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Gilmore Girls: A Year in the Life – Um brinde ao ciclo da vida

Em 2010, quando a revista americana Entertainment Weekly entrevistou Lauren Graham e Alexis Bledel em uma minirreunião três anos após o cancelamento de Gilmore Girls, rumores de um possível filme da série já existiam. Fazia apenas três anos desde que o último episódio fora ao ar, nada era certo até então. O mundo precisou dar muitas voltas até que a Netflix fosse inventada e o ardor dos fãs chamasse atenção para essa série incrível que estava apenas esperando ser revivida de alguma maneira. E foi. Nove anos depois, eis que estamos aqui para ver e prestigiar Gilmore Girls: A Year in the Life.

Atenção: esse texto contém spoilers (mas nenhum sobre as quatro palavras finais, nós prometemos)!

Um ano na vida das garotas Gilmore para nós equivale a mais ou menos seis horas — não necessariamente seguidas — imersas no mundo delas, já que Amy Sherman-Palladino optou por dar sequência ao seu trabalho no formato da série britânica Sherlock. É mais do que esperávamos, afinal, no começo pedimos por um único filme e acabamos ganhando quatro no total. Cada um deles retrata os efeitos da passagem do tempo de uma fase crucial na vida de cada uma delas, sempre cercadas das figuras excêntricas de Stars Hollow. Um misto de sentimentos vem junto com o pacote: expectativa, emoção, alegria, encanto, tristeza, e um pouco de preocupação no começo também.

No ponto onde nós paramos, Rory (Bledel) tinha acabado de se formar em Yale e estava prestes a conquistar o mundo como repórter correspondente de uma revista online na campanha de Barack Obama. Lorelai (Graham) reatou seu relacionamento com Luke (Scott Patterson) e se despediu da filha com a sensação de dever cumprido. Emily (Kelly Bishop) e Richard (Edward Herrmann) tinham um ao outro e o indício de que veriam suas garotas pontualmente. Foi uma despedida emocionante, com direito a lágrimas e um sorriso no rosto. No entanto, para muitos fãs da série, a sétima temporada não foi realmente uma conclusão. Não só por não ter sido escrita por Amy, como também pela natureza do enredo. Gilmore Girls é uma história sobre pessoas – especialmente mulheres, sim – e relações humanas, por isso é mais do que esperado essa dinâmica de continuidade. Enquanto elas estiverem respirando e andando pela face da Terra, a possibilidade de resgatar a história está sempre aberta.

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Pois bem, estamos de volta a Stars Hollow, em pleno “Inverno”. Lorelai e Rory não se veem há algum tempo, pois Lorelai continua morando na cidade e administrando sua pousada, enquanto Rory está constantemente viajando para perseguir suas ambições jornalísticas, que, ultimamente, se tratavam de algumas idas a Londres para trabalhar no projeto de um livro e tentativas de vender seus artigos para grandes mídias.

No âmbito amoroso, Lorelai e Luke estiveram firmes nos últimos nove anos; Luke se mudou para a casa de Lorelai e eles criaram um bom ritmo na nova etapa do relacionamento, que, no entanto, não fora oficializado. Mas, para isso, eles precisam resolver questões pendentes sobre a união entre suas famílias, e o quão importante era para eles terem tido um filho. A falta de discussão desses assuntos leva o casal a considerar um tratamento de fertilização na clínica de Paris (Lisa Weil), que acaba não sendo a solução. Rory está em um relacionamento que não a interessa ao mesmo tempo em que mantém alguns casos amorosos ilícitos. Ou seja, a garota certinha que outrora nós conhecemos não existe mais; no lugar dela, vemos uma mulher que esteve se virando sozinha por quase uma década e desapegou de regras e alguns princípios morais, mas não de suas ambições pessoais, que é onde reside sua característica-chave: a determinação.

A dinâmica do roteiro e o entrosamento do elenco permanecem, para nosso alívio. Contudo, algumas mudanças na série a distingue claramente daquilo que Gilmore Girls era antes. Pelos trailers divulgados não podíamos ter certeza de que todos os atores estavam confortáveis na pele de seus antigos personagens. Apesar das declarações nas entrevistas, as cenas selecionadas nos trailers pareciam soltas e não transmitiam muita confiança. Isso não impediu o revival de ser uma das estreias mais aguardadas do ano, porém essa preocupação existiu e estamos felizes em dizer que o fato é que os trailers, afinal, não fazem o mínimo jus ao que a série realmente traz. Precisamos de alguns minutos para superar o estranhamento de assistir a Gilmore Girls em alta qualidade e widescreen, mas quando menos esperamos estamos em sintonia com todo aquele universo novamente.

Claro que, embora o lugar e os personagens sejam os mesmos, as marcas da passagem do tempo estão ali. Não apenas na fisionomia das personagens, como também nos elementos do cenário e nas referências do roteiro – Lorelai, por exemplo, desenvolveu um grande vício nos filmes do canal Lifetime para acompanhar suas grandes canecas de café. No entanto, é certo dizer que a maior diferença entre a série clássica e o revival é a ausência de Richard. Embora fosse um personagem secundário, Richard Gilmore sempre foi uma presença forte em Gilmore Girls e o protagonista da vida de Emily, que agora assume um dos papéis principais.

O falecimento do personagem, por consequência do falecimento do ator, é um momento sentido em todos os quatro episódios, mas principalmente em “Inverno”, em que vemos o momento da perda e como ela impactou a vida das garotas. Lorelai e Emily, com suas questões mal resolvidas, são as que mais sentem a ausência dele. Primeiro, porque Lorelai não consegue organizar seus sentimentos por conta de tudo que aconteceu na relação com seus pais ao longo da vida e, segundo, porque toda a vida de Emily girava em torno dele. Acaba não sendo uma surpresa tão grande o fato dela não despedir mais uma empregada por dia e sentir uma vontade desesperada de destralhar sua vida com base nos ensinamentos de Marie Kondo. Nada está no lugar para ela. Nem para Lorelai. Nem para Rory.

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De qualquer forma, Lorelai não consegue ser a pessoa que vai apoiar Emily durante essa fase difícil e é por isso que ela sugere à mãe que comece a fazer terapia para ajudá-la a superar o luto. Assim somos introduzidos à “Primavera”, com Emily e Lorelai tentando conciliar as questões da relação entre elas no consultório de Claudia (Kerry Butler), a psicóloga. Terapia esta que é retratada de uma forma caricata, impossível de ser levada a sério por quem conhece a verdadeira dinâmica de uma sessão. Aliás, desde a série clássica, Gilmore Girls falha em lidar com tratamentos psicológicos com respeito nas ocasiões em que Rory e Lorelai tentaram encará-los; a primeira quando retornou a Yale, e a segunda quando conheceu uma psicóloga num jantar na casa dos Gilmore e terminou a noite desabafando no banco de trás do carro. Vamos deixar claro: não é assim que funciona.

E esse é apenas um dos erros que o revival persistiu em cometer. Não vamos entrar no mérito da falta de diversidade do elenco em papeis realmente relevantes à série, do bodyshaming ou do fato de que é dito numa reunião da cidade que Stars Hollow não pode promover a sua primeira parada gay pela sua falta de gays. É ainda um aspecto bastante negativo para Gilmore Girls o qual não cabe desculpas. Sobre isso, inclusive, após anos de especulações acerca da sexualidade de Michel (Yanic Truesdale), foi somente agora no revival que pudemos ter certeza disso ao ser revelado que ele está casado com Frederick que, infelizmente, sequer tivemos a oportunidade de conhecer.

“Primavera” também é o episódio responsável por fazer com que Rory e Paris retornem à Chilton para ministrarem palestras aos atuais estudantes. Assim como Rory, foi possível sentir a nostalgia daquele ambiente, dos uniformes de saias plissadas às salas de aulas: foi como voltar no tempo. Enquanto os alunos da palestra de Rory sentiram-se confortáveis e inspirados por sua interlocutora, os de Paris saíram correndo angustiados e chorando. Nada de novo sob o sol, Paris Geller permanece Paris Geller. No entanto, em um encontro que durou segundos, Paris tem um ataque nervoso que acaba fazendo com que ela se tranque no banheiro com Rory, aproveitando o intervalo para desabafar a respeito de suas inseguranças. Isso porque Paris é médica, advogada, especialista em arquitetura neoclássica e odontologista, mas sua vida pessoal está de cabeça para baixo desde o divórcio com o Doyle (Danny Strong).

O colapso momentâneo de Paris serve para enfatizar duas coisas: a primeira é que ela continua sendo, de longe, uma das melhores personagens secundária da série. E a segunda é que, embora sua vida profissional esteja estável e muito bem construída, sua vida pessoal está saindo dos trilhos. O relacionamento que ela construiu com Doyle ao longo dos anos era uma parte importante para ela, e rendeu como fruto dois filhos lindinhos. Ainda assim, Paris não consegue se conectar com eles e deixa a criação das crianças a cargo da babá, assim como foi com ela. Ela lutou para conseguir construir sua vida, e é altamente admirada por aqueles que a conhecem, mas isso não a impede de sentir-se uma fraude em alguns momentos. O sucesso profissional não é suficiente para mantê-la satisfeita, apenas confirmando que, como pessoa, ela precisa das duas coisas. Por todas as experiências vividas que ela carrega consigo, Paris continua sendo um ótimo exemplo de personagem com toda a sua complexidade.

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Rory, por sua vez, é convidada pelo diretor Charleston (Dakin Matthews) para fazer mestrado para poder lecionar em Chilton, o que a deixa confusa sobre sua vida profissional no jornalismo. Sua entrevista na Condé Nast ainda não tinha sido marcada e o único outro veículo interessado em oferecer uma vaga para Rory é um site de comportamento e estilo de vida, que em nada condiz com a linha de jornalismo “sério” que ela pretende seguir. As opções limitadas acabam fazendo-a recorrer a um contato para que finalmente consiga sua entrevista na Condé Nast, mas seu currículo não desperta muito interesse nos editores. Rory, contudo, acaba insistindo e se oferece para cobrir uma matéria sobre pessoas que esperam em filas para experimentar potenciais tendências. O artigo acaba sendo uma tentativa frustrada e, após uma conversa com Lorelai, ela acaba se rendendo a tentar o trabalho no site, que, por sua vez, também não é bem-sucedido e leva uma Rory frustrada a se mudar de volta para Stars Hollow.

Quando chega o “Verão”, nada está resolvido para nenhuma das três Gilmore. Rory, de volta para casa, não tem nenhuma perspectiva de emprego, e acaba se oferecendo para comandar o Stars Hollow Gazette que ia ser encerrado quando o editor-chefe se aposentou. Lorelai ainda sofre com seus dilemas, que está levando para a terapia sozinha desde que Emily parou de acompanhá-la. Com a ausência de Sookie (Melissa McCarthy), que saíra da Dragonfly Inn há dois anos para experimentar em um retiro de culinária orgânica, e a potencial saída de Michel, ela vê a necessidade de expandir seu negócio para que seus funcionários não fiquem inquietos pela falta de avanço da pousada e procurem novos empregos. Fora que novos problemas de comunicação surgiram entre ela e Luke, o que a leva a questionar a seriedade de seu relacionamento mesmo após tantos anos. Emily, em Hartford, perde o interesse por todas as suas atividades e para de seguir os hábitos rígidos que cultivou por tanto tempo. O terceiro episódio falha em seguir o ritmo dos outros principalmente por ser um período em que as três Gilmore travam e ficam sem saber o que fazer em seguida, ocupando o próprio tempo com tarefas ociosas.

Um ponto interessante que tem instigado comentários negativos na internet desde a estreia do revival é a ocupação de boa parte do tempo do episódio com um musical (!) comemorativo sobre Stars Hollow. Embora seja justamente a parte em que podemos ver a participação especial de Sutton Foster e Christian Borle, famosos atores da Broadway, demonstrando seu talento e versatilidade, o conteúdo do musical é aleatório e vergonhoso, para dizer o mínimo. Dentro do contexto da série, ele foi escrito e produzido por Taylor Doose (Michael Winters), o que justifica a qualidade questionável da peça, que só se mostra útil quando uma música adicional atua como gatilho para Lorelai tomar uma atitude sobre os próximos passos da sua vida.

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Outra aparição especial e extremamente esperada que acontece durante “Verão” é a de Jess (Milo Ventimiglia), que retorna a Stars Hollow para uma visita a Luke, e acaba parando no Gazette para conversar com Rory e aconselhá-la sobre o rumo de sua vida. É inevitável não sentir na cena o déjà vu da sua aparição heroica na sexta temporada da série. Mais uma vez, ele abre os olhos de Rory e a impede de se desviar ainda mais de seu caminho sugerindo que ela escreva um livro sobre a relação que tem com a sua mãe – que é o grande diferencial da sua vida, o ponto alto que chama a atenção quando todo mundo conhece o par Gilmore. Lorelai, contudo, não aprova essa decisão, porque escrever um livro sobre a história das duas significa revelar para o mundo todas as suas más escolhas, desde ter engravidado aos 16 anos a ter esquecido Rory em um balde (!) em uma loja. E, como não podia deixar de ser, elas brigam e ficam sem se falar por alguns dias.

Terminando o ciclo, temos “Outono”, o episódio que tentar amarrar e fechar boa parte das tramas abertas no revival. Depois de muito ter pensado sobre sua mortalidade e sobre o andar de seu relacionamento com Luke – com ajuda de algumas alfinetas necessárias de sua mãe – Lorelai decide partir em uma jornada de autoconhecimento, inspirada no livro Livre: A jornada de uma mulher em busca do recomeço, de Cheryl Strayed. Seguir a trilha acaba sendo uma tentativa frustrada, e a verdadeira epifania de Lorelai acontece enquanto ela admira a paisagem da Califórnia. Esse é, sem dúvidas, um dos momentos mais emocionantes do revival, pois faz Lorelai finalmente sentir o verdadeiro impacto da perda de seu pai e se conectar brevemente com Emily por meio de um telefonema emocionante em que ela conta a história de um momento precioso entre pai e filha. Quando retorna para Stars Hollow, Lorelai está certa do que precisa fazer para deixar sua relação com Luke em melhores termos. Enquanto Luke, após uma conversa com Jess, tem absoluta certeza de que Lorelai quer romper com ele – o que acaba por nos brindar com um discurso inflamado na cozinha de casa – Lorelai já tem tudo organizado e decidiu: após nove anos de relacionamento, eles irão finalmente se casar.

Respirando com leveza após ouvir a história de Lorelai, Emily sente a mudança dentro de si, altera seu semblante e passa a fazer escolhas significativas para ela pela primeira vez em sua vida. Se em “Inverno” encontramos Emily Gilmore à deriva devido ao falecimento de seu marido, ficamos felizes em constatar que no episódio de encerramento ela está em um lugar muito melhor. Percebendo que uma casa não é necessariamente um lar, ela abandona o escrutínio de suas antigas companheiras do DAR e põe a mansão em Hartford à venda para se mudar para Nantuncket, onde costumava passar férias com Richard. O que também traz de volta uma das maiores referências literárias presentes ao longo de Gilmore Girls: assim como Ishmael, de Moby Dick, Emily decide navegar um pouco e visitar o mundo das águas como seu jeito de afastar a melancolia e regular a circulação. Junto a sua nova e inesperada família postiça e em uma bela casa à beira mar, Emily parece ter encontrado a paz, e principalmente, a independência que procurava após o luto por Richard. Emily finalmente teve a oportunidade de descobrir quem ela é.

Por outro lado, se com Lorelai as coisas se encaminham para um final feliz digno de conto de fadas, não podemos dizer o mesmo para Rory. Boa parte das expectativas dos fãs a respeito do que assistiríamos no revival têm relação direta com seus antigos namorados e com quem, após todos esses anos, Rory ficaria. Não vamos entregar aqui esse desfecho, mas é possível dizer que dar uma olhada em cada um dos pretendentes de Rory trouxe ainda mais camadas de nostalgia para esses episódios. De Jess, aparecendo com uma grande ideia em um “almoço” a base de whisky, a Logan Huntzberger (Matt Czuchry), com todo seu charme, comportamento discutível e a The Life and Death Brigade. Os poucos minutos que tivemos de Dean (Jared Padalecki) e Rory no Doose’s Market também foram suficientes para sabermos como o primeiro namorado estava, agora casado e com muitos filhos para criar.

Embora Amy Sherman-Palladino tenha dito em entrevista que debater sobre os ex-namorados de Rory não deve ser a principal preocupação dos fãs, fica impossível não levantar esse assunto quando a própria autora o retoma nos quatro novos episódios. Seja no estranho desenrolar entre Rory e Logan ou no olhar nostálgico que Jess lança sobre a moça enquanto a observa da janela, praticamente todos os elementos da nova trama nos implora para continuar a debater sobre qual time é o seu – sem falar no plot desnecessário envolvendo Paul (Jack Carpenter), o namorado de dois anos de Rory do qual ninguém se lembra, nem mesmo ela.

O fato é que quase uma década de vida – que não acompanhamos e nada sabemos sobre – pode ter feito mudanças profundas no caráter de Rory, o que explicaria seu comportamento, particularmente no que diz respeito a seus relacionamentos amorosos. A instabilidade de sua carreira profissional pode ter impactado em suas escolhas, e a dependência emocional que desenvolve com um de seus ex-namorados nos mostra uma Rory até então desconhecida. Se nas sete temporadas clássicas Rory era a menina inteligente, gentil, dedicada, e com um futuro perfeitamente traçado agora, no revival, ela tem que conviver com o fato de não ser tão especial para o mundo como um dia lhe fizeram acreditar – o que rende algumas piadas no roteiro sobre os millennials, um grupo de 30 e poucos anos que “foi conhecer o mundo e acabou mastigado e cuspido por ele”, na palavras de Babette (Sally Struthers). 

Quanto aos personagens secundários da série, todos tiveram suas devidas aparições distribuídas ao longo dos quatro episódios do revival, o que, se por um lado foi bom para matar a saudade, por outro foi ruim por pela falta de tempo para desenvolvê-los ou sequer saber como a passagem do tempo atuou para eles. Lane (Keiko Agena) é a primeira aparecer, esbarrando com Rory no mercado e revelando que Zack (Todd Lowe) foi promovido no emprego de que não gosta. A decepção pelo seu desfecho permanece, uma vez que o rock’n’roll para qual ela estava destinada ainda divide o tempo com a vida de mãe e esposa, e nenhuma grande oportunidade na indústria musical esteve em vista.

Kirk (Sean Gunn), por sua vez, continua a ser nosso excêntrico favorito de Stars Hollow. A característica empreendedora e criativa do personagem permanece e podemos vê-lo tentando começar o próprio negócio de transportes, o Ööö-ber (favor não confundir com Uber), exibindo seu segundo curta-metragem no The Black-White-Read Bookstore ou correndo pela cidade atrás da porquinha Petal. Fato é que as aparições pontuais de Kirk no revival são responsáveis por evocar uma boa dose de saudosismo, principalmente se lembrarmos de seu começo em Gilmore Girls, instalando a internet que Lorelai não pediu, ainda na primeira temporada. Sua cena final, em “Outono”, é um grande presente para o personagem e é de deixar nosso coração quentinho.

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Embora todo o revival tenha sido construído em cima da nostalgia e expectativa dos fãs, precisamos ser sinceras ao dizer que alguns elementos não funcionaram no roteiro dos quatro episódios. Por mais que fiquemos felizes e encantadas ao retornar para Stars Hollow, seus eventos e moradores excêntricos, não podemos fechar os olhos para todos os erros de continuidade presentes na série. Como, por exemplo, a vida que Rory levava na ponte área Stars Hollow/Londres que, considerando sua situação financeira negativa e suas caixas espalhadas por três casas diferentes e dois continentes (inclusive: qual a necessidade disso?), é totalmente inverossímil. A ordem cronológica foi um pouco afetada por essas idas e vindas, visto que em determinado momento Rory diz estar indo para Londres para aparecer, na cena seguinte, na casa de Emily.

Por fim, de uma coisa podemos ter certeza: quatro episódios não foram suficiente para compensar nove anos de história, abranger todos os personagens que fazem parte da série e ainda trazer um desenvolvimento consistente para o arco das três personagens principais. Todavia, não podemos desconsiderar que Gilmore Girls: A Year in the Life foi um evento por si só. A série tentou mostrar o quanto aquele trabalho havia sido especial, coroando os episódios com cenas teatrais  e lúdicas que tanto podem ser um deleite para os olhos como um desperdício de tempo de tela – depende puramente do seu modo de ver. (Contudo, ainda temos mixed feelings quanto a “Stars Hollow: O Musical”. Aquela longa cena constrangedora não serviu a outro propósito senão deixar Lorelai incomodada?).

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Foi, afinal de contas, um ano na vida das Gilmore. Fomos convidados especiais e pudemos dar uma olhadinha no que cada uma dessas pessoas especiais andou fazendo, por quais motivos choraram ou sorriram. Fica realmente difícil dar conta de todas as tramas em quatro filmes de 90 minutos – principalmente quando a intenção, antes de qualquer coisa, é contornar as falhas das sexta e sétima temporadas da série clássica –, mas conseguimos vislumbrar um pouco de suas rotinas e dos lugares em que estão agora. Lorelai e Luke com seus respectivos negócios; Rory encarando, mesmo que por breves segundos, como sua vida será diferente daqui pra frente; e Emily aprendendo a ser sua própria pessoa pela primeira vez na vida.

Ainda não definimos se o final – e as quatro palavras – era exatamente o que esperávamos, com tantos fatores a considerar. Talvez, no final das contas, as quatros palavras acabem não sendo as últimas. Como dissemos anteriormente, numa história em que a base do enredo são pessoas e as relações humanas, a possibilidade de continuar está sempre aberta. Quem sabe mais um ciclo esteja apenas começando.

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Crítica escrita por Thay e Yuu.

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1 Comentário

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    Lulu
    28 de novembro de 2016 at 10:13

    Eu discordo de um ponto: não acho que faltou tempo. Para contar os arcos narrativos das Gilmore, não faltou. Aliás, dava para resolver de forma enxuta em um filme de duas horas. Com pouco mais de seis horas de conteúdo, eu acredito piamente que muito mais poderia ser feito, principalmente com relação aos personagens secundários. Na minha percepção, o revival não foi bem sucedido em se adaptar ao formato de 90 minutos; parecia um episódio comum de 40 minutos estendido ao máximo, o que faz com que o revival tenha um problema de ritmo e de equilíbrio (vide o musical eterno), além do citado problema de continuidade. Penso que se tivéssemos oito episódios de 40 minutos o aproveitamento teria sido melhor.

    Foi bom estar de volta a Stars Hollow, de qualquer forma, mesmo que a viagem não tenha sido livre de percalços. Sei que falo por poucos, mas voltar ao universo da série foi, pra mim, como reencontrar alguém que já foi um grande amigo: aquele misto de felicidade e tristeza pelas coisas que foram e não podem ser mais. Nostalgia traz aquela vontade de reviver certas coisas, mas também a realizaçãode que o lugar de muitas destas coisas é no passado mesmo. Gilmore Girls é uma dessas coisas pra mim, que vou sempre relembrar com carinho mesmo que o lugar dela seja lá, no passado.

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