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Westworld e a complexidade da existência humana

Você já se perguntou como seria viver em um mundo inteiramente sem limites? Onde tudo é possível exceto morrer? Onde restrições não existem e você pode ser, literalmente, quem você quiser? Enquanto assistia Westworld, eu me perguntei o tempo inteiro – um questionamento que apenas se agravou com o passar dos episódios. Em uma sociedade que impõe tanta amarras, seria o extremo oposto a solução?

Atenção: o texto contém spoilers!

Baseada no filme de Michael Crichton, de 1973, a trama de Westworld gira em torno do parque temático de mesmo nome, onde robôs – chamados aqui de “anfitriões” – oferecem uma experiência visceral para seus hóspedes. São pessoas com dinheiro suficiente para se aventurar pelo Velho Oeste simulado pelo parque, um mundo sem leis onde eles podem fazer e ser o que quiserem sem sofrer qualquer tipo de retaliação – nem por parte dos donos do parque, muito menos pelos anfitriões, que estão ali justamente para atender aos desejos mais controversos de seus convidados.

Ali, conhecemos personagens que, pouco a pouco, nos ajudam a desvendar os mistérios que permeiam a história e compreender, a partir de diferentes perspectivas, a realidade que se esconde por trás dos limites de Westworld. Dolores (Evan Rachel Wood) é a donzela em perigo que passa a questionar sua própria realidade. Maeve (Thandie Newton) é uma prostituta em busca de uma vida livre de sua narrativa pré-determinada. William (Jimmi Simpson) é aquele que encontra no parque uma fuga de sua própria realidade. Bernard (Jeffrey Wright) é o funcionário que busca em seu trabalho uma motivação para continuar seguindo com a própria vida após a trágica perda de seu filho. E Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins), por sua vez, é a cabeça por trás de tudo, a perfeita personificação do Dr. Victor Frankenstein para uma legião de criaturas. Todos, indiscutivelmente, vivem uma realidade problemática e tentam, de algum modo, encontrar respostas em meio ao caos.

“These violent delights have violent ends”, diz o pai de Dolores para a filha, algum tempo antes de ser levado definitivamente pela equipe responsável pelo parque. Ele é o primeiro de muitos que serão sacrificados por apresentar problemas devido a uma atualização que permite devaneios por parte dos anfitriões, que passam a relembrar de papéis desempenhados em outros ambientes do parque e, mais tarde, desenvolver uma espécie de consciência própria. A citação à Romeu e Julieta, no entanto, não é apenas uma referência ao papel desempenhado pelo personagem no passado. Afinal, se mesmo aquilo que é doce pode se tornar desagradável ao paladar, se mesmo o romance mais puro pode encontrar um final trágico, não é difícil imaginar que um universo construído sob os pilares de uma liberdade humana tão primitiva, se torne um castelo de cartas com hora certa para ruir.

Vendida como uma série inovadora, Westworld não se distancia muito de outras narrativas de ficção científica que possuem a relação entre humanos e robôs como parte essencial da premissa. As características estão todas lá – do cenário futurístico até a reflexão sobre a existência e natureza humanas, passando por arquétipos tão comuns ao gênero e pela própria relação conturbada entre homem e máquina – e não é preciso esforço para percebê-las. Entretanto, é a partir desses elementos tão comuns que a série busca construir uma história que, embora não seja assim tão inovadora, é capaz de apresentar questionamentos mais profundos, que se transformam em uma grande e perturbadora metáfora para situações que parecem muito próximas daquilo que vivemos, mas também para vícios narrativos e a própria concepção de ficção na sociedade em que vivemos. Se aquilo que consumimos, a princípio, não exerce influencia sobre quem somos ou desejamos ser, Westworld é a prova de que entre ficção e realidade existem muito mais nuances do que acredita nossa vã filosofia.

“Qual é a diferença entre a sua dor e a minha?”, questiona Bernard em determinado episódio. O contexto não é tão importante quanto a verdadeira origem de seu questionamento. Ele, que sempre fora relativamente empático com as máquinas das quais sempre cuidou até se descobrir uma delas, não compreende a barbaridade do ser humano perante espécies que estes julgam inferiores. Ao longo dos anos, Bernard viu anfitriões serem estuprados e mortos por humanos que se sentiram no direito de fazer tudo isso só porque sim, porque se julgavam superiores, os únicos donos daquele mundo. Enlouquecidos pelas atrocidades que viviam, esse anfitriões recebiam reparos até que eram inutilizados pela Delos, empresa dona do local, tratados com o descaso dos objetos que sempre foram, mesmo que sua consciência estivesse plenamente ali, o tempo inteiro.

Embora Ford se recuse a enxergar muitas das falhas em sua própria criação, os ciclos narrativos nos quais os anfitriões se encontram, por si só, já são um grande incentivo para aqueles que não precisam de muito mais do que a absolução da culpa para cometer crimes tão bárbaros quanto o estupro e o assassinato. Ao construir anfitriões com histórias passadas tão trágicas e com um futuro sujeito à corrupção da mente humana, Ford constrói uma contraditória realidade que se baseia em desgraças como uma justificativa torta de suas próprias escolhas equivocadas, sem levar em consideração as mentes que, embora não humanas, possuem consciência e sentimentos complexos e que sofrem com cada tragédia que percorre seus caminhos. Essa é uma realidade que não se distancia muito do que vemos na ficção hoje, que utiliza o sofrimento alheio – em especial, de mulheres – para desenvolver narrativas de uma forma tão vazia. Ao contrário delas, no entanto, Westworld utiliza tais contradições em seu universo para construir questionamentos necessários e que coloca contra a parede muito dos discursos pregados pela indústria do entretenimento.

Além disso, um fator importante a ser considerado é que a relação entre criador e criatura e a clara noção de superioridade e inferioridade construída a partir daí, se assemelha – e muito! – à forma como a sociedade nos enxerga enquanto mulheres. Sob o guarda-chuva do machismo, mulheres são violentadas, estupradas e mortas pelo simples fato de serem mulheres, porque homens se sentem no direito de cometer tais atos unicamente por se acharem superiores. O nome disso não é doença. O nome disso é construção social.

Em Westworld, os homens horríveis que frequentam o parque não são bandidos em um beco escuro que de repente resolvem atacar, estuprar e matar uma mulher só porque sim, muito pelo contrário. São homens ricos, donos de verdadeiros impérios, que estão dispostos a pagar por uma experiência visceral que, para eles, se traduz em uma violência sem precedentes. Embora famílias inteiras usufruam daquilo que é oferecido pelo parque, não é difícil perceber que a maior parte dos frequentadores são homens, algo que pode ser atribuído à ideia de que mulheres, em suma, são criadas para servir e não para serem servidas.

A série não explora essas nuances de forma evidente, mas fica claro que existe uma diferença entre a relação de homens e mulheres com o parque. Mesmo as poucas mulheres que trabalham na Delos possuem uma relação diferente com os anfitriões. Ainda que algumas se sintam confortáveis em utilizá-los em seus próprios termos, como é o caso de Charlotte (Tessa Thompson) que usa Hector (Rodrigo Santoro) para lhe dar prazer sexual, a maioria o faz com certa timidez ou mesmo sem o conhecimento prévio de que está se envolvendo com um anfitrião. Elsie (Shannon Woodward) dá um beijo escondido em Clementine (Angela Sarafyan) enquanto Theresa (Sidse Babett Knudsen) mantém um relacionamento com Bernard sem saber que está se envolvendo com um dos anfitriões da empresa que gerencia.

É do outro lado, no entanto, que reside a presença feminina mais forte, nas figuras de Dolores e Maeve. Tanto a trajetória de uma quanto da outra tem início porque ambas, em determinado momento da narrativa, passam a questionar o mundo ao seu redor. Ao contrário de outros anfitriões, que não alcançaram o esclarecimento necessário para passar a se perguntar sobre os loopings narrativos no qual estão inseridos, uma vez que enxergam todos os podres do mundo em que vivem, Dolores e Maeve já não conseguem mais sofrer caladas por um destino que lhes foi imposto – não muito diferente de nós que, uma vez de frente para todos os problemas da sociedade machista e patriarcal no qual vivemos, não conseguimos mais fechar os olhos e continuar caladas diante daquilo que é problemático, absurdo, doentio.

Nesse sentido, Dolores é a subversão completa do estereótipo da donzela em perigo, o papel ao qual foi destinada. Acompanhá-la ao longo da série é descobrir, pouco a pouco, a complexidade por trás de sua existência, bem como o seu real papel na narrativa. Dolores deixa de ser a caça para se tornar a caçadora, ao mesmo tempo que apresenta uma sensibilidade ímpar que coroa toda a complexidade da personagem, que não precisa ser ninguém além dela mesma para se tornar a dona da própria história. Muito da sua força se perde quando pensamos que seu arco é inicialmente movido pelas orientações de Arnold (também interpretado por Jeffrey Wright) que, na tentativa de destruir o parque, usa Dolores para colocar fim aos seus próprios temores e, posteriormente, a si mesmo. Contudo, sua trajetória e todos os seus feitos ao longo da narrativa não devem ser diminuídos, especialmente porque são as descobertas de Dolores peças fundamentais para que sejamos capazes de desvendar ao seu lado os mistérios do labirinto de Westworld – que, ao contrário do que se imaginava inicialmente, foi feito para ela e para mais ninguém. Dolores não é uma chave: ela é a própria ação, que desvenda mistérios por si própria e não para os outros. Ela é o centro, não o contrário. Aliás, não é por acaso que o labirinto termina justamente em uma lápide, um lugar que ela nunca estará, em algo que ela nunca irá fazer, conforme as instruções deixadas por Arnold.

Além disso, Dolores chega ao esclarecimento por conta própria. O incentivo de Arnold, ainda que fundamental, é apenas um incentivo, capaz de ajudá-la e não de fazer o trabalho por ela. Dolores é a verdadeira dona de sua história, além da misteriosa vilã por trás de acontecimentos passados, e por mais que ela não tenha pleno controle de sua narrativa, suas decisões são essenciais para os rumos tomados pela trama posteriormente. Até que se prove o contrário, a decisão de matar Ford é inteiramente sua, da mesma forma que a ideia de tomar o controle de Westworld e as rédeas da própria vida são suas e de mais ninguém. A partir daí, Dolores descobre ser muito mais forte do que acreditava, inclusive muito mais forte do que aqueles que sempre a fizeram refém. Se “o tempo destrói até as criaturas mais poderosas”, é certo que Dolores está muito além daqueles que a aprisionaram por tanto tempo tanto fisicamente quanto intelectualmente – o que ela fará com isso, no entanto, ainda é uma pergunta que apenas a segunda temporada será capaz de responder.

Maeve, por sua vez, percorre um caminho igualmente esclarecedor na história e desconstrói a si mesma para reconstruir uma versão completamente nova, que já não se deixa ser subjugada por aqueles ao seu redor. Não é difícil imaginar que, enquanto prostituta, Maeve tenha sofrido inúmeras violências, que foram repetidas à exaustão em seu ciclo narrativo. Entretanto, seus traumas não são recentes e suas feridas caminham com ela desde o seu primeiro papel: o de mãe. Antes de incorporar a prostituta em Westworld, Maeve vivia feliz com sua filha até que o Homem de Preto (Ed Harris) – que, mais tarde, descobrimos ser o próprio William alguns anos mais velho – destrua toda a sua vida. Seus sentimentos em relação ao passado são extremamente complexos e são suas lembranças que fazem com que ela comece a questionar o mundo em que vive. Ao se dar conta de que a morte não é definitiva para si, Maeve passa a tentar compreender cada vez mais o mundo daqueles que a mantém refém até ser capaz de causar uma verdadeira revolução. Ela constrói uma personalidade com características que funcionam aos seus interesses e não de terceiros, e faz com que outras pessoas ajam conforme seu plano para que consiga fugir de seu cativeiro. “It’s time to write my own bad wording story”, e é mesmo.

Um ponto que fica suspenso nessa primeira temporada, no entanto, é o fato de que, tanto Maeve quanto Dolores, embora aparentam agir conforme sua própria vontade, parecem responder a algum tipo de padrão estabelecido por alguém – quem quer que seja. A morte de Dolores na praia (literalmente), por exemplo, indica que o tempo todo suas respostas agiram de acordo com um roteiro pré-determinado. Do mesmo modo, Maeve descobre em determinado momento que mesmo a sua revolução está de algum modo programada – algo imediatamente rejeitado por ela. Mais uma vez, a noção de livre arbítrio surge, mas sob contornos completamente diferentes. No entanto, se convidados representam a noção mais primitiva de liberdade e os anfitriões são a prova de que a liberdade pode ser uma utopia, o que seríamos nós, do outro lado? Somos donos da nossa própria história, as marionetes de uma força superior ou algo aí no meio?

Questões, questões, muitas questões.

Talvez por isso, compreender Westworld em sua totalidade seja tão difícil – e escrever sobre ela, uma missão quase impossível. Em seu site oficial, a série é descrita como “uma odisseia sombria sobre o surgimento da consciência artificial e o futuro do pecado” e do outro lado, a sensação é exatamente a de acompanhar uma grande aventura não apenas sobre o surgimento da consciência artificial e do pecado, mas principalmente sobre a existência humana. “We’re only humans. Inevitably, we’ll only disappoint you”. Westworld é uma série que decepciona em muitos aspectos, sendo o principal deles o fato de ser vendida como algo que não é. Sua grandiosidade, no entanto, reside justamente naquilo que não fica claro de imediato, na sutileza com que trata temas muito próximos da nossa realidade, o que torna a surpresa, senão plenamente agradável, ao menos o suficiente para compensar aquilo que frustra ao longo do caminho. Muitas perguntas continuam sem resposta e a única certeza que resta, ao final dos dez episódios que compõe a primeira temporada, é que ainda temos um universo inteiro para ser explorado. E quando chegar a hora, não restam dúvidas: é em Westworld em que vamos estar.

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