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Crítica: Big Little Lies, uma história sobre mulheres

Para quem leu Pequenas Grandes Mentiras, romance da australiana Liane Moriarty lançado em 2014, a qualidade de Big Little Lies, minissérie da HBO baseada no romance, bem como sua boa acolhida pela crítica, não chega exatamente como uma surpresa. Bem humorado na superfície, o romance explora com responsabilidade e complexidade temas difíceis que vão desde os desafios da maternidade e o bullying escolar até estupro e violência doméstica – e sua capa original, de um colorido e vibrante pirulito explodido, representa o conteúdo perfeitamente. Ainda assim, nem sempre a transposição do literário para o audiovisual é um trajeto suave, especialmente quando falamos de conteúdos pesados e delicados na mesma medida, por isso um bom material de origem não era necessariamente garantia de uma boa série de televisão.

Big Little Lies poderia ser um whodunit, uma expressão usada para se referir àquelas histórias de mistério em que alguma coisa acontece e o resto da trama é dedicado a desvelar quem foi, quem fez. Em Big Little Lies, afinal, alguém foi assassinado, e nós não sabemos quem foi, nem quem fez. Mas o mistério não funciona como o centro da trama, e sim como uma espécie de moldura. Cenas que se passam em uma sala de interrogatório, protagonizadas sempre pelos personagens secundários da trama, entremeiam àquelas dedicadas às suas protagonistas. Embora o assassinato se faça constantemente presente nos dois cenários, na delegacia de polícia e na pouco pacata vida comum de Monterey – com imagens constantes de todos os personagens observando uns aos outros à distância, através de janelas, ou então treinando tiro e checando o estado de suas armas de fogo –, o verdadeiro centro da história não é esse, mas sim as vidas mais ou menos comuns de suas mulheres.

Transferida da fictícia península de Pirriwee, na Austrália, para Monterey, Califórnia, Big Little Lies tem como principais protagonistas três mulheres bastante diferentes mas que, ainda assim, constroem uma forte e genuína amizade. Madeline Mackenzie (Reese Witherspoon) está em seu segundo casamento, trabalha meio expediente com teatro e tem duas filhas; uma delas adolescente, fruto de seu primeiro casamento, com quem tem uma relação mais ou menos complicada. Celeste Wright (Nicole Kidman) é dona de casa, ex-advogada, mãe de gêmeos, e tem um casamento aparentemente perfeito – os dois são bonitos e têm muito dinheiro, afinal. Jane Chapman (Shailene Woodley), por sua vez, é bem mais jovem que as outras duas, mãe solteira e recém-chegada a Monterey, uma mulher em busca de trabalho e de um lugar para chamar de lar. São três realidades muito distintas, o que, por si só, já seria suficiente para construir jornadas extremamente complexas. Contudo, numa decisão acertada de David E. Kelley, criador e roteirista da minissérie, a versão para televisão transforma em personagens principais, explorando o ponto de vista delas, Renata Klein (Laura Dern) e Bonnie Carlson (Zoë Kravitz). Renata seria, em uma produção mais simplista, a maior antagonista da história, enquanto Bonnie, atual esposa do ex-marido de Madeline, seria só isso; um empecilho na vida de outra mulher. Muito embora, no livro, elas não sejam “só” isso, adotar seus pontos de vista como parte da narrativa só a enriquece, humanizando essas mulheres ainda mais.

O que entrelaça a história dessas mulheres é que todas são mães e têm filhos da mesma idade, filhos esses que estudam na mesma turma de uma pequena escola local – um lugar seguro e tranquilo até que se prove o contrário. O primeiro dia de aula é o cenário do episódio piloto da série, e é ali que, entre beijos de até logo e crianças absolutamente adoráveis e entusiasmadas, a trama e o drama começam a se desenrolar.

É especialmente interessante o destaque que o ritual de levar e buscar as crianças na escola ganha na série: presente na abertura e em quase todos os episódios, esse compromisso estrutura a rotina das personagens, que vivem suas vidas nos intervalos das obrigações com os filhos. É possível olhar para o gesto de duas formas. Os minutos que viram horas que passamos no carro com nossos pais – e aqui falamos muito a partir de experiências pessoais – é provavelmente o maior tempo que pais, mas principalmente mães, têm com seus filhos no dia-a-dia, principalmente se levamos em consideração o contexto de crianças extremamente privilegiadas com rotinas carregadas de aulas e brincadeiras programadas, além do tempo passado em seus mundos particulares de quartos fechados e aparelhos eletrônicos. No carro são discutidas as questões do cotidiano, banais ou nem tão banais assim, e é também o momento em que nossas mães, desesperadas por algum contato mais próximo – como é o caso de Madeline com Abigail (Kathryn Newton), sua filha mais velha – tentam saber mais sobre nossas vidas, recebendo quase sempre respostas vagas e evasivas.

Por outro lado, quando as ações da série se desenrolam entre o momento em que elas deixam seus filhos na escola até a hora que elas vão buscá-los de volta, Big Little Lies argumenta que existe algo mais acontecendo na vida daquelas mulheres além da maternidade. Madeline, Celeste, Jane, Renata e Bonnie são mães e isso é uma parte enorme de suas vidas e suas identidades, mas não é só isso. Para além da rivalidade em banho-maria entre as mães donas de casa e mães que trabalham fora, e mais importante que seus empregos, é a carga de vida que cada uma delas carrega, que toda mulher carrega. Isso é válido também quando olhamos para fora da tela: a indústria do entretenimento, principalmente a norte-americana, sofre de um severo problema de etarismo ou ageísmo, termo adaptado do original em inglês ageism. É o preconceito contra a idade, que joga para escanteio pessoas, principalmente mulheres, mais velhas – e por velhas estamos falando a partir da faixa dos 40 anos.

O tempo é cruel para as mulheres em Hollywood; para além da pressão de parecer sempre jovem, tendo seus rostos e corpos expostos para o escrutínio popular que rejeita qualquer sinal da passagem do tempo, visto sempre como algo grotesco, à medida que envelhecem as mulheres sofrem com a diminuição de seus salários e da oferta de trabalho. Com o passar dos anos, suas oportunidades são reduzidas a papéis de… mães. Não há nada pejorativo em interpretar uma mãe, mas isso se torna um problema quando essa mãe ou avó é sempre uma personagem pouco desenvolvida, um acessório na vida de um personagem mais jovem de destaque. Reese Whiterspoon fala há tempos sobre como Hollywood subestima as mulheres, personagens ou atrizes, e sua produtora nasceu como uma resposta a essas deficiências da indústria, para realizar filmes ou séries com personagens complexas, interessantes, humanas. Big Little Lies é um projeto da Pacific Standard, adaptada de um livro escrito por uma mulher, estrelando a própria Reese, 41 anos, Nicole Kidman, 49, Laura Dern, 50. Elas são mães, mas não são coadjuvantes na vida de ninguém, não é só isso que as define. Não é uma coincidência que as performances nessa série podem facilmente ser consideradas como as melhores de suas carreiras.

Assim, Big Little Lies é, em sua essência, uma história sobre mulheres. Isso ainda é revolucionário: em artigo para o Sidney Morning Herald, a jornalista australiana Matilda Dixon-Smith fez um levantamento sobre as críticas negativas que a série vinha recebendo e é decepcionante, mas não surpreendente, ver que todas vêm de homens, homens que rapidamente classificaram Big Little Lies como uma série novelesca. A classificação é ainda mais pejorativa no exterior, onde as novelas para a televisão geralmente são melodramas caricatos, que recebem preconceito extra por serem atrações voltadas majoritariamente para o público feminino. Isso é obviamente um reducionismo preguiçoso e só mostra a forma como histórias focadas na vida cotidiana de mulheres é vista por aí, o que molda a percepção que a sociedade tem da vida das mulheres no geral.

“Big Little Lies é o que é considerado prestige TV: é produzida por uma rede de TV a cabo de ponta; estrelada por um elenco de alto calibre, incluindo quatro atrizes indicadas ao Oscar; é dirigida por Jean-Marc Vallée, indicado ao Oscar. É cara, bem produzida e adaptada com competência para a televisão. Para homens que não estão acostumados a histórias de mulheres, ou ainda personagens femininas, desse porte, (porque elas costumam ser relegadas atrações consideradas medíocres que críticos não se sentem obrigados a acompanhar) o único jeito de responder a ela é tratá-la como um seriado de “personagens e situações estereotipados” ou ainda um “melodrama mais irritante do que interessante”. (…) A série traz o prestígio como armadilha para fazer algo radical, trazendo histórias subestimadas de mulheres para a frente da alta crítica, limitada por ser composta majoritariamente por críticos homens, que funcionam como guardiões [do que é considerado alta cultura].” (Tradução nossa)

Existem também homens na série, é claro, mas eles ficam em segundo plano; nessa história, como em não tantas outras assim, sua principal função é servir de aporte para as narrativas das personagens femininas. E isso pode tomar diversas facetas: desde servir majoritariamente como apoio para elas, ainda que com suas rupturas, como é o caso de Ed (Adam Scott) ou Tom (Joseph Cross), a fazer o papel de seus maiores algozes, como Perry (Alexander Skarsgård). O que assistimos é à vida de mulheres: suas amizades e seus desafetos, seus problemas no casamento, suas questões com a maternidade ou com o trabalho, sua relação com os filhos. Big Little Lies não se vende como uma narrativa universal – estamos falando de um universo limitado de mulheres, privilegiadas em maior ou menor escala (não é por nada que as casas que servem de cenário tenham chamado tanta atenção). Ainda assim, ela se propõe a discutir temas que são pertinentes às mulheres, independentemente de classe social ou nacionalidade, como a maternidade – que é sempre imposta, mesmo que algumas mulheres desafiem essa compulsoriedade – e a violência de gênero, além de discutir a competição entre mulheres.

Atenção: este texto contém spoilers.

O livro de Liane Moriary opõe o lema da escola de Pirriwee – “Não praticamos o bullying. Não aceitamos sofrer bullying. Nunca escondemos o bullying” –, que abre o romance (e, na série, aparece em diversos cartazes nas paredes), a uma realidade em que o bullying está não só sendo praticado dentro da escola, como também pelos pais dos alunos, os adultos que teoricamente deveriam ser mais conscientes e estar acima disso. É Amabella Klein sendo estrangulada e apontando Ziggy Chapman como o responsável que coloca as mães de Monterey em guerra aberta umas contra as outras. O estopim da competição nesse caso não é a inveja, mas os filhos. Jane e Renata – respectivamente, mãe de Ziggy e Amabella – são as mulheres que encabeçam esse conflito; são mulheres completamente diferentes, mas o amor de cada uma delas pelos filhos é o mesmo.

Mas, se somos ensinadas a estar em eterna comparação e disputa com a próxima, é evidente que já existia uma competição velada entre as mães antes, especialmente entre Renata e Madeline, paladina da justiça – ou melhor, do Team Jane. Renata é a muito bem sucedida CEO de uma empresa (o que, sabemos, é uma raridade). Madeline tem um emprego normal, durante metade do dia. De todas as interações de Madeline com as filhas, fica evidente que ela gosta da maternidade, que é uma tarefa que realiza com prazer. O que não quer dizer que ela não gostaria de ter mais que fosse puramente dela – porque os filhos vão para a escola, crescem, fazem a própria vida, decidem que querem morar com seus pais que costumavam ser ausentes. Renata, por sua vez, parece ter o famoso tudo. Só que Renata vive numa luta constante para ser a mãe perfeita. Porque ela sabe que, se Amabella sofre bullying, se ela não tiver a melhor festa de aniversário, a prova de qualquer problema, aos olhos dos outros, vai ser porque Renata não estava presente o suficiente. Porque ela não conseguia conciliar carreira e família. Porque ela deve ter priorizado a carreira à filha. Do outro lado tem Jane, jovem e solteira, criando um filho que não tem pai, um convite para que qualquer um projete todos os seus preconceitos nela. O fato de a série optar por resolver esse conflito através de uma conversa franca e sincera entre Jane e Renata sobre o quanto é difícil ser mãe, ser mãe e jamais ser perfeita numa sociedade que cobra a perfeição, em que as duas se solidarizam com as dores uma da outra, parece ser quase revolucionário diante de uma sociedade que nos diz que mulheres nunca podem ser amigas.

Big Little Lies traz vários focos de tensão entre mulheres e é bonita e profunda a maneira como a série mostra que os conflitos não surgem porque mulheres são naturalmente rivais, mas por questões que elas carregam dentro de si – muitas delas motivadas pela forma como a sociedade trata as mulheres – e que são projetadas nas outras. Renata e Madeline rivalizam porque elas representam uma dicotomia que pesa sobre qualquer mãe: a que opta (ou precisa optar) pela vida doméstica se sente inferior por não ter uma carreira e se acha um fracasso diante da mulher moderna perfeita; já a mãe que tem uma carreira se culpa pelo tempo que dedica ao trabalho e se sente inferior diante do ideal da mãe perfeita e abnegada. Jane e Renata rivalizam porque tanto o bullying sofrido por Amabella como aquele supostamente praticado por Ziggy parecem sinais de que elas estão falhando como mães, e o desespero delas em proteger seus filhos as leva para o combate umas com as outras.

A situação entre Madeline e Bonnie parece ser o exemplo mais clássico de rivalidade feminina à primeira vista; Bonnie, afinal, é a atual esposa do ex-marido de Madeline, Natan (James Tupper), que é para ela e para a filha dos dois um marido e um pai que ele nunca foi para Madeline e Abigail – o casamento acabou justamente por ele ser um pai e um marido ausente e desinteressado. O problema da personagem de Reese Whiterspoon não é com Bonnie, mas a rejeição constante que ela representa. Obcecada com a ideia de ser perfeita e impecável, a temida Madeline Mackenzie se sente insegura diante de Bonnie uma vez que, na cabeça dela, a regeneração de Natan só pode significar que o que havia de errado com ele antes era Madeline, que talvez não fosse digna ou merecedora daquela atenção. Isso não faz o menor sentido, é claro, mas é uma armadilha em que caímos com facilidade quando somos ensinadas a ter nosso valor medido a partir dos homens das nossas vidas. A maternidade também é um foco de insegurança para ela: enquanto Madeline luta para se aproximar de Abigail, Bonnie parece ter maior acesso à adolescente, que confia à madrasta coisas que esconde da mãe, da mesma forma que acata com mais facilidade suas opiniões e modo de vida enquanto parece rejeitar tudo que vem de Madeline. De novo, o problema de Madeline não é com Bonnie, mas reflete nela porque Bonnie é um estandarte para suas inseguranças mais profundas, e é muito mais fácil projetar nos outros nossos problemas do que encarar a missão de olhá-los de frente.

Ao mesmo tempo, o casamento aparentemente perfeito de Bonnie e Natan é um lembrete constante para Madeline de que o seu próprio não o é. Para todos os efeitos, Madeline e Ed vivem um casamento pleno e feliz: os dois se amam profundamente, têm uma filha maravilhosa, moram numa ótima casa à beira-mar e não têm problemas grandes o suficiente para ultrapassarem as quatro paredes da casa em que vivem. Entretanto, não é preciso que a história avance muito para percebermos que seus problemas vão muito além da adolescência latente de Abigail e da peça de teatro que Madeline briga para acontecer. Madeline e Ed também possuem problemas, muitos dos quais não conseguem resolver sozinhos, e são esses problemas que em algum momento a fazem iniciar um caso extraconjugal com seu colega de trabalho. Quando a série tem início, Madeline já não mantém mais o affair, mas a culpa pelo erro a persegue de forma implacável. Ela se culpa pela traição, se culpa por tê-lo feito quando possui um marido que a ama profundamente e que nunca lhe deu motivos para duvidar desse amor, mas também por não ser a esposa e mulher perfeita que deveria ser; uma expectativa que a desumaniza em tempo integral. Madeline sofre por saber que nunca vai amar Ed da forma como ele a ama, da mesma forma que sabe que Ed ama uma mulher perfeita, a mulher dos seus sonhos, como ele mesmo diz, e essa pessoa não existe. Talvez ela só quisesse alguém que a enxergasse por trás do verniz de perfeição e amasse o que existe embaixo dele.

É após um almoço com Bonnie e Natan – uma tentativa frustrada de fazer com que as duas famílias possam dividir um momento agradável e tranquilo – que Madeline permite que todas as suas frustrações venham à tona, não na frente de todos, é claro, mas em uma conversa franca com a filha mais velha; uma conversa que deveria ser sobre Abigail, mas de repente passa a ser sobre ela. Como qualquer adolescente de 16 anos, Abigail está construindo a própria identidade, em busca de uma razão e um lugar que seja seu, tentando a todo custo não crescer à sombra de uma mãe que, aos olhos dela, sempre pareceu tão perfeita. Mas Madeline não é perfeita, muito pelo contrário. É por isso que, ao expor seus erros para a filha, uma cumplicidade genuína surge entre as duas. Abigail entende que a mulher à sua frente é, antes de mais nada, humana, e essa percepção faz com que ela finalmente enxergue a mãe como uma pessoa de verdade, passível de erros, tão distante da perfeição quanto ela própria. Tudo que Madeline deseja é proteger a filha de erros dos quais ela pode se arrepender mais tarde, e numa virada extremamente sensível do roteiro, Abigail compreende isso. As duas não se entendem de forma milagrosa: elas ainda possuem suas diferenças, ainda desejam coisas muito diferentes para suas vidas; mas finalmente conseguem enxergar uma à outra com a empatia e paciência, e construir um relacionamento que já não é mais sobre uma mãe perfeita e uma filha rebelde, mas sobre duas mulheres que só estão em busca do seu melhor.

E aí temos Celeste. O arco narrativo de Celeste merece um texto inteirinho de análise todo seu, porque traz para a televisão uma das representações mais nuançadas do que é viver um relacionamento abusivo. Pela sociedade, Celeste e Perry são vistos como o casal perfeito: lindos, ricos e apaixonados, eles são respeitados por todos, a joia de Monterey. Só que Perry é violento. Mais do que isso, Perry é um marido que bate em Celeste, é controlador e ciumento, e frequentemente faz com que ela se sinta culpada por seus ataques de fúria. Como muitas mulheres em situações parecidas, Celeste tem dificuldades em reconhecer que vive um relacionamento abusivo, tanto porque as percepções ficam enevoadas quando se está num ciclo de violência como também porque existem camadas em histórias assim que frequentemente são esquecidas para dar lugar a representações simplistas, em que tudo se resume a terror e violência. Em seus dias bons, Perry se comporta como um bom marido; é carinhoso, dá presentes a Celeste, parece adorá-la. Ao que tudo indica, ele é um bom pai para os gêmeos. A vida sexual deles é intensa. Celeste bate em Perry também – sempre para se defender, mas é uma relação que ela enxerga como fúria compartilhada que pode ser excitante.

Celeste também se esforça para manter a imagem de perfeição que as pessoas projetam sobre ela, é algo que ela aprecia ao mesmo tempo que a sufoca. Mesmo que num contexto degradante de violência, é nas brigas com Perry que ela perde o controle e extravasa sentimentos negativos que reprime porque boas mulheres não sentem raiva, frustração, ódio. É complicado para ela reconhecer que vive uma relação abusiva, tóxica, porque isso faria dela uma vítima, expondo suas fragilidades, algo que ela tem dificuldade de confrontar. Vemos isso principalmente diante do fato que Celeste nunca confessa para suas amigas o que realmente acontece entre ela e Perry; ela até tenta, mas quando Madeline demonstra o primeiro sinal de que o que ela está dizendo é estranho, Celeste se retrai e desiste de contar. Mesmo na terapia sua postura é extremamente defensiva. De novo, é um comportamento condizente com a realidade de uma pessoa que vive um trauma e está continuamente sujeita a violência, medo e tensão dentro de casa, mas também é uma mulher que se digladia com a quebra de expectativa de sua vida perfeita que aquele relacionamento problemático representa.

Big Little Lies nos oferece uma representação complexa de uma situação igualmente complexa. É frequente nos filmes e na televisão que a violência doméstica seja sempre retratada em extremos, em relacionamentos sem amor, onde os homens são sempre violentos e nada mais, onde as mulheres são vítimas frágeis e nada mais, onde a única forma de violência aceita é a física. A vida real, no entanto, assume contornos mais complexos, em que o amor – ainda que um amor amargo, tóxico, distorcido – coexiste com a agressividade, a raiva, a manipulação emocional; onde homens não são vilões caricatos e mulheres não são vítimas indefesas. Violência não é só física, mas também emocional, psicológica, todas essas ordens de igual gravidade. O tratamento que Big Little Lies dá para a história de Celeste é importante porque ajuda a construir em nosso imaginário uma noção mais realista do que é viver um relacionamento abusivo, de modo que ele seja mais identificável na vida real como o relacionamento tóxico e perigoso que é.

Talvez o mais comovente, no entanto, seja ver o surgimento de uma amizade genuína, forte e real entre as três mulheres que estampam seus materiais de divulgação. Madeline e Celeste adotam Jane rapidamente como parte de sua amizade e de suas vidas, incluindo-a em suas atividades, certificando-se de que Ziggy, o acusado de praticar bullying que nega veementemente as acusações, teria com quem brincar, certificando-se de que não deixariam Chapman mãe e filho se tornarem párias em Monterey quando coisas como abaixo-assinados para expulsar o garotinho da escola começam a circular. Ao longo dos sete episódios, vemos essas três mulheres conversando sobre seus filhos e sobre seus relacionamentos, sobre trabalho e como ele as estimula, as faz se sentirem vivas; vemos Jane conseguindo se abrir sobre a violência que sofreu, vemos Madeline garantindo a ela que não a deixaria ir atrás de seu suposto estuprador sozinha. Vemos preocupação e apoio vindo de todos os lados, de cada uma com as outras; a lembrança constante de que nenhuma delas está sozinha.

Em uma cena particularmente bonita da série, Jane recebe um telefonema sobre mais um problema na escola, de novo. Ela está na beira da praia, completamente sozinha em frente ao mar – um lugar que é, ao mesmo tempo, uma lembrança recorrente, eternamente ligada à noite em que foi estuprada; mas também onde Jane busca exorcizar os demônios que a atormentam. É ali que ela corre todos os dias, sempre sozinha com seus fones de ouvido e sua música altíssima. Dessa vez, no entanto, Celeste e Madeline se unem silenciosamente a ela. O cenário continua exatamente o mesmo, mas todo o resto já não o é. Jane não está mais sozinha; Madeline e Celeste também não.

A história de Jane se destaca em um primeiro momento porque, diferente de Celeste e Madeline, sua vida não se parece em nada com a perfeição que parece ser regra em Monterey: ela é a jovem mãe solteira de uma criança concebida durante um caso de uma noite só, não tem um emprego fixo, não é rica, não tem uma família e não parece ter grandes ambições para o futuro. Mais tarde, descobrimos que o aparente mistério e as poucas palavras sobre o pai de Ziggy são, na realidade, a forma que Jane utilizou para mascarar a violência que sofreu na noite em que o menino foi concebido; um trauma que ela ainda não conseguiu superar inteiramente. Sua vida segue, mas Jane continua a viver com um pé no passado, marcada pelos demônios do passado. Sob a superfície, Jane é uma mulher normal, mas é a mesma mulher que dorme com uma arma ao seu lado, que fantasia sobre a morte de seu algoz, que não pode contar ao filho que seu pai é um estuprador. Todas essas nuances são trabalhadas muito bem na série, que constrói a trajetória de Jane não como a história de uma mulher definida pela violência que sofreu, mas uma mulher com uma história para além do abuso, tal qual as mulheres da vida real que sofreram diferentes violências ao longo da vida, mas que não são definidas por elas – ainda uma raridade na ficção.

Em seu material de divulgação, Big Little Lies diz que uma vida perfeita é uma mentira perfeita, algo que nunca antes pareceu tão verdadeiro. Em seus sete episódios, a minissérie nos leva por um passeio pela vida aparentemente impecável de muitas famílias, expondo a imperfeição que se reserva às quatro paredes de cada um. São famílias felizes, às vezes nem tanto, mas todas imperfeitas à sua própria maneira. Contudo, muito mais do que um grande retrato da nossa sociedade, que compara os bastidores da vida de um ao espetáculo do outro, ter uma história como essa, chancelada por um canal como a HBO, que já virou praticamente sinônimo de qualidade em matéria de televisão, é também uma forma de dizer que as histórias de mulheres importam, que são relevantes, que merecem ser contadas e fazer parte do zeitgeist televisivo. É uma história cujo único final feliz possível não a perfeição idealizada de um comercial margarina, mãe, marido e filhos unidos ao redor de uma mesa; mas aquele em que suas cinco protagonistas e seus respectivos filhos se divertem na praia, unidas por um acordo tácito de proteção mútua, ao som da velha canção que diz que você não pode ter sempre tudo o que quer, mas pode descobrir que tem aquilo de que precisa. Talvez, descobrir que tudo de que precisamos são as mulheres que estão todos os dias ao nosso lado, numa luta diária, seja o que nós precisamos também.

Texto escrito em parceria por Ana Luíza, Anna Vitória e Fernanda.

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3 Comentários

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    Deise
    17 de abril de 2017 at 18:07

    Oi, meninas. Eu acabei a série nesse fim de semana e estou tão cheia de vontade de falar sobre ela que fiquei feliz de ler esse texto. Também escrevi sobre a série aqui http://camacarimulher.com.br/todos-os-filmes-mulheres-envelhecem-homens-nao/ Toquei só na questão geracional e relacionei com Feud, mas é tanta coisa pra falar que parece que em mais 2, 3, 10 textos não se esgotariam. É maravilhoso ver como essa série subverte o que costumávamos assistir antes. De coadjuvantes, ela passa as mulheres para protagonistas, tão complexas e multifacetadas quanto somos na vida real. Espero que seja só o começo da presença dessa abordagem na TV e no cinema. Que só tenha a ganhar mais espaço porque representatividade importa muito!

    Bjs

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    Tarsila Zamami
    17 de abril de 2017 at 23:48

    Oi, Ana, Anna e Fernanda!

    Uau, que análise incrível! Li várias desde que a série acabou, escrevi a minha também (http://confissoesesincericidios.com/big-little-lies/) e, de verdade, acho que essa de vocês foi a mais completa.

    Acho que ter sido exibida em um canal do porte da HBO, ter um elenco estelar (consolidando a tendência de grandes atrizes do cinema vindo para a televisão) e, principalmente, ter a quantidade e qualidade de personagens femininas (não sendo mais um exemplo da síndrome de Smurfette, como a Reese ressaltou em entrevistas) fizeram de Big Little Lies incrível. Foi tão bom ver vários assuntos importantes sendo discutidos sem aquele didatismo e simplicidade irritantes. E, mais ainda, foi ótimo acompanhar várias personagens femininas complexas, diferentes e cheias de nuances juntas! Mal acabou e já estou querendo maratonar de novo. hahaha

    Bom, era isso! Obrigada pelo texto! Um beijo e vida longa à Valkirias! <3

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    Ana Julia
    20 de maio de 2017 at 12:41

    Incrível. Terminei o livro essa semana e comecei a ver a série ontem. Como sempre vcs falaram tudo o que tava embaralhado aqui na minha cabeça e eu nunca poderia expressar tao bem quanto isso. Essa tal de sororidade é tão plena. Fico feliz ver que mesmo lentamente a mentalidade, a percepção das coisas, estão mudando. 🙂

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