CINEMA

Thor: Ragnarok – Uma pausa para o fim do mundo

Na mitologia nórdica, Ragnarok (ou Ragnarökkr, em sua origem mais antiga; “consumação dos destinos dos poderes supremos”, por definição) é o nome dado a uma sucessão de catástrofes naturais e guerras entre deuses e monstros que resultariam no que pesquisadores e acadêmicos entendem como a escatologia nórdica; o fim do mundo profetizado na religião de germânicos e escandinavos. Figuras míticas fundamentais para a fé nórdica – pensem em Odin, principal deus do clã de Asses; em Thor, seu filho, deus dos trovões e das batalhas; ou, ainda, em Loki, deus da trapaça e das travessuras – seriam mortas em campo de batalha, cujo fim concretizaria a profecia mencionada na poesia éddica¹ ao submergir o mundo em água, o sol ser encoberto pela escuridão e o universo ser parcialmente destruído.

Essa não é uma história nova, contudo. Profecias sobre o fim dos tempos, via de regra, habitam o imaginário de muitos povos e já foram exploradas à exaustão na ficção, em narrativas baseadas desde o Apocalipse cristão, até a teologia Maia, cujo fim do calendário alimentou teorias sobre o suposto término do mundo em meados de 2012. O ser-humano, ao que parece, é tão obcecado pela ideia do fim do mundo quanto é pela própria mortalidade – o fim certo e solitário que eventualmente nos aguarda. Catástrofes naturais, doenças incuráveis, demônios, meteoros gigantes e zumbis sedentos por carne humana são apenas formas mais elaboradas de concretizar medos que existem em cada um de nós e ameaçam aquilo que conhecemos e tomamos como definitivo. Não é por acaso que o terror, enquanto gênero, tenha transformado questões políticas, econômicas e sociais em monstros de carne e osso – às vezes, mais carne do que osso –; alegorias perfeitas para problemas, por sua vez, tão reais. Mesmo a aventura, o suspense e a ficção-científica se apropriam dessas narrativas que, de forma similar, recorrem ao mesmo artifício, utilizando a perspectiva definitiva do fim para expor nossas fragilidades, ou talvez nossa culpa, seja ela qual for, sempre tão presente na história da humanidade.

Não é preciso uma religião para levantar essas questões, tampouco lembrar-nos de sua existência, mas é comum que muitas dessas narrativas sejam originadas a partir de doutrinas religiosas, que por diferentes motivos – manutenção do poder, medo, renovação, a tentativa de explicar eventos até então inexplicáveis, etc etc – as utilizam como lembrete de que somos muito pequenos diante da natureza, dos deuses ou das forças do universo. O próprio Ragnarok possui raízes religiosas, sendo influenciado, sobretudo, pelas religiões pagãs da Alta Idade Média e, em alguma escala, também pelo processo de cristianização imposto aos povos nórdicos no mesmo período. Seu desenvolvimento, contudo, o distancia da sombra católica, costurando referências muito próprias na construção de sua mitologia; o fim do mundo profetizado por germânicos e escandinavos não marca o fim definitivo do mundo, tampouco da história da humanidade, mas o início de uma nova era e configuração cósmica. É a renovação que segura a profecia, que promete, entre outras coisas, o renascimento de deuses e terras férteis. 

Nada – ou quase nada – disso se faz presente em Thor: Ragnarok, que toma liberdades tanto em relação a fatos históricos, quanto àqueles que compõe o universo diegético do personagem nos quadrinhos. Taika Waititi, diretor do filme, utiliza suas referências de forma moderada, preferindo construir algo relativamente novo no lugar. Tanto o sumiço de Odin (Anthony Hopkins) quanto a ameaça de Hela (Cate Blanchett) são mantidas em suspenso, transformando a estrutura narrativa da história que, no caminho inverso, não se limita ao conflito-título, tampouco ao seu personagem central, mas permite que todos os personagem tenham, antes, espaço para fazer graça, e só depois para chorar a própria desgraça. Responsável por títulos como Loucos Por Nada, Boy e A Incrível Aventura de Rick Baker, que entrelaçam a comédia a gêneros como o romance e o drama, Waititi é conhecido principalmente por utilizar o humor em suas produções, característica que também evoca em Thor: Ragnarok, numa disruptura clara, mas não surpreendente, em relação aos antecessores da franquia. Assim, diferente de Thor e Thor: O Mundo Sombrio, onde o humor aparece de forma pontual, a estrutura de Thor: Ragnarok se assemelha a de outros filmes da Casa de Ideias, como Guardiões da Galáxia e Homem-Formiga, em que o humor é regra, não exceção; uma mudança tão perceptível que até mesmo a classificação (etária e de gênero) se alteram – sobem dois anos na faixa etária; saem a ficção científica e a aventura como gêneros.

Tanto James Gunn quanto Peyton Reed – diretores, respectivamente, de Guardiões da Galáxia e Homem-Formiga – entendem que há mais sobre seus personagens do que o fato de serem muito engraçados, e utilizam a comédia como meio, não fim; ela não limita, mas expande horizontes. Peter Quill (Chris Pratt) e Scott Lang (Paul Rudd) não são heróis convencionais. Pelo contrário: ambos são estranhos e moralmente ambíguos, e muitos de seus problemas não possuem raízes em questões mirabolantes como vilões de outras galáxias ou destruição em escala universal, mas se apoiam em conflitos mais palatáveis, como voltar a ter uma relação com a filha e reconquistar a confiança da família, ou descobrir quais são suas origens, qual é a sua verdadeira história. A estrutura narrativa desses filmes não ignora esses traços, mas os valoriza e desenvolve, criando um pano de fundo relativamente sólido, sem perder de vista o contexto no qual esses personagens estão inseridos. Waititi mira em algo parecido, mas não completamente: como numa brincadeira, o diretor nos conta uma história sem, no entanto, revelar a verdadeira natureza do que há por trás dela; de forma menos óbvia, Thor: Ragnarok encontra espaço para lidar com temas mais indigestos como a perda, mentiras contadas por adoráveis e benevolentes homens brancos de um olho só, ou o lembrete de que impérios e poder são erguidos, conquistados e mantidos às custas de muitas vidas, mas suas escolhas jamais são antecipadas. Não parece mera casualidade que o homem por trás das câmeras, nesse caso, seja um neo-zelandês de origens indígenas, cujos esforços estão, em grande parte, voltados para a inclusão de minorias em produções cinematográficas, que entende a importância econômica do cinema, preferindo apoiar trabalhadores e produtores locais ao invés de grandes corporações, e cuja trajetória pessoal se cruza com lutas de minorias e um histórico de apagamento e espaços negados – e, de fato, não é.

Como Michel Foucault, que revela em As Palavras e as Coisas não conseguir parar de rir por um bom tempo após ler certo conto, mas que em sequência ao riso surgiu a inquietação, Waititi nos convida a explorar esses sentimentos e sensações que são confusos, contraditórios e incômodos, quase como se finalmente tivéssemos a chance de reconhecer e confrontar questões mais amplas e sérias, os dois lados de uma mesma moeda, ainda que de forma despretensiosa, mascarada como entretenimento trivial. Na contramão dos personagens que utilizam o humor como mecanismo de defesa, Thor: Ragnarok o subverte e o transforma em uma arma que, pelo contrário, expõe aquilo que há de mais esquisito, feio e sujo na construção de seu universo diegético. Há algo de genuinamente engraçado no absurdo daquelas situações ou na esquisitice de seus personagens, mas para além do riso, seus conflitos revelam problemáticas que, em maior ou menor escala, se relacionam de forma mais ampla com a História  – menos de forma específica com a tradição nórdica e mais com aquilo que parecemos viver em escala global – que deposita seu discurso nas entrelinhas e, ao mesmo tempo, nega e se apropria do seu próprio valor enquanto entretenimento.

Atenção: o texto contém spoilers!

Não parece apropriado – e talvez não seja – rir-se da própria tragédia, tampouco da desgraça alheia; mas o que exatamente é apropriado? Desde o seu prólogo, quando retorna à Asgard e finalmente descobre o sumiço do pai, que desaparece misteriosamente e passa a ser substituído por Loki (Tom Hiddleston), seu irmão adotivo cuja moralidade navega de forma confusa entre bem e mal (mas, mais uma vez, o que é bem ou mal?), até a revelação de Hela, filha primogênita de Odin e encarnação de todos os males daquele mundo, Thor (Chris Hemsworth) não hesita em fazer graça, como se não houvesse nada mais a ser feito diante de tanta desgraça, ainda que, como o herói que naturalmente é e não deixa de ser, continue a acreditar existir uma saída. O sumiço do pai é o que o motiva, unindo-o novamente – e à contragosto – ao irmão, e ambos saem em uma busca pela cidade de Nova Iorque. Rápido demais, eles encontram as respostas que procuram, mas já não há mais nada a ser feito quando isso acontece. É o fim, Odin acredita, e abraça a morte, desfalecendo frente aos dois filhos; mas o momento é apenas o catalisador daquilo que ainda está por vir. Não há tempo para chorar a perda, muito menos para viver o luto, antes que ambos embarquem em uma nova aventura: primeiro, em um planeta desconhecido e distante chamado Sakaar; depois, na mesma Asgard que tentam, sem sucesso, salvar. Ambos são becos sem saída, numa estrutura que só encontra fim quando é realmente – e, às vezes, literalmente – trazida abaixo: tudo é destruído, nada é reaproveitado; não há absolutamente nada a ser salvo.

Assim como Asgard, Sakaar faz referência aos impérios da antiguidade – nesse caso, o Império Romano, ainda que seja uma releitura carregada de liberdades, que jamais recorre à didatismos, como praticamente tudo no filme, aliás. O que as diferencia, colocando-as em dois lados tão distantes e tão contrários são as bases nas quais estão estruturadas e os princípios que regem cada uma dessas civilizações. Se Sakaar é o império de festas, diversão e bagunça, mas também da pobreza, tão evidente nos poucos minutos vividos para além da fortaleza em que habita o Grão Mestre (Jeff Goldblum), Asgard é o reino dos sábios, ricos e justos, que se orgulham profundamente por serem exatamente aquilo que são. Mas será mesmo? O que a comparação entre os dois impérios evidencia não poderia estar mais distante dessa teoria, que vive à base de aparências e poderia, muito bem, obrigada, partir do pressuposto de que alguns impérios estão mais preocupados em esconder suas origens do que outros. Asgard hesita em apresentar seu passado e o esconde a sete chaves; Sakaar não. Embora a falta de escrúpulos de seu líder autocrata, em contrapartida ao benevolente Odin, ou a barbaridade de uma sociedade que ainda se diverte às custas de muitos; a banalização da vida em prol do espetáculo, sejam os pontos que mais saltam aos olhos num primeiro momento, à medida que Thor: Ragnarok revela a verdadeira história do império erguido por Odin, as linhas que os separam tornam-se cada vez mais difusas, indo para todos os lugares e exatamente para lugar nenhum, de modo a construir um fio condutor que, de forma direta ou indireta, nos leva de volta à Hela e seu plano de vingança.

O lugar não faz somente as vezes de contraponto à Asgard, no entanto. Além de ser uma referência a Planeta Hulk, história publicada pela Marvel Comics em meados de 2006 e no qual a trama de Thor: Ragnarok é parcialmente inspirada, é justamente em Sakaar que Thor – e também Loki – reencontram Hulk (Mark Ruffalo) pela primeira vez após seu último encontro, em Vingadores: Era de Ultron, e onde também conhecem Valquíria (Tessa Tompson), cujo arco pessoal se entrelaça intimamente à ameaça de Hela e ao passado de Asgard.

Mergulhando em suas memórias, descobrimos por que Valquíria, que até então opusera-se veementemente a participar da batalha contra Hela, fugira de Asgard no passado e como se deu a luta travada contra ela tantos anos antes, quantas vidas o conflito custou. Ser a última sobrevivente dentre a elite de guerreiras asgardianas, ao que tudo indica, não era motivo de alívio, mas um fardo maior do que a morte jamais poderia lhe cobrar. Diferente de muitos coadjuvantes, que servem tão somente ao arco dramático dos protagonistas que acompanham, Valquíria ganha espaço para crescer de tal forma que sua história torna-se exponencialmente maior e mais interessante do que a do personagem central ou, ainda, de seus colegas mais antigos. Ao contrário de personagens femininas, moldadas a partir da concepção errônea de que violência e habilidades de luta são suficientes para conceber uma Mulher Forte™, Valquíria não é confinada ao estereótipo do coadjuvante badass, embora também o seja, mas é construída como uma mulher multifacetada, que equilibra diferentes características dentro de si mesma, sem jamais se limitar a ser uma coisa só. É uma abordagem revolucionária porque olha a existência feminina sob uma lente que reconhece nossas individualidades como algo válido, mas, sobretudo, por reconhecer e validar a complexidade, vulnerabilidade e individualidade de uma mulher negra, cujo histórico de confinamento, invisibilidade, silenciamento e falta de representação é infinitamente maior, e suas marcas muito mais profundas.

Paralelamente, Hela torna-se cada vez mais forte e ameaçadora como poucos vilões do Universo Marvel no cinema o foram ou tiveram a chance de ser. Subvertendo o arquétipo da vilã caricata, cujas motivações jamais parecem realmente justificar seus atos, as razões de Hela são fortes o suficiente para que seus impulsos não pareçam reações indiscriminadas, mas às quais recorre de forma deliberada. Não há dúvidas de que ela é uma mulher má, por natureza ou força do destino, tampouco um mau exemplo, mas sua história revela mais nuances do que reserva o desejo aleatório de destruição ao qual recorrem tantos personagens, ou suas ações isoladas. Pelo contrário, o que Hela deseja não é destruir Asgard, mas desmascará-la e tomar para si o império que ajudou a construir, aquele que acredita ser seu por direito de herança. Ela expõe o lado mais feio, sujo e mesquinho de Odin – e, consequentemente, da história de Asgard – não porque acredita que massacrar outros povos em favor próprio seja errado, mas porque não lhe parece razoável que os dois sejam tratados de formas tão desiguais; mas eles são, porque o mundo dos deuses, ao que parece, não é tão diferente assim do nosso.

Não é a primeira vez que Thor nos questiona a respeito da aparente benevolência do povo asgardiano – tanto Thor quanto em Thor: O Mundo Sombrio possuem vilões que desejam se vingar do povo asgardiano e retomar o poder perdido no passado, em guerras travadas em nome da paz (ou, assim acreditávamos) –, mas é a primeira vez que a franquia o faz de um lugar em que esse passado sombrio, e até então questionável, fora finalmente revelado. Até então, por manipulação narrativa ou porque é muito mais fácil gostar de homens e mulheres bonitos do que ETs esquisitos e com mania de destruição, acreditamos na benevolência inerente do povo asgardiano, e vibramos com eles e torcemos por eles. Mas se esse tempo todo estivéssemos errados? E se Asgard, na realidade, nunca passou de uma monarquia opressora, cujo poder sempre esteve nas mãos de animais mais iguais do que outros, às custas de outros nem tão iguais assim? Hela é um lembrete vivo desse passado, da hipocrisia que mantinha o poder nas mãos de poucos, de um histórico opressor e vergonhoso. No filme, ela relembra que, ao lado do pai, afogou civilizações inteiras em sangue e lágrimas. “De onde você acha que todo esse ouro vem?”, ela pergunta, e de onde ele vem, afinal? Hela continua sendo uma vilã e sua lógica não é a mesma que a minha, e muito provavelmente também não a mesma que a sua (ou, pelo menos, prefiro acreditar que não), servindo tão somente ao seu objetivo final, e esse objetivo é, inquestionavelmente, mau. No entanto, seu argumento não é totalmente descartado, sendo posteriormente utilizado contra ela mesma: se Hela tira suas forças de Asgard, a única solução é destruí-la por inteiro, certo? Certo.

É uma posição extrema – e extremos são perigosos no mundo em que vivemos. Mas Thor: Ragnarok, na contramão, a utiliza como forma de lutar justamente contra a opressão, contra o imperialismo, em favor de um mundo mais justo e como ruptura definitiva com aquilo que de pior existe na história do mundo; e acreditem, existe muita coisa. Após a destruição de Asgard, Thor parte em mais uma aventura, dessa vez ao lado da população de Asgard, ou boa parte do que restou dela; as pessoas que verdadeiramente representam o lugar, que deixa de ser físico para viver em cada um deles, e ocupando o lugar que um dia pertencera ao seu pai. Como Odin, ele ainda é um homem branco de um olho só – o cinema da Marvel, afinal, não é tão transgressor assim –, mas a Asgard física, como todos conheciam (e conhecíamos), está morta e enterrada. O Ragnarok, afinal, fez seu estrago, mas a promessa de um novo mundo se mantém, talvez não necessariamente mais fértil, mas mais justo do que aquele de outrora. Amém.


¹ Edda é o nome de duas coletâneas – em verso e prosa – datadas do século XIII em que histórias contadas pelos antigos povos germânicos e escandinavos foram parcialmente registradas por eruditos que buscavam preservar relatos decorrentes da tradição de narração oral mantida por algum tempo por esses povos, mas atualmente perdida. Tanto sua versão em prosa quanto em verso auxiliaram os estudos de pesquisadores, acadêmicos e teóricos da mitologia e cultura nórdica, sendo ambas, até hoje, utilizadas como material de referência nesses estudos.

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