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Crítica: Fallen

A série de livros Fallen, escrita pela autora americana Lauren Kate, foi publicada pela primeira vez em 2009 e contou com cinco títulos para dar continuidade a história de amor entre Lucinda Price e Daniel Grigori. Sete anos após sua publicação, com diversas notícias falsas relacionadas a sua estreia, a adaptação cinematográfica do best-seller teen finalmente chegou aos cinemas, ignorando até mesmo as evidências de que, no momento, o hype para os filmes com premissa semelhante já não é mais a mesma dos anos em que os livros foram escritos e se tornaram sucesso mundial (em especial no Brasil, onde vendeu 1,5 milhão de cópias), e que por esse fator, o cuidado com o conteúdo liberado deveria ser mais bem avaliado.

Aviso: este texto contém spoilers!

Dirigido por Scott Hicks (Um Homem de Sorte) e com roteiro de Nichole Milard e Kathryn Price (ambas de Treinando o Papai), o filme se inicia com uma narrativa simples sobre a guerra do anjos – quando estes escolheram entre céu e inferno, isto é, se manter ao lado de Lúcifer ou uma soberania divina – e descobre-se que, apesar dos dois lados existentes da moeda, um anjo rebelde criou um terceiro caminho em busca do amor.

Como em muitos filmes voltados para o público adolescente que buscam contar histórias com um pé no sobrenatural, a personagem principal de Fallen, Lucinda Price (Addison Timblim) – uma jovem magra, branca e alta, com cabelos castanhos longos, roupas básicas e sempre da mesma tonalidade, um perfil que se assemelha muito ao de Kristen Stewart na saga Crepúsculo – é apresentada como uma adolescente que, após incendiar a casa onde estava, o que resultou na morte de seu então namorado, é levada, por decisão judicial, a um reformatório para cumprir a pena por causar propositalmente a morte de seu companheiro. Lá, ela conhece novas pessoas, entre eles Cameron Briel (Harrison Gilbertson), o terceiro elemento de um futuro triângulo amoroso formado por Lucinda, Cameron e Daniel Grigori (Jeremy Irvine) – este último, que a intriga desde o primeiro encontro dos dois, em uma cena na biblioteca em que Daniel se afasta na tentativa de evitá-la o que causa na personagem uma estranha sensação de já conhecê-lo, o que a leva a continuar insistindo em forçar uma aproximação –, seguindo uma linha muito comum em romances sobrenaturais adolescentes.

Outro personagem que entra na história e dá início a uma rixa iniciada sem motivo algum com a protagonista é Molly Zane (Sianoa Smit-McPhee), que a persegue desde o primeiro encontro das duas. Dessa maneira Lucinda conhece Penn (Lola Kirke) com quem dividirá um quarto e que será sua única amiga durante todo o filme. As diferenças entre a obra original e sua adaptação são, nesse quesito, muito grandes, mas o ponto positivo é que em ambas é notável a forma como há uma proteção entre mulheres: Penn é o braço direito de Luce, e mesmo existindo desavenças entre Luce e Molly, as revelações finais mostram que não se tratava de competição ou ódio gerado pelo simples fato de ambas serem mulheres. No entanto, ainda no âmbito das relações femininas, mesmo sem nenhum real envolvimento entre Lucinda e Daniel, Luce passa a sentir ciúmes da proximidade que Daniel tem com Gabrielle Givens (Hermione Corfield) e, em um diálogo com Penn, justifica seu ódio gratuito pela garota com tal fato, o que acaba perpetuando uma ideia problemática recorrente em produções voltadas para o público adolescente, como se o interesse em um mesmo homem sempre levasse ao desentendimento entre mulheres.

Tratada psiquiatricamente por constantes visões de sombras escuras que a perseguem desde pequena, Luce não aceita a ajuda médica proposta pelo próprio reformatório Sword & Cross por crer que não se trata de um transtorno, e com isso, sente-se constantemente vigiada. É em uma aula de religião que as peças do quebra-cabeça começam a se juntar. Quando a professora responsável, Ms. Sophia (Joely Richardson) comenta sobre a batalha angelical apresentada ao público no início do filme, em uma pequena participação no assunto ao dizer que não foi batizada em nenhum religião, Luce desperta a atenção de Daniel e de outros alunos.

Em uma sequência de cortes ruins e situações que podiam ser melhor aproveitadas, no dia do seu aniversário, Luce sai as escondidas com Cameron e é em um beijo entre os dois que Daniel surge e todas as revelações começam a ser gradativamente feitas. Cameron e outros personagens, como Molly, são na verdade anjos caídos, sendo Cameron um ex-representante de Lúcifer que, ao contrariá-lo, se apaixonando por Luce e despertou o ódio de seu líder. Da mesma forma, Daniel revela ser um anjo rebelde que optou pelo amor de Lucinda em vidas passadas, sendo esta amaldiçoada (!): cada vez que é beijada por Grigori, Luce perde sua vida e em todas as reencarnações está fadada (!) a conhecer e se apaixonar novamente por Daniel (!), em um ciclo vicioso que Cameron deseja interromper. Nesse quesito, o sobrenatural não parece se distanciar muito da realidade mortal: na sociedade, infelizmente, muitas vezes são as mulheres que pagam pelas ações masculinas, sendo castigadas de inúmeras formas pelos erros cometidos por homens.

A questão amorosa de Fallen segue uma linha mal explorada: Lucinda se mostra nos primeiros momentos como uma personagem forte e independente, o que, com o decorrer do filme, é tirado aos poucos dela pelos laços que forma com Daniel e Cameron, transformando-a num estereótipo de mulher cuja vida depende exclusivamente da força masculina. Por mais que a mistura entre crenças religiosas e sobrenatural seja, de certa forma, interessante, é impossível ignorar a forma como a personagem é tratada ao longo da história.

Filmado em Budapeste (Hungria), com um aspecto gótico muito presente, a produção deixa, no geral, muito a desejar – graças a combinação de expectativas criadas entre os anos que passou sendo adiada e o bom número de vendas e fãs conquistados por meio dos livros. O filme termina com um final em aberto e a sugestão de que o não batismo religioso de Luce tenha quebrado a maldição do beijo, o que nos leva a crer que, dependendo dos lucros alcançados com a adaptação, o livro de sua sequência, Tormenta, também possa ser adaptado. O universo criado por Kate Lauren é, de certa forma, interessante, mas a adaptação, infelizmente, não foi capaz de causar o mesmo impacto.

Tatiane Ferrari tem carinha de Sonserina, mas o coração é Lufa-Lufa.
Acredita mais em personagens de séries do que em pessoais reais.

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