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Crítica: Emerald City e uma nova jornada pela estrada de tijolos amarelos

“Não estamos mais no Kansas”, diz a jovem Judy Garland na clássica adaptação de O Mágico de Oz, onde dá vida a uma Dorothy ainda criança, com seu característico vestido azul de algodão e fita no cabelo. É a versão da personagem que ficou marcada em nosso imaginário; uma Dorothy doce e absolutamente adorável, que canta e encanta ao longo de sua busca por uma forma de voltar para casa, e que conquistou inúmeros corações desde que surgiu pela primeira vez nas telas do cinema, em 1939.

Mas essa é uma versão que pouco diz sobre os nossos tempos. Estamos, afinal de contas, falando sobre um filme do século passado, da época em que Hollywood vivia sua Era de Ouro e o tecnicolor ainda era uma novidade. São quase oitenta anos que nos separam da adaptação cinematográfica, mais de cem se pensarmos na obra literária que inspirou o filme, e tanto o cinema e os meios de comunicação, quanto a própria sociedade, sofreram drásticas mudanças desde então. Em 2017, crianças já não usam mais fita no cabelo e poucas são as que acreditam que existe algo além do arco-íris. São crianças – adolescentes e às vezes jovens adultos – que cresceram na era dos blockbusters de super-heróis, que foram acostumadas desde muito cedo aos filmes e séries de ação, e se surpreendem com cada vez menos facilidade. Salvo algumas raras exceções, a maioria delas veria pouca graça na trajetória de uma menina por um mundo mágico e completamente deslocado da realidade, ao lado de um leão covarde, um espantalho sem cérebro e um homem de lata sem coração nos moldes que conhecemos. Então como continuar a contar essa história para um público que, a princípio, não está tão interessado assim em ouvi-la?

Atenção: o texto contém spoilers!

É essa pergunta que Emerald City busca responder. A série é uma tentativa de adaptar a obra clássica de L. Frank Baum ao momento tão específico que vive a televisão norte-americana, e nos levar de volta ao mundo mágico de Oz em uma nova aventura – dessa vez ao lado de uma Dorothy já adulta, que trocou seu famoso vestido azul e as fitas no cabelo por uma jaqueta de couro e um par de coturnos. Abandonada pela mãe biológica quando ainda era bebê, Dorothy (Adria Arjona) cresceu em uma família amorosa, que sempre lhe deu suporte e nunca tentou esconder suas origens. O fato de ter sido adotada não parece realmente uma questão em sua vida até o dia que descobre que sua progenitora está de volta à cidade em que vive, no Kansas. Assim, ela precisa decidir se deseja conhecer a mulher que, vinte anos antes, a abandonou na porta de seus pais; ou continuar a manter uma distância segura de um passado que ela não conhece e que talvez nem queira conhecer.

No clássico de 1939, Dorothy é levada para Oz por um tornado, após desistir de fugir de casa. Em Emerald City, isso também acontece, mas não exatamente: aos vinte anos, Dorothy conta com uma autonomia infinitamente maior do que a sua versão infantil, e não é necessário fugir de casa para fazer aquilo que acredita ser a coisa certa. A Dorothy que conhecemos na série também é levada por um tornado para o mundo mágico, mas ela não o faz dentro de sua própria casa e sim num carro de polícia. É ali que ela conhece Totó, um pastor alemão imenso e fiel que a acompanha do primeiro até o último momento em Oz; mas é também onde começam seus problemas, onde ela adquire a consciência de que já não está mais em casa e que voltar talvez não seja uma tarefa tão simples assim. A chegada abrupta em Oz é, por si só, um problema enorme, que se torna ainda maior quando seu caminho cruza com o da Bruxa do Leste (Florence Kasumba): uma mulher feroz e implacável, a quem o poder permite qualquer coisa, inclusive a crueldade.

Leste é uma das bruxas cardinais de Oz, a mais misericordiosa, mas também a mais severa delas. Filha da Mãe Sul, assim como Glinda (Joely Richardson) e a Bruxa Má do Oeste (Ana Ularu), seus poderes incluem o controle do clima, a ilusão e a capacidade de infligir dor aos seus inimigos. Além disso, ela é a responsável pela Prisão da Abjeção, um lugar sombrio e atroz, de onde só possível sair com o seu consentimento; e é também dona das Manoplas de Rubi, artefato mágico fundamental na trajetória de Dorothy e que na série faz as vezes dos icônicos sapatinhos imortalizados na versão cinematográfica de Victor Fleming. Leste é uma figura essencial para a manutenção do equilíbrio em Oz; assim, quando é dada como morta, supostamente vítima de Dorothy, toda a comunidade local volta sua atenção para o que aconteceu com a bruxa – muitos por necessidade, alguns por medo, mas outros também por amor. O conflito que nasce entre as duas é só o primeiro de muitos, mas é ainda o mais importante: sem ele, provavelmente não existiriam bruxas tentando tomar de volta o poder, lutando contra um homem obcecado pelo poder e por si mesmo, e certamente não existiriam as armas, o símbolo dos nossos tempos que leva dor e destruição para as terras mágicas de Oz.

É uma tentativa de politizar o lúdico: estamos num mundo mágico, deslocado da realidade, mas ainda falamos sobre armamento, sobre mulheres tentando tomar o poder da mão de homens brancos em uma sociedade patriarcal, sobre preconceito e intolerância, questões tão palpáveis em nosso dia a dia quanto a violência, a pobreza e a corrupção. Emerald City constrói uma ponte entre Oz e o mundo que conhecemos, ficção e realidade ao mesmo tempo tão próximas e tão distantes, num paralelo que diz muito sobre a história que assistimos, mas também sobre a nossa própria. A série nos recorda acontecimentos históricos, construindo uma grande metáfora que fala de perto com o nosso aqui e agora. O Mágico (Vincent D’Onofrio) é o típico homem branco conservador, apático e paranoico, incapaz de aceitar aquilo que é diferente ou que ameaça seu poder, e que usa um discurso pautado pela ciência para destruir por completo a magia que existe em Oz. Glinda e Oeste, por sua vez, são o outro, mulheres que desejam ter de volta o poder que lhes foi negado após a ascensão do Mágico, as minorias excluídas, mas que agem de formas muito distintas em prol de uma mesma causa. O cenário muda, mas os papéis nem tanto assim: Donald Trump segue fazendo o seu papel de homem branco conservador à frente de um país poderoso, enquanto minorias seguem em busca de um lugar ao sol, mesmo que possuam princípios muito específicos e formas muito diferentes de lidar com a opressão.

Não é a primeira vez que O Mágico de Oz nos faz refletir sobre o cotidiano: a série de livros original possui uma carga política, social e econômica evidente por si só, algo que é mantido na adaptação cinematográfica de 1939, também repleta de simbologias que remetiam diretamente ao momento que viviam os norte-americanos à época. Foi o ano em que o cinema clássico vivia seu ápice, que filmes como E o Vento Levou, O Morro dos Ventos Uivantes, Vitória Amarga e A Mulher Faz o Homem chegaram aos cinemas e que a indústria cinematográfica faturou tanto dinheiro quanto era possível. Mas foi também o ano em que a Alemanha invadiu a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial; um período histórico determinante para o cinema, mas principalmente para o mundo. Embora os Estados Unidos só tenham entrado na guerra algum tempo depois, o conflito já estava presente no cotidiano norte-americano e os filmes produzidos em Hollywood já eram altamente influenciados antes mesmo da guerra ser, de fato, declarada.

Ao seu próprio modo, Emerald City reinterpreta o papel dos personagens clássicos de O Mágico de Oz, em uma abordagem mais realista e sombria do que o original, e atribui significado aos elementos que compõe a narrativa sem abrir mão da magia fundamental em sua construção. Lucas (Oliver Jackson-Cohen), o Espantalho, é um homem sem memória, incapaz de lembrar até mesmo do próprio nome, mas não literalmente desprovido de cérebro. Jack (Gerran Howell), o Homem de Lata, é um jovem adorável que só deseja libertar o melhor amigo, até que numa infeliz sucessão de fatos, vê seu corpo ser completamente alterado. Seu coração, antes imenso e sempre batendo com força, se torna duro e gelado, como o metal que cobre praticamente seu corpo inteiro. Ele assume uma nova postura diante do mundo, mais amarga, radicalmente diferente daquela que conhecemos no início da história. Já o Leão Covarde ganha vida na pele de Eamonn (Mido Hamada), o comandante da guarda do Mágico responsável pelo assassinato do rei Samuel Pastoria (Sorel Kembe) e da rainha Katherine Pastoria (Judit Onyutha), a quem serviu anteriormente; e que é castigado por Ozma (Jordan Loughran), filha do casal que sobreviveu ao ataque, a viver exilado da Cidade das Esmeraldas, longe da própria família – que foi enfeitiçada e já não sabe mais quem ele é –, e preso para sempre em sua armadura de leão. É um pano de fundo diferente, como quase tudo na série, mas que se adapta perfeitamente à proposta de uma adaptação não-literal de uma das obras mais populares com a qual já tivemos a chance de esbarrar. 

Em paralelo, estão as bruxas de Oz, mulheres que perderam o direito de exercer magia e se tornaram submissas à tirania do Mágico; um arco que faz referência à Caça as Bruxas ocorrida na Europa, e que foi responsável pelo assassinato de milhares de mulheres. Em Oz, muitas mulheres também foram mortas e muitas outras tornaram-se prisioneiras. Não é o destino de Glinda e Oeste, assim como não foi de Leste. Contudo, o fato de responderem a um governo opressor não as impede de buscarem uma maneira de livrar a si mesmas e aos seus dessa opressão. Não existem bruxas boas ou bruxas más nesse contexto porque ninguém é uma coisa só. Glinda e Oeste são as duas últimas bruxas cardinais de Oz e socialmente, ambas desempenham papéis opostos: enquanto Glinda é a bruxa loira de olhos azuis, perfeita aos olhos de todos, mas tão fria quanto seu castelo estéril e seus vestidos impecavelmente brancos; Oeste é a ovelha negra da família, a dona dos prostíbulos, a quem todos temem e desprezam na mesma medida. Mas nenhuma delas é exclusivamente boa ou exclusivamente má. Todo mundo é o vilão na vida de alguém e essa é uma verdade que Emerald City faz questão de nos mostrar.

Mas ela não é a primeira e possivelmente não será a última: Wicked, produção da Broadway que esteve em cartaz em São Paulo no ano passado, já falava abertamente sobre o discurso a partir de uma história em que a Bruxa Má do Oeste não é o outro, mas sim a dona da narrativa, e tem a chance de contar sua história; e como narrativas são compostas por muitas camadas, muitos olhares. Emerald City faz algo similar, embora à sua própria maneira: ambas as histórias buscam mostrar o lado B de Oz, mas por perspectivas diferentes. Enquanto Wicked foca na história pregressa da Bruxa Má do Oeste, a série apresenta os pontos de vista de Glinda, Ozma, Dorothy e Lady Ev (Stefanie Martini) durante os acontecimentos de O Mágico de Oz – bruxas e não bruxas que por algum motivo se tornaram um empecilho na vida do Mágico, e tornaram-se vítimas da sua tirania em algum momento.

A história é inteiramente construída pelo olhar dessas personagens e são elas que mantém a narrativa em movimento. O fato de serem todas mulheres não é de todo uma surpresa: o movimento feminista ganhou visibilidade, ao ponto de se tornar lucrativo, e nunca antes esteve tão em alta. Por outro lado, muito se fala em igualdade de gênero, violência contra a mulher e representação do feminino na mídia, mas muito pouco se faz efetivamente – um reflexo dessa capitalização, que transforma nossa luta em dinheiro. É um oportunismo que nos sai caro e que dá origem a uma porção de representações tortas que mais atrapalham do que ajudam. Às vezes, Emerald City cai nessa regra, mas quase sempre consegue fugir à ela com louvor. Embora tenha sua cota de erros, a maior parte dos problemas da série não são um retrato do machismo: são problemas de roteiro, de ritmo irregular e falta de equilíbrio na narrativa, coisas com as quais qualquer produção está sujeita a lidar. No entanto, existe um cuidado da série ao construir personagens femininas que sejam verdadeiramente complexas e que não ajam como um mero acessório na trajetória de outra pessoa. Elas são tratadas com respeito e cuidado, fazem as próprias escolhas e adquirem espaço, ainda que não sejam personagens centrais – mais do que muitas séries seriam capazes de entregar.

É um cuidado que também se estende às relações que essas mulheres estabelecem entre si. Mesmo a rivalidade que existe entre muitas delas é trabalhada de forma delicada e possui motivações plausíveis, complexas. Glinda e Oeste, por exemplo, são bruxas e irmãs, mas pensam de formas muito diferentes e se distanciaram radicalmente com o tempo. Elas são exatamente o oposto uma da outra, o lembrete de que as qualidades que extrapolam em uma são as mesmas que faltam à outra, uma realidade que cada uma responde ao seu próprio modo: Oeste se utiliza da hostilidade para contra-argumentar a perfeição de Glinda, que por sua vez responde com a mais pura frieza. Contudo, é essa mesma Oeste que implora de joelhos que ambas tenham um relacionamento amigável, numa cena que exala a vulnerabilidade que a personagem nunca se permite expor. É a mesma Oeste que acolhe a jovem Tip, sem saber que ela é, na realidade, a filha de seus antigos reis, dada como morta ainda criança; e que constrói um relacionamento de profunda cumplicidade com ela, mas que ainda carrega o fardo de ser a bruxa má de Oz, suja e eternamente rejeitada. Dorothy, por sua vez, se torna rival das duas de imediato ao ser responsabilizada pela morte de Leste, mas isso não as impede de se unirem contra o Mágico quando chega o momento. Ao final da temporada, é ao lado de Glinda que Dorothy está, ambas movidas por um objetivo comum, abandonando momentaneamente a raiva e as diferenças que as separam.

Não é preciso ser a protagonista para ter o seu próprio espaço e a oportunidade de contar a própria história. Dorothy ainda assume o papel central e está, direta ou indiretamente, ligada aos acontecimentos que tomam conta do mundo mágico de Oz. Mas sua história não é a única, embora seja essencial para o desfecho da temporada. Ao final da luta entre Mágico e bruxas, Dorothy volta ao lar, como desde o início esperamos que acontecesse, enquanto Oz vive um momento inteiramente novo e busca pela solução de novos problemas: a Besta Eterna está à solta, a magia voltou a tomar seu lugar de direito e Ozma reina na Cidade das Esmeraldas. Mas a Dorothy que partiu em um tornado não é a mesma que retornou para casa, e o vazio que a preenche é muito maior do que a saudade da pacata vida no Kansas ao lado dos pais. Não há nenhum lugar como o lar, mas não há também nenhum outro lugar como Oz, e Dorothy sabe disso. Resta saber se essa porta continuará aberta ou se Emerald City foi apenas uma intensa viagem que só acontece uma vez na vida, e que ficará perdida na memória com o passar do tempo.

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