COLABORAÇÃO LITERATURA

Consciência negra e representatividade: As Lendas de Dandara

Eu não costumo admitir em voz alta, mas sempre tremo um pouquinho quando tenho nas mãos um livro com protagonistas negros. Eu poderia fingir que esse tremor é só emoção de leitora empolgada, mas o livro balançando desse jeito é só um lembrete de que, como mulher negra, ainda não me vejo representada com frequência.

Não me vejo naquela única personagem negra com fala num filme, novela ou seriado. Não me vejo na personagem negra que encarna apenas a “amiga conselheira” ou a “amiga engraçada” (sem personalidade aprofundada ou trajetória desenvolvida) nesses livros que aparentemente se importam com representatividade. Por essas e outras, os livros quase dançam nas minhas mãos quando encontro histórias protagonizadas por mulheres negras, como as produzidas pela Alice Walker e pela Chimamanda Ngozi Adichie.

Sei que muita gente estranha quando digo que o Dia da Consciência Negra é um dos mais importantes do ano para mim. Este é um dia simbólico, quase uma brecha no tempo, porque tenho a esperança de que por um momento alguém vai ouvir o que repito todos os dias: “nossa sociedade é racista sim”, “racismo e machismo se embolam num nó”, “a solidão da mulher negra é tão real que você quase pode tocar”, “representatividade importa”, e por aí vai.

O Dia da Consciência Negra foi criado em 2003 e fixado em 20 de novembro, data da morte de Zumbi, um dos líderes do quilombo de Palmares. Estima-se que na década de 1670 esse quilombo tenha reunido cerca de vinte mil pessoas. Em 1694, Palmares sofreu um ataque brutal dos homens comandados pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, contratado pelo governador da capitania de Pernambuco para reprimir o quilombo. Se ainda há dúvidas sobre o sangue derramado em nossa história, respire fundo: em carta ao rei de Portugal, o governador Caetano de Melo e Castro informou que “foram tantos os feridos que o sangue que iam derramando serviu de guia às tropas que os seguiram”. Zumbi conseguiu fugir e se manteve escondido até o ano seguinte, quando foi localizado e morto com crueldade.

Se Zumbi ainda é tratado como um parágrafo apressado na História do Brasil, o que dizer dos outros nomes envolvidos na resistência contra os senhores de escravos? Um desses nomes é o de Dandara. Não há registros que nos permitam conhecer sua trajetória com exatidão, mas acredita-se que tenha exercido um papel de liderança em Palmares e se suicidado quando o quilombo foi atacado. No entanto, ela é frequentemente lembrada como companheira de Zumbi, com quem teria tido três filhos. Em meio a tantas incertezas sobre essa figura, Dandara é quase uma lenda. Assim sendo, a escritora e cordelista Jarid Arraes percebeu que “se Dandara é uma lenda, alguém precisa escrever suas lendas”, segundo ela mesma registra na introdução do livro As Lendas de Dandara, lançado em 2015 com arte de Aline Valek.

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O livro reúne dez contos e ilustrações que desenvolvem a trajetória de Dandara com elementos de fantasia. Ela não seria apenas uma líder em Palmares ou companheira de Zumbi! Seria filha de Iansã, orixá das tempestades e dos ventos. Diante da tristeza dos orixás com a escravidão e sofrimento do povo africano, Iansã decide gerar uma filha, conferindo a ela a missão de libertar os escravos no Brasil. Como Dandara era apenas um bebê, Iansã encontra uma outra mãe para ela: Bayô, uma escrava em fuga para Palmares.

A Dandara da ficção destaca-se desde a infância por sua coragem e habilidade com a espada e movimentos de capoeira. Seus interesses não estavam de acordo com as funções tradicionalmente estabelecidas para as mulheres da comunidade. Em outras palavras, Dandara não estava interessada em cozinhar ou em recolher ervas. Por isso, a relação com sua mãe adotiva inicialmente é complicada. É a maturidade que reveste a relação de mãe e filha com novas nuances, entre elas a cumplicidade e a admiração mútua.

Já adulta, Dandara enfrenta uma série de desafios. Para provar que era competente o suficiente para ser levada a sério enquanto liderança, Dandara tenta façanhas inacreditáveis, como atacar sozinha um navio negreiro para libertar os que seriam vendidos como escravos. A ação executada por Dandara é fantástica e assume um caráter simbólico: uma mulher que almeja uma posição de destaque em sua carreira às vezes sente que precisa fazer algo três vezes melhor do que um homem. Ou simplesmente fazer o que parece impossível.

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A relação com Zumbi é uma das surpresas do livro. Jarid Arraes constrói um Zumbi vulnerável e preocupado com o desgaste que a divisão da liderança provocava na relação com Dandara. Os dois divergiam com relação às estratégias: enquanto Zumbi aprovava ações mais cautelosas, as propostas de Dandara eram sensivelmente mais agressivas. A ligação amorosa com Zumbi é importante para Dandara, mas sua missão de libertar os escravos das fazendas vizinhas era prioridade em sua vida.

Contando com a proteção, a força e os poderes concedidos por Iansã, Dandara surge como uma guerreira habilidosa e uma estrategista impetuosa. Jarid Arraes a transforma numa heroína da causa negra e antiescravista. Não se trata, porém, de uma heroína perfeita. Seus planos nem sempre saem como ela espera. A culpa é uma companhia constante e Dandara precisa aprender a lidar com ela. Se há algo de sobrenatural em Dandara, também há algo de muito humano.

Então uma mulher negra também pode ser heroína? Dandara mostra que podemos sim e que podemos muito mais. Quando falamos de consciência negra, falamos do entendimento sobre nossa história e cultura e sobre os desafios enfrentados pelo povo negro nos dias de hoje. Em síntese, falamos de luta. Nesse sentido, acredito que a representatividade seja importante para a tomada de consciência de quem somos e de quem podemos ser. Que possamos nos ver em personagens bem construídas e em narrativas originais e complexas. Que possamos nos ver em lugares que não sejam apenas o outro lado do espelho e os rostos de nossos pais.

Vanessa Bittencourt é Mestra em História.
Escreve sobre livros, feminismo e história na newsletter Fragmento.

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