CINEMA

Crítica: Lion – Uma jornada para casa

Algumas histórias reais são tão absurdamente improváveis que, fossem elas fictícias, seriam inevitavelmente consideradas inverossímeis. A de Saroo Brierley, contada por ele em Uma Longa Jornada para Casa e adaptada para o cinema em Lion — Uma Jornada para Casa, é uma delas. Nascido na Índia, Saroo (Sunny Pawar) se perde do irmão mais velho em um trem aos cinco anos de idade; levado para Calcutá, a 1600 quilômetros de distância, sem saber falar bengali para pedir ajuda e conhecendo sua mãe simplesmente como “mãe”, voltar para casa parece impossível — até porque ninguém parece ter ouvido falar da cidade onde vivia, cujo nome ele repete de novo e de novo sem nenhum resultado. E, por mais de vinte anos — durante os quais o menino foi adotado por um casal na Austrália, país onde cresceu –, foi mesmo impossível. Até que não foi mais.

Aviso: este texto contém spoilers!

O pequeno Saroo passa alguns dias de desespero preso em um trem sem passageiros, que não faz paradas, gritando por socorro e por ajuda, chorando e por fim desistindo de uma tarefa que não traz resultado algum, tudo isso resumido em alguns minutos particularmente tristes do primeiro longa de Garth Davis. O estreante Sunny Pawar faz um excelente trabalho ao demonstrar a transição do desespero à quase resignada aceitação da situação pela qual Saroo passa. Sua chegada à estação de trem completamente lotada em Calculá é desestabilizadora, numa cena que mantém o foco sempre onde o olhar do garotinho alcança — ou seja, na metade do corpo dos muitos transeuntes, que o empurram de lá para cá enquanto seguem apressadamente o ritmo de seus dias.

Incômodo também é ver as tentativas frustradas de Saroo de se comunicar, impedido pela barreira da língua, mas também pela falta de disposição para ajudá-lo de todas as pessoas com que topa pelo caminho. Afinal, ignorar crianças mal tratadas pela vida parece ser a regra, e não a exceção. Isso, por si só, nos leva a pensar em outra história que teve um trem como pano de fundo, mas que ocorreu aqui mesmo em terras tupiniquins: em meados de 2015, a empresa SuperVia, do Rio de Janeiro, autorizou seu maquinista a passar por cima de um ambulante que já estava atropelado, tudo isso em prol do horário a ser cumprido por mais de seis mil pessoas. A pergunta que fica em ambas as histórias (reais, por sinal) é se estamos dispostos a parar e olhar para o outro quando temos lugares para chegar, compromissos para vencer, listas de afazeres para cumprir. Em ambos os casos, a resposta parece ser não.

Após alguns acidentes no percurso que demonstram o quanto o ser humano pode ser cruel e também, mais uma vez, o quanto Saroo é perceptivo e inteligente, ele se vê obrigado a viver completamente sozinho nas ruas. Imundo e com fome, o menino protagoniza uma das cenas mais comoventes entre as muitas cenas comoventes de Lion. Do lado de fora de um restaurante, com uma tigela imaginária e uma colher catada do lixo, “divide” uma sopa com um jovem sentado ao lado da vasta janela do estabelecimento, enquanto compartilha sorrisos tristes com o jovem. Incapaz de ignorar um gesto tão sincero e singelo, é esse jovem bem intencionado que tenta ajudar o menino, mas, depois de uma tentativa frustrada da polícia de conseguir mais informações, Saroo é enviado para um orfanato povoado por um número sem fim de crianças abandonadas. Esse cenário é construído desde o primeiro momento como um lugar tenebroso, lotado demais e como um ambiente de punição e padronização — muito mais como uma prisão do que qualquer outra coisa –, de modo que fica fácil para o espectador concluir que qualquer criança faria questão de ir embora dali o mais rápido possível.

Saroo acaba sendo adotado por um simpático casal australiano, Sue e John, interpretados por Nicole Kidman e David Wenham, que faz de tudo para que ele se sinta em casa mesmo com — de novo — as barreiras da língua, da cultura e de tudo o mais que os separa. Como lembra A Chegada, também indicado ao Oscar de melhor filme esse ano, nada disso precisa ser um obstáculo intransponível se houver disposição para fazer um esforço para vencê-lo, e é por isso que Saroo cresce na Austrália e passa a viver uma vida aparentemente feliz, tranquila e normal. Só que, para além da língua, da cultura e tudo o mais que cabe nessa conta, existem as experiências pessoais. Nenhuma trajetória é igual à outra, por isso nenhuma experiência de adoção é igual, mesmo que envolva os mesmos pais e os mesmos choques de cultura. Quando chega à Austrália o segundo filho adotivo do casal, Mantosh (Keshav Jadhav), a família logo descobre o quanto isso é verdadeiro. A chegada de Mantosh é muito importante especialmente porque é esse o momento responsável por estabelecer a ligação entre Saroo e a mãe adotiva, Sue. Temos de nos agarrar a ele para que o restante do filme, que se passa após um salto temporal de vinte anos, tenha a força necessária.

O salto temporal é uma escolha compreensível, pois é graças a ele que Lion se atém ao momento-chave da história de seu protagonista. Mas ele também nos priva do que poderia ter sido tão ou mais fascinante e bonito em sua longa jornada: sua adaptação à nova realidade e o estabelecimento de sua relação com os pais e com o país cuja nacionalidade adotou. Ao invés disso, somos apresentados diretamente à versão adulta de Saroo (interpretado agora por Dev Patel), que se dá bem com os pais e vai atrás de coisas novas e interessantes para fazer da vida. As caminhadas de Saroo pelas estações de trem já não são mais desconfortáveis e elas não despertam nele trauma algum enquanto anda tranquilamente entre a multidão. Um jovem australiano como qualquer outro.

Ou talvez não.

Saroo vai estudar, tem uma personalidade agradável e conhece uma menina bonita e tão agradável quanto ele, Lucy (Rooney Mara) — que realmente não ganha espaço na narrativa para ser muito mais que isso. Mas é em uma cena em que está junto com ela, num jantar entre amigos, que Saroo é subitamente relembrado de seu passado na Índia. A cena é interessante, mas afobada. A mudança de atitude de Saroo que acontece depois dela também é pouco genuína. No entanto, é a partir desse momento que o filme estabelece uma série de ligações entre o presente e o passado a partir de vários elementos da vida do protagonista. Muitos anos se passaram e a vida é muito diferente, mas todos esses momentos demonstram de um modo bastante eficiente o quanto nossas experiências moldam quem somos, e como elas vivem conosco para sempre.

Ainda assim, as duas partes de Lion, que representam momentos tão distintos na vida de uma mesma pessoa, por vezes parecem quase como se fossem dois filmes diferentes — afinal, poucos elementos se mantêm: não têm os mesmos cenários, não são faladas no mesmo idioma, não têm os mesmos atores em cena. A passagem de tempo do filme faz com que ele se acelere em momentos que poderia ser mais bem trabalhados, mas, ao mesmo tempo, faz com que o longa perca fluidez. Saroo pode ter se adaptado muito bem à nova vida, mas ter sido forçado a deixar tudo o que conhecia para trás de modo tão abrupto obviamente não veio sem consequências. A adaptação não é tão simples assim — não são duas vidas (nem dois filmes) e é isso que Lion tenta demonstrar. O problema é que pouco sabemos do crescimento de Saroo, e isso fez falta.

Saroo, após seu momento de epifania, começa a buscar o paradeiro de sua mãe biológica e seu irmão mais velho — talvez a figura mais importante da vida do protagonista. A busca, como ficamos sabendo no decorrer do filme, não é para estabelecer a vida no lugar onde nasceu, mas sim para dar uma espécie de fechamento à sua história. Sua mãe biológica vive por vinte e cinco anos com a dúvida sobre o paradeiro de seu filho enquanto Saroo vive, embora muito amado, sem contato com suas raízes.

No decorrer da busca — sempre auxiliado do melhor que a tecnologia tem a oferecer, na época representado pelo Google Earth –, Saroo e Lucy estabelecem uma espécie de relacionamento que vai do doce ao amargo em um salto temporal de dois anos — é difícil precisar com certeza, afinal, o filme perde vigor com seus saltos temporais. Saroo, a medida que se imerge na busca desesperada por sua família biológica, perde um pouco de si. É possível visualizar isso com a imagem do protagonista, que se desintegra com o passar do tempo: de muito cuidadoso e aparado, Saroo, agora desgrenhado, sem paciência e até mesmo rude, vira um vislumbre de si mesmo. Durante a sua jornada, a relação entre Saroo e sua mãe adotiva é colocada a prova. Sempre muito unidos, Sue é posta de lado, e isso, somado às atitudes de Mantosh, a deixa emocionalmente abalada. Nesses momentos é possível perceber que Nicole Kidman é aclamada por um motivo: está maravilhosa nas cenas mais delicadas do filme. A atuação rendeu a Nicole uma indicação à melhor atriz coadjuvante, merecidamente. Ao mesmo tempo em que falamos de talento, Dev Patel entrega um dos melhores papéis de sua carreira, e pouco sentido faz com que o moço concorra na categoria de coadjuvante — talvez, apenas, com base em seu tempo de tela.

Também no trajeto de sua jornada, o relacionamento com Lucy eventualmente chega ao fim e, na trama, ele parece servir apenas para isso. Lucy não soa relevante para a história da maneira como as imagens promocionais e posteres do filme parecem pintar. Ela o apoia em algumas cenas, aparece apaixonada em outras, e, no final das contas, parece servir apenas para cumprir a cota de romance do filme. É um desperdício do talento de Rooney Mara, e todo o romance não parece encontrar seu lugar — muito pelo contrário, não requisitado e mal desenvolvido, não sabemos o bastante do casal para nos importarmos de fato com ele.

No geral, Lion é um bom filme, mas não chega a ser grandioso. Com falhas de roteiro, a adaptação falta com vigorosidade em manter um ritmo interessante ao telespectador. A primeira parte do longa, que toma lugar na Índia, é inegavelmente superior à segunda, da Austrália. A atuação do pequeno e novato Sunny Pawar é marcante, uma surpresa interessante, que dita o tom do primeiro ato, ato este que pavimenta bem o chão da história, mas que, infelizmente, é mal aproveitado. Embora bem atuado e, no fim do dia, um filme intrinsecamente triste — que, querendo ou não, deixa quem está assistindo com o coração pesado –, algumas escolhas no roteiro fazem com que Lion perca o fôlego. No entanto, como se trata do primeiro longa da carreira de Garth Davis, é possível enxergar o grande potencial do diretor. 

Saroo — que na verdade é Sheru, que na verdade significa Lion (Leão) — consegue transpor barreiras e conquistar para si, por fim, aquilo que tanto buscou com sua jornada. Ainda que difícil e triste, as coisas deram mais ou menos certo para Sheru. Sua história é emocionante, delicada e uma realidade dura que acomete milhares de crianças ao redor do mundo — em especial na Índia — e nem sempre tem um final feliz. A pauta que o filme nos entrega é pertinente, e necessário se faz que reflitamos sobre ela.

Lion — Uma jornada para casa recebeu 6 indicações ao Oscar, na categoria de: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Dev Patel), Melhor Atriz Coadjuvante (Nicole Kidman), Melhor Roteiro Adaptado (Luke Davies), Melhor Trilha Sonora (Dustin O’Halloran e Hauschka) e Melhor Fotografia (Greig Fraser).

Crítica escrita em parceria por Ana Vieira e Fernanda.

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2 Comentários

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    Andrei Aibel
    14 de fevereiro de 2017 at 09:01

    Esse filme me destruiu. Saber que isso ocorre centenas ou até milhares de vezes todos os dias é algo cruel que me faz perceber o quanto esse mundo é errado. Mas, apesar da bad, curti o filme. Bom texto, meninas. 🙂

  • Responda
    alexsandro
    1 de junho de 2017 at 22:53

    Lindo filme história que emociona de verdade devia ser mais divulgado assistir dia 01/06/2017 pela netflix muito bom

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