CINEMA

Crítica: Power Rangers – Uma sessão de nostalgia

Há muito o cinema norte-americano tem voltado sua atenção para grandes sucessos do passado. Remakes e reboots dividem espaço com super-heróis e adaptações de obras literárias, numa tentativa de construir versões atualizadas dos clássicos de outrora, capazes de olhar de perto para o aqui e agora, sem abandonar a essência de um passado que ainda permeia nosso imaginário. São filmes que possuem a nostalgia como um dos pilares de sua estrutura, repletos de um fan service que não pede desculpas por existir, e que são capazes de nos transportar para épocas que acreditávamos estarem esquecidas nas profundezas das nossas memórias infantis. Power Rangers, filme do sul-africano Dean Israelite, surge dentro dessa mesma proposta; uma busca pelo resgate de lembranças que não são mera consequência, mas que ainda possuem uma ou duas coisas para nos dizer.

Atenção: o texto contém spoilers!

Power Rangers têm a força

Antes de se tornarem figuras escolhidas para combater o mal, Jason (Dacre Montgomery), Kimberly (Naomi Scott), Billy (RJ Cyler), Zack (Ludi Lin) e Trini (Becky G.) são adolescentes como outros quaisquer. Eles são deslocados, enfrentam problemas em casa e na escola, não sabem muito bem o que desejam para suas vidas e lidam com a constante quebra de expectativas – às vezes, motivada por eles próprios. Jason, futuro Ranger Vermelho, é quem inicialmente nos conta essa história; um rapaz tido como uma grande promessa do futebol americano, até o dia que não é mais. Aos poucos, no entanto, todos ganham espaço para falar sobre si mesmos e assumir o protagonismo que lhes é de direito, fornecendo diferentes perspectivas sobre o que é ser adolescente no século XXI.

Mas, afinal, o que é ser adolescente no século XXI? Estamos na era dos smartphones, das redes sociais e dos likes, termos que parecem suficientemente abrangentes para definir toda uma geração como pessoas obcecadas pela própria imagem, egoístas e mesquinhas, que não se interessam por nada além de si mesmos. É uma visão reducionista, que mascara a verdeira complexidade que existe nesses jovens, e que os limitam à problemas como uma espinha na testa, um amor não correspondido ou uma nota baixa numa matéria qualquer; problemas que existem, é verdade, mas que raramente estão sozinhos. Power Rangers não busca se tornar uma referência nesse sentido – ou em quaisquer outros, aliás –, mas faz aquilo que deveria ser a regra, quando ainda é a exceção: enxerga seus personagens adolescentes como seres humanos, e os trata com o carinho, sem julgá-los por serem quem são.

Jason, Kimberly e Billy se conhecem na escola, em um sábado de aulas voltado para alunos em detenção. É nesse cenário hostil que nasce a improvável amizade entre Billy e Jason; dois rapazes completamente diferentes, mas que passam a enxergar no outro o amigo que lhes fora negado até então. Kimberly, por outro lado, é uma jovem destemida, que não está interessada em fazer novos amigos até que se prove o contrário. Tanto ela quanto Jason e Billy conhecem Trini e Zack “por acaso”, numa sucessão de encontros e desencontros, impulsionadas pelos conflitos individuais de cada um.

Embora venham de realidades distintas, todos eles possuem muitos problemas. Muitos. São problemas de relacionamento, com os pais ou amigos; doença, morte, sexualidade e solidão; assuntos complexos com os quais, naturalmente, eles nem sempre lidam da melhor forma possível. Entretanto, essas questões não são ignoradas ou diminuídas ao longo da narrativa, mesmo quando eventualmente resultam em erros grotescos, uma consequência da própria existência humana. O fato de serem heróis não os transformam em personagens unidimensionais; ainda são os mesmos jovens essencialmente bons de sempre, mas existe uma diferença gritante entre ser isso e apenas isso – algo que eles certamente não são. Assim, quando mantêm uma distância segura de casa porque não encontram um lugar em suas famílias aparentemente perfeitas, quando assumem que não se sentem tão abalados assim pela morte de um ente querido, quando confidenciam que foram os responsáveis pela humilhação pública de uma amiga ou quando sentem raiva da mãe doente, esses jovens estão sendo extremamente humanos e é louvável que o filme permita que eles exponham essa vulnerabilidade latente que, fosse em qualquer outra circunstância, permaneceria trancada a sete chaves.

Zordon, o sábio, confia em vocês (mas nem tanto assim)

Contudo, a história de Power Rangers tem início milhões de anos antes, quando seres humanos sequer habitavam nosso planeta. É ali que descobrimos que Zordon (Bryan Cranston) nem sempre fora a clássica figura arquetípica do mentor paternal e sábio apresentado por Mighty Morphin Power Rangers, confinado para sempre em uma imagem projetada holograficamente com o único objetivo de guiar jovens rangers em sua batalha contra o mal; mas o próprio líder dos Power Rangers à sua época, alguém que viu toda a sua equipe ser dizimada e morreu na tentativa de proteger o Cristal Zeo das garras de Rita Repulsa (Elizabeth Banks) – uma versão muito diferente da que habita nosso imaginário infantil, mas nem tão diferente assim. Não por acaso, a postura que Zordon assume posteriormente não é a de alguém genuinamente interessado em sua nova posição; ele quer ser o herói, não treinar novos heróis, o que dificulta (e muito!) o processo de aprendizagem ao qual os novos rangers precisam se submeter.

A relação entre mentor e aprendizes deixa de ser uma troca natural de experiências para se tornar uma via de dupla hostilidade: enquanto Zordon os diminui, questiona suas capacidades e desacredita que essa geração seja capaz de fazer aquilo que a sua não fez (atitudes que, ironicamente, também são concedidas aos jovens de hoje por gerações mais velhas); Jason, Trini, Kimberly, Billy e Zack respondem com raiva, muita raiva, mas também com uma dose de frustração – que, de um jeito ou de outro, é também uma forma de se traduzir a raiva. Eles tentam provar que são capazes, buscam melhorar a cada nova lição, mas ainda são os mesmos jovens que, no fundo, têm dificuldades em acreditar em si mesmos. Zordon, por outro lado, é o antigo líder despedaçado, que compartilha de uma frustração diferente, mas ainda latente, e que enxerga nesse novo grupo a lembrança cruel de sua incapacidade de mudar o passado. Ele está completamente sozinho, fadado a viver a eternidade como algo que não está exatamente vivo, mas não está exatamente morto também, e que é incapaz de manter os esqueletos dentro do armário.

Não deixa de ser uma construção clichê, mas ainda é um clichê que funciona, capaz de adicionar nuances a um personagem que, até então, sempre tivera uma presença muito limitada e vazia – uma resposta aos tempos em que a história pregressa de personagens secundários deixou de ser uma necessidade exclusiva de roteiristas, para ganhar a mente e curiosidade do público.

Rita Repulsa, a feiticeira intergalática

Essa especulação sobre o passado de personagens que, a princípio, não interessariam ninguém, é a mesma justificativa que possibilita que o passado de Rita Repulsa venha à tona. Não é uma tentativa de humanizá-la; Rita continua a ser a personagem caricata de sempre, determinada a fazer o mal just because – conquistar o universo é seu objetivo, um plano megalomaníaco que ela abraça com determinação e que busca colocar em prática literalmente comendo ouro, que é de onde tira suas forças. É uma figura absurdamente incômoda, que não melhora com a necessidade quase ridícula que o filme tem de envolvê-la em pequenos jump scares, mas que ganha alguma profundidade à medida que seu passado vem à tona, embora ainda esteja longe de ser suficiente.

Fica claro que tanto Rita quando Zordon são diferentes faces de uma mesma moeda; a loucura e a frustração intrínsecas a um mundo que se tornou cético demais para se importar. Mas o que faz uma ranger mudar tão radicalmente de lado? Que o poder corrompe é uma verdade tão antiga quanto o mundo, contudo, parece muito fácil tentar justificar as atitudes de uma mulher que se vira contra o mundo inteiro, mas principalmente contra os seus, na tentativa de satisfazer suas próprias ambições. Existe mais nessa história do que está sendo contado, mais do que a versão amarga de um único lado é capaz de enxergar.

O mundo precisa de vocês

O que novamente nos leva aos jovens Power Rangers.

Eles não são perfeitos, muito menos almejam algum tipo de perfeição, mas que ainda são o contraponto essencial a um passado trágico; a possibilidade de triunfo de um futuro que acena com gentileza e promete que vai ficar tudo bem, e você acredita, quase sem querer, que aquilo pode ser verdade, você quer que seja. Power Rangers dedica um tempo precioso à construção de pessoas e não heróis, um detalhe que faz toda a diferença do mundo. Longe de serem as figuras míticas dos nossos tempos, esses jovens destroem uma barreira essencial que os separam de pessoas como eu e você, todos que são ou foram adolescentes, e é incrível como esse sentimento de profunda identificação muda absolutamente tudo. Você se importa com eles, não porque são a única esperança de um mundo inteiro, mas porque são seres humanos, que podiam ser nossos amigos, um colega, um irmão mais novo ou o reflexo que nos encara no espelho; pessoas que todos os dias se levantam determinadas a lutar contra vilões que se alimentam de ouro e nos dizem que não devemos acreditar.

Mas nós devemos e sabemos disso. São tempos difíceis para os sonhadores e um filme sobre heróis coloridos, absolutamente adoráveis e bem-humorados nunca pareceu tão necessário. Power Rangers é a celebração de uma franquia e de uma época, de uma geração inteira de crianças que cresceram e se tornaram jovens adultos, mas que não pensariam duas vezes em formar um poderoso Megazord, e que continuam dispostos a ouvir essa história tanto quanto antes, um lembrete de que nunca seremos velhos demais. Mais que isso, o filme nos dá a certeza de que, embora o mundo mude radicalmente e numa velocidade por vezes difícil de acompanhar, os sentimentos continuam sendo os únicos fatos. Power Rangers não é um filme perfeito, mas ele também não tem a menor pretensão de ser. É um filme que não tem vergonha de ser piegas, que brinca de ser brega e adora cada momento disso, e permite que seu coração bata com força, enquanto o nosso bate junto, num ritmo que de repente transforma todos em um só. Power Rangers têm a força e são heróis – e mais uma vez, nós temos a oportunidade de sermos um pouquinho junto com eles também. Go, go, Power Rangers!

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2 Comentários

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    Gabi
    5 de Abril de 2017 at 16:20

    Amei sua crítica! Tava cansada de ver criticas de pessoas que não viram a série e não entendem sua essência!!

    Parabéns pelo olhar sobre o filme!

    <3

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