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A cruel representação das mães na cultura pop

Quando penso em personagens que são mães na cultura pop sempre me lembro primeiramente de duas: Lorelai Gilmore (Lauren Graham), de Gilmore Girls e Lily Aldrin (Alyson Hannigan), de How I Met Your Mother. As duas são mulheres muito diferentes, talvez até a única coisa que as conecte seja o gênero e a maternidade. Para mim, que sempre lembro delas quando penso em mães na cultura pop, as duas também ocupam lugares diferentes na categoria de personagens que também são mães.

Lorelai Gilmore é uma referência um tanto óbvia para mim, porque cresci vendo Gilmore Girls dublado na tevê aberta. Eu assistia com a minha mãe e naquele duo de mãe e filha, sempre me identificava com a filha, Rory (Alexis Bledel), e identificava minha mãe com a Lorelai. Eu e minha mãe também tínhamos (e ainda temos) uma dinâmica parecida de cumplicidade e de falar rápido demais referências que quase ninguém entende, mas para esse texto, eu quero me aprofundar na segunda mãe que eu sempre lembro quando penso em personagens que são mães, Lily Aldrin.

Comecei a ver How I Met Your Mother quando ainda era adolescente no Ensino Médio. Na época eu achei a série o maior barato e virei fã logo nos primeiros episódios. Mas quando a série terminou, já estava no terceiro ano da faculdade e já não a achava tão legal assim e, numa rewatch mais recente, me assustei só de pensar que um dia achei a série maneira.

Lily Aldrin vem à minha cabeça logo quando eu penso em personagens que são mães porque um dia, conversando com uma amiga, ainda quando eu achava How I Met Your Mother uma ótima série, fizemos uma lista dos nossos personagens favoritos e ela disse que não gostava da Lily, que estava na última posição da sua lista. A razão do desgosto dela era por causa de uma cena, na 8ª temporada em que a Lily desabafa para o Ted (Josh Radnor) a vontade que às vezes ela tem de ir embora e deixar tudo para trás, incluindo o marido e o filho.

“I don’t know. I mean, I love being a mom, I-I love Marvin so much. But you remember when I wanted to be an artist? Art was my whole life, and… and now it’s been months since I’ve even picked up a brush. I-I spend the whole day taking care of kids in my job, and I come home, and it’s more of the same, and it’s just… it never lets up. It’s just really, really hard, Ted.

Eu não sei. Quero dizer, eu amo ser mãe. Amo tanto Marvin. Mas lembra quando eu queria ser artista? Arte era toda a minha vida. E agora fazem meses desde que peguei um pincel. Passo o dia todo cuidando de crianças no trabalho, venho para casa e é a mesma coisa. É só… Nunca dá folga. É muito, muito difícil, Ted

Mas a minha amiga não disse só isso, ela disse também que ir embora e deixar tudo para trás já fazia parte do histórico da Lily. E é verdade. Ela terminou o casamento com Marshall (Jason Segel) e se mudou para São Francisco porque foi aceita numa escola de artes e, depois, quase foge para Espanha porque não aguenta apoiar o Marshall em tudo e não receber o mesmo apoio de volta. Eu não concordei com essa amiga. Nem naquele momento e muito menos agora. Não acho que a vontade de deixar tudo de lado e apenas ir embora seja condenável em uma mulher, muito menos sendo ela mãe. Acho que todas nós temos essa vontade pelo menos uma vez na vida. E ela não nos torna menos humanos, pelo contrário.

Lily foi embora porque queria ser artista. E todas as outras vezes que ela confidencia sua vontade de ir embora, é sempre esse mesmo motivo que ela volta a mencionar. Lily queria ser artista, mas ao invés de seguir o seu sonho, ela se casa com Marshall e tem belos filhos com ele. Esse não é um texto que desvalorize mães ou a escolha de ser mãe – esse é um texto sobre mães e como elas são muitas vezes representadas. Na realidade de Lily, ela teria apenas duas opções: realizar seu sonho de ser artista e ir embora, ou ficar, casar com o homem que ama e ter seus filhos. Mas eu discordo dessas opções. E não acho que elas sejam opostas.

O sonho de Marshall era ser advogado. E ele se torna advogado. Ele consegue empregos para pagar sua faculdade de Direito e todo o apoio de que precisava para terminar seu curso, passar nas provas, se tornar um advogado ambiental e realizar seu sonho. Marshall teve o apoio e incentivo de Lily e de todos os seus amigos para conseguir realizar seu sonho e, no final, consegue alcançar seus objetivos. E também se torna pai. Lily também tem sonhos. Ela sonha em ser artista, mas seus sonhos são muitas vezes ridicularizados e diminuídos, seja pelo tom da série, seja pelos seus amigos e pessoas que ela ama. Lily continua no seu emprego de professora infantil porque precisa apoiar o Marshall na busca por seus sonhos, mas quando ela toma qualquer outra decisão que caminhe para realizar os seus próprios, é julgada, se torna uma péssima namorada, uma péssima amiga, uma péssima personagem e uma péssima mãe.

Quando a Lily retorna de São Francisco na segunda temporada, todos os seus amigos estão bravos com ela. Sim, ela tomou uma decisão precipitada, mas foi porque não tinha outra opção. Por que personagens femininas, ainda mais quando essas personagens são mães, não têm a opção de ter tudo? Para elas só é dada duas escolhas: o que é o certo, esperado e que não as deixam felizes e a escolha de abandonar tudo e ser também infeliz. E é essa frustração que segue com ela durante toda a série. Lily talvez só se sinta realizada profissionalmente quando é convidada para ser a consultora de arte do Capitão, ou George Van Smoot (Kyle MacLachan). Ainda não é a realização do seu sonho de ser artista, mas chega perto. Mas mesmo assim, é essa decisão que leva Marshall, seu marido que teve todo o seu apoio para realizar seus sonhos, a quase aceitar um emprego que a impediria de finalmente trabalhar com o que ela deseja. Lily não poderia ir para a Itália sozinha, afinal ela tem filhos e precisa ser mãe. Lily não pode simplesmente deixar tudo de lado, afinal ela é uma boa pessoa, é casada e tem filhos. Não é?

É muito comum associar a personalidade de uma mulher à maternidade. Quando a pessoa tem filhos, ela deixa de ser a pessoa para se tornar “mãe”. A personagem-mãe, que mesmo que trabalhe fora e não possa estar 100% do tempo vivendo para seus filhos, se sente culpada por ter uma vida fora de casa. Eu não sou mãe e sei que não entendo muito bem tudo o que está por trás disso, mas sei que mães continuam a ser pessoas e pessoas têm desejos, vontades, sonhos, ambições. As prioridades podem mudar, mas a personalidade continua lá. Não acho bacana que uma mãe abandone seus filhos para seguir sozinha seus sonhos e ambições, visto que abandonar os filhos nunca é a melhor opção. Nem ter filhos quando não se quer ter filhos, mas, muitas vezes, essa opção não é das mulheres. Somos desde cedo acostumadas com a ideia da maternidade, e de que quando nos tornamos mães, nos transformamos apenas em mães. Se não cumprimos o que é esperado de nós, somos péssimas pessoas, somos egoístas e más. Mas nunca é dada a opção de poder ser mãe sem apagar a própria identidade – nem na ficção.

Posso não entender histórias de mães que abandonam seus filhos e família (até porque não sou mãe), mas posso tentar. Quero ver na ficção e na cultura pop em geral mais histórias sobre mulheres que também são mães, mas não só: mães foram pessoas antes dos filhos e continuam sendo depois. Mães continuam tendo sonhos e ambições que não se relacionam diretamente com seus filhos. Quero ver narrativas que contemplem a complexidade de ser uma pessoa inteira e não apenas sua faceta materna. Quero ver mães não precisando encolher entre a carreira ou os filhos, quero ver mães escolhendo ter filhos porque realmente querem. Quero ver mães tendo as mesmas oportunidades que são dadas aos pais. Queria ter visto Lily realizar seu sonho de ser artista e o seu sonho de ser mãe. Queria ver o Marshall apoiá-la da mesma forma que ela o apoiou. Queria ver seus amigos felizes com ela indo atrás de seus sonhos, e não a julgando por ter abandonado tudo. Queria ter visto Lily não precisar abandonar tudo para realizar seu sonho.

Do outro lado das minhas referências de mães na cultura pop está Lorelai Gilmore. Lorelai não precisou abandonar a filha para continuar sendo Lorelai e seguir seus sonhos, mas ela comete outro tipo de abandono: ela deixa seus pais e sua vida pré-gravidez para trás para criar sua filha de acordo com os seus ideais. Lorelai tinha apenas 16 anos quando ficou grávida da Rory e, ao contrário de Lily, não era casada e muito menos planejou ter uma filha. É cruel pensar que uma adolescente tenha que crescer subitamente para ser capaz de ter uma criança, mas essa é uma das coisas boas da ficção; as coisas podem simplesmente dar certo. Por um lado, Lily quis abandonar seu filho para viver do seu jeito; e do outro, Lorelai abandonou seus pais para criar sua filha do seu jeito.

Lorelai consegue sozinha, sem os pais nem o pai de sua filha, construir uma família e uma lar para ela e para Rory. Lorelai nunca foi minha personagem favorita de Gilmore Girls, mas sempre gostei muito da construção desenvolvida e não menos delicada e sensível de uma mãe que foi mãe cedo demais, mas conseguiu, ao mesmo tempo, educar sua filha em um ambiente saudável apesar de todas as dificuldades e ainda conseguir não se anular atrás da maternidade. Lorelai é Lorelai, e Lorelai também é mãe. É mais que válido olhar criticamente para muitos aspectos de Gilmore Girls – ainda mais depois do revival do ano passado -, mas uma de suas qualidades mais fortes é a complexidade de suas personagens femininas sem cair em clichês nem tropos muito comuns da cultura pop, como a personagem-mãe, que está sempre insatisfeita de suas escolhas e fadadas à planicidade da representação da “mãe”.

Um pouco fora do universo de séries de tv americanas, não posso deixar de pensar no livro A Filha Perdida, da escritora Elena Ferrante, em que a personagem principal é uma mãe de filhas já adultas e que já deixou tudo de lado (e as filhas com o ex-marido) porque precisava apenas ir embora. Nem a mãe nem as filhas conseguem superar esse episódio. O abandono materno é um assunto muito delicado, porque ao mesmo tempo que condenamos as mulheres que o cometem, a sociedade não dá outra opção para a mulher continuar sendo pessoa e mãe. Para muitas mulheres, a maternidade não é o destino desejado e não há nada de errado com isso. Para outras mulheres, a maternidade é uma escolha.

Elena Ferrante consegue contar uma história sobre mulheres que não são pessoas perfeitas e muito menos mães perfeitas e ainda faz com o os leitores sintam empatia por elas. É difícil ler qualquer livro da autora sem se identificar pelo menos com uma personagem. Porque elas são complexas, multidimensionais, assim como mulheres na vida real. É preciso ter empatia e não julgar precipitadamente mulheres apenas pelas suas escolhas, tanto mulheres reais quanto mulheres da ficção. E principalmente quando essas mulheres também são mães.

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7 Comentários

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    Serenna
    10 de Maio de 2017 at 12:32

    Eu concordo completamente com a sua opinião sobre a representação das mães e mulheres na cultura pop.

    Não tenho muito o que discutir sobre Lorelai, porque só me lembro de ter curtido muito e também de me identificar com a série quando era mais nova e assistia com a minha mãe.

    Mas discordo com o que disse sobre a Lily. Talvez a série tenha dado a ideia de que o problema era ela ser mulher e mãe. Mas no começo da série, quando ela vai embora e volta, o problema é ela não ter se despedido. Ela não disse para ninguém o que ela tinha feito e o que planeja. Ela só discute com o Ted, porque ela acaba precisando de ajuda. E apesar do Ted não concordar, ele aceita que isso é algo que ela precisa fazer. Quando ela volta, ela diz que decidiu não ir embora porque seu lugar é ao lado do Marshal.
    De repente, puff. Ela some. Sem dizer tchau, sem manter contato nem nada. Quando ela volta só o Marshal e o Ted estão bravos. A Robin entende porque ela fez o que fez, mas não concordo como foi feito. Domesmo jeito, a Robin não julga ou fica brava. Barney não ta nem aí.
    Ted está puto da vida porque sua melhor amiga caiu fora e não disse nada. Ele explicitamente diz isso mais tarde na segunda temporada.
    Marshal tava super disposto a apoiá-la, mas eles tinham um casamento marcado. Sem contar que o Ted tinha razão. Eles moram em NY, o centro da arte dos USA. E ela mesma diz que ela precisa ir, não por causa da sua arte, mas porque ela queria saber quem era fora do relacionamento. Um motivo super válido.
    Então o problema não foi a Lily ir embora por causa de seus sonhos. O problema foi como ela foi embora.

    Sobre quando ela diz que quer dar o fora e desaparecer, eu também acho errado julgar as pessoas nos desejos secretos delas, mas eu tambem sou da opinião de que ela queria ser mãe. Passou no mínimo três temporadas enchendo o saco que queria ser mãe. Tem até um episódio sobre isso, quando a Robin fala tudo que eu pensava. E aí, quando ela finalmente vira mãe, ela quer dar o fora? E ela uma das personagens que mais fala sobre responsabilidade.

    Enfim, eu nem sei se é de mim que você ta falando ou não xD.
    Mas como sempre, foi um texto muito bem escrito.

    Beijos, Ju <3

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      Júlia Medina
      10 de Maio de 2017 at 14:18

      oi amiga! hahaha!
      eu entendo seu ponto (e acho que foi uma de nossas conversas que me inspirou esse texto… hehe), mas a grande questão para mim não é nem a lily em si, mas esse lugar que a maioria das personagens femininas ficam quando elas se tornam mães. eu concordo que a lily mesmo queria ser mãe, mas a questão é quando não vemos mães na ficção tendo outras questões além dos filhos, sabe? é claro que a maternidade é algo que tem que ser tratado com delicadeza, mas pode não ser o principal objetivo de toda a mulher (inclusive não é).
      enfim, obrigada por ter lido e ter comentado, significa bastante para mim <3

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    Carolina
    10 de Maio de 2017 at 15:47

    Oii, adorei a sua análise, e lembrei de uma mulher da ficção, a Temperance Brennan , de Bones, que é retratada como uma profissional brilhante, bem-sucedida e mundialmente famosa que se torna mãe, e apesar de não ter planejado a filha, acaba a tendo e não deixa que isso atrapalhe sua carreira, ao contrário, a série mostra justamente a dinâmica entre ela e o marido pra dividir as tarefas e a filha pra que ambos não saiam prejudicados e eu acho isso sensacional! Precisamos mesmo de mais mulheres complexas retratadas na cultura pop!

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      Júlia Medina
      10 de Maio de 2017 at 20:51

      oie! yay! obrigada!
      eu não assisto bones, mas já me deu alegria saber que tem uma personagem feminina e mãe bem desenvolvida! dá um alívio quando representam mulheres na ficção direitinho, né?

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    Paula Lua Silva
    16 de Maio de 2017 at 11:39

    Lilly é mulher, Lilly tem quer ser mãe e mais nada… E nunca reclamar disso, claro… Pq ser mãe supre qq outra coisa na vida da mulher, ops, mulher não pq ela é mãe… #SQN

    Assim como julgam a Robin como egoísta pq sempre priorizou a carreira… Sou mãe solo e tenho uma carreira, obviamente abdiquei de várias coisas por causa do Anakin e ainda faço isso, mas nunca das coisas realmente importantes pra mim como minha carreira. Amo meu filho e amo ser mãe, mas tenho que me dividir em 60, isso é sim cansativo e as vezes quero sumir. Desconfio de quem tem uma jornada nesse nível e diz que tá sempre tudo maravilhoso… rs

    Enfim, Lilly é maravilhosa e devia ter tentado um pouco mais sobre seus sonhos…

    Muito bom o texto… parabéns!

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    Thaís Bartolomeu
    17 de Maio de 2017 at 08:18

    Ótimo texto! Quando puder assista ao filme “motherhood” (pessimamente traduzido para “uma mãe em apuros). Fala justamentr sobre a tentativa de conciliação entre maternidade+casamento e carreira.

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