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Crítica: Punho de Ferro

Algumas histórias são tão frequentemente repetidas que se tornam grandes clichês da ficção. Mudam-se os cenários, os personagens, o contexto econômico, político e social em que cada uma delas está inserida, mas a essência continua exatamente a mesma. São, na maioria das vezes, variações da clássica jornada do herói, conceito que o antropólogo Joseph Campbell aborda em seu livro O Herói de Mil Faces, publicado pela primeira vez em 1949 e que desde então vem sendo interpretado, reinterpretado e replicado de forma exaustiva no cinema, na literatura e na televisão.

A trajetória de Danny Rand (Finn Jones), protagonista de Punho de Ferro, não foge a essa regra: dado como morto ainda na infância, supostamente vítima de um grave acidente de avião que também foi responsável pela morte de seus pais, Danny retorna misteriosamente ao seu lugar de origem após 15 anos determinado a descobrir o que aconteceu e fazer a diferença – não de um jeito ambicioso de quem se acha importante demais, mas como um homem que quer compartilhar com o mundo aquilo que aprendeu. Diferente de muitos super-heróis que são movidos pela vaidade, pelo desejo único de serem heróis, figuras míticas dos nossos tempos, Danny acredita verdadeiramente em um mundo diferente e assume uma postura genuinamente empática, num nível quase infantil de quem não conhece as malícias do mundo capitalista em que vive, impulsionado pelo lucro e pelo jogo de interesses.

Mas 15 anos são mais do que o suficiente para mudar uma vida inteira e Danny sabe disso; mas imagina ser o único. Sua vida não foi a única a sofrer drásticas mudanças nesse meio tempo, e, ao chegar em Nova York, o choque de realidade é inevitável: de repente, a cidade que antes abrigava sua família e que ainda vive em suas lembranças infantis se transforma em um ambiente hostil que há muito já não se parece mais com um lar. Seus amigos já não são mais os mesmos, sua família não existe mais e a grande corporação que leva seu sobrenome é a mesma que fecha as portas na sua cara. Ele não é acolhido em seu retorno, não é recebido com amor e carinho pelas pessoas que marcaram sua infância, mas sim com a desconfiança e o ceticismo que já nos são tão comuns. Assim, sua jornada é, ao mesmo tempo, uma história sobre vingança, mas também sobre alguém que busca provar sua identidade e encontrar lugar num mundo que seguiu em frente sem sua presença. É uma história que já ouvimos antes, uma história que já ouvimos um milhão de outras vezes, sobre a origem dos mesmos homens brancos de capa e máscara na cara, mas que curiosamente – ou nem tão curiosamente assim – continuamos dispostos a ouvir.

Como qualquer outro negócio, a indústria do entretenimento também precisa de dinheiro para acontecer e manter-se em pleno funcionamento: o lucro precisa ser garantido e o gasto recompensado. Os padrões narrativos, muitas vezes, surgem como uma tentativa de evitar fracassos de bilheteria ou audiência, que significariam enormes perdas de dinheiro. Os super-heróis se tornaram a jogada segura dos grandes estúdios e emissoras de televisão porque eles são, hoje, uma garantia certa de retorno. Gastam-se milhões para dar vida a esses heróis, mas ainda é um gasto que compensa, um retorno que se garante por si só. São histórias que remontam a jornada do herói a partir de diferentes abordagens, que muitas vezes se adaptam à realidade contemporânea, mas ainda são as mesmas trajetórias presentes em nosso imaginário, traçadas pelas figuras míticas do mundo contemporâneo e que, tal qual os heróis de antigamente, ainda nos causam admiração e fascínio.

Punho de Ferro parte desse oportunismo industrial, mas não se torna refém dele; a série ainda possui algo a dizer, embora seu objetivo principal seja entreter. Contudo, diferente de séries como Jessica Jones, que constrói uma assustadora metáfora sobre relacionamentos abusivos; e Luke Cage, que faz uma intensa crítica social e celebra a cultura negra norte-americanaPunho de Ferro fala sobre capitalismo, dinheiro, muito dinheiro, e em algum momento também sobre drogas e relações familiares desfuncionais – temas relevantes, é verdade, mas que já foram explorados por vezes demais. A sensação de que já vimos essa história antes é inevitável, mas ela não se torna um problema, pelo contrário. Já conhecemos muito bem o terreno onde estamos pisando e Scott Buck, criador da série, sabe disso, mas não permite que esse detalhe seja um empecilho em seu caminho. O cenário aparentemente comum dá lugar a personagens ambíguos, que nunca são uma coisa só, hipócritas mesmo que bem intencionados, uma construção tão realista quanto os temas que são abordados na tela, mas que estranhamente não são vistas com tanta frequência no gênero – e é incrível como a história cresce quando essas pessoas assumem seus espaços na narrativa.

Atenção: o texto contém spoilers! 

Enquanto protagonista, Danny Rand é uma agradável surpresa: longe do estereótipo heroico tradicional, Danny é um homem de inocência infantil, ingênuo e despreocupado, totalmente desprovido de malícia e absolutamente adorável. Mesmo assombrado por fantasmas do passado, ele se mantém positivo diante das circunstâncias, algo que, mais tarde ele explica, ser totalmente proposital: se ele não acreditar que pode vencer, então isso jamais irá acontecer. Criado em K’un Lun desde a morte dos pais, Danny cresceu em um ambiente alternativo, localizado numa outra dimensão e completamente afastado da civilização, e onde seu principal objetivo de vida era tornar-se um guerreiro capaz de defender K’un Lun do Tentáculo, o que, naturalmente, reflete em muito do seu comportamento. As imposições sociais que nos custam tão caro não são uma questão em sua vida porque ele nunca precisou lidar com elas, sequer sabe que elas são uma realidade – e isso, mais tarde, lhe custa caro também.

Curiosamente, são as mulheres quem fazem o contraponto à visão otimista de Danny, pessoas muito mais realistas, que aprenderam do jeito mais difícil como funciona o mundo cruel em que vivemos. Joy (Jessica Stroup) é a amiga de infância, alguém de quem Danny sente profunda falta, mas que precisou seguir em frente após a morte do melhor amigo e posteriormente do pai; uma menina que cresceu e, naturalmente, se transformou em mulher. E a mulher Joy Meachum é radicalmente diferente da menina Joy. Ela continua a ser essencialmente boa, mas já não é mais uma garotinha inocente. Ao lado do irmão, Ward (Tom Pelphrey) – que nos quadrinhos faz as vezes tio de Joy, irmão de seu pai – ela lidera a Rand Enterprises com segurança e determinação. Fora de empresa, ela ainda é a mulher doce e carinhosa de sempre, que se preocupa profundamente com os seus; mas ao mesmo tempo ela é uma mulher que se permite sentir raiva, frustração, e que toma decisões pensando apenas em si mesma e nos seus. É o caminho oposto de muitas personagens: à medida que passa a ser desenvolvida, Joy abandona a imagem de moça delicada à frente de uma grande empresa para tornar-se uma mulher complexa, nunca uma coisa só, o que, ironicamente, a afasta cada vez mais de Danny.

Em paralelo, Colleen Wing (Jessica Henwick) nos fornece o vislumbre de uma mulher chutadora de bundas que não se limita somente às qualidades físicas que possui. Sua força não reside na luta, pelo contrário. Dona de um dojo que mantém com dificuldades, Colleen é uma mulher que não teve uma vida fácil e que encontrou nas artes marciais uma saída de sua própria tragédia. Assim, é com esse mesmo aprendizado adquirido com o tempo que ela ajuda outros jovens que, do mesmo modo que ela no passado, precisam mais do que nunca de uma perspectiva para o futuro. São jovens de origem humilde, fadados a viver a vida do crime, da prostituição ou das drogas, mas que encontram uma nova possibilidade no dojo. Entre eles está Darryl (Marquis Rodriguez), jovem preso ainda em Luke Cage, que se torna um dos principais e mais dedicados alunos de Colleen, alguém que ela assiste de perto, que busca manter seguro e garantir um futuro digno. No entanto, é essa mesma Colleen protetora com seus alunos e que os repreende quando utilizam suas habilidades para ganhar dinheiro, que entra no ringue de uma luta clandestina e se apresenta como competidora, não porque precisa do dinheiro (ela precisa), mas porque a luta lhe dá uma profunda satisfação. Espancar homens lhe concede uma incrível sensação de poder e Colleen gosta desse sentimento, embora relute em admitir. 

Não é a primeira vez que ouvimos a história de pessoas que se satisfazem com algo tão primitivo, mas é talvez uma das primeiras vezes em que esse arco é desenvolvido com foco em uma mulher. Colleen foi criada para ser uma guerreira, como ela diz em determinado episódio, não para se tornar um galo de briga; mas isso não a impede de se sentir inteira quando está num ringue, quando está batendo em outros caras, descontando sua frustração com o mundo em que vive em pessoas que estão dispostas a apanhar por uns trocados. Sob o nome de “filha do dragão”, numa clara referência às Filhas do Dragão, dupla posteriormente formada por ela e Misty Knight nos quadrinhos; Colleen bate, bate, bate, às vezes em mais de um homem por vez, e sai do ringue plena e exausta, mas igualmente culpada. São sentimentos e ideais muito contraditórios, que ela reúne em si tornando-se uma personagem absurdamente humana, como todas nós, mas que não colocam seu caráter à prova. Ela se sente culpada por vários motivos – o código que deveria respeitar, o mau exemplo dado aos alunos, a hipocrisia de seus atos – mas não questiona seu caráter, assim como ninguém na série o faz. Colleen é uma mulher adulta e independente, que possui autonomia suficiente para fazer as próprias escolhas e não permitir que os outros a julguem por isso.

Mais tarde, é essa mesma Colleen feroz e implacável nos ringues que vive um adorável romance com Danny, construído com um cuidado ímpar, e que nos mostra uma nova faceta de sua personalidade: uma Colleen romântica, doce, que gosta de ter alguém ao seu lado. Contudo, o fato de se envolver com o protagonista não destrói sua autonomia dentro da série e não a transforma numa mera coadjuvante na história de outrem; embora a série não seja, de fato, sobre Colleen, ela ainda mantém as rédeas da própria narrativa, e traça uma jornada independente daquela vivida por Danny ou por qualquer outro personagem que cruze o seu caminho. Quando os dois passam a agir em conjunto, ela o faz não pelo afeto que nutre por Danny, mas porque possui seus próprios interesses, além de enxergar aí uma forma de expor seu lado mais primitivo sem se sentir tão atordoada por fazê-lo da forma vazia que acontece quando se envolve em uma luta clandestina. Colleen é a dona da sua história e age conforme razões pessoais; é alguém que toma as rédeas da situação sempre que necessário e resolve aquilo que lhe diz respeito por conta própria, algo que infelizmente, poucas mulheres na ficção ainda possuem liberdade para fazer.

Embora possuam trajetórias muito distintas, tanto Colleen quanto Joy são criadas com cuidado e profundo respeito, uma característica presente não apenas na construção de seus personagens, mas em cada detalhe da série. Se, por um lado, Punho de Ferro sofre com o argumento imediatamente saturado, por outro ela ainda compartilha do mesmo cuidado em sua concepção comuns nas parcerias entre Marvel e Netflix. Não é difícil entender o que faz dela uma boa série quando tudo ao seu redor grita a favor: são as cenas de luta belamente coreografadas, os planos que valorizam cada golpe, a fotografia clara, iluminada, que por si só já diz muito sobre a história que está sendo contada, a infinidade de easter eggs e referências que nunca parecem deslocadas, mas agem como partes intrínsecas daquele universo comum entre todas as séries. São detalhes importantes, fundamentais, que compõe a narrativa e a transforma em mais do que mero entretenimento.

Por outro lado, Punho de Ferro não é uma série perfeita.

K’un Lun, local em que Danny Rand vive após o acidente, é uma referência às montanhas Kunlun, uma das maiores cordilheiras da Ásia, situada na China, mas também um forte símbolo na mitologia oriental. Assim sendo, a história de Punho de Ferro, tanto na série quanto nos quadrinhos, é recheada de referências à cultura oriental, sendo o kung fu apenas uma dessas referências. Muito é dito sobre o costume dos monges, alguns diálogos são trocados em mandarim, muitos dos principais vilões são asiáticos, e existe um respeito honesto ao tratar de uma cultura tão diferente da nossa sem cair na caricatura que infelizmente ainda é bastante comum na ficção. Contudo, Punho de Ferro ainda é a série sobre um homem branco, que embora tenha um respeito imenso pela cultura no qual foi criado, jamais terá o mesmo peso que um protagonista asiático teria. Nos quadrinhos, Danny também é um homem branco, loiro e norte-americano, e a semelhança entre seu original e Finn Jones não é mera coincidência; mas ainda é uma excelente oportunidade perdida de introduzir um herói fora dos moldes que já conhecemos. Nunca antes se falou em representatividade e a importância disso em nossas vidas com tanta intensidade, mas talvez ainda seja necessário muito mais para de fato nos fazermos ouvir.

Punho de Ferro não é uma série de super-heróis comum: ela ainda é um entretenimento fácil, moldado de acordo com aquilo que hoje é garantia de sucesso, mas que consegue subverter muitos dos padrões com louvor, construindo uma história repleta de personagens incríveis e absolutamente adoráveis, do qual é impossível não se apaixonar e querer ser como eles, ou amiga deles. Muito foi dito sobre a ingenuidade de Danny Rand, sobre essa mania ridícula de acreditar em tudo e na bondade de todos, mas talvez o erro não esteja na visão de Danny do mundo – e essa talvez seja a grande mensagem de Punho de Ferro. Vivemos num mundo absolutamente cruel e à medida que crescemos, tendemos a nos tornar cada vez mais céticos em relação à vida e às pessoas, quando deveríamos estar fazendo justamente o contrário. Acreditar talvez seja a palavra chave que nos falta, como a ingenuidade que foi deixada para trás, mas que deveria continuar ali, pronta para vir à tona quando necessária, sem nunca deixar que nos tornemos adultos demais para não acreditar. Danny Rand pode não ser o herói perfeito, ele ainda possui muito o que aprender. Mas ele continua a acreditar, mesmo que eventualmente se decepcione, e talvez seja a nossa hora de aprender a acreditar um pouquinho mais com ele também.

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2 Comentários

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    Ana Beatriz
    30 de Março de 2017 at 23:25

    Socorro, amei essa crítica, super bem feita e detalhada. Eu parei no episódio três e não aguentava mais ler críticas ruins intermináveis sobre a série (fiquei me perguntando se só eu tinha gostado!) e com certeza vou voltar a assistir depois de ler o post. Eu gostei dos personagens e do protagonista também, achei um herói mais simpático que muitos outros (apesar de eu amar a Jessica Jones e o Luke Cage com todas as forças, aliás são os poucos que eu gosto, porque não vejo muito conteúdo de super heróis).
    Parabéns mais uma vez pelo trabalho, o Valkirias é muito amor!

    • Responda
      Ana Luiza
      1 de Abril de 2017 at 19:44

      Fico super feliz que você tenha gostado da crítica, Ana! Também li muitas coisas ruins sobre a série e embora concorde com algumas, senti que o saldo final foi bastante positivo. Depois que terminar, não esquece de contar pra gente o que você achou também.

      Muito obrigada pelo carinho! <3

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