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Crazy Ex-Girlfriend: Rebecca Bunch não é só uma garota apaixonada

Crazy Ex-Girlfriend, Psycho Ex-Girlfriend ou simplesmente Ex-Namorada Louca é uma trope recorrente na ficção e também nas narrativas midiáticas (que são apenas uma forma mais sofisticada de ficção). Trope (em português, tropo) é o nome que se dá a um padrão de narrativa que se repete nas histórias, fazendo referência, principalmente, à própria estrutura da narrativa ou a um tipo (arquétipo) recorrente de personagem. Assim, o tropo da ex-namorada louca diz respeito a uma personagem que nunca superou o término do namoro e vai perseguir seu ex-namorado, fazer de tudo para arruinar seus futuros relacionamentos e, dependendo do tamanho do ódio, destruir também a vida daquele cara – ou então só ficar com ele de novo, custe o que custar.

Pegue como exemplo a Taylor Swift: estigmatizada desde o início de sua carreira por escrever músicas sobre seus relacionamentos e ex-namorados, em 2014 a cantora lançou Blank Space, uma música cuja letra satiriza essa imagem que as pessoas projetam sobre ela. No clipe, Taylor encarna a personagem que é uma mulher maravilhosa e sedutora, um pesadelo vestido de sonho que, à medida que o relacionamento avança, se torna ciumenta, obsessiva e violenta, chegando a partir para a violência física. “Eles te dirão que sou insana”, ela diz na letra, pois esse é o tratamento frequentemente dispensado às mulheres nessa posição – ainda que sejam os homens os mais habituados a assassinar suas ex-parceiras por não aceitar o fim dos relacionamentos.

“Isso é um termo machista!”, reclama Rebecca Bunch na abertura de Crazy Ex-Girlfriend, série sobre uma mulher que larga sua vida e seu excelente emprego para morar em West Covina, na Califórnia (cidade que fica a apenas duas horas da praia; quatro, se tiver trânsito), onde, coincidentemente, é onde mora Josh Chan, seu ex-namorado da adolescência. O fato do seriado trazer a trope no seu título, chamando-a para si antes que qualquer um possa fazê-lo, mostra qual tipo de história Crazy Ex-Girlfriend quer contar: definitivamente não aquela que estamos esperando.

Apesar do peso negativo do título – sim, o conceito de ex-namorada louca é muito machista e essa é exatamente a grande piada que aparentemente passou despercebida por uma série de críticos – o resto da música de abertura, que resume a trama em 30 segundos, está de acordo com os fatos: Rebecca Bunch (Rachel Bloom) é uma advogada de prestígio, fazendo sucesso (e dinheiro!) em Nova York, até que recebe o convite para ser uma das sócias do escritório em que trabalha. Sem conseguir responder, Rebecca começa a ter um ataque de pânico. “Isso é felicidade?”, ela se pergunta, enquanto tenta respirar, poucos minutos antes de topar com Josh Chan (Vincent Rodriguez III). Josh desperta em Rebecca lembranças de uma época em que ela se sentia genuinamente feliz: aos 16 anos, quando ela era só uma garota nerd que amava musicais, amava Josh e tudo era mais simples. Ele conta que está de mudança de volta para sua cidade natal – West Covinaaaaaaa, Californiaaaaa – em busca de uma vida mais simples, mais feliz e mais verdadeira do que aquela que levava em Nova York, e é assim, num impulso, que ela resolve largar tudo e se mudar pra lá também – algo que só uma ex-namorada louca faria.

Contudo, em suas duas temporadas (com uma terceira já garantida pela CW), o que Crazy Ex-Girlfriend faz de forma esperta e bastante original é se apropriar de vários tropos de comédias românticas e também de contos de fada – narrativas que moldaram muitas das nossas noções e expectativas de amor romântico e também de felicidade e sucesso – para subvertê-las e desconstruí-las. O que o roteiro assinado pela própria Rachel Bloom em parceria com a co-criadora Aline Brosh Mckenna (que escreveu O Diabo Veste Prada!) faz de forma brilhante é usar esses clichês narrativos não para contar uma história que já ouvimos antes, mas para destacar a história que elas não estão contando – o que as ajuda a construir uma história totalmente nova de uma forma que até então não se tinha visto na televisão americana, que vive, não por acaso, sua era de ouro.                       

Então, que história é essa?

Como também é anunciado na vinheta de abertura – por um sol de óculos escuros, vale dizer –, Rebecca Bunch é uma mulher quebrada por dentro. Seus problemas, como ela mesma os expõe, passam por “baixa autoestima, falta de amor materno e predisposição genética a ansiedade e depressão”, temas ligados à sua saúde mental que, numa via de mão dupla, são acentuados e acentuam a dissonância cognitiva – um termo chique para definir a contradição entre as coisas que acreditamos ou pregamos versus a forma como agimos e nos sentimos – que ela experimenta em sua própria cultura. Essa cultura, que também é a nossa, é pautada por histórias que nos ensinam de forma indireta como devemos agir, pensar e nos sentir, o que devemos buscar, que tipo de pessoa devemos ser. Rebecca, dramática e sonhadora desde muito nova, teve sua formação marcada principalmente por contos de fada e comédias românticas, narrativas que têm como público alvo, não por acaso, as mulheres, e cujos ideais de feminino são muito questionáveis. Isso porque antes da cultura existe a sociedade, e nessa sociedade em que nós e Rebecca vivemos as expectativas que recaem sobre as mulheres são mesmo muito questionáveis.

Não são os contos de fada e as comédias românticas que dizem que o amor romântico e heterossexual é a única solução para nossos problemas, condição sine qua non para a felicidade e destino inescapável de toda mulher; é o patriarcado disfarçado de sociedade que nos diz isso tudo. Assim, Rebecca se muda para West Covina não para ir atrás de um homem, mas sim em busca da felicidade – que, coincidentemente, assume a forma de um homem. O problema é sua dificuldade em enxergar tudo isso. Podemos culpá-la?

À primeira vista, a figura de Rebecca parece passar longe do nosso ideal feminista de mulher-independente-dona-da-sua-vida-que-não-precisa-de-homem-para-ser-feliz, mesmo se acreditássemos ser essa a intenção da série para depois “curá-la” com lições em cápsula de feminismo e amor próprio, num empoderamento de farmácia. No entanto, a história e a personagem têm mais nuances que isso e não é só porque Rebecca começa a série como uma excelente advogada e assim permanece apesar de nunca estar no trabalho. Rebecca é feminista convicta, leu todos os livros, faz textão para as amigas e até se inscreve para dar aulas de empoderamento feminino num acampamento para adolescentes… que, por acaso, é onde Josh vai passar o feriado. É aí que a dissonância cognitiva aparece novamente: saber de todas essas coisas não torna Rebecca imune à ideia de que só o amor de um homem pode salvá-la de sua miséria particular, e, como bem define Fabiane Secches num excelente texto sobre a série, ela é “fluente num idioma que ainda não internalizou”:

“[Rebecca] Nasceu em um mundo em que a ideia do feminino se apresenta como construção rígida, com os papéis de gênero estabelecidos em torno de uma cultura patriarcal. Cresceu fantasiando a vida a partir desse papel. Em determinada altura, viu-se em meio à nova onda feminista e, embora tenha se tornado uma mulher bem sucedida e financeiramente independente, não sabe qual é o seu lugar na atual configuração. (…) Está dividida entre dois mundos e não consegue fincar os pés em nenhum. A série tem uma percepção apurada do conflito da mulher no mundo contemporâneo. Historicamente, fazemos parte de uma geração que está em meio às transformações das representações de gênero, mas o próprio feminismo ganha contornos idealizados.”

Este ponto, que é tão sutil na construção da personagem, é muito caro a qualquer mulher eMpOdErAdA (#woke) que já se viu em conflito entre o que acredita e o que sente (e quando digo qualquer mulher estou falando, antes de qualquer coisa, de mim). Vivemos numa constante culpa por, apesar de tudo, querermos alguém. Nos culpamos quando nosso amor próprio não é suficiente, nos culpamos por nos amarmos demais, nos culpamos quando fazemos concessões, nos culpamos por não amar nossos corpos como deveríamos, como dizemos umas às outras que é certo amar. Nos culpamos por gostar de novela, Justin Bieber e filmes de amor. Nos culpamos e nos julgamos, a nós mesmas e às outras, como julgamos Rebecca – que não se enquadra nem no que o patriarcado, esse grande vilão, espera de uma mulher, nem no que o feminismo, esse feminismo precioso e essencial, exige de uma mulher. Isso não é um defeito da série, que confia que seu público é esperto e vai capturar essas sutilezas, e é um conflito que está intimamente relacionado ao conceito de má-feminista proposto por Roxane Gay (que é até citada em um dos episódios!) num ensaio que é parte da coletânea Má Feminista.

“Porque eu tenho tantas opiniões convictas sobre igualdade de gênero, sinto uma pressão para viver de acordo com certos ideais. Devo ser a boa feminista que tem tudo, faz tudo. Mas, na verdade, sou uma mulher de trinta e poucos anos lutando para me aceitar. Por muito tempo disse a mim mesma que não era essa mulher — completamente humana e falha. Trabalhei ao longo do tempo para ser tudo menos essa mulher, e isso era exaustivo e insustentável, e ainda mais difícil do que simplesmente abraçar o que sou.

E ainda que eu seja uma má feminista, estou profundamente comprometida com questões importantes para o movimento feminista. Tenho opiniões fortes sobre misoginia, machismo institucional que consistentemente coloca a mulher em desvantagem, os salários desiguais, a cultura da beleza e da magreza, os repetidos ataques à liberdade reprodutiva, violência contra a mulher, e assim por diante. Sou tão comprometida com a luta feroz por igualdade como sou comprometida com o rompimento da noção de que existe um feminismo essencial.” (Tradução nossa)

Roxane questiona a ideia de que existe uma forma certa e errada de ser feminista, porque seria mais ou menos a mesma coisa que dizer que existe uma forma certa e errada de ser mulher. Ambas as ideias negam às mulheres o direito de serem humanas, algo complexo demais para se encaixar numa simples concepção de certo ou errado. Rebecca Bunch é humana, e por isso complicada, e por isso contraditória, e por isso tão incômoda. É neste incômodo causado por ela que reside a genialidade de Crazy Ex-Girlfriend, um seriado que não tem medo de ir no que existe de mais profundamente humano em seus personagens e em todos nós, algo que passa longe de ser bonito.

Não estamos acostumadas a lidar com Mulheres Difíceis na ficção. Escolhi chamá-las de Mulheres Difíceis, assim com maiúsculas, como uma analogia aos Homens Difíceis, título do livro de Brett Martin, termo criado pelo crítico de cultura para definir os anti-heróis moralmente ambíguos cujo surgimento e popularidade foram de certa forma responsáveis por esse momento de sucesso criativo e comercial da televisão americana. Fazem parte desse panteão Tony Soprano, de The Sopranos, Walter White, de Breaking Bad, Don Draper, de Mad Men, e, estendendo a análise, Frank Underwood, de House of Cards, personagens incansavelmente analisados, destrinchados, e também adorados. As mulheres igualmente complexas que são personagens desses mesmos seriados não recebem o mesmo crédito: a complexidade de caráter, que nos homens é tão fascinante, é motivo de ódio fácil para as mulheres, porque esse tipo de nuance não combina com as expectativas de feminilidade numa sociedade que ainda tem dificuldade de aceitá-las como sujeito. É dessa dificuldade que surgem estereótipos reducionistas como o da mulher desastrada, uma heroína cuja humanidade está no fato de ser atrapalhada, algo que “quebra” a imagem da garota perfeita sem incomodar ninguém no meio do caminho – afinal, Deus nos livre de uma mulher com personalidade e defeitos reais.

Essa não conformidade era tratada como histeria no século XIX, um conceito supostamente ultrapassado que retorna como um zumbi quando chamamos mulheres como Skyler White, Betty Draper, Peggy Olson, Claire Underwood, Marcia Clark e Rebecca Bunch de… loucas. Rebecca não é louca, mas também não é perfeita. A personagem é egoísta e manipuladora e sua bússola moral é bastante confusa. A série, no entanto, não se esquiva disso, e faz com que ela se confronte com suas próprias contradições.

Na primeira temporada, Rebecca passa a maior parte dos episódios tentando reconquistar Josh – o que quer dizer que ela está tentando, antes de qualquer coisa, acabar com seu noivado com Valencia (Gabrielle Ruiz). Rebecca insiste em tratar Valencia como uma antagonista cruel, e aí voltamos à forma brilhante como Crazy Ex-Girlfriend trabalha as tropes da ficção: o embate entre duas mulheres na disputa por um homem normalmente coloca de um lado a garota boazinha e vitimizada contra uma vilã insensível, bonita e sensual. Nada sintetiza isso melhor do que a canção You Belong With Me, da Taylor Swift, essa grande pensadora contemporânea das relações humanas. Contudo, Rebecca, num raro momento de clareza, percebe, na verdade, que se existe uma vilã nessa história, essa vilã é ela. A conclusão rende uma das melhores canções da série, “I’m The Villain in My Own Story”.

“Sou a vilã da minha própria história
Minhas ações foram longe demais
Eu disse a mim mesma que era Jasmine
Mas percebi que sou Jafar
Nos disseram que o amor conquista tudo
Mas isso só vale para o herói
Seria o inimigo aquilo que estou destinada a ser?
Ser vilã é meu destino?”

Aliás, as músicas são outro ponto essencial de subversão em Crazy Ex-Girlfriend: a terra dos Homens Difíceis é um mundo feito de cores escuras e sobriedade. É tudo extremamente sombrio e sério, como um filme da DC. Enquanto isso, Crazy Ex-Girlfriend é essencialmente uma comédia romântica musical e nada pode ser menos sério que isso – só, talvez, a mente engenhosa, genial, debochada e muito, muito suja de Rachel Bloom, que escreve boa parte das músicas e, não por acaso, foi indicada a dois Globos de Ouro, ganhou o prêmio de Melhor Atriz em 2016, e recebeu indicações ao Emmy por suas composições. Na série, os números musicais, muitas vezes exagerados e surrealistas, servem para ilustrar a vida interior dos personagens e materializar seus conflitos internos. As músicas de Crazy Ex-Girlfriend levam a série a um outro nível, elevadíssimo, tanto pelas piadas brilhantes como pela forma como as letras são capazes de ficar insuportavelmente sombrias e reais. Faz sentido: elas estão ali para expressar os demônios mais profundos de seus personagens, coisas tão cabeludas que não podem ser simplesmente ditas, mas precisam de uma forma de expressão mais elaborada.

Um dos meus números favoritos, talvez o mais doído de todos, é “You Stupid Bitch”, uma paródia em que Rebecca incorpora uma espécie de Barbra Streisand cruzada com Celine Dion para cantar um hino de ódio por si mesma. A letra revela a profundidade do poço onde está afundada a autoestima de Rebecca, que se culpa por arruinar tudo novamente e revive todos os erros do passado, destacando todas as falhas que enxerga em si: “Agora ele sabe que não sou um cordeiro inocente. Ele me vê pelo que sou, uma horrível, estúpida, burra, feia, gorda, estúpida, vadia que se odeia”. O público canta junto com a letra, ilustrando também como ela imagina todas as pessoas da sua vida: uma plateia que assiste e celebra sua desgraça, que se une ao coro que a declara uma vadia burra.

Já  “Sexy French Depression” desconstrói a forma como transtornos psicológicos, principalmente a depressão, são romantizados, e como a figura da mulher triste é fetichizada. É uma provocação à nossa cultura, que, de acordo com Bloom, considera sexy a figura de uma mulher perdida e sem poder algum sobre si mesma, e também um choque que escancara a realidade nada sexy de se conviver com a depressão: “Só consigo respirar e suspirar, minha cama cheira à absorvente, estou numa depressão francesa sexy”.

Num outro twist de metalinguagem, “I’m Just a Girl In Love”, tema de abertura da segunda temporada, ironiza como as histórias de amor insistem em chamar de amor comportamentos que têm sua origem em outros problemas que acabam sendo jogados para baixo do tapete. O efeito mais extremo disso é a forma como relacionamentos abusivos são frequentemente romantizados na ficção, sob uma justificativa de que vale tudo por amor. Para além disso, essas narrativas simplificadas de romance ignoram a bagagem que trazemos aos relacionamentos e como elas tornam as coisas mais bagunçadas e afetam o que acontece entre o casal.

“Sou apenas uma garota apaixonada
Não podem me responsabilizar por minhas ações
(ela é uma ingenue!)
Não tenho nenhum problema oculto para resolver
Sou certificadamente fofa e adoravelmente obcecada

Dizem que o amor te deixa louca
Portanto não podem te chamar de louca
Porque quando te chamam de louca
Eles estão apenas te chamando de apaixonada”

Em Crazy Ex-Girlfriend, não só Rebecca como todos os personagens são confrontados com os problemas ocultos que motivam suas atitudes e os levam a extremos, bem como as muletas que eles encontram para fugir dessas questões tão difíceis. Rebecca está quebrada por dentro e busca conforto e completude numa relação amorosa. Paula (Donna Lynne Champlin), sua melhor amiga, vive um casamento infeliz está frustrada profissionalmente, e encontra consolo na vida amorosa de Rebecca, que é sua novela particular; Josh é um meninão que se recusa a acreditar que cresceu  e se apoia nas mulheres para não ficar sozinho com seus pensamentos e não se confrontar com a realidade complicada da vida adulta; Greg (Santino Fontana), outra ponta do triângulo amoroso entre Rebecca e Josh, é frustrado profissionalmente e encontra no álcool e no ressentimento que guarda de todas as pessoas da sua vida um consolo e uma desculpa para não tomar as rédeas da sua própria vida.

Esses embates são desconfortáveis porque também nos levam, enquanto espectadores, a abrir um espaço no sofá para que nossos próprios demônios, traumas e ressentimentos se sentem ali e nos façam companhia, demônios esses cuja existência muitas vezes nós negamos para nos poupar da dor de encará-los de frente. Viver é tão difícil. Podemos nos culpar?

Apesar de se construir pela negação da ideia de que é o amor romântico que nos salvará, Crazy Ex-Girlfriend não despreza ou abandona completamente o conceito de amor, tampouco diminui sua relevância. O que ela sugere é que o sentimento mais importante, aquele que devemos perseguir, e talvez o único capaz de nos salvar é o amor próprio. O seriado também é o primeiro a nos dizer que alcançá-lo não é tarefa fácil, que é quase impossível, porque constrói de forma realmente elaborada a complexidade do que é ser humano e querer tudo num mundo que não é uma fábrica de desejos. Para as mulheres, se amar e se dar a devida importância é ainda mais desafiador – e também mais revolucionário.

“Somos criadas, desde novas, para acreditarmos que somos insuficientes. Nada nunca está bom, sempre precisamos melhorar — mudar — em alguma coisa. Também somos ensinadas a procurar validação por parte de homens, o que torna relacionamentos afetivo-sexuais no meio hétero um terreno fértil para abuso. É difícil agir de maneira diferente quando toda a sociedade parece conspirar pra que não enxerguemos nosso próprio valor. Uma mulher que se ama é revolucionário.”

Laura PiresSobre autoestima e relacionamentos, na Revista Trendr

Não se engane pela roupagem leve que uma comédia romântica musical pode oferecer, dando a impressão que seus temas são menores ou menos sérios. Crazy Ex-Girlfriend é desafiadora, difícil de assistir, e nos faz olhar para dentro e ao redor, enxergando as disfuncionalidades em nossos relacionamentos e como isso é tratado como “normal”. Suas histórias e personagens são difíceis porque o roteiro nos aproxima demais de suas humanidades de um jeito que gera desconforto, mas também – o que é mais importante – compaixão. E, como já repeti exaustivamente, os fantasmas que os assombram assustam pois são nossos fantasmas (Dreeeaaam Ghosts!), mas a mensagem que fica é que se ainda não conseguimos nos amar completamente, que pelo menos tenhamos compaixão com nós mesmas, com as outras, e não aceitemos ser chamadas de loucas por ninguém. A vida tem muito mais nuances do que isso. 

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4 Comentários

  • Responda
    Uma mulher que escreve. - FashionbudzFashionbudz
    2 de abril de 2017 at 13:22

    […] eu encontrei esse texto da musa Anna Vitória Rocha sobre Crazy Ex-Girlfriend, seriado que já coloquei em minha lista, e vi ali um trechinho que me abraçou […]

  • Responda
    Caroline
    2 de abril de 2017 at 20:38

    Que texto maravilhoso!
    Comecei a assistir a série agora, e isso confirmou tudo que eu ainda tava construindo na minha cabeça: Estava com dificuldades de acompanhar fervorosamente e amar a série de primeira (mesmo amando várias coisas) porque ela escancara tanta coisa que a gente não quer enxergar.

    • Responda
      Anna Vitoria
      2 de abril de 2017 at 21:11

      Sim, eu sentia o mesmo desconforto! Mas, pelo menos pra mim, até agora a série tratou muito bem todos esses pontos de incômodo, mostrando que é mesmo a intenção dela provocar isso. Pode continuar e confiar 🙂

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    Isa
    4 de abril de 2017 at 17:15

    eu já li/amei tantas vezes que nem sei <3

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