CINEMA

Crítica: A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell

Quando soube que veria e escreveria sobre A Vigilante do Amanhã, resolvi me preparar e estudar, pois sabia que teria que lidar com tópicos complexos de discussão, como apagamento de cultura, whitewashing e representatividade. São temas difíceis e que precisam ser abordados com cuidado e responsabilidade. Antes de ver o filme, acompanhei de longe essa discussão. Muito já se falou sobre a escalação de Scarlett Johansson para o papel da Major – personagem originária do mangá japonês Ghost in the Shell, adaptado para o filme de Hollywood –, e é preciso falar ainda mais.

Whitewashing é o termo em inglês utilizado quando, em uma obra (filme ou série, por exemplo), personagens originalmente não-brancos são interpretados por atores brancos. Isso ocorre desde que Hollywood existe e recentemente se tornou parte de importantes debates sobre racismo e representatividade. Casos conhecidos de whitewashing: Mickey Rooney como I.Y. Yunioshi, de Bonequinha de Luxo, Jake Gyllenhaal interpretando o Príncipe da Pérsia, Jennifer Lawrence em Jogos Vorazes, ou Emma Stone em Aloha.

Sem saber nada sobre a história, a não ser que era sobre uma ciborgue meio robô meio humana e que a escolha de escalar Scarlett Johansson era problemática porque a história veio de um mangá japonês, achei em casa e resolvi ler o mangá The Ghost in The Shell. O filme é uma adaptação do anime, e não do mangá, mas a história original é a do mangá criado por Masamune Shirow ainda nos anos 1990. A história se passa num futuro fictício – curiosamente em 2029, mesmo ano que o também recém-lançado filme Logan – em que robôs, inteligências artificiais e humanos convivem normalmente e em que humanos podem se aperfeiçoar com peças robóticas. A Major Motoko Kusanagi, contudo, é um caso à parte: com cérebro e alma humanas, seu corpo é inteiramente ciborgue, fazendo dela o primeiro caso de sucesso da união completa entre humanos e robôs, o que seria o futuro provável para essa realidade.

Logo quando foi anunciada a seleção do elenco, choveram críticas à escolha de uma atriz branca para o papel de Major, personagem pertencente à cultura japonesa. E também vieram as respostas dos responsáveis pelo filme, que defenderam a escolha dizendo que a personagem era, na verdade, um ciborgue e que sua aparência externa não está relacionada a alguma etnia ou cultura específicas. O diretor do anime, Mamoru Oshii, disse sobre o caso:

“The name ‘Motoko Kusanagi’ and her current body are not her original name and body, so there is no basis for saying that an Asian actress must portray her. Even if her original body (presuming such a thing existed) were a Japanese one, that would still apply.”

[“O nome ‘Motoku Kusanagui’ e seu corpo atual não são seu nome nem corpo originais, então não há base para dizer que uma atriz asiática deveria retratá-la. Mesmo que seu corpo original (presumindo que tal coisa existisse) fosse japonês, isso ainda se aplicaria”, em tradução livre.]

O estúdio também argumentou que a escolha de Johansson seria a melhor porque uma atriz conhecida e de sucesso poderia alcançar mais visibilidade para o filme, mas tal argumento, que já é clássico nos casos de whitewashing, não faz tanto sentido assim se vermos a quantidade de novas franquias de grande sucesso que foram lançadas com atores não muito conhecidos, como o filme Power Rangers, Star Wars: O Despertar da Força, entre outros. E tanto o mangá quanto o anime de Ghost in The Shell já possuem uma base de fãs grande e consolidada; ou seja, o filme seria visto mesmo sem Scarlett Johansson no papel de Major.

Mas os problemas não acabam com a escolha da protagonista, porque quase todo o elenco principal é interpretado por atores não-japoneses e brancos. É claro que há atores asiáticos no filme, mas fazendo papéis secundários ou apenas no plano de fundo das cenas. Do núcleo central de personagens, apenas dois não são brancos. Em entrevista para a Folha de São Paulo, a atriz Scarlet Johansson disse: “Desde o começo, Rupert [diretor do filme] queria que o elenco fosse muito diverso, porque fazia sentido, já que o filme se passa no futuro”. E, realmente, o filme se passa em um futuro fictício em que a ilusão da globalização é muito mais forte do que a nossa, onde barreiras e fronteiras não importam tanto assim. O roteiro do filme também provê supostas histórias de origem para Major que explicariam suas feições ocidentais: sua família morreu fugindo de seu país natal para se refugiar em Hong Kong (onde se passa a história), um lugar aparentemente seguro para todos. A história de origem é acompanhada da supressão do nome da personagem – de Major Motoku Kusanagui, como nos mangás e animes, ela passa a ser chamada apenas de Major. As impressões de igualdade entre as pessoas (e robôs) e de mundo globalizado são falsas, tanto no filme quanto na vida real.

Ainda sobre as escolhas problemáticas, o personagem Aramaki, chefe da Sessão 9 e da Major, que é interpretado pelo ator japonês Takeshi Kitano, é o único falante de japonês no filme. Enquanto todos os outros personagens falam em inglês, Aramaki se comunica apenas em japonês sem qualquer motivo aparente, pois outros personagens interpretados por atores japoneses também falam em inglês. Talvez tenha sido escolha dos produtores como exemplo de representatividade, mas apenas não funciona. A diferença da língua não tem nenhuma explicação na história além de incomodar. Parece ser uma espécie de prêmio de consolação depois de todo o apagamento cultural do filme.

De uma maneira bastante hollywoodiana, o filme constrói narrativas menores e paralelas que explicam pontos não muito abordados no mangá, mas também faz além disso. A história original de Ghost in The Shell é bastante inovadora, pois traz um olhar para o futuro e para o uso da tecnologia que vai além do que estamos acostumados a ver na ficção, em que a tecnologia sempre se torna vilã em algum momento, ou então o instrumento de destruição do vilão da história. O mangá e o anime não constroem suas narrativas por esse caminho. Na história original, a tecnologia já está introduzida e aclimatada ao mundo humano onde pessoas e robôs convivem e se identificam entre si tanto quanto entre seus pares. A questão para a história não é a perda de humanidade através da tecnologia, um grande clichê desse tipo de tema. Major pode se questionar sobre a sua identidade quando era apenas humana, mas sua trajetória não se constrói apenas a partir dessa busca. E tampouco os avanços tecnológicos são vistos com maus olhos, não há maniqueísmo na história original. Mas infelizmente não é possível dizer o mesmo da adaptação hollywoodiana.

O The Guardian escreveu um artigo interessante sobre o assunto analisando apenas o trailer do filme:

“The original film doesn’t just examine the next stage of evolution – the one we can easily get our heads around – it looks beyond the curve of the horizon to the stage beyond that, to the unsettling, darkling reality of our own fusion with technology. Meanwhile, the Hollywood remake appears to be looking in the opposite direction”.

[“O filme original [o anime] não examina apenas o próximo estágio da evolução – aquele que facilmente entendemos –, ele olha além da linha do horizonte para o estágio depois disso, para a inquietante e obscura realidade da nossa própria fusão com a tecnologia. Enquanto isso, o remake de Hollywood parece estar olhando para a direção oposta”, em tradução livre.]

O artigo chama a atenção para outro processo problemático da indústria: além do whitewashing, o filme A Vigilante do Amanhã perdeu suas características originais, do mangá, do anime, da cultura narrativa japonesa, e se tornou mais um produto hollywoodiano.

É claro que, sendo uma adaptação produzida por Hollywood, já eram de se esperar certas mudanças e procedimentos, mas não é por ser previsível que deixa de ser problemático. O anime Ghost in the Shell é um marco na história e influenciou muita gente, incluindo nomes como as irmãs Lilly e Lana Wachowski (Matrix), James Cameron (Avatar) e Steven Spielberg (AI – Inteligência Artificial), mas, nas mãos da indústria estadunidense, perdeu o que tinha de mais precioso: sua identidade.

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3 Comentários

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    João
    3 de abril de 2017 at 03:14

    Julia, o filme não perdeu sua identidade, pelo contrário ele respeita e adiciona jogadas inteligentes ao roteiro original. As questões filosóficas estão representadas nas próprias imagens das cenas. Como em uma pintura, você não deve esperar pelo diálogo filosófico mas precisa ter a sensibilidade para percebê-lo nas imagens das cenas. Sobre: “…Enquanto todos os outros personagens falam em inglês, Aramaki se comunica apenas em japonês sem qualquer motivo aparente, pois outros personagens interpretados por atores japoneses também falam em inglês. Talvez tenha sido escolha dos produtores como exemplo de representatividade, mas apenas não funciona…” Isto poderia ser interpretado não como um exemplo de representatividade mas para atribuir peso nas cenas em que ele está presente. Explico, Aramaki é o personagem japonês mais velho na trama, o mais conservador pelos modos e o ambiente no qual ele é representado, por isso ele fala em japonês. Quanto: “…A diferença da língua não tem nenhuma explicação na história além de incomodar. Parece ser uma espécie de prêmio de consolação depois de todo o apagamento cultural do filme.” Eu achei esta jogada do idioma impressionante! Deixo uma pergunta para você: – A tradução automática não estaria largamente disponível em um mundo com implantes cibernéticos avançados? O palpite do porque o Aramaki é o único a falar em japonês já foi dado. Por último: “…todo o apagamento cultural do filme.”, mesmo no original a história não se passa num local específico. Ela foi redigida por japoneses mas isso implica que ela funcione apenas para, e com japoneses?

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      Júlia Medina
      3 de abril de 2017 at 19:53

      oi joão!
      desculpa, mas eu não concordo com você, acho que deixei bem claro no texto os pontos em que acho que o filme sim apaga a cultura japonesa que está tão inserida no manga e no anime.
      quanto ao personagem do aramaki, é claro que a tradução simultânea seja fichinha para o alto nível da tecnologia no universo da história, esse não foi o meu ponto. o problema é, se em um universo tão globalizado assim, por que apenas um personagem fala japonês? acho que para ficar coerente ou todos os personagens falassem inglês ou cada um falasse uma língua diferente. segundo a sua lógica, acho que (spoilers!) a mãe da major também deveria falar japonês, não? já que ela vive numa área marginalizada de toda aqueles avanços tecnológicos e globalização. achei bastante complicada a escolha de colocar apenas o aramaki representando uma cultura que deveria estar muito melhor representada no filme inteiro.
      enfim, não tenho nenhuma pretensão de agradar ou de concordar com todo mundo, acho que até a conversa e discussão seja bastante válida em um assunto tão delicado quanto esse.

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    João
    3 de abril de 2017 at 23:15

    Oi Júlia!

    Indo direto ao ponto: “…o filme sim apaga a cultura japonesa que está tão inserida no manga e no anime…” Existe o local/pano de fundo onde a história se passa e o enredo dela. Eu entendo que o enredo original, recheado de questões existenciais e exploradas nas imagens da nova versão, seja um item mais importante do que o local/pano de fundo onde ele se passa. Suponha que o original tivesse sido escrito e filmado na Inglaterra, ou na Itália, ou na Rússia… e a nova versão, 20 anos depois fosse filmada nos EUA. É como comparar “Abre los Ojos (1997)” com “Vanilla Sky” (2001), troque Madri por Nova Iorque…

    “…quanto ao personagem do aramaki, é claro que a tradução simultânea seja fichinha para o alto nível da tecnologia no universo da história, esse não foi o meu ponto. o problema é, se em um universo tão globalizado assim, por que apenas um personagem fala japonês? acho que para ficar coerente ou todos os personagens falassem inglês ou cada um falasse uma língua diferente. segundo a sua lógica, acho que (spoilers!) a mãe da major também deveria falar japonês, não?” Novamente: “…Aramaki é o personagem japonês mais velho na trama, o mais conservador pelos modos e o ambiente no qual ele é representado…”. O ponto é que ele aparenta ter idade para ser o avô da Major. Júlia, uma pergunta: – Se você já conviveu, ou convive, com descenderes de japoneses no Brasil, ou em outros países, já deve ter percebido que as “batians” falam quase o tempo todo em japonês, não? Quanto ao spoiler, assisti o filme antes de escrever o comentário aqui, então sem problemas 😉 Sobre: “…a mãe da major também deveria falar japonês, não? já que ela vive numa área marginalizada de toda aqueles avanços tecnológicos e globalização. achei bastante complicada a escolha de colocar apenas o aramaki representando uma cultura que deveria estar muito melhor representada no filme inteiro…” A mãe da Major pode ser da geração seguinte a do Aramaki. De novo uma pergunta: – Os pais dos seus amigos japoneses, se vc os tiver, eles falam japonês correntemente? Este pode ter sido o ponto explorado pelo cineasta e pela equipe.

    Para fechar esse round: “enfim, não tenho nenhuma pretensão de agradar ou de concordar com todo mundo, acho que até a conversa e discussão seja bastante válida em um assunto tão delicado quanto esse.” Talvez seja um reflexo da nova versão não ter agradado, ou fornecido o que muita gente esperava. Uma versão idêntica aos originais, só que filmada com atores humanos. Fica a pergunta: – Se você for assistir um show dos Rolling Stones, você espera que eles sempre toquem a mesma versão de “Jumpin’ Jack Flash” lançada em 1968?

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