CINEMA COLABORAÇÃO

Crítica: Elis, um filme de Hugo Prata

Quando nasci, Elis Regina havia morrido há 12 anos. Não acompanhei sua trajetória na música, não curtia suas grandes interpretações, muito menos sofri com sua morte precoce, mas lembro de ver minha mãe se emocionar quase toda a vez que ouvia “Como Nossos Pais”. Ela sempre dizia que “nunca mais vai existir uma cantora tão boa quanto a Elis”.  E existiu?

A admiração da minha mãe acabou despertando uma admiração em mim também. Li a biografia Nada Será Como Antes, escrita pelo jornalista Julio Maria, e conheci uma Elis Regina enérgica e apaixonada. Uma mulher que foi, ao mesmo tempo, firme e cheia de inseguranças. Perfeccionista e intolerante. Após pesquisas apuradas, Julio escreveu uma biografia na qual descreve, em detalhes, a personalidade rebelde de Elis Regina. A narração de vários acontecimentos de sua vida leva o leitor a conhecê-la tanto nos momentos de glória, aplaudida diante dos holofotes, quanto nos momentos ruins, em que ela chega ao fundo do poço.

Na última semana a cinebiografia Elis, dirigida por Hugo Prata, foi lançada nos cinemas. Após tantos anos de espera, a história de Elis Regina virou filme. A expectativa era grande. Presumi que ele não traria todos os detalhes biográficos da vida da cantora, até porque os 120 minutos de duração seriam insuficientes. Longe disso, Elis traz um recorte sobre a vida da cantora, narrando superficialmente sua trajetória a partir do dia em que ela saiu do Rio Grande do Sul, aos 20 anos, em busca do sucesso no Rio de Janeiro, até o momento em que, com o sucesso conquistado, se via sem saída diante da angústia que a corroía. Os altos e baixos colossais que Elis enfrentava explicitam o lado mais frágil de sua existência.

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Andreia Horta faz mais do que interpretar, ela incorpora Elis Regina no filme. Caracterização e preparação foram impecáveis. O riso, o modo de falar e até o tom de voz desenvolvidos por Andreia se aproximam muito do que era Elis Regina, tanto que os louros pela interpretação já começaram a chegar: Andreia Horta ganhou o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Gramado, em setembro deste ano, por sua atuação em Elis.  A atriz interpreta — com dublagem, claro —  várias apresentações da cantora, inclusive com as gestualidades marcantes que a tornaram conhecida, mas faltou um momento extraordinário, uma apresentação na qual todos os problemas e dúvidas de Elis fossem apagados, deixando o público atônito – este era o seu real efeito.

A busca pela liberdade de poder cantar o que desse na telha sempre levou Elis Regina adiante, mas o controle exercido pelas gravadoras que almejavam, unicamente, a venda de discos a enfurecia. Ela queria ser vista mais como artista e menos como um cifrão. No recorte feito por Hugo Prata, que assina o roteiro ao lado de Luiz Bolognesi e Vera Egito, várias passagens importantes da vida e Elis foram omitidas: uma delas foi a parceria com Tom Jobim e o lançamento do disco Elis & Tom, um dos maiores álbuns da história da MPB e que rendeu a antológica gravação de “Águas de Março”; Prata também deixou de fora parcerias da cantora com Milton Nascimento e Gilberto Gil, compositores que tiveram nela uma das maiores intérpretes de suas canções.

Elis Regina viveu com a alma em conflito, buscando equilibrar seu mundo interior enquanto sua carreira progredia. Suas aparições em programas de TV na era dos festivais foram responsáveis pela guinada inicial em sua carreira. Nessa fase, Elis ficou conhecida como uma das responsáveis por romper com a bossa nova, estilo musical vigente na época, e inaugurar um estilo novo de cantar e uma nova fase no cenário musical do país: a MPB, música popular brasileira. Sua confiança era tanta que, recém-chegada do sul, Elis já se garantia dizendo que era a melhor cantora porque tinha uma voz de verdade e cantava alto, diferente de Nara Leão, coqueluche da bossa nova, que, segundo Elis, possuía “um fio de voz”. Com as turnês internacionais, Elis viu acontecer o que sempre sonhou: ela havia chegado no topo. Era a maior cantora do Brasil.

Todo esse sucesso aconteceu na década de 60, quando o Brasil tinha acabado de sofrer um golpe militar e os artistas eram alvo de investigações frequentes. O filme exibe um episódio tenso e marcante na vida de Elis: durante uma coletiva de imprensa, em uma de suas turnês pela Europa, Elis foi questionada quanto à situação política do Brasil. Como resposta, ela afirmou que o país era governado por gorilas (“sem querer ofender os gorilas”), e que vivíamos uma repressão na qual artistas eram “convidados a se retirar” do país por conta de suas composições. Pouco tempo depois, ela foi procurada e perseguida pelos militares. Temendo pela segurança do seu filho, negou que tivesse dito qualquer coisa contra o regime. Os militares ainda a proibiram de gravar uma música de Chico Buarque, que entraria em seu próximo disco, e a convidaram para cantar em um evento militar. Coagida, ela aceitou, o que trouxe várias consequências para a imagem de Elis na época. Chargistas e jornalistas criticaram sua postura, e ela foi vaiada em alguns shows. Essa rejeição mexeu com o interior de Elis, contribuindo para desorientá-la ainda mais.

Algum tempo depois, para mostrar o que realmente pensava, Elis gravou “O Bêbado e a Equilibrista”, canção que se tornou um hino à anistia dos presos políticos no período final da ditadura militar.  

A separação do segundo marido, o diretor musical Cesar Camargo Mariano, marcou o início do seu desmoronamento. O filme não deixa claro, mas, apenas dez meses depois de ter experimentado cocaína pela primeira vez, durante uma de suas crises, Elis fez uso da droga acompanhada de whisky. Na manhã do dia 19 de janeiro de 1982 ela foi encontrada morta, aos 36 anos. Deixou três filhos e um país todo perplexo.

Salvo a louvável interpretação de Andreia Horta, Elis peca ao errar o tom da potência e da intensidade de Elis Regina. No filme, ela é interpretada como uma mulher mais frágil e influenciável do que realmente foi. Sua relação com Ronaldo Bôscoli, seu primeiro marido, é evidenciada de tal maneira que não sobra espaço para apresentar adequadamente seus outros amores. A forma com que o filme retrata que Elis se apaixonou por Ronaldo também é equivocada. O fato de ele não ter acreditado no talento dela no início é rapidamente esquecido, à medida que ela se derrete ao ouvir um simples elogio vindo de um galanteador como ele.

Além disso, no filme, várias decisões importantes da carreira de Elis são creditadas aos homens que a circundavam. Quem percebeu que ela precisava se soltar e gesticular mais em suas interpretações — coisa que acabou se tornando uma de suas marcas registradas, garantindo o apelido maldoso de eliscóptero —  e a ensinou isso, foi um homem: seu amigo, o bailarino e coreógrafo Lennie Dale; quem decidiu que Elis precisava de uma repaginada no visual para trazer modernidade à sua imagem foi um homem: Ronaldo Bôscoli; quem sugeriu que uma das maiores militante contra as influências musicais norte americanas começasse a usar guitarra elétrica em suas músicas foi um homem: seu amigo e amante Nelson Motta. Tais episódios são incoerentes com o que conhecemos da conduta real de Elis Regina. Nota-se um apagamento de sua personalidade em detrimento das opiniões fortes e influentes dos homens que fizeram parte de sua vida.

Outra constatação controversa é que Elis Regina é a única personagem feminina — não figurante — do filme, como se no decorrer de toda a trama ela só interagisse com homens. Elis não mostra nenhuma figura feminina na vida da personagem principal. Nem sua mãe, nem Rita Lee, sua grande amiga cujo nome a inspirou a nomear sua filha de Maria Rita. Esse recorte feito por Hugo Prata e os demais roteiristas pode ser interpretado como uma leitura machista e reduzida da história da vida de uma mulher, pois são inquestionáveis as influências ou a simples presença de outras mulheres em seu cotidiano.

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Faltou aquela Elis intensa e firme. A Elis que também foi infiel aos seus companheiros. A Elis que acreditava tanto no poder da sua voz a ponto de ter certeza que nenhuma outra cantora a superaria. A Elis competitiva, mas ao mesmo tempo instável, que gritava, brigava e discutia por suas convicções. Faltou entender de onde vinham as inquietudes que a levaram à cocaína, mesmo ela tendo sido “careta” a vida toda quanto ao uso de drogas.

E, além disso, faltou um final. O filme acaba abruptamente. Após ser comprovada a morte de Elis, intercalam-se cenas piegas e exageradas dos homens que fizeram parte de sua vida chorando e agonizando a sua morte, seu pai, Ronaldo Bôscoli, Carlos Miele, Lennie e Cesar Camargo Mariano.  A impressão que fica é que só a conhecemos pela ótica íntima e limitada dos homens que a conheceram e amaram. Faltou um final para que o espectador tivesse alguns minutos para digerir o fim triste e precoce que teve Elis Regina, aquela que realmente conhecemos, não a filha ou a esposa, mas a maior cantora do Brasil.

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Maysa Vilela, jornalista de 21 anos, é apaixonada pelo sotaque nordestino e por tapioca. Sonha em morar o mais perto do mar for possível. Mais brava do que deveria, encontrou no muaythai a válvula de escape que precisava para aquietar sua alma.

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1 Comentário

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    Gabriela
    5 de dezembro de 2016 at 15:57

    Estou louca pra ver esse filme, pena que não seja tão bom! Talvez se fosse dirigido por uma mulher o filme seria diferente.

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