CINEMA

Crítica: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

O cinema sempre navegou entre ser imagem ou ser narrativa. Alguns podem dizer que imagens também contam histórias enquanto outros dizem que a história não é o mais importante para o filme. Mas ainda não existe um consenso; é sempre uma questão. Sob outra perspectiva, para as adaptações cinematográficas de obras literárias, por serem adaptações, na maioria da vezes dá-se a preferência para as histórias. E são exatamente as histórias os maiores alvos de críticas e reclamações desse tipo de filme.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é a adaptação de uma série de quadrinhos chamada Valerian, que contam a história do herói homônimo (Dane Dehaan), um agente espaço-temporal e sua parceira Laureline (Cara Delavigne). No filme, não há apresentação nenhuma das personagens e a obra começa in medias res, ou seja, no meio da ação. O diretor, Luc Besson, na entrevista coletiva concedida no dia 3 de agosto, disse que foi uma opção dele não fazer um filme de origem com a história anterior das personagens principais. Ele disse também que, se houver a oportunidade de produzir uma sequência, gostaria de passar mais tempo desenvolvendo Valerian e Laureline.

A história se passa no século XXVIII quando, depois de muitos avanços tecnológicos, os humanos possuem um maior conhecimento e desenvoltura no espaço. A Cidade dos Mil Planetas, Alpha, é o maior exemplo disso: antes de ser cidade, era uma estação espacial em órbita na atmosfera da Terra que marcava as conquistas espaciais terrestres, mas com o tempo, ela foi afastada da Terra porque seu crescimento começou a ser uma ameaça ao planeta; e assim foi criada a cidade, sempre com o intuito de ser um espaço comum e harmonioso entre espécies e planetas diferentes que lá compartilham seus conhecimentos, técnicas e culturas.

A sequência inicial, ao som de Space Oddity, de David Bowie, é um exemplo de como o cinema consegue narrar sem precisar de nenhum diálogo: na tela, são mostrados líderes mundiais da Terra se encontrando – sempre em paz – na estação espacial. Ao longo do tempo, aumenta a diversidade de pessoas e também de espécies, deixando claro que aquele lugar, desde sua origem, foi um lugar de comunhão entre povos, e não de disputas e guerras.

A origem de Alpha é essencial para o conflito do filme, pois ao mesmo tempo em que há a intenção de transformar os lugares comuns do universo em espaços pacíficos e de troca, há a guerra. E é uma dessas guerras, liderada por humanos, que destrói o planeta Mül e quase todos os seus habitantes. Os Pearls, nativos de Mül, são criaturas humanóides que vivem em total harmonia com a natureza de seu planeta. Sua grande fonte de riqueza são pérolas coletadas no mar que contém uma imensa quantidade de energia e que são a chave para a povoação no planeta ser tão simbiótica e orgânica. Quando a atmosfera de Mül se torna palco de uma batalha, o planeta é destruído e alguns poucos Pearls conseguem escapar numa nave abandonada. Navegando pelo espaço, a nave chega em Alpha, onde os Pearls restantes conseguem sobreviver.

Mesmo conhecendo o culpado do ataque que destruiu seu planeta, os Pearls não desejam vingança, nem possuem qualquer motivação violenta. Eles apenas buscam o material necessário para finalizar a nave construída em Alpha, que seria uma espécie de reconstituição de Mül, para poderem viver novamente em total harmonia com seu ambiente. Ainda na coletiva de imprensa, Luc Besson afirmou que os habitantes de Mül são criaturas perfeitas, o ideal pelo qual todos os humanos deveriam se guiar, mas apesar de possuir essas qualidades em potencial – como é possível observar com a formação de Alpha –, os humanos ainda se deixam controlar pelo ódio, intolerância e preconceitos. De certa forma, a destruição de Mül é um paralelo da destruição e genocídio de milhares de povos colonizados nas Américas, na África e em outras colônias europeias.

Ainda tocando levemente em questões políticas, a participação da Rihanna no filme como Bubble, uma glampod (criaturas que possuem o poder de se transformar em qualquer outra criatura) refugiada que buscou exílio em Alpha, mas que para viver na cidade precisa se prostituir, pode ser também um paralelo com a maneira falha e precária com que muitos países lidam com a crise dos refugiados. Infelizmente, no filme, o arco de Bubble não possui nenhuma interferência para a história principal. Bubble, representada por uma mulher negra, só apareceu no filme para dar o impulso necessário para o desenvolvimento do protagonista masculino. O que era para ser apenas uma participação especial se tornou longo e significativo demais mas, por outro lado, não teve a profundidade necessária para ser essencial para a história.

Valerian e Laureline são agentes policiais que trabalham para o governo da Terra no espaço. Os dois são parceiros de trabalho e são chamados para participar da missão para recolher os últimos recursos que restaram de Mül. Sem saber a história do genocídio dos Pearls, nem da existência do planeta, os dois vão descobrindo aos poucos que os objetivos da missão são controversos. Ao entrarem em contato com o povo de Mül e verem que são criaturas pacíficas, os heróis descobrem a verdade apagada e quem são os reais vilões.

Apesar de seu nome dar título ao filme (e aos quadrinhos), Valerian está longe de ser o herói convencional e o único protagonista da história. Laureline é tão protagonista quanto Valerian. A relação dele com a parceira, mesmo com a tensão romântica entre os dois, é de extrema cooperação: somente quando os dois estão juntos que eles conseguem sair vitoriosos. Os dois estão dispostos a deixar o trabalho de lado para salvar um ao outro, e é por essa motivação de resgate que a história do filme se desenrola. Diferente de muitos filmes, sabemos desde a primeira cena com Valerian e Laureline que os dois se gostam romanticamente. E não é a ignorância dos sentimentos que um sente pelo outro que impede o relacionamento de acontecer, mas outras questões. É só após se perderem – para depois se encontrarem – que Valerian aprende a importante lição de empatia fazendo com que os dois consigam superar suas diferenças para se tornarem um casal.

Apesar de existirem conflitos entre as espécies, Valerian cria uma possibilidade otimista de futuro. É bacana imaginar um mundo onde espécies de vida tão diferentes possam viver pacificamente e trocar conhecimentos, um lugar onde a empatia – e não superpoderes – seja a qualidade que transforma pessoas comuns em heróis. Com heróis identificáveis, uma boa mensagem sobre humanidade e uma ideia de futuro positiva, o filme tinha muito potencial para ser um novo clássico da ficção científica e fantasia; contudo, apesar das boas intenções, a história não funciona como obra cinematográfica.

As aventuras de Valerian e Laureline se estendem por mais de duas horas que parecem se alongar ainda mais nos vários conflitos que não se conectam. Se não fossem pelos diálogos muitas vezes descritivos demais e que subestimam a inteligência do espectador, a história do filme não faria sentido. Um grande problema de adaptações cinematográficas de obras literárias é o equilíbrio entre a narrativa, o storytelling, e as imagens, a cinematografia. Por ter diálogos e recursos narrativos, mas também por ser visual, o filme deve fazer sentido tanto pela imagem quanto pelo texto dado. Valerian, infelizmente, não atinge esse equilíbrio.

A passagem das cenas é estancada e os diálogos, ao invés de serem usados como recurso para fluir melhor a história, tentam explicar o que as imagens não conseguem. O resultado é a sensação de que o filme não conseguiu conectar as várias tramas e ficou sem mensagem nenhuma no final. O crescimento de Valerian, por exemplo, só ficou claro nas últimas cenas quando ele discorda de Laureline sobre desobedecer a missão e conceder ao povo de Mül os recursos necessários para o funcionamento da nave. É nesse momento que Laureline explica para ele o que é amor e que Valerian precisa aprender a se colocar no lugar do outro senão os dois nunca poderão ficar juntos.

Talvez por falha de roteiro, ou por preocupação excessiva com a adaptação do quadrinho para o filme, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas parece incompleto; com efeitos impecáveis, um visual deslumbrante e boas intenções, mas sem o equilíbrio cinematográfico necessário, o filme parece mais texto ilustrado do que cinema.

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2 Comentários

  • Responda
    Caio Borrillo
    23 de agosto de 2017 at 22:49

    Acho que foi a crítica mais honesta e mais bem elaborada que li na internet ultimamente. Muito obrigado!

    Uma coisa que me incomoda demais no filme: os protagonistas parece que ainda estão no fundamental, não parecem?

    • Responda
      Júlia Medina
      23 de agosto de 2017 at 23:21

      yay! obrigada! hahaha! parece mesmo, mas o que mais me incomodou é que eles parecem irmãos?

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