CINEMA

Crítica: Animais Fantásticos e Onde Habitam

Em 2011, quando o último filme da saga Harry Potter foi lançado nos cinemas, o mundo era muito diferente do que conhecemos hoje. Fora retrocessos políticos e sociais que presenciamos com o passar dos anos e os inúmeros avanços tecnológicos, o fim da saga marcou também o fim de uma era na vida de muitos fãs, que se viram órfãos após dez longos (e maravilhosos!) anos ao lado de Harry, Rony e Hermione. Cinco anos depois, Animais Fantásticos e Onde Habitam chega aos cinemas com a missão de continuar relevante em um novo tempo e reconquistar os corações dos fãs mais antigos enquanto nos leva de volta ao universo mágico criado por J. K. Rowling – uma experiência tão especial quanto controversa.

Atenção: O texto contém spoilers!

Dirigido por David Yates – responsável pela direção dos quatro últimos filmes da franquia principal – e roteirizado pela própria J. K. Rowling, Animais Fantásticos e Onde Habitam tem início em 1926, setenta anos antes dos acontecimentos que marcam o começo da saga do menino bruxo, quando Newt Scamander (Eddie Redmayne), um magizoologista britânico e autor do livro que dá nome ao filme, desembarca em Nova York com sua maleta repleta de animais mágicos. Tudo parece muito bem, até que, em uma confusão para resgatar seu pelúcio, Newt acidentalmente troca de maleta com Jacob (Dan Fogler), um homem que só queria um empréstimo para abrir sua própria padaria e acaba metido nessa história sem querer, ao abrir a mala deixando alguns animais fugirem. Isso se torna um grande problema para a comunidade mágica norte-americana, mas não demora muito para que o filme deixe claro que, para além dos animais mágicos de Newt, o Congresso Mágico dos Estados Unidos da América (MACUSA, em inglês) enfrenta ameaças muito maiores que colocam em perigo não só a comunidade bruxa, mas também os trouxas – chamados aqui de no-maj.

O Estatuto Internacional de Sigilo em Magia determina que a comunidade bruxa deve viver escondida dos trouxas, numa espécie de clandestinidade instituída para proteger os bruxos que, nos séculos anteriores, foram perseguidos e mortos pelos humanos que os viam como ameaças. As tensões que envolvem esse acordo são essenciais no desenvolvimento da história, uma vez que se ensaiava uma onda de terror encabeçada por Grindelwald (Johnny Depp) que tinha como objetivo romper com o Estatuto e tirar a bruxidade da surdina, visando a instauração de uma nova ordem de supremacia bruxa sobre os trouxas ou no-majs. Em Animais Fantásticos e Onde Habitam, as criaturas mágicas são utilizadas como agente causador de confusão e, consequentemente, bode expiatório para provocar pânico entre os no-majs e acirramento das tensões com a comunidade bruxa, podendo levar ao rompimento do acordo e à revolução desejada.

Assim, ao lado de Newt, Jacob, Tina (Katherine Waterston) e Queenie (Alison Sudol), duas irmãs bruxas absolutamente sensacionais, passeamos por uma Nova York sombria e melancólica em busca de criaturas mágicas e ameaças desconhecidas – um cenário que, por si só, abre um leque de possibilidades que passeiam entre a realidade estadunidense da década de 20 para construir um universo próprio muito diferente daquele que conhecemos anos atrás.

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Sendo a exímia contadora de histórias que é, J. K. Rowling utiliza um enredo bastante simples, mas que funciona perfeitamente dentro de seu propósito, e o enriquece ao construir um contexto completamente novo dentro de um universo tão rico por si só, trazendo ao centro alguns elementos que a saga Harry Potter apenas menciona – ainda que sejam essenciais ao desenvolvimento da história – e caberá à nova franquia consolidar nos próximos quatro filmes que já foram prometidos. Novos personagens são apresentados de maneira eficiente enquanto elementos muitas vezes desconhecidos são introduzidos com o intuito de desconstruir inúmeras certezas apresentadas pela franquia principal, uma prova de que ainda existe muito mais para ser explorado nesse universo do que acredita nossa vã filosofia.

O contexto histórico se torna parte fundamental da narrativa, que utiliza eventos reais para construir não apenas os conflitos dessa nova aventura, mas principalmente o discurso político que permeia todo o filme, às vezes de forma sutil, às vezes nem tanto. Em uma Nova York assombrada pelo fantasma do pós-guerra e pela iminente Grande Depressão, J. K. Rowling constrói alegorias que, num lugar onde o fantástico é a palavra de ordem, remetem – e muito! – a uma realidade que não parece tão distante assim do que vivemos hoje. A segregação entre bruxos e no-maj deixa de ser uma questão pouco explorada para se tornar parte central do discurso contra uma intolerância que parte de ambos os lados, que tem tudo a ver com identidade, tônica essencial para se entender a América – e o mundo – de hoje, que elegeu Donald Trump como presidente. Enquanto em Harry Potter trouxas são tratados como seres que merecem ser protegidos e sua ignorância perante o mundo bruxo surge como parte da manutenção dessa segurança, em Animais Fantásticos e Onde Habitam enxergamos o outro lado dessa moeda, onde bruxos se mantém na surdina justamente para evitar maiores traumas em uma comunidade que já foi vítima de tantos atos brutais cometidos por pessoas no-maj. 

A figura de Mary Lou Barebone (Samantha Morton) encabeça o discurso de ódio aos bruxos que, inicialmente ridicularizada, vê suas ideias ganharem força à medida que a situação ameaça sair do controle  – e aí, é irônico pensar como a ficção se torna uma reflexo cruel da nossa própria realidade. A história (essa com H maiúsculo) nos mostra que tempos de instabilidade e retração econômica geram uma onda de insegurança e tensão social que levam as pessoas a se apegarem ao que já está estabelecido e a buscar por um inimigo comum que parece concentrar em si tudo aquilo que ameaça a aparentemente pacata ordem social de outrora. Foi isso que permitiu a ascensão de regimes como o nazismo, cujo discurso de ódio contra judeus, negros e homossexuais encontrou morada em países que viviam crises políticas e econômicas, permitindo conivência a ações genocidas em nome do combate à essa suposta ameaça contra os famigerados cidadãos de bem. Ao gritar “make America great again”, eleitores americanos acreditam que os problemas de seu país serão resolvidos ao se tirar de jogo os negros e os imigrantes. Em Animais Fantásticos e Onde Habitam, o temido Inimigo da tradicional família americana são os bruxos.

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Em sua ânsia por exterminar todo e qualquer traço de sobrenaturalidade na cidade em que vive, Mary Lou se permite cegar pelo ódio e, enquanto distribui panfletos e milita a favor de um novo julgamento como o presenciado no século XVII em Salém – que culminou no assassinato de inúmeras mulheres tidas como bruxas – deixa passar despercebido aquilo que acontece debaixo de seu próprio teto. Credence (Ezra Miller) sofre agressões absurdas pelas mãos da mãe adotiva, que o rejeita de todas as formas enquanto acredita estar agindo em função de um bem maior, sem perceber que está, justamente, jogando o garoto nas mãos daquele que representa tudo aquilo que ela mais teme.

Vale notar que a figura dos bruxos – principalmente das bruxas – sempre funcionou como alegoria para um poder desconhecido que ameaça o status quo. Os elementos simbólicos que permeiam as histórias de bruxas possuem um forte apelo para as discussões de gênero, mas, no caso do mundo mágico de J. K. Rowling, os bruxos funcionam como parábolas importantes para se tratar de grupos marginalizados de modo geral. Estamos falando de poder levado a extremos bons e ruins, de uma forma que transcende aquela que sai das varinhas mágicas. Enquanto  a grande disputa da saga Harry Potter era o poder dentro da própria comunidade bruxa, em que a autora também se vale da metáfora nazi-fascista para falar do embate entre bruxos puro sangue contra os mestiços, o novo filme trata do embate de bruxos contra no-majs, ainda mais interessante por trazer nuances e ambiguidades nos dois lados da batalha.

Nesse sentido, Newt, enquanto protagonista, é o contraponto perfeito em uma Nova York de cores frias, capaz de converter a cidade que serve de cenário para suas aventuras em um ambiente cheio de cores e esperança. Junto com os animais que dão título ao filme, o personagem nos leva por uma jornada encantadora e cheia de graça, um respiro de ar fresco em um contexto repleto de inquietação, desesperança e domínio pelo medo. Essa característica do protagonista tem tudo a ver com a Casa de Hogwarts da qual Newt Scamander é filho e tudo que ela representa, a Lufa-Lufa.

Aos olhos mais cínicos e menos versados na mitologia de Harry Potter, a Lufa-Lufa sempre foi vista como a Casa mais sem graça de Hogwarts. Diante da coragem dos grifinórios, da ambição dos sonserinos e da inteligência dos corvinais, o que sobra para os lufanos? Apesar de ser a casa favorita da autora, J. K. Rowling, uma grifinória de alma, não conseguiu construir nos sete livros originais uma representatividade lufana sólida o suficiente para chamar atenção para os pontos fortes dessa Casa. Historicamente, a Lufa-Lufa foi a que menos produziu bruxos das trevas graças aos seus membros que se destacam por sua lealdade, gentileza e profundo senso de justiça – características que, convenhamos, não tem nada a ver com delírios de maldade e grandeza. Newt Scamander chega para corrigir essa falha, e sua construção, aliada à interpretação de Eddie Redmayne (dono dos olhinhos mais doces que Hollywood já teve notícia), transforma Animais Fantásticos e Onde Habitam na mais pura celebração do espírito lufano.

Essas características são essenciais para que Newt possa cuidar, entender e proteger as criaturas fantásticas que guarda em sua maleta. Para recuperar os animais que escapam, é necessário, antes de tudo, que ele compreenda o modo de agir de cada um deles, suas particularidades, seus gostos, seus medos e só assim, com muita cautela, paciência e respeito, Scamander conquista aquilo que precisa. Uma das cenas mais bonitas (e divertidas!) de todo filme é quando ele se entrega a uma dança do acasalamento para capturar novamente sua erumpente fêmea que tocava o terror no Central Park: sem medo de parecer ridículo, Newt imita os gestos de um erumpente macho, faz barulhos característicos, e com calma e delicadeza atrai a atenção da criatura até que ela se rende, de barriga pra cima, toda toda. É esse mesmo modus operandi, o da empatia radical, que orienta o personagem na resolução do grande conflito do filme, em que é necessário recuperar o que existe de luz, coração e humanidade em meio às trevas. A mensagem é clara: só assim que se chega à libertação, quando se busca entender o outro para construir pontes, não muros.

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Para muitos pode parecer uma perspectiva ingênua em tempos tão difíceis e problemas tão enormes – sejam os nossos ou o dos personagens – mas diante de discursos baseados em medo e ódio é desse tipo de esperança que a gente mais precisa. Diante dessa atmosfera, a presença de Johnny Depp no filme se torna ainda mais incômoda. A escalação do ator para o papel de Grindelwald provocou revolta entre os fãs, uma vez que o ator foi acusado de violência doméstica por Amber Heard, agora sua ex-mulher, que veio à público com fotos e mensagens de texto que comprovam as agressões e o abuso emocional por parte dele. Apesar da contratação de Depp ter se efetivado antes das denúncias, a postura da produção do filme diante da questão incomodou – com razão – os fãs, já que tanto o diretor David Yates como J. K. Rowling defenderam e celebraram a presença do ator – algo que destoa completamente do discurso da saga e que, de certa forma, também mostra o quanto a indústria do entretenimento protege homens abusadores e violentos. Diferente do que acontece com muitas mulheres, que por muito menos são condenadas à lista negra de Hollywood, Johnny Depp é a prova de que a indústria do entretenimento continua sendo um ambiente machista e misógino, cheio de pesos e medidas para defender a classe privilegiada que os interessa. Ainda que manter as aparências seja necessário no mundo dos negócios, celebrar a escalação de Johnny Depp é lembrar a tantas sobreviventes de violência que, enquanto elas carregam o peso do trauma e do sofrimento, seus abusadores ganham papéis em franquias cinematográficas renomadas. Ou se tornam presidentes.

Embora muito tenha sido dito sobre a pequena participação de Depp no primeiro longa da franquia, seu papel no filme acaba sendo tão relevante quanto deveria-se esperar de um personagem com o peso de Grindelwald – um balde de água fria na cabeça de todos aqueles que, de algum modo, tinham esperanças de que uma substituição ainda pudesse ser feita. Muito diferente do que aconteceu com a personagem de Lilá Brown na franquia Harry Potter, que foi substituída sem grandes explicações ou justificativas que fizessem algum sentido, as chances de Johnny Depp deixar o papel são mínimas, para não dizer inexistentes, de modo que, daqui pra frente, só nos resta esperar por uma representação caricata, enquanto a indústria cinematográfica segue fechando os olhos para situações que não deveriam ser silenciadas.

Apesar do conflito nos bastidores, Animais Fantásticos e Onde Habitam dá um bom tratamento às suas personagens femininas. O foco principal está sobre as irmãs Goldstein, Tina e Queenie, duas funcionárias da MACUSA. Tina foi auror, agente de elite do Congresso Mágico, ou seja, uma posição de grande prestígio no governo. Contudo, ela perde o cargo depois de errar em uma de suas missões, mas não abandona a obstinação e continua agindo como auror, o que a leva a seu encontro com Newt. A personagem é uma representação da mulher progressista dos anos 20, do tipo que usa calças e provavelmente participava das manifestações pelo direito de voto. Já Queenie é cozinheira, ultra-feminina e sexy, e um dos pontos fortes do filme é que em momento nenhum sua personagem perde força por conta de sua feminilidade. Assim como Tina, Queenie é esperta, determinada e sua participação na aventura de Newt é essencial. Além disso, Queenie é legilimente, ou seja, possui a capacidade mágica de ler mentes, o que a torna mais sensível e extremamente empática no tratamento com os outros, o que casa perfeitamente com o grande argumento do filme, que é: empatia é muito amor. Juntas, as irmãs representam duas boas possibilidades para personagens femininas, mostrando na prática que representatividade não é trazer à tela personagens femininas fortes em que força é sinônimo de atribuições masculinas, mas também signos tipicamente femininos incorporados em personagens complexas e interessantes.

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Sete anos antes das mulheres (brancas) ganharem direito ao voto nos Estados Unidos, a comunidade mágica americana tinha em sua liderança uma mulher negra, a presidente Seraphina Picquery (Carmen Ejogo). Consta na sua página na wiki de Harry Potter que Seraphina é natural de Savannah, cidade localizada na Georgia, sul dos Estados Unidos. Historicamente a região é conhecida por seu passado escravista, lutando contra a abolição da escravidão durante a Guerra Civil ocorrida no século XIX. Isso só torna ainda mais interessante que, menos de um século depois, a comunidade bruxa tenha levantado uma presidente negra. Para além disso, Picquery é firme, respeitada, e sua posição como presidente é tratada de forma extremamente natural, como deveria ser. Uma única personagem negra (duas, se contarmos a sugestão à Leta Lestrange) num elenco todo branco não é uma vitória de representação, mas é um começo. Precisamos de mais.

A figura de Leta Lestrange (Zoë Kravitz), por sua vez, traz consigo uma carga que faz com que a personagem, mesmo em um porta-retrato, seja incapaz de passar despercebida. Muito pouco é sabido sobre sua história, fora sua controversa amizade com Newt quando ambos frequentaram Hogwarts e que, mais tarde, culminou no acidente que pôs fim à jornada do lufano na escola. Seu sobrenome, no entanto, faz uma ponte com duas das épocas retratadas no universo bruxo até agora e ganha peso, principalmente, pela sua ligação com Bellatrix Lestrange, uma das personagens mais cruéis que o mundo bruxo já viu. Ao contrário de Bellatrix, entretanto, que se tornou uma Lestrange após o casamento e sempre manteve os dois pés fincados nas artes das trevas, até o momento, Leta é apenas uma jovem membro de uma antiga família puro-sangue, que pode ou não pender para as artes das trevas e ter as mesmas convicções daqueles que a cercam. Se Sirius e Tonks foram capazes de encontrar sua própria verdade em uma família que os forçava a seguir o caminho contrário, talvez Leta seja a exceção à regra – e o fato de ter feito amizade justamente com um lufano prova que, entre a história de sua família e quem ela verdadeiramente é, pode existir muito mais do que acredita nossa vã filosofia.

Se a notícia de que a franquia iniciada com Animais Fantásticos e Onde Habitam ganhará cinco filmes foi recebida com um certo desânimo por parte dos fãs, que viram a novidade como uma estratégia da indústria pra ganhar dinheiro em cima do público apaixonado, a impressão deixada por esse primeiro filme é que a ambiciosa empreitada pode dar certo.  Como pontapé inicial da nova série, ele cumpre seu papel, que é o de nos apresentar um universo interessante e cheio de potencial e nos deixar com vontade de passar mais tempo ao lado daqueles personagens. O filme sustenta uma maturidade e sobriedade que demorou a aparecer na franquia original (o que faz sentido, já que a história era focada em crianças), o que deve garantir a apreciação por parte da antiga geração de fãs de Harry Potter, que há muito já não têm mais 11 anos. Ao mesmo tempo, o spin-off  é divertido, esperançoso e doce o bastante para conquistar uma nova geração e lembrar aos fãs mais velhos por que eles se apaixonaram pelas palavras de J. K. Rowling pra início de conversa. E não restam dúvidas: é maravilhoso estar de volta.

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Crítica escrita por Ana Luíza e Anna Vitória.

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