CINEMA

Crítica: Mãe! e o mundo criado por homens

Ciclos que se repetem. Essa sempre foi a minha visão do inferno. Ou do meu pior pesadelo. Ou os dois. É mais ou menos aquilo que Dante Alighieri escreveu em a Divina Comédia quando criou os vários círculos do inferno que, ao todo, são nove. Cada círculo é mais profundo e terrível que o outro, para pecados cada vez piores. Sempre que penso em inferno também lembro do mito de Prometeu, aquele que conseguiu roubar o fogo dos deuses para o benefício dos humanos, mas por isso teve que pagar muito caro. Castigado por toda a eternidade, preso a uma rocha, todos os dias uma ave comia seu fígado apenas para o mesmo ser regenerado durante a noite para, ao retorno da ave na manhã seguida, o fígado ser novamente comido. Era um ciclo sem fim. 

Aviso: este texto contém spoilers!

O que é circular e se repete sempre, como o inferno de Dante e o castigo de Prometeu, não precisa de nenhuma noção de tempo. Passado, presente e futuro não importam mais, pois tudo o que existe é a repetição. É mais ou menos assim que funciona a história do filme Mãe!, de Darren Aronofsky. A história do filme já começa em in media res (latim para “no meio das coisas”) e termina onde começou. É um círculo. Sem começo nem fim, apenas o meio. Histórias circulares também não necessitam de personagens individualizados. Nenhum dos personagens do filme Mãe! possuem nomes. O casal principal, interpretado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem não são nomeados. Ela é a mulher e ele é o homem. Esposa e marido. Dona de casa e poeta.

Destinados a cumprir seus papéis como se não houvesse livre-arbítrio nem individualidade, Mãe! se aproxima do mito. Atemporal, repetitivo e personagens sem profundidade de caráter que fazem o que deve ser feito e sofrem o que deve ser sofrido para o mito existir e acontecer. Prometeu deveria roubar o fogo dos deuses para os humanos, assim como ele nunca teria conseguido escapar de seu castigo. A esposa nunca sai da casa e o marido nunca consegue protegê-la.  

Vivendo no meio do nada, o personagem de Javier Bardem, o marido, que antes perdeu tudo no incêndio da mesma casa que vive agora, é um poeta famoso, mas que não escreve mais. Sua esposa muito mais jovem que ele, a personagem de Jennifer Lawrence, é quem cuida da casa. Foi ela, sozinha, quem reformou e renovou a casa, quem trouxe a vida depois do incêndio que a tudo destruiu. A única coisa que resta da antiga vida do marido é uma pedra que ele achou depois de ver a casa queimar, como um presente de sua antiga vida para a nova.

A esposa de Mãe! não possui nome, identidade, nem o poder de escolher o que acontece com ela – com exceção de um momento no final do filme, mas é uma escolha que já deveria acontecer, afinal, o filme funciona como um ciclo. À mulher resta apenas a casa. A câmera de Aronofsky não sai de perto da personagem de Lawrence. Tudo o que é visto na tela é o que a esposa vê e tudo o que o espectador sabe é o que a esposa sabe – e ela sabe de quase nada. À mulher resta apenas reagir.

No diálogo confuso entre marido e esposa no final do filme, mas que é provavelmente o único momento em que eles realmente falam um com o outro, o marido diz à esposa que ela era a “casa”. E ela realmente possui uma relação simbiótica com a casa. Suas dores são sentidas nas paredes, como se a mulher e a casa compartilhassem dos mesmo órgãos. É estranho e perturbador, assim como o restante de Mãe!.

Presos ao conhecimento limitado da esposa, vemos uma sucessão de pessoas estranhas tomarem conta da casa. Primeiro um médico aposentado (Ed Harris) chega, procurando abrigo para escrever, achando que aquela casa era um hotel. O marido o convida a se hospedar com eles sem consultar a esposa e alguns dias depois ela descobre que o médico, na verdade, é um fã do trabalho do marido e chegou de propósito à casa deles para conhecer seu ídolo. Depois do médico, chega a sua esposa, interpretada por Michelle Pfeiffer, que contrasta com a imagem de mulher submissa e perfeita de Lawrence. O casal são apenas os primeiros a chegarem na residência da dona de casa e do poeta. A quantidade de pessoas que se apresentam na residência aumenta de forma exponencial, assim como o nonsense da lógica de sonho (ou melhor, de pesadelo) na qual Mãe! é construído.

Dentro da casa, os intrusos perdem o controle e ninguém parece ligar para o fato de que a residência é propriedade privada. Todos parecem respeitar a autoridade do poeta, que tem seu ego inflado pela infinidade de admiradores de seu trabalho, mas ninguém parece escutar o que sua esposa tem a dizer. Ela não é muda, mas as palavras que saem de sua boca são descartadas e tratadas levianamente, como se sua tentativa de impedir a destruição da casa fosse uma piada.

A agonia maior do filme é a de não entender. A câmera acompanha a esposa em todos os seus passos de maneira nauseante de tantos movimentos (quem tem labirintite, não veja esse filme no cinema!), mas tudo o que vemos é a perspectiva limitada da mulher. Enquanto o marido sai de casa, conversa com pessoas, é adorado por admiradores de seu trabalho, resta a mulher apenas tentar proteger sua casa e vida privada, que com a sucessão de convidados estranhos que chegam, é completamente destruída.

A pedra encontrada após o incêndio é o item mais precioso que o marido possui. Talvez tão importante quanto a sua esposa. É a pedra que dá início ao ciclo, tanto no início do filme quanto no final. A pedra também é um símbolo do amor e sacrifício da mulher pelo homem. A falta de nomes e identidades dos personagens principais aproxima o filme do mito, mas não qualquer mito: o mito da criação. O casal principal são uma espécie de Adão e Eva invertidos, pois não é da costela do marido que a esposa nasce, mas é pelo o amor da mulher que o marido pode ter sua casa, seu trabalho e a multidão de adoradores fanáticos pelos seus escritos.

Adão e Eva, antes de cometerem o primeiro pecado, habitavam o paraíso, o Jardim do Éden. No filme, o homem e a mulher não habitam nenhum paraíso, habitam a casa, que se revela infernal quando se torna ponto de chegada de multidões descontroladas. Não é a mulher que convence o homem a comer a maçã, mas é o homem que coloca a mulher ao seu dispor. Sem ela, ele não teria casa nem inspiração para compor seus poemas, mas ao mesmo tempo que o homem precisa da mulher, ele a destrói e depois a constrói de novo, é um ciclo. O marido é uma espécie de deus e a sua casa é uma espécie de inferno.

Seria possível discutir o lugar da mulher e do homem além dos papéis dos gêneros no filme, mas ao contrário de outros mitos, em Mãe! não há moralidade e nem uma lição a ensinar. A mulher é quase inteiramente criação do homem, assim como todo o resto. O deus infernal, o marido, é quem inicia o ciclo sem fim; ele é alimentado pela adoração de seus fãs, pelo amor de sua mulher e pelo sucesso de seus livros. Mas no final quem está preso na ficção é ele. Sem saída, ele vive a repetição, é o inferno, o castigo, a punição. Se há alguma lição no filme, é a de alertar mulheres a nunca se casarem com homens escritores, afinal, eles fazem de tudo e mais um pouco para terem sucesso e reconhecimento.

Se deus fosse uma mulher, talvez não seria preciso a destruição cíclica de tudo para chegar ao objetivo, até porque mulheres não precisam se igualar aos homens para provar o seu valor. O marido é escritor e seu processo de criação é o ciclo infernal alimentado pelo amor e adoração que ele precisa receber para continuar o ciclo. Se esse é o mundo escrito por homens, já está mais do que na hora de prestarmos atenção nos mundos criados por mulheres.

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3 Comentários

  • Responda
    Divana
    21 de setembro de 2017 at 08:38

    Gente, que crítica mais perfeita!
    Estou mais animada ainda para assistir a esse filme!
    Obrigada!

  • Responda
    dyulie
    21 de setembro de 2017 at 21:30

    Essa crítica é muito bem feita. Quero assistir ao filme. A sua resenha com o poster faz todo o sentido o que tu falou. A mulher que se sacrifica e dá todo o coração e alma para o marido e o lar.

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    Fabiane Secches
    24 de setembro de 2017 at 10:35

    Uma ótima crítica para um filme ruim. Fiquei muito decepcionada com o trabalho do Aronofsky dessa vez. Acho “Cisne Negro” uma obra prima. “Mãe!” tem uma premissa tão interessante (como os pontos que você destacou muito bem), mas se perde na execução e exagera. Poderia ser mais concentrado — dispersa-se tanto, é pretencioso ao querer se desdobrar em tantos subtemas — e menos explícito, menos didático.

    Fiquei pensando na tese do Piglia sobre o conto, a de que todo conto tem duas histórias: a principal, que está nas posta nas linhas, e uma segunda história, que estaria nas entrelinhas. Em “Mãe!” A história 1 não funciona. Em “Cisne Negro” funcionam ambas: o filme e o mito que o cineasta constrói. Aqui, embora o mito seja interessante, a história 1 é muito fraca.

    De todo modo, excelente reflexão, Julia. Gostei muito da comparação com Dante. Obrigada pelo texto, me fez pensar mais sobre o filme e detestá-lo um pouco menos, porque, apesar de tudo, possibilita conversas tão ricas.

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