CINEMA

Crítica: Loving

Para falar sobre Loving, filme do diretor Jeff Nichols, é preciso, primeiro, entender o momento dos Estados Unidos no final dos anos 1950, época em que o filme é ambientado. Baseado na história real de MildredRichard Loving, o longa aborda com cores tristes uma época em que casamentos inter-raciais eram proibidos e o casal que fosse denunciado poderia receber duras penas que variavam de reclusão à expulsão de seu estado de origem, a Virgínia. 

A Lei da Integridade Racial data do ano de 1924 e exigia que, ao nascer, os cidadãos fossem registrados de acordo com uma classificação racial específica. A mesma lei também proibia o casamento entre pessoas brancas e não-brancas, “exceto com mistura de sangue de branco e dezesseis avos ou menos de sangue de índio americano”. Em vigor no estado norte-americano da Virgínia, a lei foi uma das mais famosas normas de proibição de miscigenação nos Estados Unidos e só foi revogada pela Suprema Corte do país quando, em 1967, entrou em debate o caso Loving versus Virgínia. Mas até isso acontecer, muitos anos se passaram para o casal Mildred e Richard.

Aviso: este texto contém spoilers!

O filme tem início quando o casal – interpretado por Ruth NeggaJoel Edgerton – ainda jovem, está a espera de seu primeiro filho e elaborando os planos de casamento. Mildred e Richard se conheceram ainda adolescentes e a amizade que nutriam quando jovens logo se transformou em amor, culminando na gravidez de Mildred aos 18 anos. Sabendo que não seria possível se casar no estado da Virgínia, onde os dois nasceram e residiam, Mildred e Richard decidem viajar até Washington para, então, poderem se casar conforme a lei daquele estado. Ao retornarem para Virgínia, e talvez prevendo algumas dificuldades no caminho, Richard emoldura na parede do quarto do casal seu certificado de matrimônio, mas nem isso os impediu de serem acordados de maneira violenta no meio da noite e encaminhados para a delegacia de sua cidade acusados de conspirar contra a “dignidade da comunidade em que viviam”.

Richard teve sua fiança paga e pôde sair da cadeia com muito mais facilidade que Mildred: mulher, negra e grávida, ela passou alguns dias aguardando que um juiz autorizasse sua soltura e, embora Richard tenha tentado pagar a fiança da esposa, apenas uma pessoa da mesma cor que ela – nas palavras do policial do filme – poderia vir buscá-la. Condenados a cumprir um ano de prisão, a sentença foi suspensa no ano de 1959 sob a condição de que Mildred e Richard deixassem o estado da Virgínia e não retornassem sob nenhuma circunstância pelos próximos 25 anos. Sem opções que fossem viáveis, os Loving precisam abrir mão de tudo aquilo que conhecem – sua família, amigos e emprego– e rumar para uma cidade nova a fim de que pudessem viver com o mínimo de paz possível. É evidente no semblante de ambos como se sentem tristes e humilhados pela determinação do estado da Virgínia: como é possível que duas pessoas sejam impedidas de ficarem juntas simplesmente pela cor de suas peles?

Em diversos momentos, o filme enfoca as belas paisagens do estado da Virgínia – as flores, os longos campos abertos, o terreno verde em que Richard sonhava construir uma casa para sua família que começava. Os Loving precisam deixar o Sul rural que conheciam para viver em uma realidade urbana e muito menos colorida, cerceados por concreto por todos os lados. Ironicamente, o lugar que oferecia a eles uma sensação muito maior de liberdade física, por causa de seus belos campos abertos, era justamente o estado de passado escravocrata em que cresceram. Só que essa liberdade não era completa, e jamais poderia ser se nada mudasse, pois esse passado seguia firme e forte nas leis racistas herdadas do período. À beleza magnífica da natureza se opunha a vilania muitas vezes presentes na natureza humana, que impedia que duas pessoas que se amavam e que, como lembra Richard, não fizeram mal a ninguém, pudessem ficar juntas legalmente.

Residindo agora em Washington, Mildred decide escrever uma carta ao Procurador Geral dos Estados Unidos, na época Robert Kennedy (sim, irmão do John F. Kennedy), de maneira a apelar em uma instância maior que pudesse ajudar a ela e seu marido em seu caso. Não era justo que o casal tivesse que viver longe dos seus e criar os filhos em um lugar que não escolheram deliberadamente chamar de lar, e, apesar de Kennedy não intervir diretamente no caso, ele encaminha a carta em que Mildred contou toda a sua história para uma importante associação de direitos civis, a ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis, em português), que assume o caso. A partir de então o que acompanhamos é uma luta de anos em busca de um direito que deveria ser intrínseco a todo ser humano: o do matrimônio independente de raça (e de religião, e de orientação sexual).

Essa não é a primeira vez que a história dos Loving é contada – e, supomos, também não será a última. Baseado no documentário The Loving Story, de 2011, dirigido pela cineasta Nancy Buirski, Jeff Nichols reconta a trajetória de Mildred e Richard com poucos diálogos e longas cenas contemplativas. Mildred e Richard parecem duas pessoas de poucas palavras, mas quando um olha para o outro é possível notar todo o amor que sentem – e é nesse momento que o trabalho dos dois atores que dão vida a esses personagens reais se sobressai, principalmente no caso de Ruth Negga. Mildred Loving é descrita em reportagens de jornais da época como uma mulher extremamente tímida, e Ruth passa isso para quem assiste ao filme por meio de trejeitos, olhares baixos e um recato muito próprio. Mildred não tem grandes arroubos de emoção, mas as expressões contidas de Ruth são capazes de demonstrar com toda a sutileza do mundo a variedade de sentimentos pelo qual a personagem passa à sua própria maneira. É no carinho e na expressão de alívio ao abraçar a irmã, ao receber os telefonemas de seu advogado, nos olhos baixos quando é obrigada a se declarar culpada diante de um juiz por ter casado com o homem que amava, que o trabalho impecável da atriz evidencia toda a miríade de sentimentos de Mildred.

Embora a timidez seja uma constante para Mildred, ela não hesita em abrir as portas de sua vida para jornalistas simpáticos a sua causa, contribuindo para a coleta de um material tocante a respeito da vida em família dos Loving. Esse momento, inclusive, é transposto para o filme com muita delicadeza: por meio do repórter da revista norte-americana Life, Grey Villet (Michael Shannon), fotos muito doces e amáveis do casal ganham o mundo, demonstrando que o amor deles não é só real como muito crível. A delicadeza no retrato que o filme faz desse amor contrasta com suas cenas noturnas, como aquela em que os Loving retornam à Virgínia, por exemplo, que tem cara e trilha sonora de filme policial. A lei do estado dizia que eles eram criminosos e eles eram obrigados a agir como tal, escondidos nas sombras, à espreita, e o tratamento dado a essas cenas só reforça o absurdo da situação, que o juiz insiste em afirmar ser a “lei de Deus” – que deus era esse, juiz Bazile (David Jensen)?.

Loving nos lembra ainda que grandes mudanças sociais não vêm a troco de nada, e foi preciso haver muita coragem e determinação em Richard, e principalmente Mildred Loving, para que alguma coisa mudasse. Ao perseguir o caso, eles se arriscavam. Ao mesmo tempo, se ninguém ousasse se arriscar, nada mudaria, e o filme é muito didático nesse sentido. Durante a narrativa, Richard é visto várias vezes empilhando tijolos, unindo-os com cimento, um após o outro, e é desse modo que a sociedade muda, lenta e gradualmente. Mildred não se enxerga participando das marchas por Direitos Civis que assiste – e assistimos – pela televisão, afirmando que é quase como se fossem um outro mundo para ela, mas é à sua própria maneira contida que ela se une àquele movimento e dá mais força para ele.

O filme de Jeff Nichols é muito comedido e sutil em tudo o que faz, o que talvez explique o fato de ter ficado de fora da corrida pelo Oscar de Melhor Filme, embora tivesse a cara da premiação (uma cinebiografia histórica sobre um tema importante e relevante no cenário atual). Não há grandes viradas nem nenhuma manipulação sentimental, embora a história que conta permitisse que isso acontecesse com muita facilidade. Sua sucessão de cenas longas e quietas, por sua vez, em alguns momentos acaba dando um ritmo lento ao filme que pode cansar quem o assiste. Não precisávamos ser manipuladas com sentimentalismo barato, mas parece que faltou um pouquinho mais de força às cenas que possuíam potencial para tal.

Ainda assim, Loving honra sua protagonista e seu espírito e, não por acaso, sua presença nas premiações da temporada tem acontecido principalmente com as indicações de Ruth Negga por seu belo trabalho cheio de sensibilidade. Que talvez seja, no final das contas, a melhor palavra para descrever o filme: sensibilidade. E ternura. E delicadeza. É muito apropriado que o filme se chame Loving, porque o que existe entre Mildred e Richard é um amor que prepondera e preenche, nos lembrando da força desse sentimento tão humano. O amor não vence tudo, o amor às vezes é submetido às mais diversas opressões, o amor pode até mesmo acabar sendo uma poderosa fonte de medo em uma sociedade que pode ser tão intolerante. Mas ele também lembra que vale a pena lutar.

Loving recebeu 1 indicação ao Oscar, na categoria de: Melhor atriz (Ruth Negga).

Crítica escrita em parceria por Fernanda e Thay.

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