdemos a hora e chegamos aqui hoje com essa história para oferecer e a coragem de sermos imperfeitas e admitir que não dá, não deu, não tá dando, mas continuamos aqui. E pretendemos continuar por muito tempo, por isso as mudanças.

Na nossa pesquisa que circulou no fim do ano passado, tivemos muitos leitores interessados em saber um pouco mais sobre nós que estamos do outro lado. Queremos usar a oportunidade do aniversário para que vocês nos conheçam um pouco melhor (até lá, leia nossos mini-perfis e siga a gente nas redes sociais!), assim hoje queremos mostrar esse lado bem humano, que é uma benção e uma maldição. Nesse ano que passou, largamos empregos e começamos outros, viajamos, mudamos de casa, de cidade, de país e de opinião; saímos de casa, voltamos pra casa, nos formamos, iniciamos mestrados, nos tornamos mães de cães e de gatos, nos apaixonamos e nos desapaixonamos, pulamos carnaval, falamos em público, escrevemos outras histórias, cortamos e pintamos os cabelos. Rimos, choramos, morremos e vimos morrer, mas nascemos de novo sempre que foi necessário. Tudo isso nos afetou e afetou os nossos textos, a forma como vemos o mundo, e acredito que a mágica está aí. Estamos vivas e é isso que temos a oferecer. O mundo segue girando e nos interessa mudá-lo. Vamos juntas, por mais um ano e além?

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5 Comentários

  • Responda
    Mariana
    2 de maio de 2017 at 12:08

    Olá, mulheres (:

    Achei o texto de uma lindeza só. Reconhecer nossos limites é uma grandeza sem tamanho. Gostaria apenas de dizer que adorei a novidade de formato – acho que ele agregará ainda mais inteligência, sacadas sagazes e empatia aos textos maravilhosos que vocês produzem. Essa escolha faz mesmo muito sentido com a visão de mundo que vocês demonstram nas análises que fazem (com a qual concordo muito) e, sendo honesta, creio que essa mudança de formato pode levar esse sentimento de alívio e de revolucionária atenção a muitas leitoras. Assino a newsletter de vocês para acompanhar as postagens e, na maioria das vezes, não conseguia acompanhar a leitura (atenta) de todos os conteúdos produzidos – o que, em algum nível, gerava em mim uma frustração por não conseguir acompanhar, por “não ter uma opinião sobre a série que todo mundo já viu e que já virou assunto batido”, por querer ler tudo o que vocês produzem e não ter tempo para isso.
    Gratidão por serem críticas com relação a essa insanidade de nosso mundo (insanidade em que mergulhamos todas tão a fundo sem perceber) e por optarem por criar uma internet mais amorosa, que respeita o tempo e nossa humanidade.

    Sucesso e vida longa ao Valkirias! (:

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    Jéssica Fernandes
    2 de maio de 2017 at 12:53

    Ahhh Aninha, que texto maravilhoso! Hoje é tudo sobre essa quantidade imensa de conteúdo diverso que nos interessa e que analisamos de forma superficial sem tempo de aprofundar no assunto já que surge logo uma novidade pra ser debatida. Só pensar quando abrimos o instagram para olhar o feed e acabamos dispersas perdendo muito tempo seguindo novas pessoas e conteúdos interessantes que na real não vamos dar conta de acompanhar. A quantidade de notícia nova faz sentirmos que estamos alheias ao mundo, pois que não temos condições de andar nessa velocidade meteórica. Cria uma ansiedade, dá muita ansiedade, sentimos que o dia deveria ter 48 hrs para conseguirmos dar conta.
    Good luck, girls!!

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    Laura
    2 de maio de 2017 at 16:34

    Amei o texto, acho que esse sentimento de sufocamento pela quantidade de informação está generalizado… nada como uma reflexão dessas pra dar uma respirada e colocar as coisas no eixo.
    Feliz aniversário!
    E que a nova fase seja ainda mais sensacional!
    Vida longa ao Valkirias!
    <3

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    Marina Matos
    3 de maio de 2017 at 10:43

    Anna, esse texto é o abraço apertado que eu precisava receber hoje.
    Vocês são incríveis, todas vocês. Esse site é um lugar seguro no qual eu recorro toda vez que quero ler algo confiável e de qualidade sobre cultura pop e feminismo. E – graças a deusa – existem imperfeições e limites, porque imagina ter que carregar o mundo e todos os lançamentos da semana nos ombros? É um peso que vocês não precisam carregar. Não precisamos dar conta de tudo e achei muito lindo e muito humano essa escolha para esse segundo ano (e além). Falar sobre vulnerabilidades também é parte de quem somos – que bom encontrar isso aqui também.

    Sigamos juntas e vamos avante!

    Beijo!

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    Tany
    3 de maio de 2017 at 12:56

    Meu deus, como eu amo esse site e o que você escreve. É muito bom acessar um local que você pode só esquecer de tudo e ler algo bem escrito que te faça pensar e ao mesmo tempo você passe pras amigas falando “vamos comentar disso?” porque não é uma notícia sem fundo é realmente uma discussão. É uma amiga silenciosa falando o que acha e abrindo meus olhos para outra visão ou concordando na que tive.

    Obrigada pelos textos, pela oportunidade, por um canto na internet que acima de tudo pensa em fazer conteúdo decente em vez de entupir de notícias sem base ou importância. Ansiosa para o próximo ano, ansiosa por tudo que o Valkirias vai alcançar.

    Beijo e feliz primeiro ano! <3

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