CINEMA

Crítica: Moonlight – Sob a Luz do Luar

Nos diários do escritor Franz Kafka existe uma entrada, que data de 2 de agosto de 1914, em que ele escreve o seguinte: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. Natação à tarde.” Era o início da Primeira Guerra Mundial, um evento que mudou pra sempre a história da civilização ocidental, incluindo Praga, cidade de Kafka, que depois da dissolução do Império Austríaco passou a integrar a recém-criada Checoslováquia ao final do conflito. Foi sem dúvida um evento grande, notório, mas no cotidiano de mortais e escritores a vida segue seu curso após declarações de guerra — é tudo ao mesmo tempo. A tragédia coexiste com as aulas de natação à tarde, com as pequenas descobertas, com as histórias de amor mais silenciosas. Moonlight: Sob a Luz do Luar é como o diário de Kafka: o anúncio de guerra divide espaço com a natação vespertina numa mesma página de diário, e por isso é tão poderoso.

Independente, o filme foi dirigido e escrito pelo relativamente novato Barry Jenkins, que possui alguns curta-metragens e o desconhecido Medicine For Melancholy em sua lista de trabalhos. Em Moonlight conhecemos Chiron (Alex Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes), um menino negro e solitário que vive em uma comunidade pobre de Miami. O longa é dividido em três grandes atos, Little [Pequeno], Chiron e Black [Negro], três identidades que lhes são atribuídas ao longo do filme, e é através delas, e da forma tímida, delicada e assustada com que o personagem as atravessa, que conhecemos sua história da infância até a vida adulta.

Atenção: o texto a seguir contém spoilers!

O roteiro é uma adaptação da peça autobiográfica escrita pelo americano Tarell Alvin McCraney, In Moonlight Black Boys Look Blue, que, assim como Chiron, tem em seu passado uma mãe viciada em crack — um pano de fundo compartilhado também por Barry Jenkins — e uma infância e adolescência marcadas pelo bullying e violência sofridos na mão de seus colegas por ele ser quieto, por não gostar de esportes, por ser, em resumo, diferente dos outros garotos. “Faggot” [bicha] é como eles o chamavam, algo que Chiron, então com 9 anos, nem sabia o que era. No filme, quem lhe dá essa resposta é Juan (Mahershala Ali), que um dia lhe resgata de um dos ataques e, junto com sua namorada Teresa (Janelle Monáe), acolhe o garoto em sua casa. Chiron entrega pouco do que se passa em sua mente ou em sua vida, e Juan aos poucos descobre que Paula (Naomie Harris), a mãe do garoto, é dependente química e negligencia as necessidades do filho, talvez por mal conseguir cuidar de si. Diante desse quadro, Juan procura estabelecer um relacionamento com o garoto – talvez por enxergar um pouco de si em Chiron – o levando a passeios, dando-lhe apoio e sendo uma espécie de figura paterna que lhe falta. É Juan quem ensina Chiron a nadar (“natação à tarde”, apesar de tudo), quem conversa com ele sobre sua negritude, e é ele que lhe responde o que faggot significa:

JUAN: É um termo usado para fazer com que gays se sintam mal.
CHIRON: Eu sou bicha?
JUAN: Não… Você não é bicha. Você pode ser gay, mas… não deixe ninguém chamar você de bicha.
CHIRON: Como eu vou saber?
JUAN: Você… simplesmente sabe. Eu acho.

Chiron cresce continua a sofrer com bullying, agora de forma mais agressiva. Ele está ainda mais introspectivo, atormentado pelas dúvidas que não são muito diferentes das questões vivenciadas por qualquer outro adolescente. Sem a figura de Juan – que morreu de alguma maneira da qual não ficamos sabendo –, ele se vê também mais sozinho, exceto pela figura de Kevin (Jaden Piner), seu amigo de infância. Kevin é uma companhia inesperada, uma pessoa relaxada e suave, um contraste com a rigidez desconfortável de Chiron. Quando eles dividem juntos um baseado naquela mesma praia que Chiron aprendeu a nadar ao lado de Juan, a camaradagem zombeteira de dois moleques rapidamente evolui para um momento em que, em poucas frases incompletas, Chiron consegue revelar ao amigo um pouco da dor que o consome e o atormenta, e esse suspiro de vulnerabilidade abre espaço para que os garotos se beijem e tenham uma intimidade sexual — a primeira de Chiron — que acende uma luz num outro aspecto de sua identidade que, até então, ele apenas tateava com uma curiosidade confusa e assustada.

É esse mesmo Kevin, no entanto, que dias depois é desafiado pelo grupo de bullies do colégio a bater em Chiron. Kevin soca Chiron no rosto com força o suficiente para jogá-lo no chão, e o garoto se levanta, de novo e de novo, e Kevin bate, de novo e de novo. Eles não dizem nada um ao outro, apenas se olham, o mesmo olhar silencioso que trocam quando Chiron é levado pela polícia alguns dias depois, quando ele dá o troco e quebra uma cadeira no garoto que havia mandado Kevin lhe bater, no meio da aula e na frente de todos.

Os dois só vão se reencontrar vários anos depois, no terceiro ato do filme, quando Kevin telefona para Chiron querendo se desculpar pelo que fizera no passado. Também com uma passagem pela prisão, Kevin abandonou a vida de crime e agora trabalha como cozinheiro em um restaurante, algo que parece fazer com considerável talento e paixão. Chiron, por sua vez, saiu da cadeia e resolveu começar de novo em Atlanta, e agora é um traficante de drogas bem sucedido e que se transformou em um homem forte e intimidador, tão parecido com o que Juan era. O encontro deles é carregado, íntimo, com mais olhares do que frases inteiras, mais exploração do que respostas, com os personagens oscilando entre os papéis que interpretam socialmente, que os distancia um do outro, e a vulnerabilidade compartilhada que os aproxima.

Moonlight é um filme delicado que não se utiliza de saídas fáceis ou estereótipos caricatos. Seu enredo toma lugar na periferia, mas não se trata, em momento algum, sobre um filme exclusivamente sobre o gueto. Seus personagens são humanos desde o início e não há no longa uma grande reviravolta que os coloca a repensar a vida ou modificar suas atitudes. A construção de caráter, trejeitos e guerras particulares dos personagens é minuciosa e complexa, como na vida real, porque os personagens não se limitam a ser, fazer ou pensar em uma coisa só. É tudo ao mesmo tempo — e isso se torna ainda mais significativo em um filme onde todos os personagens são negros de comunidades pobres. Nós conhecemos a guerra e já vimos filmes sobre tráfico de drogas, violência, dependência química, abuso, mas há mais a ser dito sobre esse mundo e essas pessoas.

Juan, de longe a figura mais afável do filme, é a sensível figura paterna na vida de Chiron, um homem inegavelmente bom e aparentemente incapaz de fazer mal a alguém, mas ele é também traficante de drogas, o homem que vende crack à mãe de seu protegido, ao mesmo tempo responsável e salvador da ruína familiar de Chiron. Essa complexidade vem muito graças à atuação pungente de Mahershala Ali, que em poucos minutos de tela consegue dar forma a esse personagem tão significativo, mas também à delicadeza do roteiro de Jenkins, que nunca confina aquelas pessoas a uma coisa só.  Paula, mãe de Chiron, é mesmo dependente química, viciada em crack, mãe negligente que força o filho para fora de casa quando lhe convém, rouba o seu dinheiro para comprar drogas, mas é vítima dos próprios demônios, mãe e mulher e imperfeita, mas ainda assim uma mãe. No terceiro ato do filme nos reencontramos com ela, que agora reside e trabalha numa clínica de reabilitação. Livre do vício, ela tenta recuperar com o filho o laço perdido, buscando um perdão que não há como dizer que seria indigno pedir — ao mesmo tempo que não podemos julgar indigna a resistência em Chiron em lhe perdoar. Assim como na vida, Moonlight não oferece respostas fáceis.

Não sabemos quem Chiron é, nem ele mesmo sabe. Ele não é uma criança abandonada e violentada que cresce e se torna aquilo que seus pais foram, perpetuando um ciclo de violência, levado pelas circunstâncias. Ele não é personagem central de um filme sobre um garoto gay descobrindo sua orientação sexual — não temos como saber se ele é mesmo gay, talvez nem ele saiba. Não temos heróis, não temos vilões, não temos resposta: Moonlight: Sob a Luz do Luar é sobre a jornada, uma jornada de descobertas, e sobre a exploração de possibilidades em cima de figuras que, na ficção e no nosso imaginário popular povoado por histórias brancas, presas em narrativas limitantes que se dizem universais, ainda possuem poucas dimensões.

Contudo, já assistimos filmes sobre pessoas buscando o seu espaço no mundo. Em 2014, por exemplo, Richard Linklater lançou Boyhood, um projeto megalomaníaco e um tanto pedante que poderia ter dado muito errado se não tivesse dado tão certo. O filme foi gravado ao longo de 12 anos e acompanha em suas 2h45 a história de Mason (Ellar Coltrane), que cresce diante das câmeras numa história escrita de forma colaborativa pelo elenco, que muda ao longo do tempo, como a própria vida. Mason é um garoto branco normal que tem suas questões com a vida e o crescer; questões com o achar a própria voz e o próprio lugar e essa é a grande história. Em meio a tantos filmes de guerra, de espaço, de super-heróis e mais uma quantidade de reboots e remakes, a banalidade do filme foi bem-vinda, celebrada. Não há reviravoltas, não há efeitos especiais, apenas a vida de um garoto normal — como se existisse algo estritamente ordinário em viver, crescer e existir nesse mundo.

Bem produzido, com um roteiro original agradável e atuações memoráveis, Boyhood possui seus méritos, mas, no fim do dia, continua a ser uma história sobre garotos brancos crescendo. Conhecemos muitas histórias sobre garotos brancos crescendo. Às vezes eles são pobres, vez ou outra eles são gays, dificilmente eles são gordos. Garotos brancos crescendo sempre deram história, todos eles já têm seu lugar ao sol.

Pouco se fala sobre os garotos que têm seu lugar sob a luz lua. Não estamos habituados ao brilho que eles têm. Não sabemos muito sobre com o que o crescer de um garoto negro pobre e gay se parece. Em entrevista ao Guardian, Tarell Alvin McCraney conta que escreveu o roteiro original da peça motivado pelo pânico de ter sua história e suas experiências apagadas depois da morte de sua mãe. Nessa altura ele já tinha saído das quebradas de Miami, onde crescera, e era estudante de pós-graduação do curso de Teatro de Yale, onde hoje leciona.

O pânico veio de saber que existia toda uma parte de mim que não estava acessível no trabalho que eu vinha fazendo até então. Em Yale eu estava cercado de pessoas brancas na maior parte do tempo, pessoas que em sua maioria tiveram suporte de suas famílias, pessoas que não cresceram com viciados em drogas. Todas essas coisas que ainda me mantinham acordado à noite, esse sentimento de que eu ainda era o mesmo garoto da oitava série, estava em outro lugar, e uma boa parte dele tinha acabado de morrer.

Moonlight é como uma página de diário em que coexiste a notícia de uma declaração de guerra com as minúcias sobre aulas de natação à tarde. Existe uma história sendo contada sobre lares quebrados, crianças abandonadas, violência, solidão, ao mesmo tempo em que há descoberta, curiosidade, dúvida, ternura, tudo isso na esfera íntima da conexão de um homem com o outro. A câmera de Jenkins nos coloca como observadores privilegiados de uma intimidade que beira o desconfortável, em contato direto com a vulnerabilidade, com a humanidade de personagens que não estamos acostumados a ver tão de perto, em nossa cultura que ainda falha em oferecer narrativas sobre personagens negros que não sejam histórias de violência, crime e pobreza. Ela nos dá acesso a representações de masculinidade que abrem espaço para a vulnerabilidade e a ternura demonstradas com sutileza e eficiência por Chiron na vida adulta (Trevente Rhodes), com seus músculos, a placa dourada nos dentes, as correntes de ouro no pescoço, e a timidez e fragilidade que deixa transparecer ao lembrar da primeira — e única — vez que beijou um garoto e como aquilo foi um estrondo na sua vida.

Nossa tendência enquanto comentadoras de cultura também limitadas por um repertório cultural racista e excludente é cair com facilidade no erro de dizer que a delicadeza das descobertas, as silenciosas histórias de amor, a banalidade encantadora de Moonlight existe apesar da violência, do abandono, mas isso é negar a complexidade dessas vidas, é confiná-las àquela mesma narrativa única, e o filme é bem melhor e maior que isso. Sob a luz do luar, garotos negros contêm multidões e esse reconhecimento eleva o jogo do Oscar a um nível muito mais alto e necessário.

Moonlight: Sob a Luz do Luar recebeu 8 indicações ao Oscar, na categoria de: Melhor Filme, Melhor Diretor (Berry Jenkins), Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali), Melhor Atriz Coadjuvante (Naomie Harris), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia (James Laxton), Melhor Edição (Nate Sanders e Joi McMillan) e Melhor Trilha Sonora (Nicholas Britell). 

Crítica escrita em parceria por Ana Vieira e Anna Vitória.

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2 Comentários

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    Andrei Aibel
    16 de fevereiro de 2017 at 08:45

    Eu não sei o que pensar desse filme.
    Eu gostei muito dos dois primeiros capítulos, mas o terceiro pareceu “solto”. Acho que entre os que eu vi que estão concorrendo ao Oscar de melhor filme, é o que menos curti. Eu não sou a melhor pessoa pra apreciar todos esses detalhes que vocês descreveram, então vou me abster de fazer muitos comentários.
    Mas lendo a crítica do Valks (que pra variar, está muito boa), algumas coisas ficaram mais claras. Quem sabe assistindo o filme novamente a experiência seja melhor. 🙂

    • Responda
      Ana Vieira
      21 de fevereiro de 2017 at 08:43

      O terceiro ato, pra mim, é o mais fraco também. Mas é muito delicado, né, love? Acho que a questão toda do terceiro ato é sentir-se reconhecido. E foi o que aconteceu. Quem sabe outro dia assistimos de novo, hehe.

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